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09 janeiro 2008

Preparador de elenco. O que é isso?



Creio de uma inutilidade hercúlea a existência de um preparador de elenco para a direção de atores nos filmes brasileiros (ou estrangeiros) como atualmente virou um modismo. Estou até com um certo desconfiômetro quando vou ver um filme que tem seu elenco preparado por fulano ou sicrano. Segundo leio e ouço falar, na preparação do elenco há uma verdadeira sessão de psicanálise e os atores sofrem o pão que o diabo amassou. Em alguns casos, chega-se à tortura chinesa. Um bom diretor tem que saber dirigir seus atores. É o contato diretor-ator que estabelece as nuances interpretativas, salvo se o cineasta é um incompetente. Aliás, no cinema brasileiro, são poucos os realizadores que possuem familiaridade com a dramaturgia e, por isso, contratam um preparador, que faz lembrar aqueles preparadores de lutas radicais. Aqui vai o meu protesto contra esta preparação de elenco. Mas qualquer realizador tem a sua liberdade. Se despreparado, que tenha, como muleta, o tal preparador. Mas tudo, na minha opinião, não passa de grande falácia.

08 janeiro 2008

Condução para site precioso de Hitchcock

O ano entrante me pegou fora da Bahia, numa viagem sentimental à procura de um certo tempo perdido que não vem ao caso fazer referência no post, pois a ninguém interessa, mas somente a seu autor. O fato é que, na volta deste giro quase existencial, que é, de qualquer maneira uma viagem, deparo-me com um site espetacular, um grande presente para todos aqueles que gostam do cinema de Alfred Hitchcock. E quem, de sã consciência, pode não gostar deste gênio da sétima arte, um inventor de fórmulas, um fabulador excepcional, artista de gênio, construtor da linguagem cinematográfica? O que seria do cinema se não existisse Alfred Hitchcock?
Sei não, mas, com certeza, o cinema seria muito mais pobre. A contribuição de Hitchcock para a evolução da linguagem cinematográfica são favas contadas. E há, nos seus filmes, um homos hitchcockinianus, o que conduz à percepção de que o mestre é um autor de filmes. Os franceses tiveram uma grande capacidade perceptiva quando, à parte o exagero da Teoria do Autor, perceberam, em cineastas considerados meros artistas do entretenimento, autores na exata acepção da palavra, como Hitch e Howard Hawks (aliás, se fosse fazer uma lista com os meus filmes preferidos colocaria Hatari! (em O desprezo [Le mépris], de Godard, há um momento em que Bardot, a bela, parada numa rua, tem, por trás, um grande cartaz deste filme inesquecível) deste último, como um dos maiores). Não se pode negar, sob pena de visão deformada, que assim como nas obras de Hitch, nas de Hawks, e nas de outros que foram tidos como diretores de divertissements, um homos hawkinianus.
No site em questão, filme por filme, mais de 1.000 fotogramas de todos os seus filmes. O link é precioso e deve estar nos favoritos dos amantes da arte do filme. Antes de colocá-lo no ar, uma imprudência: leiam-me no Terra Magazine do qual sou colunista às terças:
E agora, com pompa e circunstância, o link do genial Hitch:
Barbara Leigh-Hunt, enforcada com a gravata, em Frenesi (Frenzy, 1972), do mestre.

01 janeiro 2008

Minnelli, aperitivo para começar o ano



Hoje, primeiro de janeiro, início gregoriano do ano de 2008. Para começar, meu DVD quebrou, não consegue ler mais nada. Mas já mandei pedir, via internet, outro aparelhinho, que deve chegar, a considerar os feriados, daqui a três dias. Mas nesta semana vi, pela tv por assinatura, A cidade dos desiludidos (Two weeks in another town, 1962), do grande Vincente Minnelli, com elenco magistral: Kirk Douglas, Edward G. Robinson, Cyd Charrise, a belíssima Rossana Schiaffino, Claire Trevor, George Hamilton, Daliah Lavi, entre outros notáveis. Filme sobre cinema, o seu fazer, os labirintos da indústria cinematográfica. Douglas faz um ator em decadência que aceita emprego de assistente num filme rodado na Itália Minnelli é um artista na expressão da palavra e se fica assombrado com a sua capacidade de se expressar, de pensar cinematograficamente, a sempre conferir a sua mise-en-scène uma espécie assim de toque de Midas.

