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19 dezembro 2007

Beija-me, idiota!



Estou de mal com o Telecine Cult (sou assinante desde 2.000 da rede). A causa, já a disse aqui várias vezes. É que este canal híbrido atenta, criminosamente, contra a integridade da obra cinematográfica quando exibe - e exibe sempre - filmes originariamente realizados em lente anamórfica na abominável e deformante tela cheia (full screen). Nunca é demais repetir isso. Domingo passado, dia no qual vi no canal o belíssimo Tokyio-Ga, de tarde passou Beija-me idiota (Kiss me stupid, 1963), de Billy Wilder, mas, ao ligar o aparelho, vi, estupefato, que estava sendo apresentado completamente deformado, pois o filme, em cinemascope, mostrava-se na tela cheia. Tive que desligar incontinenti, pois, afinal de contas, gosto de cinema. Mas vi esta preciosa comédia há muitas décadas na tela grande dos cinemas e a revi, antes do surgimento do Cult, no Classic, com a preservação de seu enquadramento original. Gravei, na ocasião, em VHS, mas emprestei a cópia a um amigo e lá se foi ela. O filme, com a imagem deformada, vai ser exibido no mês de janeiro no Cult em duas ocasiões: no dia 25 de janeiro, às 14 horas e 5 minutos, e no dia 27, às 10 da manhã e 45 minutos. Sei que Marcelo Janot, o excelente comentarista do Cult, não pode dar jeito nisso, interferir na programação ou solicitar o respeito pela intergridade da obra cinematográfica. No comentário abaixo falo como se estivesse em 2.003 porque o texto foi escrito nesta época, quando revi o filme no Classic. Vou deixá-lo no seu tempo. Sem mexer. O que não aconteceu com a rede Telecine, que, agora, espichou o filme, deformando-o.
Comédia sobre a inversão de papéis na representação da hipocrisia social, e a dialética do ser e da aparência, com uma visão ácida do american way of life, Beija-me Idiota (Kiss Me, Stupid, 1963), de Billy Wilder, ainda que tenha na sua fonte primária uma peça de teatro, L’Ora della Fantasia, de Anna Bonacci, possui, no entanto, um ritmo frenético e envolvente por causa da ourivesaria do roteiro do parceiro de Wilder, I. A.L. Diamond, composto a quatro mãos com o realizador, embora este não coloque sua firma no screenplay. Se Wilder, antes, na sua filmografia, já tinha atacado o mal estar do capitalismo (Se Meu Apartamento Falasse/The Apartment, 1960, entre outros), é, porém, em Kiss Me, Stupid que sua crítica se faz mais visceral. O filme, quando lançado na primeira metade dos anos 60, foi atacado pelos moralistas e proibido em alguns estados da América do Norte. E, apesar de distribuído pela United Artists no mundo inteiro, não contou com verba publicitária, a passar despercebido em muitos lugares. A virulência do olhar wilderiano sobre certas idiossincrasias da sociedade americana chocou os mais conservadores e arautos do establishment. A observar, entretanto, que se, na época de sua estréia, foi motivo de restrições absolutas pelas ligas de decências, atualmente é servido pelo Telecine Classic em plena noite de Natal como presente de fim de ano. É bom de ver que, neste ocaso de 2003, o filme completa exatas quatro décadas. E o mundo, indiscutivelmente, mudou. Mas a permanência das observações contidas em Kiss Me, Stupid continuam atuais, considerando-se que a mentalidade dos retratos é a mesma seja em 1963, seja em 2004. O que mudou foi a instauração da apatia na recepção num mundo em desagregação que já não se importa mais pela preservação nem mesmo de sua antiga hipocrisia.

