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28 outubro 2009

O brilhantismo da simplicidade

Marcelo Miranda, um dos melhores críticos de cinema de sua geração, publicou um artigo bem interessante sobre a recusa em se conferir valor a filmes simples e destituídos de firulas de linguagem. Vou transcrevê-lo uma parte e a outra deve ser lida no próprio blog do Polvo.
"Numa aula recente sobre crítica de cinema, fui interpelado por um aluno após a exibição de O Inventor da Mocidade (1952), de Howard Hawks. Ele queria que eu explicasse o porquê daquele cineasta ser tão reverenciado e considerado genial e brilhante (a base da aula era também o ensaio de Jacques Rivette sobre Hawks). Na visão do aluno, o filme ao qual ele assistira era “muito simples: atores num cenário conversando e câmera filmando”. Ele não achara o filme ruim. Apenas não conseguia entender (ou mesmo aceitar) que um negócio tão “comum” e “fácil” pudesse ser chamado de genial e brilhante.

A discussão me fez pensar. É fato que exista uma geração de cinéfilos e espectadores eventuais viciados num certo tipo de cinema maneirista e cheio de firulas visuais e narrativas (cito de imediato Darren Aronofsky pré-
O Lutador, David Fincher pré-Zodíaco, as espertezas de Charlie Kaufman e as estripulias de Danny Boyle) ou de efeitos visuais dos mais sofisticados e delirantes (Transformers 2 é a bola da vez) – basta ver quais filmes enchem mais as salas de exibição. Ser simples e direto parece algo fora de moda sob esse viés. Mas quando a percepção de que tal vício também pode estar contaminando o universo de quem estuda cinema (além: de quem estuda para ser cineasta), algo tão ou mais preocupante começa a brotar.

Porque é de salas de aulas que tem saído boa parte dos realizadores brasileiros nos últimos anos – ao menos desde que as escolas de cinema se tornaram, de fato, um nicho à formação de profissionais capacitados. O aluno aqui citado, inclusive, tem pretensões de ser diretor, algo muito legítimo e salutar. Porém, é visível que essa mesma geração talvez esteja deixando de lado um certo senso crítico e buscado se inspirar em elementos facilitadores do que seja fazer um filme. O fetiche pelo plano-sequência, a vontade de uma câmera presente a todo custo (closes, panorâmicas, tremeliques, ou seu inverso: o equipamento no tripé a filmar qualquer objeto, parado ou em movimento) e a obsessão em parecer um diretor de cinema são indícios facilmente perceptíveis em determinados trabalhos recentes de curta-metragem (e mesmo de alguns longas) e que mostram o quanto a simplicidade, por vezes, tornou-se um pecado.

Um filme jamais vai ser bom por ser apenas simples, e nem um filme simples é, por consequência, bom. Um elemento não legitima o outro. Mas, se a simplicidade não garante um filme brilhante, é absolutamente possível – e, em certas ocasiões e níveis, louvável – que um filme simples consiga ser brilhante. Que o digam Hawks, Otto Preminger, Nicholas Ray, Don Siegel, John Ford. São todos cineastas que, em determinadas fases de suas carreiras, realizaram obras de feitura quase artesanal, de narrativa marcada pela limpidez e coesão e de profunda crença na soma entre a encenação (mise en scène) e a história que move essa encenação."
Na imagem (que deve ser clicada para se vê-la aumentada), o grande diretor Howard Hawks dirige Angie Dickinson em um momento de Onde começa o inferno (Rio Bravo, 1959), um western magnífico.

27 outubro 2009

Oficina adia seu início para 4 de novembro

A nova Oficina Elementos de Apreciação Cinematográfica, por circunstâncias alheias à vontade de seu organizador (o autor deste blog), tem seu início adiado para 4 de novembro. Com isso, o seu término fica marcado para 16 de dezembro, mas, para não entrar nas festas de fim de ano, a última aula, a oitava, fica para o dia seguinte, 17. Excetuando-se esta, todas as aulas devem ser realizadas às quartas, das 20 às 22 horas, na EngenhArt, molduraria que fica localizada na rua da Paciência, perto do Largo de Santana, bairro do Rio Vermelho. Para a efetivação das inscrições, os interessados devem fazer um depósito de 250,00 (duzentos e cinquenta reais) na conta 648.427-1, agência 3457-6, Banco do Brasil, em nome de ANDRÉ OLIVIERI SETARO.

25 outubro 2009

"Imitação da vida", de Douglas Sirk, já está em DVD


Douglas Sirk (1900/1987) foi um diretor alemão que trabalhou como realizador cinematográfico em diversos países (França, Holanda) mas que veio a se revelar em Hollywood nos anos 50 com uma série de extraordinários melodramas, que retratam, com primorosa mise-en-scène, a sociedade americana. Rainer Werner Fassbinder, o rebelde diretor de Querelle, um dia declarou: "Os filmes de Douglas Sirk me causam estesia".

Reabilitou o melodrama com uma classe extraordinária. Há, inclusive, entre os bem pensantes, um certo preconceito em relação ao melodrama, como se fosse um gênero menor. Ledo e ivo engano. O melodrama, quando bem executado, estilizado, pode se revelar um objeto de arte, de fascinação, de estesia mesmo. Muita gente confunde melodrama com dramalhão (este, sim, um sub-melodrama, sempre apelativo e sensacionalista. E o que é Luzes da ribalta (Limelight, 1953), de Charles Chaplin, do que um belíssimo melodrama? O que é Marnie, confissões de uma ladra (1964), de Alfred Hitchcock, do que um senhor melodrama? E Assim estava escrito (The bad and the beautiful, 1953), de Vincente Minnelli, entre tantos outros? Particularmente, adoro melodramas quando realizados com classe centrado na tônica do estudo exaustivo das relações passionais.

Mas o que queria dizer nesta mensagem é que Imitação da vida (Imitation of life, 1959), último filme de Douglas Sirk, que largou o cinema quase 30 anos antes de sua morte e se retirou do cenário artístico, indo morar na sua Europa de origem, saiu recentemente em DVD. Filme difícil de ver (passou no Telecine Cult), aclamadíssimo pela crítica, é uma obra indispensável.