Vi A cidade dos desiludidos há muito tempo na tela grande de um cinema soteropolitano e me ficou na memória. A visão desse filme me fez acreditar em 2008 por incrível que pareça, ainda que a visão ácida e amarga de Minnelli da indústria. Tem pontos de contatos fortes com Assim estava escrito (The bad and the beautiful, 1953) que é, também, uma obra assombrosamente envolvente. Trata do cinema e, no seu elenco, também se encontra Kirk Douglas ao lado da estrelíssima Lana Turner. Poderia até considerá-lo uma espécie de adendo a The bad and the beautiful. Há uma cena na qual Douglas, sentado numa sala de exibição, assiste a Assim estava escrito numa alusão explícita a esta obra que é, sob todos os aspectos, de uma dignidade artística acima da média. A primeira é em preto e branco, mas A cidade dos desiludidos, em cinemascope e metrocolor. Two weeks in another town é sobre o amor e o ódio no universo do cinema.

Fica-se ressaqueado após a contemplação de Two weeks in another town. A ressaca por causa da beleza que emana de sua mise-en-scène. E fica-se a pensar: que falta imensa faz Minnelli ao cinema contemporâneo, cuja magia é fabricada industrialmente, pelos efeitos especiais, pelos truques tecnológicos, enquanto a magia de Minnelli vem de seu artesanato, de sua maneira toda especial de construir um espetáculo cinematográfico. Quem, caso não sofra de dementia precox, pode ficar indiferente a Gigi, A roda da fortuna, O pirata, Agora seremos felizes, Deus sabe quanto amei, entre tantos outros. Destacaria um Minnelli que, para mim, é uma comédia especialíssima: Papai precisa casar (The Courtship of Eddie's Father,1963), com Glenn Ford, Shirley Jones, Stella Stevens, Dina Merrill, Ron Howard (sim, que viria a se tornar diretor, mas aqui ainda era um garoto), Jerry Van Dyke. Ford é um viúvo em Nova York cujo filho acha que precisa casar. E surgem três belas pretendentes: Stella, Dina, e Shirley. O problema é escolher uma delas.

Em 1968, quando o filmusical já não encantava multidões (basta dizer que, na época de Woodstrock, a Fox foi à falência por ter produzido Hellô Dolly, de Gene Kelly, com Barbra Streisand, que estava no auge depois de seu Oscar de melhor atriz por Funny Girl), Minnelli tinha um projeto muito acalentado: o de filmar Say it with music, com um elenco estelar: Sophia Loren, Brigitte Bardot, Julie Andrews, Ann-Margret e Fred Astaire, com roteiro de Betty Comden e Adolph Green (os mesmos de Cantando na chuva). A produção de Arthur Freed, talvez o maior produtor de musicais de todos os tempos. Coreografia de Bob Fosse. No entanto, como escreveu Ruy Castro no seu imprescindível Um filme é para sempre (Companhia das Letras): "Mas o ano era 1968, e, em Hollywood, Minnelli e Freed já valiam menos que qualquer jovem cineasta udigrudi com restos de macarrão nas barbas."

29 dezembro 2007

Feliz Ano Novo

2007, para mim, foi uma desgraça. Mas a vida continua. Claro que não vou relatar aqui meus problemas pessoais (domésticos, existenciais, e de saúde). Mas nem por isso, et pour cause, vou ficar a me lamentar, mas, au contraire, desejar a todos os que têm a coragem de ler estas mal traçadas um Ano Novo cheio de paz, tranquilidade, e, principalmente, bons e excelentes filmes. Talvez em 2008 venha a entrar para a famigerada Confraria dos Baixistas e, para isso, estou a equipar minha carroça, quero dizer, meu computador, que, a falar a verdade, não anda lá muito bem das pernas.
Salvador, onde me escondo da vida, não cresceu, mas ficou inchada. Não se pode mais transitar na urbis e tudo se concentra nos shoppings centers - e, nestes, tudo é igual em qualquer lugar do mundo. A Bahia, para mim, era o centro histórico, a Praça da Sé, a rua Chile, a rua Carlos Gomes, a Praça da Piedade, o Comércio, a Cidade Baixa. Morar no Jardim Apipema, onde moro, é morar em qualquer bairro de qualquer cidade brasileira. Assim como Itaigara e assemelhados. A chamada cultura baiana é uma cultura de aluguel, e se comparada a dos anos 50 e 60 patente está uma regressão cultural imensa. Um andar para trás. Não acredito, portanto, instalado o caos atual, que se possa, em 2008, andar para frente. Há, sim, neste Feliz Ano Novo do título do post um certo sabor amargo e irônico. Mas não se deve perder a esperança, não é mesmo?
O Carnaval, industrializado, excluiu o povo de sua folia. O espaço do asfalto, pelo menos, no point alto da folia momesca, se encontra reservado para a esbórnia dos camarotes de luxos e para os insuportáveis trios elétricos a conduzir uma fileira de blocos para os quais somente têm acesso quem compra um tal de abadá pelos olhos da cara. Conheço gente que compra seu abadá em prestações mensais, a pagar o ano todo, para poder sair nos famigerados blocos, e a venda começa, por incrível que pareça, logo na quarta de cinzas, quando os impertinentes ainda ficam a pular sem querer acreditar que o Carnaval acabou. Mas gostava do antigo Carnaval, quando se instalava no centro histórico, quando era mais harmonioso, mais romântico. Nostalgia? Talvez.
O pior é que, a morar perto do miolo da folia, estou condenado a presenciá-la. Sinto no ar a excitação das pessoas, animadas, barulhentes, deseducadas. E o Carnaval já se encontra às portas, pois no próximo ano vai começar no final de janeiro. Gostaria de estar em Marte.
A foto ao lado é do bloguista, antes de seu heart attack, quando reclamava de um bar a proibição de fumar.

