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27 abril 2012

Linduarte Noronha e Tuna Espinheira


O cineasta baiano Tuna Espinheira conversa com Linduarte Noronha, o celebrado documentarista paraibano autor de Aruanda (1959), filme célebre no processo de constituição do Cinema Novo. Noronha morreu há poucos meses. O avexado realizador de Cascalho na época da foto estava fazendo O curso do documentário brasileiro, filme que restou inacabado. Conversando com Tuna, ele me disse: "Trata-se de um documentário de 50 minutos, realizado por um edital da saudosa Embrafilme. Depois que o editei jamais vi o filme pronto. Sei que existem cópias na CTAV. Como diz o título, é uma descritiva da historia do nosso documentário, a partir de Aruanda. Na época fui a Paraiba conversar com o Linduarte, o qual me recebeu muito bem. É só o que posso lhe dizer.

               O curta ARUANDA, MARCOU (PARA SEMPRE) não só a saga do documentário, como de um tipo de fotografia (Rucker Vieira foi o fotografo), que serviu de inspiração para outros clássicos (Deus e o Diabo... Vidas Secas, estes no gênero ficção). Mas, ARUANDA mudou a cara do cinema brasileiro. Viva Linduarte Noronha! Viva Rucker Vieira! " 


Escrita pelas mãos de Tuna Espinheira, eis a sua sinopse biográfica:
Infância em Poções (BA), adolescência em Jequié (BA). Vivencias especiais: Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo (viagens diversas).

O cinema foi, é, a opção preferencial. Sou um cineasta bissexto. Documentarista por paixão. Acho que este gênero não tem fronteiras.  Cabe tudo, o finito e o infinito. Sebastião Salgado, com um único fotograma, consegue emocionar, documentar, contar estórias, perscrutar e analisar o real e o irreal! O que não é possível ao documentário!? Com dezenas, centenas, milhares de fotogramas, com suas asas de albatroz, botas de sete léguas, conseguir o possível/impossível e passear nos Campos do Senhor e dar o seu recado?

Faço filmes como uma espécie de exorcismo, principalmente quando se trata de ficção. O roteiro é uma peça diabólica, se não for filmado, vira uma tentação, uma assombração, alma penada. Noites e dias, nada afasta esta condição agônica. Exorcizar o script (filmando de qualquer maneira), ou penar no ossuário geral das utopias.        
                                         

25 abril 2012

Caderno de Cinema

Guido Araújo: ponto final para as Jornadas baianas?
Uma página no espaço virtual especialmente dedicada ao cinema baiano, Caderno de Cinema, editada por Jorge Alfredo (Samba Riachão), chegou em boa hora para se ter uma ideia do que vai pela cinematografia soteropolitana. Um artigo de Guido Araújo anuncia o fim das Jornadas, dando um ponto final ao já consagrado evento realizado todo mês de setembro. José Umberto radiografa a sensibilidade do ato mágico de filmar como produção de sentidos e emulações diversas. Oscar Santana dá o seu depoimento sobre a aventura do cinema na Bahia. Jorge Alfredo fala sobre o avexado Tuna Espinheira numa entrevista feita por e-mail  e o resultado é um relato da carreira do cineasta de Cascalho, que abre e fecha as suas proezas cinematográficas nos anos 70. Edgard Navarro discorre sobre o Projeto Grana Away (o que é isso? somente a leitura do escrito pode decifrar melhor). Araripe reflete o cinema como a arte da impossibilitade de fazê-lo.O excelente intérprete Bertrand Duarte (agora internacional depois de Dawson - Ilha 10, de Miguel Littin, conta como começou a sua paixão pelo cinema: "Ir ao cinema sempre foi para mim um deleite que tem componentes de um ritual". Pola é entrevistado por Alfredo. E mais. Muito mais. Eu é que fiquei devendo um artigo para o caderno. Fica para o próximo número.