Wilder dá início a esta comédia-demolição com uma panorâmica na qual mostra um plano geral de um teatro que anuncia o cantor Dino (Dean Martin) enquanto os letreiros vão sendo retirados a denotar, com isso, a despedida do artista. E no plano a seguir, com a música envolvente de Gershwin, Dino está no palco, meio bêbado, intercalando a canção com suas piadas características. Os créditos se anunciam neste frenesi e continuam na viagem que o cantor, saindo furtivamente para fugir das mulheres, inicia em direção a Hollywood onde, diz, vai fazer um filme com Frank Sinatra e sua turma. Mas um incidente, no meio do caminho, determina-lhe um outro itinerário para chegar a seu destino, obrigando-lhe a passar por várias cidades interioranas. Numa destas, Clímax, de poucos habitantes e cheia de preconceitos – tão diferente da visão edulcorada de uma cidadezinha americana apresenta em Cine Majestic, de Frank Darabont, Dino pára num posto de gasolina para abastecer seu carro, onde é atendido pela frentista Barry (Cliff Osmond – que sempre trabalha com Wilder e em Irma, la douce faz o guarda que recebe o dinheiro ao colocar o chapéu, logo no princípio, no bar de Moustache). Em Climax, mora um compositor e professor de piano, Orville Jeremiah Spooner (Ray Walston), parceiro de Barney em muitas músicas, casado com Zelda (Felicia Farr, esposa, na época de Jack Lemmon), apaixonada, desde criança, por Dino, e que tem todos os seus discos em casa. Mas Orville e Barney sonham que um dia suas músicas sejam reconhecidas e consigam sair do anonimato. Assim, a presença de Dino no posto de gasolina acende a chama da ambição de Barney, que danifica o motor do carro de Dino a fim de que ele fique retido em Clímax e vir a conhecer as músicas da dupla.

A solução encontrada pela mente fervilhante do gordo Barney é fazer com que Dino passe a noite na casa de Orville, mas este, que morre de ciúmes infundados da mulher, precisa arranjar um jeito de pô-la para fora por uma noite. Dino, insaciável quando se trata do sexo feminino, diz que não pode deixar de ter uma companhia, e, para satisfazê-lo, o plano de Barney inclui a vinda de uma prostituta, Polly, the pistol (Kim Novak, magnífica), que trabalha num bar/prostíbulo O Umbigo, cujo cartaz anuncia desde logo: “Entre e se perca”. Orville consegue brigar com a mulher e ela vai para a casa da mãe. Barney traz Polly, que representa, para Dino, ser a esposa de Orville. A troca de identidade, porém, não funciona, pois Polly, apesar de prostituta, uma profissional paga para um trabalho específico, qual seja o de dormir com Dino como se fosse a mulher de Orville, se enternece por este e não mostra o menor interesse pelo cantor. As coisas se complicam. Polly mostra que seria uma excelente dona de casa. E Zelda, saindo da casa dos pais, acaba indo tomar um porre no Umbigo.

O que interessa na verdade é que Wilder demonstra pela comédia que uma dona de casa típica americana pode ter uma mente prostituída – como, geralmente, muitas das donas de casa do mundo inteiro cujas fantasias são incontáveis, enquanto uma prostituta pode ser uma mulher pura e mais adequada ao lar. A comédia se desenvolve na base de uma ironia constante cujos atributos não se devem apenas a Wilder, mas, também, ao roteiro imaginoso de Diamond, que consegue driblar o peso teatral do argumento em função de uma transmissão deste através dos procedimentos cinematográficos. É neste particular que a direção de Wilder entra em campo ao conferir aos seus enquadramentos um sentido de equilíbrio e ritmo extraordinários. Este realizador sabe construir seu filme de tal maneira que o corte se anuncia como um atendimento à expectativa do espectador.

O imaginário de certas pessoas interioranas dos Estados Unidos, como Zelma, a mulher de Orville, que é a presidente do fã-clube de Dino, é uma representação das idiossincrasias de uma sociedade na qual o que importa mesmo é o sucesso a qualquer custo. Daí certo cinismo no final, a recusa de um happy-end, e a manutenção do status quo anterior, ainda que se possa pensar no desenlace diferente.