A sensibilidade ganha a parada



Entre os filmes brasileiros, um dos que mais me sensibilizaram nos últimos tempos foi O ano em que meus pais saíram de férias, de Cao Hamburguer, mas, oh! dúvida cruel, penso que este filme foi lançado já no apagar das luzes de 2006. Em todo caso, elejo-o aqui como o maior de 2007, pois não o pude contemplar na época do lançamento e somente o vi pela primeira vez em DVD. Poderia, inclusive, colocar entre os melhores do ano, que, para mim, foram 4, e, com O ano em que meus pais saíram de férias seriam 5.
A revista eletrônica Contracampo oferece em janeiro uma relação bastante ampla dos filmes lançados para que se possa, a partir dela, escolher os dez melhores. Creio que a lista é sempre publicada em janeiro, mas de qualquer forma e de qualquer maneira, eis, aqui, o seu endereço eletrônico: http:www.contracampo.com.br
Em O ano em que maus pais saíram de férias, um garoto é, de repente, em 1970, com o auge da ditadura militar sob o chicote de Emílio Médici, anos de chumbo, e ano da grande Copa que deu ao Brasil o tricampeonato de futebol no México, levado para morar com seu avô (uma das últimas aparições de Paulo Autran) porque seus pais precisam sair de férias (na verdade foram presos pelos agentes da ditadura por causa de suas militâncias políticas). Filme de alta sensibilidade no colhimento da sensações desse garoto a enfrentar uma nova vida e uma nova situação.
Soledade, de João Moreira Salles, creio já ter falado aqui, é um ótimo documentário que, a pretexto de focalizar as idiossincrasias do antigo mordomo do pai do diretor, o banqueiro Walter Moreira Salles, realiza uma reflexão sobre o próprio ato de criar um documentário. E O baixio das bestas, vale pela visceralidade de Cláudio Assis e sua representação conceitual, a considerar que na sua descida ao inferno das criaturas desesperadas da Zona da Mata pernanbucana existe um rigoroso trabalho de câmera que se faz, por assim dizer, quase conceitual.
E Tropa de elite, de José Padilha, provocou um estardalhaço tão grande que veio a ofuscar os outros filmes brasileiros.

28 dezembro 2007

Dois mais dois é igual a cinco



Faltam poucos dias para 2007 ir embora. Tudo, no entanto, não passa de mera convenção. Geralmente, no fim de ano, as pessoas, como as empresas, se fecham para balanço. Os comentaristas cinematográficos publicam suas listas, revistam o ano que passou. Segundo observeu Romero Azevedo, em comentário neste blog, o critério, com o advento das novas tecnologias, deve ser mudado. Com a possibilidade de se baixar qualquer filme na internet, a haver, inclusive, para tal, uma famigerada Confraria dos baixistas, não existe mais o referencial antigo da escolha dos melhores que estava pautado na seleção dos filmes lançados nas capitais. A levar em conta ainda este sistema de referência é de ver que o universo fílmico fica muito limitado. Azevedo chega a propor que a referência seja a Mostra Internacional de São Paulo organizada há mais de trinta anos por Leon Cakoff. Nesta caso, os melhores estariam condenados a serem apreciados apenas por um elite. O fato é que o sistema de escolha dos melhores do ano deve ser pensado e encontrada uma solução que seja mais abrangente e menos elitista.
Enquanto isso fico por aqui, a contemplar este bonito quadro de Miró.