Entre os grandes filmes de Sirk, destaco, além de Imitation of life, que é o meu preferido, e sem ordem de importância: Desejo atroz (All I desire, 1953), com Barbara Stanwick, Tudo que o céu permite (All that heaven allows, 1956), com Rock Hudson como o jardineiro pelo qual Jane Wyman, mulher de classe alta, apaixona-se, Chamas que não se apagam (There's always tomorrow, 1956), também com Barbara Stanwick, Palavras ao vento (Written on the wind, 1956), com Rock Hudson, Dorothy Malone, Robert Stack, Lauren Bacall, Almas maculadas (The tornished angels, 1958), também com Rock Hudson e Dorothy Malone, Amar e morrer (A time for love and a time for dead, 1958), com John Gavin.

Em Imitation of life, duas mães, uma atriz famosa ( (Lana Turner) e sua empregada doméstica negra (Juliana Moore), com o crescimento de suas filhas (uma delas branca, apesar da mãe negra), começam a ter problemas com elas. Em questão, o racismo na sociedade americana da época. A sequência final é digna de um mestre de cinema. E a interpretação de Juliana Moore é magistral.

22 outubro 2009

Do ponto de vista na estrutura do filme


O ponto de vista adotado pela narrativa fílmica é sempre – e simultaneamente – objetivo e subjetivo, nunca redutível a uma única perspectiva por causa da dupla e concomitante ação realista e irrealista do cinema. O que não exclui, em todo caso, a hipótese de a narrativa abraçar uma ótica em detrimento de outra em relação ao desenvolvimento global da narração. Um filme, portanto, nunca pode narrar um acontecimento inteiramente visto de dentro – a coisa que o romance pode fazer, mas tem a necessidade de recorrer a um ângulo de observação que permita unificar a matéria representada a fim de não gerar confusões de perspectiva. No filme-ensaio (vide Meu tio da América/Mon oncle d’Amerique, 1979), do imenso Alain Resnais, que esteve em cartaz recentemente com Medos privados em lugares públicos (Coeurs), esta ótica se identifica com a do autor que seleciona e ajuíza. No filme de ficção, esta ótica segue o olhar de um dos protagonistas, procurando, no entanto, não se confundir completamente com ele.

A perspectiva da câmera é diferente da do olho humano e, como demonstram inúmeros filmes, a lente pode ocupar o olhar de um gato (Um dia, um gato, filme tcheco no qual, em alguns momentos, tem-se a perspectiva do olhar do gato que vê as pessoas de uma localidade segundo o seu caráter, dando-lhes as cores correspondentes). O objeto focalizado também pode ser totalmente deformado – e, nesse particular, o expressionismo alemão é farto de exemplos – O Gabinete do Dr. Caligari, 1919, de Robert Wiene, Nosferatu, o vampiro, 1922, de Friedrich Murnau, etc. Em Cidadão Kane, 1941, de Orson Welles, filme com forte influência expressionista, o cineasta usa tetos baixos para dar uma dimensão insólita aos personagens e, na sequência do palácio de Xanadu, Susan Alexander, a mulher de Kane, é vista em pequena silhueta diante de uma gigantesca lareira. Dentro da mesma obra, um jogo tipo quebra-cabeça – um puzzle que, no final das contas, é a própria chave para a compreensão da obra – tem suas peças em dimensão enorme. Welles, nestes casos, deforma os objetos com a lente com um propósito estético contextual.

Henri Angel, ensaísta francês, acha que o ponto de vista de um filme deve ser sempre o que é adotado pelo cineasta, quer este decida ver o mundo através dos olhos de um dos protagonistas, quer decida manter-se o mais possível exterior à ação narrada. Um caso de identificação autor-personagem é representado por O deserto vermelho (Il deserto rosso, 1964), de Antonioni, onde a realidade é vista pela câmera não como efetivamente é mas como se apresenta aos olhos do protagonista.

Outro caso de identificação autor-personagem está representado em Repulsa ao sexo (Repulsion, 65), de Roman Polansky, onde os pesadelos da protagonista (Catherine Deneuve), apresentados como objetivos, não são mais que o fruto da personagem psicopata, uma manicure sexualmente reprimida que se isola em seu apartamento e vai enlouquecendo.
No polo oposto situam-se, pela sua objetividade extrema, filmes como Nashville, de Altman, uma crônica de cinco dias da vida de uma cidade no Tennessee, Nashville, na hora do show business e de uma campanha eleitoral que serve como um testemunho à beira do desespero sobre os Estados Unidos contemporâneos. Também Lancelot, de Robert Bresson, e Nicht Versohnt, 65, de Jean-Marie Straub, obras centradas numa radical objetividade e construídas de modo a esvaziar qualquer identificação personagem-espectador e, também, redutíveis ao ponto de vista exclusivo do realizador onisciente.

Existem também filmes nos quais os pontos de vista são contraditórios ou contrastantes entre si. Rashomon, 1950, de Akira Kurosawa, filme que projetou o cinema japonês no mercado internacional, é um exemplo bem marcante. A fábula se passa no século XV numa floresta perto de Tóquio, quando um bandido afirma que matou um samurai depois de violentar a mulher dele. A mulher, porém, diz que foi ela quem matou seu próprio marido. Surge, então, a alma do morto que conta a todos, estupefatos, como se suicidou. Mas um açougueiro que a tudo ouvia, dá uma quarta versão. Em Rashomon, portanto, são fornecidos três pontos de vista diferentes do mesmo fato, todos igualmente espectáveis, até emergir deles um quarto que é o verdadeiro.

Há o caso de a ação ser contada por um morto que relata do além a sua história trágica – não existem nem realizador oculto nem personagem visível. É o que acontece em Crepúsculo dos deuses (Sunset Boulevard, 1950), de Billy Wilder, no qual o encenador protagonista conta da sua situação de defunto, o como e porque de sua morte devida à atriz famosa da qual tinha sido hóspede. A ex-estrela é Glória Swanson que, vivendo esquecida num suntuoso palácio antiquado de Hollywood, acompanhada de seu fiel criado (Erich von Stroheim), contrata um roteirista fracassado que se torna seu amante e que ela mata quando ele se recusa a continuar a relação.