Entram na composição da excelência do espetáculo, além da direção de Wilder e do roteiro de Diamond, a funcional iluminação em preto e branco de Joseph La Shelle – fotógrafo preferido, em cinemascope, capaz de dar a Clímax um tom cinzento e a tela larga é sabiamente utilizada no deslocamento dos atores no espaço, facilitando o trabalho da câmera, a partitura musical de André Previn que utiliza clássicos da música como alguns dos compositores George e Ira Gershwin. E o elenco afinado, bem wilderiano, como o citado Cliff Osmand, que faz Barney, Ray Walston, Dean Martin e Felicia Farr. E inexcedível está Kim Novak num papel diferente, perfeitamente à vontade, blasé, principalmente para quem a imagina como a Madeleine de Scott na obra-prima Um Corpo Que Cai (Vertigo), de Alfred Hitchcock.

13 comentários:

Romero Azevêdo disse...

Setaro, estava eu em Palmas, Tocantins, na noite em que o Classic exibiu a deliciosa comédia no seu formato original. Você está certo, é um abuso da operadora exibir o filme sem as laterais, creio que se estivéssemos num País sério daria multa alta para a Sky. Infelizmente aqui "non passa nada" como dizem os espanhóis.
Outro exemplo da burrice que nos assola no campo cinematográfico: a distribuidora Classic Line lançou o DVD "Embriaguez do Sucesso" em versão, pesme, COLORIZADA !A bela fotografia "noir" do mestre James Wong Howe foi pras cucuias.
Como você diz, é o fim dos tempos !

André Setaro disse...

Fiquei estupefato com a notícia. 'A embriaguês do sucesso' tem uma fotografia excepcional em preto-e-branco do artista da luz James Wong Howe (entre muitos, 'Pic nic', de Joshua Logan), a explorar a 'noite' novaiorquina, o brilho do asfalto, etc. Colorir tal filme é matá-lo. A Classic Online deveria tirar, urgentemente, o disco do mercado. Mas no Brasil a idiotia e a apatia são características inabaláveis!

carlos disse...

Concordo plenamente com você, caro Setaro. Se é assinante da rede Telecine, eu já o fui, pois cancelei minha assinatura desde quando substituiram o Emotion pelo Pipoca, composto, este, apenas, de filmes dublados (o que é um horror). Não há termos de comparação entre o que os canais proporcionavam em 2.000, por exemplos, e nos dias atuais. A programação, não somente do Cult, substituto, como diz você, híbrido, do Classic, mas de todos os canais, mudou muito. Adotaram outro 'marketing', outra estratégia. O objetivo da 'reengenharia' foi no sentido mais lastimável possível: o de moldar a rede ao gosto médio a fim de alcançar mais assinantes. Aliás, se se for bem observar, uma característica da televisão por assinatura (ou a cabo) no Brasil, cujo nível é baixo.
O surgimento do Telecine me fez parecer, quando o assinei, que tivesse uma cinemateca em casa. O Classic, por exemplo, era um primor. Mas tudo que é bom dura pouco. Cheguei a comentar com minha esposa: "Não vai demorar muito a excelência dessa programação". Queria dizer que, no Brasil, era surpreendente se ter algo como um canal como o Classic, pois "pérolas não são dadas, assim, aos porcos".
O fato narrado e acontecido com 'Beija-me idiota' é revoltante. Não tenho, felizmente, mais 'sinais' dos canais, pois cancelei a minha assinatura (e, para isso, foi uma 'via crucis').
Um abraço para você, Setaro, um Feliz Natal e ótimo 2008.

Carlos Miranda

Minêu disse...

Wilder, o melhor (e o segundo melhor) cineasta de todos os tempos.

Jonga Olivieri disse...

Criminosa e absurda a exibição de filmes importantes sem que se possa ter a compreensão de sua imagem como um todo.

André Setaro disse...

Sim, Wilder é um mestre absoluto e seus filmes fontes de imenso prazer de se estar a ver um filme.

borgia disse...