27 dezembro 2007

...E o vento levou em 2007

Roubei esta bela imagem em preto e branco de Ingmar Bergman, que a Implacável o levou em meados deste ano que ora se finda, do excelente blog Sela de Prata, de Marcos A. Felipe. Torço para que não seja processado.
Mas na internet o roubo de imagens é coisa institucionalizada, sem, entrar, com esta afirmação, em juízo de valor.
Outro grande que partiu foi Michelangelo Antonioni. Mas quem morre perto dos 90, assim creio, viveu bem e morreu bem. Feliz estarei se passar dos 70. Todo homem tem que morrer um dia. Paulo Autran, por exemplo, o nosso grande artista do proscênio, fumou tudo o que quis e, mesmo assim, terminou seus dias aos 85. Lembro-me que uma vez, no Roda Viva, convidado, aceitou com uma condição: fumar seu cigarinho durante a entrevista. Na semana anterior, tinha sido entrevistada Maria da Conceição Tavares, que ficou nervosa porque não podia fumar. E disse isso no ar. Mas Autran, e fez muito bem, impôs logo a sua condição de fumante. Não estou a fazer, aqui, apologia ao tabaco, mas detesto, abomino mesmo, a psicose antitabagista que se espalhou pelo mundo. Quem fuma deve ter a sua liberdade respeitada. E merda (no sentido chulo) para os politicamente corretos! E outra merde (mas esta no sentido francês de sucesso para os atores que entram no palco e, neste caso aqui, o palco de 2008).

Das agruras do cinema baiano




Digo já e logo que a foto ao lado é da Chapada Diamantina, em Lençóis, interior da Bahia, locação de Cascalho, de Tuna Espinheira, ao qual passo, aqui, a palavra, para falar das agruras pelas quais passa a fim de conseguir colocar o imprescinídvel Dolby Stereo para poder comercializar o seu filme. Bom de copo, desses que quando começam a beber uma cervejinha vão até o limite da irresponsabilidade, Espinheira é cineasta há mais de 30 anos e o conheço mais ou menos desta época. Autor de uma porção de curtas, muitos deles premiados, em Cascalho experimenta o longametragista a se apoiar no livro homônimo de Herberto Salles, que, antes de morrer, lhe deu, expressamente, via papel assinado, autorização para fazer a transfer dos signos verbais para os signos icônicos. No elenco, Othon Bastos, Wilson Mello, Gildásio Leite, Irving São Paulo, e o cenário, belíssimo, da Chapada Diamantina. O filme é de época e se desenrola na década de 30. Abrindo as necessárias aspas, passo a palavra ao velho Tuna:

"Durante todo o ano de 2007, desenvolvemos uma luta feroz, com lances de desabridos pedidos de SOS. Fizemos correr o chapéu. Tentamos, em vão, sensibilizar a representação regional da Petrobrás, editais municipais, outros descaminhos, etc. etc. À beira de recorrer às mensagens engarrafadas atiradas ao mar, eis que, conseguimos aprovação no Fundo de Cultura, FCBA, em licitação pública. O que veio a representar a indefectível taboa da salvação, mesmo tendo sido o orçamento guilhotinado em mais de um terço do seu valor original. Enxergaram gordura, onde havia apenas pele e osso. Era pegar ou largar, não polemizamos, não deixamos afetar o humor. Bola pra frente.


Estamos falando aqui da saga do filme, CASCALHO, no objetivo, indômito, voltado para conseguir a finalização sonora no sistema Dolby Digital – 5.1. Esta roupagem técnica é imprescindível para o acesso ao escurinho do cinema comercial. Mais de noventa por cento das salas exibidoras estão aparelhadas com o sistema citado, 5.1. Explica-se aí, a persistência, e a vergonha, deixada um pouco de lado, para não morrer na praia.


A arte cinematográfica jamais teve vocação para a clandestinidade, precisa do púbico, principalmente, quando possível, ter alguma empatia, com este precioso público, para o qual ele foi feito. Não podemos perder de vista a ajuda da imprensa local, nosso filme, em colunas diversas, foi lembrado e registrado, na sua condição vexatória, de impedido de participar do mercado nas salas de cinema. O, então colunista, do Jornal A Tarde, Vitor Hugo Soares, em pelo menos, quatro de suas crônicas, publicadas aos sábados, fez referencias contundentes à situação de vida e morte da fita que estamos falando.


Para um melhor esclarecimento do leitor, no sentido de dirimir a impressão de ser este texto uma arenga puramente particular, sem eira nem beira para o interesse do conhecimento público, temos a dizer que, o filme, CASCALHO, baseado no clássico da literatura brasileira, do mesmo nome, de Herberto Sales, ganhou, em licitação pública, o concurso de roteiros, denominado Fernando Coni Campos, instituído pelos Governo do Estado da Bahia, é, portanto, um filme genuinamente baiano, produzido com dinheiro do erário público, todo rodado nas Lavras Diamantinas, no município de Andaraí. Mais de oitenta por cento dos técnicos e atores representam a mais polida prata da casa.