21 outubro 2009

Os "bastardos" de Tarantino fazem a festa do cinéfilo

Bastardos inglórios (Inglorious basterds, 2009), de Quentin Tarantino, coloca-se, ainda no mês de outubro, a faltar dois meses e meio para a tradicional lista dos 10 melhores do ano, no primeiro lugar: é, sem sombra de dúvida, o melhor filme apresentado no ano em curso, tal a sua mise-en-scène inteligente, tal a criatividade verificada a cada plano, a cada tomada. Filme sobre cinema, é cinema na mais alta extensão do vocábulo e um prazer do cinema, uma festa para cinéfilos, uma surpreendente demonstração de força cinematográfica em tempos de vacas magras, de crise no processo de criação. Tarantino reprocessa o seu imenso repertório cinematográfico (adquirido numa locadora quando era o seu gerente e passava os dias e as noites a ver filmes) com um pulso de cineasta, um sentido de espetáculo que surpreende a cada sequência. Recomendaria que os amantes do bom cinema fossem vê-lo ainda quando se encontra nas salas exibidoras para que possam sentir todo o seu impacto. Inglorious basterds não proporcionará a mesma sensação assim que estiver posto no disquinho (DVD). Escrevi terça passada, na minha coluna do Terra Magazine, um comentário sobre Bastardos inglórios e a carreira de seu autor:

Tivemos, neste 2009 que se encontra quase no ocaso, ótimos filmes que foram lançados no circuito exibidor, ainda que a maioria seja constituída de obras desmerecedoras e que se constituem em absoluta perda de tempo para o cinéfilo. Mas não se pode negar que Inimigos públicos, de Michael Mann, é um filme a respeitar. Assim como Amantes (Two lovers), de James Grat, Grand Torino e A troca, ambos de Clint Eastwood, Entre os muros da escola (Entre les murs), de Laurent Cantet, Beijo na boca, não (Pas sur le bouche, 2003), de Alain Resnais, Aquele querido mês de agosto, entre outros. Há filmes, portanto, para encher uma lista dos 10 melhores - o que não se revelou tão fácil em anos anteriores.

Faço parte da Liga dos Blogues Cinematográficos: http://ligadosblogues.wordpress.com/

20 outubro 2009

Morre a bela Rossana Schiaffino

Morreu Rossana Schiaffino, mas, por incrível que pareça, nem o maior banco de dados sobre cinema no mundo, o Imdb (The Internet Movie Database) registrou o passamento da bela. Desaparece aos 70 anos, quase 71, que iria completar a 25 de novembro (nasceu em 1938). Era o tipo de mulher que fazia sucesso nos anos 50: cheia, corpulenta, no estilo de Sophia Loren, Gina Lollobrigida. Já Brigitte Bardot, a musa deste blogueiro, era mais magrinha, mais esguia. Mas tinha uma certa fascinação por Rossana Schiaffino, principalmente depois que a vi, esplendorosa, em A longa noite de loucuras (La notte brava, 1959), de Mauro Bolognini (diretor importante que está completamente esquecido). Mais adiante, em 1962, lá estava ela, num filme do príncipe Vincente Minnelli, A cidade dos desiludidos (Two weeks in another town) ao lado de Kirk Douglas. Em La notte brava, Schiaffino contracenava com outra deslumbrante mulher: Elsa Martinelli (que veio a trabalhar no cinema americano e se encontra inesquecível em Hatari!, de Howard Hawks. Com a ascenção e a ditadura das mulheres ossudas, Rossana Schiaffino saiu dos padrões da imposição de beleza ditada pelos estilistas. Mas sua saída de cena foi pelo tempo, pelo passar dos anos.

La notte brava, além das esfuziantes Schiaffino e Martinelli, também conta com Antonella Lualdi (outra formosa mulher), Mylène Demongeot (quem, de sã consciência, foi capaz de esquecê-la? - lembro-me dela no Rio de Janeiro a filmar Copacabana Palace). Baseado numa novela de Pier Paolo Pasolini, que também roteirizou o filme, La notte brava é um filme que precisa ser revisto e reavaliado.

Não pretendo fazer a filmografia desta deusa. Bastam estes dois filmes para consagrá-la. O blog está de luto fechado.

P.S: Nos anos 50, 60, havia tantos gênios no cinema italiano (Visconti, Fellini, Antonioni, Rossellini...) que alguns diretores brilhantes passaram para o segundo time, a exemplo de Mauro Bolognini (1922/2001) - e o que dizer de um Francesco Rosi, de um Dino Risi, de um Alberto Lattuada, de um Mario Monicelli, de um Pietro Germi (Divorzio all'italiana e Sedotta e abbandonata são obras-primas), de um Florestano Vancini, de um Damiano Damiani, entre tantos outros, e de um Valerio Zurlini, cujo exegeta maior no Brasil, Carlos Reichenbach, considera um dos maiores cineastas do cinema?). Mauro Bolognini, formado em arquitetura, como Antonioni, era um realizador bastante refinado. Tem filmes que não se podem esquecer assim tão facilmente. O belo Antonio (1959), à guisa de ilustração, causou frisson na época em que foi lançado, aqui no Brasil dois ou três anos depois de sua realização, como era de acontecer com os filmes. Il bell'Antonio gira em torno de Marcello Mastroianni, um personagem atormentado, que se casa com Claudia Cardinale, mas, na hora do vamos ver, brocha magnificamente. Vergonha para uma família conservadora e machista de uma cidade italiana. O pai, desesperado, para mostrar que era homem, vai a um prostíbulo e tem um enfarte em cima de uma mulher. Mas Marcello, no final, revela ter engravidado a empregada, Santina, e o plano final é de seu rosto, um plano demorado, que revela nele uma angústia desesperada. Há muito que não vejo este filme, mas várias de suas cenas ficaram na minha memória. Há outros momentos bologninianos a deter: Um dia de enlouquecer (La giornata balorba, 1960, com Jean Sorel e Lea Massari), Desejo que atormenta (Senilità, 1960, com Jean-Paul Belmondo e Claudia Cardinale), Caminho amargo (La viaccia, 1961, com Cardinale e Anthony Franciosa), um dos episódios de As bonecas (Le bamboli, 1965), Monsignor Cupido, Arabella (1967), com Virna Lisi, Aquele novembro maravilhoso (Un belissimo novembre, 1969), Metello (1970), A grande burguesia (Fatti di gente perbene, 1974, com Catherine Deneuve e Giancarlo Giannini), entre outros.