Minha concordância com o Romero, que conheci em Campina Grande mas não vou me identificar, faz-se absoluta. Vi também, perto da noite de Natal, nos bons tempos do Telecine Classic, Beija-me Idiota, do grande Billy Wilder. Mas logo que o Classic foi substituído pelo Cult (que é híbrido, segundo Setaro), fiz por bem de cancelar a minha assinatura. Este filme de Wilder é extraordinário e essencial para a compreensão de sua temática, de sua verve humorística, de seu humor cáustico, é verdade, mas sempre tocante, analista da sociedade americana com todas as suas contradições. A visão ácida de Wilder pode perturbar aqueles que estão certos de tudo, que têm no 'establishment' o seu sustentáculo e a sua razão de ser.

Cassiano Mendes disse...

Claro que o Telecine Cult não está um lixo, como se pode, à primeira vista, pensar. Tem excelentes filmes na sua grade programativa, alguns premiados com a locução privilegiada de Marcelo Janot, que, sobre ser um excelente crítico, sai-se muito bem na televisão. O monstruoso do Cult é a audácia em passar, como fala sempre Setaro, os filmes originariamente em cinemascope em tela cheia, fazendo desaparecer as laterais dos enquadramentos, e, realmente, destruindo qualquer possibilidade de contemplação no que se refere à integridade da obra cinematográfica. Assim como o autor do Blog, André Setaro, também mudei de canal quando vi, estarrecido, as imagens deformadas de 'Kiss me stupid', comédia inexcedível do mestre Billy Wilder. Ando a procurar 'Se meu apartamento falasse', que considero o melhor filme de Wilder, mas não o encontro em DVD. Fazendo uma pesquisa no Submarino, constatei que está sendo vendido um DVD importado de 'The apartment', mas muito caro para meus parcos proventos. Tenho certeza que Saymon Nascimento, membro fundador da 'Confraria dos Baixistas', já teve tê-lo 'baixado da Internet'. A considerar que não faço parte de tal confraria, até porque não sei como se 'baixa' - até parece coisa de sessão espírita, ignorante que sou nas tratativas informáticas, quase um analfabeto funcional da navegação na net, não fosse o meu trabalho como produtor de textos, fica muito difícil ter a paciência 'saymoniana' para ficar o dia inteiro a 'baixar' filme. Outro que aderiu com unhas e dentes à confraria foi o cineasta Carlos Reichenbach, que passa dia e noite 'grudado' ao computador para ver suas 'pérolas' nunca vistas. O que fazem, Saymon e Dom Corleone, muito bem.

Carlota Conselheira disse...

Gostei muito de passar no seu blog, por favor visite o meu, é de um estilo de desabafos, se tiver problemas na sua vida tanto de amor, ou de esconder algo, visite-me em www.carlotaconselheira.blogspot.com e envie o seu desabafo para conselhosdacarlota@gmail.com.

André Setaro disse...

Tenho recebido mensagens de apoio em relação aos comentários que faço sempre ao ato criminoso da Rede Telecine quando "estica" o filme originariamente em cinemascope, deformando-o completamente. Mas mudando de um pólo a outro, além das comédias de Wilder, e de tantos outros, a exemplo das de Richard Quine e Blake Edwards, Hawks, no cinema americano, gostava muito das comédias italianas dos anos 60, a exemplo de 'Alta infidelidade', 'As bonecas', estas em vários episódios, e me lembrei de uma, já no outono comediográfico italiano, "Venha tomar um café conosco" ("Venga prendere il caffè da noi"), de Alberto Lattuada, realizada em 1970 e que fez muito sucesso quando do seu lançamento. Vi, lembro-me bem, este filme engraçadíssimo no cinema Veneza. Lattuada foi um excelente diretor, co-autor, com Fellini, de "Mulheres e luzes" ("Luci de varietà"), "O mafioso" (com Norma Bengell), "Tentação proibida" ("Cosi come sei", 1979), com Marcello Mastroianni e Nastassa Kinski. Foi um neo-realista. Procurei o filme em DVD, mas "Venga prendere il caffè da noi" parece de difícil localização. Com o grande Ugo Tognazzi como um homem que vem a casar, por interesse, com uma mulher feia e rica, que mora com mais duas irmãs horrorosas. Mas ao vir a habitar a mansão delas sofre um terrível acesso sexual que o leva a ter um derrame cerebral e ficar numa cadeira de rodas. Lattuada aparece no papel do médico. Obra muito bem humorada que desapareceu não somente de circulação como da memória dos ditos cinéfilos. Talvez 'baixando' o seu espírito na internet, como diz Cassiano Mendes, que não sei dizer como conhece Saymon Nascimento.