Além de fartas matérias, Caderno de Cinema é bastante ilustrado com fotos históricas do passado recente do cinema baiano. No editoral, Jorge Alfredo apresenta a sua página: "Sempre tive o desejo de editar uma publicação que trouxesse à tona o sentimento de quem faz e produz Cinema. Os realizadores, roteiristas, produtores, diretores, atores e atrizes, músicos, coreógrafos, os artistas da arte e da fotografia, montagem e maquinaria, iluminação e carpintaria, esse povo do cinema que me convenceu que era isso que eu queria fazer na vida. São esses meus amigos cineastas os responsáveis por esse conteúdo maravilhoso. Pessoas muito especiais com quem tenho o privilégio da companhia. Valeu a pena reuni-las, arregimentá-las para essa tarefa e ter a oportunidade de publicar “textos importantes e inéditos que estavam fazendo falta àqueles que se interessam pela cinematografia feita com tanto sacrifício nestas plagas.” como bem disse André Setaro quando lhe mostrei o conteúdo dessa primeira edição.

Hoje, 17 de abril de 2012, vai pro ar a nossa 1ª edição. Estamos numa fase experimental, ainda em busca de banners que tornem esse projeto sustentável. Criamos também um espaço para as produtoras divulgarem seus filmes, e em breve sairá a versão impressa do Caderno de Cinema. Fausto Junior está outra vez junto comigo; duas cabeça e quatro mãos a surfar… em 2006, fizemos a Novíssima Onda Baiana e agora novamente juntos no Caderno."
Corram para este endereço:  http://cadernodecinema.com.br/blog/