18 outubro 2009

...E o cinema é Richard Quine

Richard Quine, o realizador de Quando Paris alucina, é um grande comediógrafo do cinema americano, príncipe da elegância narrativa, desmistificador das convenções hollywoodianas, cineasta metalinguístico avant la lettre, que começa a se revelar em meados do decurso da década de 50, quando aparece Jejum de amor (My sister Eileen), um filme musical que conta a trajetória de duas irmãs a tentar a sorte na selva de pedra nova-iorquina. Uma é bonita (Janet Leight) e a outra, feia (Betty Garret). Conseguindo uma fluência extraordinária para um realizador meio neófito no gênero, e, ainda por cima, com o excelente Jack Lemmon no elenco, figura atípica como integrante de musicais, Quine marca a sua presença como narrador de rara habilidade e agilidade. A irmã feia quer ser escritora, e a bela conquista marinheiros brasileiros. A coreografia de Bob Fosse é um ponto alto de Jejum de amor. Em 1956, O cadillac de ouro (The solid gold cadillac) tem a presença esfuziante de Judy Holliday como uma pequena acionista que atrapalha um plano de diretoria desonesta. Filmado em preto-e-branco, conta, porém, com a seqüência final a cores. Trata-se de uma comédia baseada numa peça de George Kauffman e H. Teichman, cuja teatralidade é bastante diluída pela competência de Quine – cineasta com particular habilidade no sentido do espetáculo. Ao lado de Holliday, Paul Douglas. Com a mesma Judy Holliday, neste mesmo ano, com o sucesso de O cadilac de ouro, Quine filma Um Casal em apuros (Full of life), outra comédia, com Richard Conte, na qual um sogro italiano vem morar e atrapalhar a vida de um casal que espera o primeiro filho. Jack Lemmon volta a trabalhar com Quine (como viria a trabalhar inúmeras vezes) em O baile maluco (Operation mad ball, 57), filme menor na carreira de Quine, mas não desprovido de atributos. Lemmon, que considera este um de seus melhores papéis cômicos, arma, aqui, uma verdadeira operação militar para poder, em época de guerra, namorar uma enfermeira. O elenco é muito bom: Mickey Roooney, Kathy Grant, Ernie Kovacs. Lemmon novamente, e em Sortilégio de amor (Bell, book and cadle, 1958), mas a atenção maior fica com James Stewart e Kim Novak, atriz preferida de Quine e sobre a qual constrói o mito, fazendo, aqui, nesta comédia baseada em John Van Drutten, uma feiticeira em plena Nova Iorque do Século XX, que usa todos os seus poderes para conquistar um editor. Quem pode resistir aos encantos de uma feiticeira vivida por Kim Novak? Como coadjuvantes, Janice Rule e, novamente, Ernie Kovacs.

Quine é um esquecido. Um cineasta importante, talvez não tanto como Frank Tashlin, mas de uma extraordinário mise-en-scène não mais encontradiça na demência cinematográfica contemporânea. Kovacks, mais Lemmon, acrescida de Doris Day, fazem parte de A viuvinha indomável (It happened to Jane, 59), outra comédia, como de hábito, com os atores preferidos, seguindo o estilo de Frank Capra ao contar a história de uma viúva que processa dono de ferrovia que deixa estragar seu carregamento de lagosta. A obstinação da “viuvinha”, da cidadã consciente de seus direitos, faz com que consiga alcançar seu objetivo.
Uma obra-prima, em 1960: O nono mandamento (Strangers when we meet), filme de envergadura, reflexão sobre o casamento e a paixão, com uma mise-en-scène capaz de provocar a mais pura estesia em cinéfilos admiradores de um Minnelli e de um Quine. É a expressão mais alta de um estilo cinematográfico, de uma maneira de fazer cinema, com uma fluência narrativa que dá à estrutura dramática um toque de musicalidade explícita. Nesta obra absorvente, Kirk Douglas é um arquiteto casado com Bárbara Rush que se apaixona, num ponto de ônibus escolar, por Kim Novak. O aspecto melodramático é diluído pela intensidade dramática da mise-en-scène.

O mundo de Suzie Wong (The world of Susie Wong, 60), que faz bastante sucesso comercial, mostra o relacionamento entre um americano tranqüilo (William Holden) e uma asiática (Nancy Kwan). É um interregno, uma pausa, para Quine se preparar para uma comédia de humor negro insuperável – e que, infelizmente, não é citada como merece: Aconteceu num apartamento, com, novamente, Kim Novak e Jack Lemmon. Quine fez mais, e filmes inteligentes, bem articulados como Quando Paris alucina e Como matar a sua esposa.

Aconteceu em um apartamento, cujo título em português vem em decorrência do sucesso de Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960), de Billy Wilder, pois seu original é The notorius Landlady, prova de que a alusão ao filme de Wilder acontece somente na distribuição brasileira, é comédia notável. Mas não podia esquecer de outra, de rara inspiração, bom gosto, humor, elegância narrativa (característica de Quine), que é Médica, bonita e solteira (Sex and the single girl, 1964), com Tony Curtis, Natalie Wood, Henry Fonda (será que uma preciosidade assim tem em DVD?). Há um filme de Quine que tem um título quilométrico: Coitadinho de papai, mamãe pendurou você no armário e eu estou tão triste (Oh dad, foor dad, mama's hung you in the closet anda I'm feeling so sad, 1967). O seu último filme foi O prisioneiro de Zenda (The prisioner of Zenda, 1979). A mediocridade, imensa, que já se instalava no cinema, afasta Richard Quine, que morre amargurado, a pensar na sua linda Kim Novak, que o tinha abandonado há muito tempo. Perdeu a mulher e o cinema. Mas culpa dos tempos pavorosos que então se instalam.

A imagem é o cartaz de O nono mandamento.

15 outubro 2009

Versão digital está a deturpar os filmes


Marcelo Miranda, um dos melhores críticos de sua geração, envia-me uma denúncia que considero gravíssima e que está publicada no Blog do Polvo. As versões digitais estão a deformar e deturpar os formatos originais dos filmes. Um crime. Uma intromissão indevida na integridade da obra cinematográfica. Aproveito, por falar em Marcelo Miranda, para recomendar, aqui, um ensaio de sua autoria sobre o cineasta Johnnie To publicada na excelente revista eletrônica Contracampo em sua última edição.

O
Fórum da Crítica, entidade virtual que reúne dezenas de profissionais da reflexão cinematográfica de todo o Brasil (e na qual diversos polvos estão incluídos), divulgou uma carta aberta em protesto à péssima qualidade das recentes projeções digitais no circuito de cinema brasileiro. Abaixo, segue reprodução integral do texto e, logo adiante, um link para quem quiser contribuir com o abaixo-assinado virtual, a ser encaminhado aos responsáveis. Vejam nas duas imagens da Santa Ceia o que acontece com a projeção digital. A primeira é a deturpada.