Queremos também deixar claro que, sabíamos todo o tempo, da dureza de uma caminhada franciscana. Tratava-se de um filme de baixo orçamento. Cutucamos o impossível com vara curta. Estamos escrevendo para comunicar e comemorar: Habemos filme!!! Pronto para adentrar no escurinho do cinema. Pronto para caminhar com suas próprias pernas.
Resta agora, torcer para que, com a benção da Corte Celeste e o Axé dos Orixás, CASCALHO, possa vir conquistar, alguma que seja, a empatia com o espectadores. Como cada cabeça é um mundo. Esperar, daqueles que lhe torcerem o nariz, pelo menos, também desejarem que a terra lhe seja leve."
tunaespinheira@terra.com.br

26 dezembro 2007

O céu que nos protege



Sim, sei que o Bertolucci mais considerado é O conformista, e, para outros, Antes da revolução (Prima della rivoluzione). Sei também que O céu que nos protege (The sheltering sky, 1990) não é tão citado como deveria e muitos até o desconhecem. Mas para mim é o maior filme de Bernardo Bertolucci.
Aliás, quando da morte simultânea de Bergman e Antonioni, cheguei a dizer que o cinema tinha morrido, a me lembrar, com esforço, de algum realizador notável ainda a restar na face da Terra. Alain Resnais e Jean-Luc Godard foram os dois que a memória conseguiu lembrar, ainda que o segundo seja insuportável em seus últimos filmes. Mas coloco aqui o nome de Bernardo Bertolucci, realizador admirável, com profundo sentido de mise-en-scène.
Que se veja, por exemplo, a abertura com os créditos de The sheltering sky, montagem de arquivos de filmes que mostram a vida urbana dos anos 50 nos Estados Unidos com uma partitura que revela uma música a ser exercutada por um pianista. A união dessa partitura com a montagem das imagens de arquivo é extraordinária. Para iniciar um filme que se passa na África. É bem verdade que a ação transcorre em 1947.
A iluminação é de um artista: Vittorio Storaro. Uma lição de fotografia cinematográfia. A luz é determinante na composição da estrutura audiovisual de The sheltering sky. Como uma obra-prima como esta pôde ser ignorada pela crítica? Ou, se não ignorada, não mereceu, no entanto, os loiros devidos a um trabalho de mestre, a uma obra de mestre. Bertolucci é, realmente, um cineasta fora de série e acima da média. Estou a esperar para rever O pequeno Buda.
Mesmo em seus filmes menores, a exemplo de A tragédia de um homem ridículo (La tragedia de un uomo ridiculo), com Ugo Tognazzi, há sempre um touch especial, uma maneira particular de postar em cena. Aquele baile no final de O conformista é magnífico - creio que Bertô se inspirou na dança de Cinzas de diamantes, de Wajda. Mas isso não tem importância.
Mas no momento o que mais me fascina Bernardo Bertolucci é The sheltering sky.

Cristo nasceu em Éboli



Para se fazer uma lista dos melhores do ano, e assim foi durante mais de três décadas, havia de se escolher entre os filmes lançados na sua capital durante o ano. Possa ser que, agora, com a revolução tecnológica, com o advento da Confraria dos Baixistas, a disponibilidade de títulos raros em DVD, a coisa tenha mudado. Homero Azevedo, professor de cinema da Paraíba, acha, inclusive, que uma lista de melhores pode absorver, a considerar as mudanças dos últimos anos, até filmes do século passado. Ele, por exemplo, por ter visto apenas em 2007 A malvada (All about Eve, 1950), de Joseph L. Mankiewicz, considerou este um dos melhores e o incluiu em sua lista.

Ainda continuo no critério secular: a lista dos melhores do ano tem que obedecer a certos critérios, isto quer dizer: escolhe-se para ela apenas os filmes que foram lançados na capital de seu estado durante o ano em questão. Há casos, por exemplo, de um filme velho se inserir numa relação. Antes da revolução (Prima della rivoluzione, 1963) estava inédito no Brasil até 1998, por algumas dessas injunções incompreensíveis do atilado mercado exibidor. Filme do grande Bernardo Bertolucci (estou a rever o seu deslumbrante e hipnótico O céu que nos protege (The sheltering sky), Prima della rivoluzione foi considerado, em várias listas, um dos melhores do ano de 1998, embora obra produzida em 1963. Assim também aconteceu com O criado (The servant, 1963), de Joseph Losey, obra de mestre, que estava inédita no Brasil até que o Cinema 1 (exibidora e distribuidora), de Alberto Shatovsky, trouxe-a para o Brasil em 75 ou 76.

Uma lista que se quer pernóstica, postada nos comentários deste blog, apresenta uma relação na qual a maioria é inédita no Brasil, a ferir, com isso, os critérios mínimos para a feitura de uma lista para ser dada à imprensa. Claro, se for uma listinha de fanático, tudo bem. Que a faça como quiser. E eu mesmo, após o esclarecimento de Saymon Nascimento, vi que troquei alhos com bugalhos. Em busca da vida é chinês e não coreano como a minha ignorância dizera. Mas o fato é que a vida é assim mesmo: com altos e baixos.