22 abril 2012

"Spartacus", de Stanley Kubrick


Considero Spartacus (1960), de Stanley Kubrick, o melhor épico da história do cinema, ainda que o diretor não tenha tido a oportunidade de concebê-lo na sua integridade, pois, tratando-se de uma produção da companhia de Kirk Douglas, a Byrna (nome em homenagem à sua mãe), o autor de A Laranja Mecânica somente foi convidado após a desistência de Anthony Mann, que entrou em conflito com o poderoso producer.
Douglas, que já tinha trabalhado com Kubrick em Glória feita de sangue (Paths of glory, 1958), e admirado muito o seu trabalho; com a saída de Mann Kirk Douglas convidou Kubrick para assumir a direção, apesar dos protestos de alguns acionistas de sua empresa produtora, que o consideravam um imberbe para uma empreitada caríssima como Spartacus. O fato é que o filme, monumental, possui características kubrickianas na maneira de encenar, na composição do enquadramento (a câmera no chão com os gladiadores de corpo inteiro, por exemplo, em angulações ousadas), no sentido peculiar do ritmo, do timing, e da concepção de montagem (Laurence Olivier, como Crassus, enquanto fala para sua tropa, tem, intercalando-a,  Spartacus a falar para seus comandados em montagem alternada extremamente funcional).
O melhor de tudo, porém, é a seqüência da batalha final, que somente poderia ter sido dirigida mesmo por um mestre como Kubrick, pois se assemelha, pelo impacto, pela força expressiva, à seqüência da batalha do gelo de Alexandre Nevsky (1938), de Serguei Eisenstein. Se, nesta, a partitura é de Prokofiev, a deSpartacus é de Alex North, músico especializado em grandes temas para cinema e que tem neste filme um de seus momentos de glória.
Filme de produtor, Spartacus, ainda que comandado administrativamente por Kirk Douglas, este confiou na capacidade daquele rapaz e lhe deu carta branca para a concepção das grandes seqüências. Este imenso espetáculo, singular na história do cinema, saiu (há alguns anos) em edição especial cheio de extras em DVD, e pode ser considerada a superprodução hollywoodiana que melhor se conservou com o passar do tempo e, vista hoje, é como se o filme tivesse sido feito agora.
A sensação que se tinha, quando do seu lançamento em 1961, era de um filme avançado para a sua época em termos da sua concepção de mise-en-scène, deixando em segundo plano Ben-Hur e Os dez mandamentos, embora estes possam, também, serem considerados espetáculos primorosos dentro das fronteiras de seu gênero. Spartacus, no entanto, ganha de todos eles por sua magnificência, sentido de cinema pulsante, elenco inexcedível. E Laurence Olivier, como Crassus, tem, aqui, uma de suas performances mais eloqüentes.
Baseado em livro de Howard Fast, com roteiro do grande roteirista Dalton Trumbo (que entrou para a lista negra de MacCarthy), Spartacus, sobre ser um épico empolgante, é um filme que mostra a relação escravocrata e a necessidade de um grito de liberdade.
Em Roma, um escravo trácio (Kirk Douglas/Spartacus) é comprado por um comerciante romano, Batiatus Lentulus (Peter Ustinov, que ganhou o Oscar por este desempenho) para a sua escola de gladiadores. Nesta vem a conhecer uma bonita escrava inglesa, Varinia (Jean Simmons) pela qual se apaixona. Quando o treinamento de Spartacus se encontra quase concluído, um general de Roma, Crassus (Laurence Olivier) faz uma visita à escola e exige, para satisfazer os desejos sadicos de sua comitiva, que dois escravos/gladiadores lutem até à morte. O escolhido é Spartacus, que se vê obrigado a enfrentar o guerreiro etíope Draba (Woody Strode, um dos atores preferidos de John Ford, negro alto e forte). Draba é vitorioso, mas se recusa a matar o companheiro. Tem início então uma rebelião e a fuga quando Spartacus começa a comandar um verdadeiro exército de escravos para lutar contra Roma.
A versão original, segundo dados do Imdb (The Internet Movie Database), o maior banco de dados sobre cinema do mundo, incluía uma cena em que Crassus tenta seduzir Antoninus (Tony Curtis). O Código Hayes, porém, então vigente e draconiano, não autorizou e a cena foi cortada da versão exibida nos cinemas quando de seu lançamento. Com a restauração milionária realizada em 1991 (fotograma por fotograma) a cena foi acrescentada. Mas, durante o trabalho de restauro, a equipe encontrou alguns problemas. A faixa sonora estava perdida (música e diálogos). Os atores, assim como foi feito em Lawrence da Arábia, de David Lean, os que ainda estavam vivos, se prestaram a dublar seus personagens. Mas a voz de Laurence Olivier, particularíssima, com ele já morto, deve que ser dublado por Anthony Hopkins, que procurou imitar, na medida do possível, a voz do maior ator de teatro do século XX.
Vi Spartacus, pela primeira vez, no velho cine Tupy (Salvador/Bahia) antes da reforma de 1968. No já distante ano de 1961, quando, com 11 anos, quase que não conseguia entrar, pois, na época, o filme era proibido para menores de 14 anos. Assim, talvez meu entusiasmo pelo filme tenha vindo pelo impacto que provocou no adolescente que estava se formando como cinéfilo impertinente. Mas continuei, pela vida inteira, a ver Spartacus, indo assisti-lo onde estivesse passando. A última vez que foi exibido em cinema, creio, se a memória não falha, foi nos anos 70, no Tupy, em cópia esplendorosa na bitola de 70mm. Depois passou para a fita magnética, em horrendo full screen, e, agora, vem restaurado em edição que respeita a integridade de seu enquadramento, isto é, preservando o cinemascope original.
O elenco é excepcional, um cast de primeiríssima: além de Douglas, Simmons, Olivieri, Ustinov, Strode, estão presentes: Tony Curtis, Charles Laughton (em fim de carreira e que tem aqui uma interpretação soberba como um senador romano), John Gavin, Nina Foch, John Ireland, Herbert Lom, John Dall (um dos estudantes assassinos de Festim Diabólico/Rope, 1948, do mestre Hitch), Harold J. Stone, Charles MacGraw, entre outros. A iluminação é de um artista da luz: Russell Metty.
O fascínio que permanece em Spartacus se deve muito à contribuição de Stanley Kubrick como metteur-en-scène e, também, pela confiança que Kirk Douglas depositou nele. Produtor de visão, este dispensou a Kubrick a necessária liberdade para conceber o espetáculo, embora com algumas discussões e atritos por causa do temperamento do realizador de Lolita.
Spartacus é um filme permanente que, se for ser sincero, o colocaria entre os 10 melhores filmes que já vi. Há, nestas listas de melhores, as listas afetivas e as protocolares, que procuram aferir a importância dos filmes no processo histórico da sétima arte. Posso dizer que após os 11 anos de idade, quando o vi pela primeira vez, naquele Tupy com o teto cheio de teias de aranhas negras, Spartacus permaneceu comigo, fazendo parte, portanto, de minha história de cinéfilo.
Spartacus foi lançado no Brasil há quase meio século no dia 17 de novembro de 1960 (mas para a Bahia veio somente no ano seguinte).