CARTA ABERTA AOS RESPONSÁVEIS PELA PROJEÇÃO DIGITAL NO BRASIL
A projeção digital chegou ao Brasil com a missão de democratizar o acesso aos filmes e libertar os distribuidores da dependência de cópias em 35 milímetros, cuja confecção e transporte são notoriamente caros. A instalação de projetores digitais permitiria ao público assistir a títulos que dificilmente seriam lançados nas condições tradicionais e ainda ofereceria condições para que espectadores situados longe do eixo Rio-São Paulo (onde se concentram quase 50% das salas de cinema do país) tivessem acesso aos mesmos títulos simultaneamente.
O que estamos vendo, no entanto, é uma total falta de respeito ao espectador no que se refere à exibição do filme propriamente dita. As razões são basicamente duas: projeções incapazes de reproduzir fielmente os padrões de cor e textura da obra e/ou projeções incapazes de exibir os filmes no formato em que foram originalmente concebidos. Sem falar no som, que muitas vezes ganha uma reprodução abafada, limitada ao canal central, muito diferente de seu desenho original.

A adoção da projeção digital pelos dois maiores festivais internacionais do Brasil (o Festival do Rio e a Mostra de São Paulo) e por outros festivais do país, infelizmente, não respeitou o que seriam critérios mínimos de qualidade de projeção de filmes em cinema – algo que é observado com atenção em qualquer festival internacional que se preze. Trata-se de uma situação particularmente alarmante tendo em vista o papel de formadores de plateia que esses eventos desempenham.

Não nos cabe, aqui, pregar a “volta ao 35mm” nem defender determinada resolução mínima para a projeção digital. Sabemos que, se respeitados determinados critérios técnicos – ou seja, se a empresa responsável pela projeção digital receber do distribuidor o master no formato adequado, se o processo de encodamento for feito corretamente e se os ajustes necessários para a exibição de cada filme forem realizados cuidadosamente –, a projeção digital pode ser uma experiência perfeitamente satisfatória para o espectador.

Não é isso, porém, que tem ocorrido. Exibidores, distribuidores e os fornecedores do serviço da projeção digital são responsáveis pela má qualidade da projeção e coniventes com esse lamentável descaso geral, que tem deixado críticos e amantes de cinema indignados. É um desrespeito ao cinema e aos seus criadores, mas, sobretudo, ao espectador e consumidor final, que saiu de casa e pagou ingresso para ver um filme.

A situação chegou a um ponto intolerável. Pedimos a todos os profissionais envolvidos com a projeção digital que tomem providências para que tais deformações não se repitam. Quem quiser participar do abaixo-assinado por melhores condições da exibição digital, basta clicar aqui para participar da petição on line.

14 outubro 2009

"Doido Lelé" ganha prêmio no Festival do Paraná


Recebo da jornalista e cineasta Ceci Alves, talvez a melhor repórter de jornalismo cultural da Bahia, a seguinte notícia, que é alvissareira:

Após ter ganhado o prêmio de Melhor Edição no
5º Festival Latino Americano de Curta-metragem de Canoa Quebrada, em setembro deste ano, o curta-metragem Doido Lelé, escrito e dirigido pela jornalista e cineasta baiana Ceci Alves, acaba de ganhar o prêmio de Melhor Ator para o ator mirim Vinícius Nascimento (Ó Paí Ó; Capitães de Areia) no 4º Festival do Paraná de Cinema Brasileiro Latino. Único curta-metragem baiano a participar do festival, o filme conta a história de Caetano, um garoto que deseja ser cantor de rádio na década de 50 e foge todas as noites de casa para tentar, sem sucesso, a sorte num programa de calouros. Além da categoria em que foi premiado, Doido Lelé ainda recebeu mais sete indicações: Melhor Filme, Direção, Roteiro, Direção de Arte e Fotografia, Montagem e Melhor Atriz.No mesmo festival, Doido Lelé foi elogiado pela atriz Fernanda Montenegro e pelo diretor de documentários Silvio Tendler, grande vencedor do 4º Festival do Paraná de Cinema Brasileiro Latino, com o longa-metragem Utopia e Bárbarie.

A foto mostra o premiado ator mirim Vinícius Nascimento.

Concurso "Walter da Silveira" tem noite de premiação

Conferência no dia 15 de outubro anuncia os premiados do edital de crítica

Com a presença dos críticos Paulos Santos Lima e João Carlos Sampaio, além do professor e teórico de cinema Luiz Nazario, componentes da comissão de avaliação do Concurso, a Diretoria de Audiovisual (DIMAS), da Fundação Cultural da Bahia, anuncia os premiados do edital 2009. A cerimônia, que acontece amanhã, dia 15 de outubro, às 19h, na Sala Walter da Silveira, também prevê uma conferência com o tema "A crítica como militância". Para fechar a noite, logo após a premiação, será exibido o curta-metragem "Rito de Amor e Morte", do japonês Yukio Mishima.

Serviço
Conferência de premiação do II Concurso Estadual de Crítica Cinematográfica "Walter da Silveira"
Dia 15 de outubro, às 19h
Sala Walter da Silveira (Rua General Labatut, n 27 - subsolo da Biblioteca Pública dos Barris)
Entrada franca

Foto> Walter da Silveira conversa com o cineasta Nelson Pereira dos Santos.

13 outubro 2009

"Clube da Crítica" exibe hoje "O Crítico"

Dentro da programação do 6 Festival Internacional Sala de Arte, acontece o Clube da Crítica, iniciativa pioneira dos organizadores do evento que se propõe a exibir filmes e debatê-los com críticos especializados. O programa de hoje apresenta o documentário inédito de Kleber Mendonça Filho (foto) O Crítico, uma abordagem documentária sobre a crítica cinematográfica e seus críticos. O realizador entrevistou vários exegetas fílmicos internacionais e nacionais. Ainda não tive oportunidade de vê-lo, mas o farei logo mais. O Clube da Crítica está programado às terças, durante o festival, às 20 horas e 30 minutos, no simpático Cinema do Museu (Corredor da Vitória). Os dois primeiros comentadores deste post, segundo prometeu a relações públicas do festival, ganharão um convite grátis. Basta que se identifiquem com seus nomes próprios e procurem, antes da sessão, a promoter Fernanda Bezerra para receber seus merecidos convites.