Dos nacionais, acredito que o melhor filme do ano tenha sido Santiago, de João Moreira Salles. Documentário sobre o mordomo de seus pais, mas, também, uma reflexão sobre o próprio documentário cinematográfico e o ato de fazer cinema, Santiago é surpreendente pela maneira com que Moreira Salles estabelece o seu discurso cinematográfico. E Tropa de elite, concorde-se ou não com a sua postura, constituiu-se num fenômeno ainda a ser devidamente analisado. E, também um autor sem meio termo, que se gosta ou se detesta, porque muito visceral, Cláudio Assis com O baixio das bestas dá prosseguimento a uma estética do andar de baixo.

A imagem do post não é de filme nenhum. Mas, e apenas, ilustrativa.

25 dezembro 2007

Bloguista que é cinéfilo desatualizado

Comentarista de cinema desde 1974, com uma coluna diária em jornal soteropolitano, faço, há mais de 30 anos, todo fim de ano, a indefectível lista dos melhores. Neste período, via TODOS os filmes lançados em Salvador, mas, nos últimos anos, devo confessar, fiquei mais seletivo, mais preguiçoso, menos assíduo aos cinemas. Não sou mais um acompanhante de lançamentos, um cinéfilo constante e total. Talvez a desilusão com a mediocridade do cinema contemporâneo seja o motivo dessa minha opção pela seleção. Mas vejo, sim, os filmes marcantes, as obras que penso que possam merecer atenção. Assisto a muitos filmes em DVD, principalmente aqueles de minha predileção. Neste particular, podem me chamar de desatualizado, porque é verdade.
Como disse Sérgio Andrade, Medos privados em lugares públicos, de Alain Resnais, é uma reflexão amarga sobre a solidão e, creio, o filme mais importante do ano. Na foto, Sabine Azema e Pierre Arditi no grande filme do autor de Hiroshima, mon amour.

E leiam-me no Terra Magazine: http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2174095-EI6791,00.html


23 dezembro 2007

Onde se encontram os melhores do ano?



Há uma decadência imensa na qualidade dos filmes que estão sendo lançados nos últimos anos. Nos anos 60, para se ficar apenas nesta década, a tarefa do crítico ou comentarista de selecionar os 10 melhores do ano era árdua, pois existiam 20, 30, e a triagem se fazia dolorosa. Atualmente a situação se inveteu: é muito difícil se achar uma dezena de filmes que possam ser considerados os melhores do ano. Por exemplo: A rainha, de Stephen Frears, com Helen Mirren, é um bom filme, mas não dá para contemplá-lo entre os eleitos de uma lista na qual somente deveria caber obras extraordinárias. É o que acontecia antigamente, quando os dez melhores eram dez obras-primas. A considerar o que se está aqui a dizer, não se acha o blogueiro em condições de, neste ano que ora se finda, fazer a relação.

A procurar agulha no palheiro, creio que apenas quatro filmes podem figurar numa lista dos melhores do ano. Vale notar que a distância entre o primeiro e os outros, por exemplo, é imensa. A ordem é de importância, sim!

1-) Medos privados em lugares públicos (Coeurs), de Alain Resnais. Disparado, o melhor filme do ano. O único, por assim dizer, grande filme do ano.

2-) As cartas de Iwo Jima (The letters from Iwo Jima), de Clint Eastwood.

3-) Possuídos (Bug), de William Friedkin.

4-) O império do sonho (Inland empire), de David Lynch

Resnais é, talvez, o último grande cineasta vivo. Eastwood herda a tradição do grande segredo do cinema americano dotado de uma narrativa quase muscular. Friedkin é surpreendente a cada tomada, a cada take, e Lynch faz descondicionar os termos da fabulação no cinema.

Clique na imagem para vê-la ampliada.

19 dezembro 2007

Beija-me, idiota!