Kleber Mendonça Filho é pioneiro da crítica cinematográfica na internet com seu valioso site Cinemascópio. Após anos de atividade crítica, quando decidiu registrar as imagens em movimento, conseguiu, de imediato, reconhecimento pelo seu sentido particular de cinema, a exemplo do excelente Domésticas, entre outros. Kleber estará presente hoje, no Cinema do Museu, para debater O Crítico com os espectadores

Para maiores informações sobre a programação completa: http://www.saladearte.art.br/festival/?_page_id=6

12 outubro 2009

Tuna e Cajaíba, "o fazendeiro do ar"

Tuna Espinheira, cineasta baiano, realizador de Cascalho, seu primeiro longa, e mais de duas dezenas de curtas, acaba de voltar de Vitória da Conquista, cidade interiorana da Bahia que realiza todos os anos, nesta época, um exitoso festival de cinema. Tuna não perde tempo e está sempre antenado com as últimas da cinematografia. Ele me informou que O cisne também morre, filme de 1982 que assinala sua primeira incursão no terreno ficcional, foi encontrado. Digo isso, porque, modéstia à parte, tive a honra de ser um dos atores do filme. Vou transcrever, aqui, a mensagem que recebi do realizador.
"Velho, (sim estou velho, pois a fazer, hoje, 59 primaveras - nota de AS)
"Estive na V Mostra Conquita, aproveitei para visitar o museu ao ar livre, concebido, trabalhado, pelo artista plástico, CAJAIBA. Nesta foto estou à beira do túmulo do próprio Cajaiba. Ele conseguiu ser enterrado no cenário em que sempre expos as suas esculturas. Outrora foi um ponto de grande afluxo de visitantes, turistas,artistas, gente das mais variadas espécies. Hoje sobrevive a duras penas, à mercê do abandono do poder público, resistindo graças a dois dos seus filhos, abnegados, cuidando, como podem, daquelas peças, um mostruario de vultos históricos, em tamanho natural, esculpidos em cimento e ferro.
Estou recuperando o filme que fiz, décadas atrás, quando ainda vivia o escultor. Com a parceria dos fotografos, Carlos Rizério (hoje morando em Conquista) e Claude Santos e mais um grupo da comunidade conquistense, planejamos, em tempo, o mais breve possivel, fazer uma exibição, no próprio local, do filme, Cajaiba... Lição de Coisas... O Fazendeiro do AR. A idéia é chamar a atenção sobre o sítio artístico ao Deus dará, com o objetivor de recuperar os estragos imposto pelo tempo e abandono. Caso o referido filme possa vir a ajudar neste sentido, teremos uma cinematografica chance de brindar este acontecimento."
CAJAÍBA, LIÇÃO DAS COISAS...O FAZENDEIRO DO AR foi fotografadopor Antonio Luis Mendes Soares. Roteiro, Montagem, Direção, Tuna Espinheira. Narração de Fernando Coni Campos. Ano de produção: 1976. P&B. 13m.
Forte abraço, Tuna

11 outubro 2009

O Cinema, A Comida, O Comer

Realização do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Alimentação e Cultura (NEPAC), com o patrocínio da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal da Bahia em parceria com a Sala de Arte e a locadora Casa de Cinema, a já exitosa mostra O Cinema, A Comida, O Comer tem nova edição neste ano com três filmes já programados: Delicatessen (já para o próximo dia 27 de outubro, com palestra do cineasta José Umberto), Estômago (17 de novembro, com palestra deste blogueiro), e Ratatouille (15 de dezembro). Todos os filmes serão exibidos na Sala de Arte da Ufba (que fica no Vale do Canela).

A coordenadora do evento é a dinâmica Professor Lígia Amparo, estudiosa do assunto e com um livro já publicado sobre o tema. Lotada na Escola de Nutrição, a Professora Lígia vai muito além nas suas pesquisas, principalmente na procura intertextual do relacionamento entre o comer e as manifestações artísticas, principalmente o cinema, que focalizam o processo nutricional como morte, vida, prazer etc, a depender de cada autor e de cada filme.

Delicatessen, dos franceses Marc Caro e Jean-Pierre Jeunet, realizado em 1991, é uma obra insólita, consagrada quando de seu lançamento em escala mundial. Em um futuro apocalíptico, homem chega a um estranho prédio, localizado em cima de um açougue, para procurar abrigo e emprego. Após instalar-se no local, se apaixona pela filha do dono do estabelecimento, mas sua presença começa a incomodar a família da moça - que, na verdade, possui outros e estranhos planos para ele. Primeiro sucesso de Jean-Pierre Jeunet, que anos mais tarde conquistaria o mundo com O Fabuloso Destino de Amélie Poulain.

Estômago (2007), de Marcos Jorge, com interpretação inexcedível de João Miguel, ator baiano, é uma fábula bem humorada sobre a comida, o poder e o sexo. Um dos filmes brasileiros mais interessantes da última safra. Já Ratatouille (2007), desenho animado crítico e inteligente de Brad Bird, aborda a comida como beaux arts e a crítica num ensaio de animação original e surpreendente.

Clique na imagem para vê-la ampliada.

09 outubro 2009

"Positivamente Millie", com Julie Andrews

Desaparecida a fase do filmusical clássico, cujo último exemplar se dá com Gigi (1958), de Vincente Minnelli, os anos 60 se notabilizam pelas superproduções musicais, a exemplo de My fair Lady (1964), de George Cukor, A noviça rebelde (The sound of music, 1965), de Robert Wise e, deste mesmo, Amor sublime amor (West side story, 1961), A moedinha da sorte, de George Sidney, Funny Girl (1968), de William Wyler, entre outros. Poucos, nesta década, os musicais simples e despretensiosos como os da fase do grande Arthur Freed na Metro. Minnelli, o grande renovador do gênero, retira-se para a incursão em melodramas admiráveis e comédias românticas, a atender, apenas, a um pedido: o de dirigir, já no ocaso da década, Um dia claro de verão, com Barbra Streisand, Jack Nicholson, Yves Montand, apenas satisfatório. A Fox, a não perceber que os tempos mudam, insiste em filmar Hellô Dolly! num momento em que a juventude explode em Woodstock e o filme se torna, em termos de bilheteria, anacrônico para a época, mas não para os apreciadores dos grandes espetáculos do gênero. A Fox vai à falência com o resultado pífio da bilheteria.

Positiviamente Millie (Thoroughty Modern Millie, 1967), de George Roy Hill, pelo encanto, pelo frescor, situa-se quase como um oásis no cinema dos esfuziantes anos 60. Preterida por Jack Warner em My fair lady no papel de Elisa, feito por Audrey Hepburn, apesar de ter comparecido neste, nos palcos da Broadway, durante quase dez anos, dia após dia, Julie Andrews é convidada por Walt Disney para fazer Mary Poppins, belo espetáculo dirigido por Robert Louis Stevenson e, surpreendentemente, tira o Oscar de melhor atriz das mãos de Hepburn. Daí para a frente, uma carreira plena de sucessos, principalmente depois que faz a simpática aspirante ao claustro de um convento que se apaixona por um barão em A noviça rebelde, um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos.

Positivamente Millie tem sua ação localizada nos loucos anos 20, precisamente em 1923, e em Nova York. Julie é uma moça do interior que chega à cidade disposta a fisgar um marido rico. Escolhe seu patrão Trevor (John Gavin), mas este prefere sua amiga Dorothy (Mary Tyler Moore), que é raptada por uma quadrilha de escravas brancas. Mas tudo se ajusta muito bem no final com algumas surpresas. Com este argumento, Roy Hill faz um filme divertido e inteligente, recheado de belas canções e pontuado de alusões ao cinema mudo já que a sua ação se passa em pleno apogeu da estética da arte muda. Quando Millie está a pensar, por exemplo, aparecem letreiros na tela, como naquela época, e ela olha para a câmera a solicitar a cumplicidade ou a perplexidade do espectador. Há, também, uma conjugação de gêneros: o musical com o filme de mistério. Há momentos de antologia: o início, por exemplo, quando um travelling no corredor de um hotel mostra uma cesta grande sendo conduzida por alguém, que abre uma porta e, com um frasco e um algodão faz desmaiar uma das hóspedes, que é depositada na cesta. Logo a seguir, a câmera sai de um anúncio de jornal para focalizar Julie Andrews a chegar à Nova York, quando se dá a apresentação dos créditos. Excelente também a gag do elevador antigo, que só se locomove através do sapateado. E um momento de magia com a performance de Carol Channing, quando canta em sua mansão a fazer de seu corpo um instrumento de jazz.

Positivamente Millie é o quinto filme de George Roy Hill (diretor hoje completamente esquecido), nome conhecido nos palcos da Broadway dos anos 50 (como ator e diretor) e, desde 1956, na TV americana (como diretor) e autor de telepeças televisivas. Sua carreira no cinema começa com Contramarcha nupcial (Period of adjustment, 1961), versão da peça de Tenessee Williams, com Jane Fonda, prosseguindo com Na voragem das paixões (Toys in the Attic, 1962), O mundo de Henry Orient (The word of Henry Orient, 1964) e Hawaii (1966). Em 1970, obtém enorme sucesso com Butch Cassidy, com Paul Newman e Robert Redfordm ciom os quais pretende continuar o êxito em Golpe de mestre (The sting, 1973). Realiza notável versão do livro de Kurt Vonnegut Jr em Matadouro 5 (Slaughterhouse 5, 1971), Vale tudo, Quando ás águias se encontram, O mundo segundo Garp, entre outros. Era um dos diretores preferidos de Paul Newman.

O grande crítico carioca Salvyano Cavalcanti de Paiva, quando o filme foi lançado no Brasil, em 1968, escreveu o seguinte: "Eis-nos em pleno domínio da evocação, aliás da dupla evocação: um filme de ritmo ágil que transmite completa vibração à platéia. Antigo no que reconstitui como exemplar digno dos musicais da Era de Ouro; antigo também no que apresenta como reedição feliz da década de 20, do primeiro pós-guerra, a Idade do Jazz, de F. Scott Fitzgerald, gim de banheira, mangas cavas e mini-saias, cabelos à taradinha, sapatos de saltos quadrados, colares enormes, primeiros cigarros femininos, fordecos velozes, etc. E moderno, bem moderno, no processo narrativo, pois Throughty Modern Millie é um filme musical estupendo de graça, de sentimento, de arte. Flui o enredo, as canções, os bailados originalíssimos - são as melindrosas e os almofadinhas que retornam, é o musical típico de novo entre nós. (...) A partitura de Elmer Bernstein, os arranjos de André Previn, a coreografia repleta de inventiva de Joe Layton, tudo se combina harmoniosamente para captar o estilo da Era de Jazz. Um filme delicioso, encantador, jubiloso."
Vejam os dez minutos iniciais de Positivamente Millie em meu outro blog: http://setaroandreolivieri.blogspot.com/ (Momentos da arte do filme)

07 outubro 2009

"Capitalism: A Love Story", de Michael Moore

Tenho a honra de publicar aqui, diretamente de Chicago, um artigo escrito especialmente para este blog pelo Professor Jorge Vital de Brito Moreira, que viu e gostou muito de Capitalism: A Love Story, o novo filme de Michael Moore ainda inédito no Brasil. Baiano, itaparicano por natureza e vocação, o Professor Vital é, agora, mestre em universidades dos Estados Unidos, mas nunca se esquece de seu tempos baianos, quando participou de uma série de atividades artísticas nesta soterópolis. Homem de mil instrumentos, escritor, professor, sociólogo, é, também, músico. Mas vamos ao artigo:
Capitalism: A Love Story (Capitalismo: uma história de amor) é o último documentário (2009) escrito e dirigido pelo realizador Michael Moore. O filme foi estreado recentemente na 66a Edição do Festival de Veneza em 6 de setembro de 2009 no circuito da competição oficial pelo Leão de Ouro e lançado nacionalmente em USA e Canadá no último dia 02 de Outubro.

O documentário se concentra na maior
crise financeira global de 2007–2009, na transição do governo de George W. Bush para o de Barack Obama e no alucinante resgate financeiro (em trilhões de dólares) de ambos presidentes para “salvar” as corporações (Goldman Sachs, Citicorp, Merrill Lynch, Bank of America) e as companhias de seguros imobiliários (AIG, Fannie Mae, Freddie Mac): as principais responsáveis pela crise econômica atual.

Para isso, Michael Moore, faz um inteligente trabalho onde mostra o processo histórico que transformou a democracia no estilo Franklin Roosevelt ( com a melhor distribuição da riqueza entre os norte-americanos) na plutocracia antidemocrática do capitalismo imperial autofágico da atualidade (com a trágica destruição da classe media e trabalhadora de USA).

O filme começa com seqüências que mostram a verdadeiros ladrões de bancos –filmados por câmaras de segurança em meio de um assalto armado– agarrando o dinheiro roubado enquanto a musica “Louie, Louie” e os créditos cinematográficos funcionam como contraponto à introdução do espectador no universo do crime organizado.