Estou de mal com o Telecine Cult (sou assinante desde 2.000 da rede). A causa, já a disse aqui várias vezes. É que este canal híbrido atenta, criminosamente, contra a integridade da obra cinematográfica quando exibe - e exibe sempre - filmes originariamente realizados em lente anamórfica na abominável e deformante tela cheia (full screen). Nunca é demais repetir isso. Domingo passado, dia no qual vi no canal o belíssimo Tokyio-Ga, de tarde passou Beija-me idiota (Kiss me stupid, 1963), de Billy Wilder, mas, ao ligar o aparelho, vi, estupefato, que estava sendo apresentado completamente deformado, pois o filme, em cinemascope, mostrava-se na tela cheia. Tive que desligar incontinenti, pois, afinal de contas, gosto de cinema. Mas vi esta preciosa comédia há muitas décadas na tela grande dos cinemas e a revi, antes do surgimento do Cult, no Classic, com a preservação de seu enquadramento original. Gravei, na ocasião, em VHS, mas emprestei a cópia a um amigo e lá se foi ela. O filme, com a imagem deformada, vai ser exibido no mês de janeiro no Cult em duas ocasiões: no dia 25 de janeiro, às 14 horas e 5 minutos, e no dia 27, às 10 da manhã e 45 minutos. Sei que Marcelo Janot, o excelente comentarista do Cult, não pode dar jeito nisso, interferir na programação ou solicitar o respeito pela intergridade da obra cinematográfica. No comentário abaixo falo como se estivesse em 2.003 porque o texto foi escrito nesta época, quando revi o filme no Classic. Vou deixá-lo no seu tempo. Sem mexer. O que não aconteceu com a rede Telecine, que, agora, espichou o filme, deformando-o.
Comédia sobre a inversão de papéis na representação da hipocrisia social, e a dialética do ser e da aparência, com uma visão ácida do american way of life, Beija-me Idiota (Kiss Me, Stupid, 1963), de Billy Wilder, ainda que tenha na sua fonte primária uma peça de teatro, L’Ora della Fantasia, de Anna Bonacci, possui, no entanto, um ritmo frenético e envolvente por causa da ourivesaria do roteiro do parceiro de Wilder, I. A.L. Diamond, composto a quatro mãos com o realizador, embora este não coloque sua firma no screenplay. Se Wilder, antes, na sua filmografia, já tinha atacado o mal estar do capitalismo (Se Meu Apartamento Falasse/The Apartment, 1960, entre outros), é, porém, em Kiss Me, Stupid que sua crítica se faz mais visceral. O filme, quando lançado na primeira metade dos anos 60, foi atacado pelos moralistas e proibido em alguns estados da América do Norte. E, apesar de distribuído pela United Artists no mundo inteiro, não contou com verba publicitária, a passar despercebido em muitos lugares. A virulência do olhar wilderiano sobre certas idiossincrasias da sociedade americana chocou os mais conservadores e arautos do establishment. A observar, entretanto, que se, na época de sua estréia, foi motivo de restrições absolutas pelas ligas de decências, atualmente é servido pelo Telecine Classic em plena noite de Natal como presente de fim de ano. É bom de ver que, neste ocaso de 2003, o filme completa exatas quatro décadas. E o mundo, indiscutivelmente, mudou. Mas a permanência das observações contidas em Kiss Me, Stupid continuam atuais, considerando-se que a mentalidade dos retratos é a mesma seja em 1963, seja em 2004. O que mudou foi a instauração da apatia na recepção num mundo em desagregação que já não se importa mais pela preservação nem mesmo de sua antiga hipocrisia.

Wilder dá início a esta comédia-demolição com uma panorâmica na qual mostra um plano geral de um teatro que anuncia o cantor Dino (Dean Martin) enquanto os letreiros vão sendo retirados a denotar, com isso, a despedida do artista. E no plano a seguir, com a música envolvente de Gershwin, Dino está no palco, meio bêbado, intercalando a canção com suas piadas características. Os créditos se anunciam neste frenesi e continuam na viagem que o cantor, saindo furtivamente para fugir das mulheres, inicia em direção a Hollywood onde, diz, vai fazer um filme com Frank Sinatra e sua turma. Mas um incidente, no meio do caminho, determina-lhe um outro itinerário para chegar a seu destino, obrigando-lhe a passar por várias cidades interioranas. Numa destas, Clímax, de poucos habitantes e cheia de preconceitos – tão diferente da visão edulcorada de uma cidadezinha americana apresenta em Cine Majestic, de Frank Darabont, Dino pára num posto de gasolina para abastecer seu carro, onde é atendido pela frentista Barry (Cliff Osmond – que sempre trabalha com Wilder e em Irma, la douce faz o guarda que recebe o dinheiro ao colocar o chapéu, logo no princípio, no bar de Moustache). Em Climax, mora um compositor e professor de piano, Orville Jeremiah Spooner (Ray Walston), parceiro de Barney em muitas músicas, casado com Zelda (Felicia Farr, esposa, na época de Jack Lemmon), apaixonada, desde criança, por Dino, e que tem todos os seus discos em casa. Mas Orville e Barney sonham que um dia suas músicas sejam reconhecidas e consigam sair do anonimato. Assim, a presença de Dino no posto de gasolina acende a chama da ambição de Barney, que danifica o motor do carro de Dino a fim de que ele fique retido em Clímax e vir a conhecer as músicas da dupla.