Estas cenas estabelecem uma abertura para a equivalência material e moral entre este roubo inicial e os sistemáticos assaltos e crimes que os titãs do capital financeiro e seus protetores políticos cometem contra o povo estadunidense e por extensão contra todos os povos das nações periféricas (Brasil incluído) que vivem sob o modelo capitalista norte-americano.

A continuação, o documentário apresenta uma inteligente montagem combinando sequencias de um filme antigo com cenas da televisão de USA na atualidade: de um lado se mostra as causas da decadência do império romano, do outro os sintomas da decadência do império americano; num caso, a superexplotação do trabalho escravo, do outro, do trabalho assalariado; de um lado, as corridas de carros, as lutas de gladiadores romanos, do outro, as lutas dos brutamontes e as corridas dos carros norte americanos.

Em poucas palavras, nessas cenas vemos como o moderno Império Americano utiliza as mesmas técnicas de entretenimento do antigo Império Romano, o denominado “panes et circenses” (pão e circo), para manipular ideologicamente, escondendo dos povos (romano e norte-americano) a verdade brutal da dominação, da exploração e da alienação social.

Adiante, o filme revela (apoiado numa rigorosa documentação visual e escrita de fatos e dados relevantes) a aliança e a agenda escondida (hidden agenda) entre os poderosos grupos financeiros, as corporações multinacionais, os congressistas e os presidentes de USA, eleitos com os milhões de dólares de contribuição dessas mesmas corporações. Como era de se esperar deste processo de corrupção, os presidentes eleitos retribuem a “generosidade” das corporações financeiras, escolhendo para ocupar os cargos de Secretários do Tesouro e de Presidentes (Chairman) da Reserva Federal, os nomes indicados por essas mesmas corporações.

Nesse processo, podemos observar como um grupo de CEOs são transformados em proprietários da política econômico-financeira da administração dos Presidentes de USA. Assim, o filme mostra os noticiários de TV onde o espectador pode observar o desfile de caras e de nomes dos mais importantes “coordenadores” entre a Presidência (desde a de Ronald Reagan até chegar à de Barak Obama) e os interesses da plutocracia norte-americana: Alan Greenspan, Donald Regan, Robert Rubin, Lawrence Summers, Henry Paulson, Timothy Geithner e Ben Bernanke são nomes onipresentes em Wall Street, no governo e na media americana.
Mas o melhor ainda está por ser visto. Michael Moore faz um conjunto de entrevistas com diversos setores da população local (membros da igreja católica, do senado americano, da bolsa de valores, das agencias imobiliárias, da classe trabalhadora e da classe media) revelando, pouco a pouco, o infame resultado do processo de acumulação, concentração e centralização do capital em USA.

O resultado é a eliminação sistemática do trabalho produtivo e dos trabalhadores ligados ao setor: uma das cenas mais impactantes é a que mostra o inicio da destruição da industria automobilística (a demolição das instalações da General Motors em Flint, Michigan) acompanhada ironicamente pela música “O Fortuna” de Carmina Burana de Carl Orff. O resultado é extremamente perturbador para o espectador.

A partir desse ponto, Michael nos mostra o que está acontecendo também do lado dos perdedores, dos arruinados por este abominável processo: o desemprego, a falta de seguro médico, a falta de ingresso para pagar as contas, o aluguel ou a hipoteca atrasada. Neste ponto, os moradores que não podem pagar suas hipotecas devolvem as suas casas, apartamentos, condomínios às corporações hipotecárias (as mesmas que foram responsáveis por suas ruínas) que as revendem no mercado de bens e raízes, colocando, por um lado, dezenas de milhares de famílias subvivendo em barracas de lona; pelo outro, uma classe de especuladores/predadores denominados “Urubus de condomínio” (Condo Vultures) que supervivem da desgraça e da carcaça alheia...

Apesar do meu impulso para seguir descrevendo as cenas trágicas e abomináveis do filme (um exemplo, os seguros de vida dos trabalhadores mortos, “Dead Peasants”, não vão parar na mãos dos seus familiares, mas ao contrario, vão parar nos bolsos dos patrões, ou seja, das multinacionais como City Bank, Bank of America, Wal-mart, etc.), prefiro não continuar na descrição, pois não quero arruinar as muitas surpresas que o documentário tem para oferecer. Ele contem também um grande conjunto de momentos cômicos, mordazes e comoventes (vi pessoas emocionadas chorando, rindo e até aplaudindo o filme na platéia) articulado a uma irônica história de amor representada pelo título, pois esta é a pergunta (Que preço pagam os estadunidenses por seu amor sado-masoquista ao capitalismo?) que o documentário trata de responder e responde, denunciando e acusando valente e brilhantemente o sistema.
Como em seus filmes anteriores (Roger and me; Bowling for Columbine; Fahrenheit 9/11; SICKO) Michael Moore responde misturando a dor e a tragédia das vítimas com a comedia hilariante, incluindo fragmentos de filmes antigos, de noticiários de TV, de jornais, de documentos oficiais (reportes) do Governo e das Corporações de USA.

O documentário também mostra muitas cenas que comprovam algumas vitórias reais dos oprimidos: como quando os trabalhadores em Chicago ocupam sua fábrica para obter o pagamento que os patrões (via Bank of America) lhes devem; ou como quando um grupos de inquilinos pobres de Florida resistem coletivamente a evacuação de uma família negra da sua casa pela policia local; ou ainda, como quando um grupo de fabricas criadas pelo sistema de cooperativas de trabalhadores produzem indivíduos felizes, pois são, simultaneamente, trabalhadores e proprietários das mesmas fabricas e por isso não existe a hierarquia “normal” construída pela dominação e a opressão acostumada pela produção do lucro sobre todas as coisas.

Nessas partes, o filme sugere explicitamente que somente o amor solidário, a organização, a participação, a resistência, e a luta coletiva dos trabalhadores contra o sistema capitalista atual, serão condição suficiente para gerar um novo sujeito histórico e um novo movimento social capacitado para superar a desgraçada relação patológica a que nos subordinamos todos os dias sob o infame modo de produzir e reproduzir a sociedade atual.
Por aqui paro. Só me resta recomendar aos leitores da sua coluna, aos cidadões da Bahia e do Brasil que façam o que for possível para ir a um cinema local para assistir, gozar e aprender de um dos melhores documentários que vi em USA.
Jorge Vital de Brito Moreira