A solução encontrada pela mente fervilhante do gordo Barney é fazer com que Dino passe a noite na casa de Orville, mas este, que morre de ciúmes infundados da mulher, precisa arranjar um jeito de pô-la para fora por uma noite. Dino, insaciável quando se trata do sexo feminino, diz que não pode deixar de ter uma companhia, e, para satisfazê-lo, o plano de Barney inclui a vinda de uma prostituta, Polly, the pistol (Kim Novak, magnífica), que trabalha num bar/prostíbulo O Umbigo, cujo cartaz anuncia desde logo: “Entre e se perca”. Orville consegue brigar com a mulher e ela vai para a casa da mãe. Barney traz Polly, que representa, para Dino, ser a esposa de Orville. A troca de identidade, porém, não funciona, pois Polly, apesar de prostituta, uma profissional paga para um trabalho específico, qual seja o de dormir com Dino como se fosse a mulher de Orville, se enternece por este e não mostra o menor interesse pelo cantor. As coisas se complicam. Polly mostra que seria uma excelente dona de casa. E Zelda, saindo da casa dos pais, acaba indo tomar um porre no Umbigo.

O que interessa na verdade é que Wilder demonstra pela comédia que uma dona de casa típica americana pode ter uma mente prostituída – como, geralmente, muitas das donas de casa do mundo inteiro cujas fantasias são incontáveis, enquanto uma prostituta pode ser uma mulher pura e mais adequada ao lar. A comédia se desenvolve na base de uma ironia constante cujos atributos não se devem apenas a Wilder, mas, também, ao roteiro imaginoso de Diamond, que consegue driblar o peso teatral do argumento em função de uma transmissão deste através dos procedimentos cinematográficos. É neste particular que a direção de Wilder entra em campo ao conferir aos seus enquadramentos um sentido de equilíbrio e ritmo extraordinários. Este realizador sabe construir seu filme de tal maneira que o corte se anuncia como um atendimento à expectativa do espectador.

O imaginário de certas pessoas interioranas dos Estados Unidos, como Zelma, a mulher de Orville, que é a presidente do fã-clube de Dino, é uma representação das idiossincrasias de uma sociedade na qual o que importa mesmo é o sucesso a qualquer custo. Daí certo cinismo no final, a recusa de um happy-end, e a manutenção do status quo anterior, ainda que se possa pensar no desenlace diferente.

Entram na composição da excelência do espetáculo, além da direção de Wilder e do roteiro de Diamond, a funcional iluminação em preto e branco de Joseph La Shelle – fotógrafo preferido, em cinemascope, capaz de dar a Clímax um tom cinzento e a tela larga é sabiamente utilizada no deslocamento dos atores no espaço, facilitando o trabalho da câmera, a partitura musical de André Previn que utiliza clássicos da música como alguns dos compositores George e Ira Gershwin. E o elenco afinado, bem wilderiano, como o citado Cliff Osmand, que faz Barney, Ray Walston, Dean Martin e Felicia Farr. E inexcedível está Kim Novak num papel diferente, perfeitamente à vontade, blasé, principalmente para quem a imagina como a Madeleine de Scott na obra-prima Um Corpo Que Cai (Vertigo), de Alfred Hitchcock.

17 dezembro 2007

Ozu é o sublime, o absoluto e o humano



A imagem de um momento sublime (todos os momentos dos filmes de Ozu são sublimes) de Era uma vez em Tóquio (Tokyo Monogatari, 1953), que ficou conhecido, no Brasil, também pelo título de Histórias de Tóquio. Há, na cidade de Salvador, talvez o maior acontecimento do ano em termos cinematográficos: a retrospectiva, desde ontem na Sala Walter da Silveira, abençoada pelo Consulado do Japão, de Yasujiro Ozu. A programação completa, dou-a em post abaixo. É, ainda que expressão maltratada e lugar comum, mas que, aqui, se aplica à perfeição: imperdível.
Penso que um filme como Tokyo monogatari é para se assistir de joelhos apoiados em milhos como ato de adoração de um monumento do gênero humano. Creio, também, que um filme como Era uma vez em Tóquio deveria estar sempre em cartaz ou, melhor, programado ad infinitum num determinado cinema de cada cidade, de cada vila, de cada povoado - se, por acaso, existam, nestes, salas exibidoras.
Penso que Yasujiro Ozu é, mais do que um grande cineasta, um grande humanista, um grande pensador. Que acontecimento maior do que uma retrospectiva de alguns de seus filmes fundamentais poderia haver nesta velha soterópolis? A miséria cultural baiana de há muito foi lançada. Ozu é um momento de salvação, de olhar para outro mundo como se numa espécie ato de contrição.
Clique na foto que ela se amplia e possibilita uma melhor visão desse enquadramento de um mestre do cinema.