Romero Azevêdo disse...

Caro Setaro, amarcord da bela Catherine Spaack, era francesa mas se passava muito bem como italiana. Primeiro em Brancaleone(66) depois numa comédia que gostei muito quando ví no Condor Copacabana, sessão das 14 horas, chupando drops de aniz, nos idos de 71: "Certo, certíssimo mais que provável"(1969).

André Setaro disse...

Você Romero, é um exemplo do perfeito cinéfilo que se transformou em erudito no que tange ao cinema. Mas um amante de cinema, "au grand complet", como diz o francês, pois a sua visão de um filme se apega a vários elementos exteriores à "textura fílmica", como querem os estruturalistas (e como são chatos!). Por exemplo, nunca se esquece do cinema onde viu determinado filme, a exemplo de "Certo, certíssimo, mais que provável", com a bela e insinuante Catherine Spaak, que o viu no Condor Copacabana, lembrando-se, inclusive, da sessão: a iniciante sessão das 14 horas. E repara em tudo a que se refere ao filme visto. Recordo-me que viu, aqui, em Salvador, nesta cidade enfartada, folclórica, com uma regressão cultural monstruosa, "Dona Flor e seus dois maridos", no extinto, como dizem os espíritas, cine Bahia, à rua Carlos Gomes, nos idos dos 70 (se a memória abatida pela cerveja não falhar, dezembro de 1976, na companhia do "inglês" Cury (não, não estou me referindo ao autor de "Noite vazia"). Fez-me, naquela ocasião, uma observação que guardo até hoje: quando chega uma barca na rampa do Mercado vinda de Itaparica, com os viajantes a descer da embarcação, a partitura escolhida por Bruno Barreto faz aludir à chanchada pretérita.
Dou-me conta, aqui a escrever este comentário no meu próprio blog, que estou, nestes dias natalinos, mais a escrever comentários do que a postar, como seria mais conveniente. É a confusão do Natal, a exacerbação do consumo, a "loucura" que se estabelece nas pessoas à cata de presentes para seus entes queridos (muitas vezes nem tão queridos assim). Não estou mais a comungar com este chamado espírito natalino. É tudo uma farsa, uma representação. A sociedade de consumo não permite mais a solidariedade e um espírito humanístico. Reina, entre as famílias, a competição com cada um a querer, principalmente na classe média (a mais execrável de todas as classes), competir para ver quem dá melhor presente, e, neste caso, tudo a se resumir ao valor econômico das coisas, a mostrar, com isso, quem "pode" mais.
Entrei por um atalho que nada tem a ver com o que queria dizer inicialmente. E falava de sua cinefilia erudita e queria falar da bela e insinuante Catherine Spaak pela qual tive imenso amor platônico na minha juventude transviada.
Ontem, no "Tarja Preta", programa de entrevistas de Selton Mello, Ruthinéia de Moraes disse que o "glamour" que tinha o cinema no passado acabou. E, para exemplificar, cita o maravilhoso cinema localizado no Largo do Machado, o São Luiz. Nos anos de seu apogeu somente se podia entrar nele de gravata. O porteiro tinha uma caixa cheia delas para os casos de espectadores que estivessem, por acaso, sem ela. Tenho o livro - de luxo- sobre o circuito Severiano Ribeiro, que faz 90 anos. Belas fotografias de seus cinemas, verdadeiros palácios, a exemplo do citado, do Roxy, entre tantos outros. Dificilmente você, hoje, pode identificar filme-cinema, porque, na verdade, não existem mais cinemas. O sujeito vai ao Multiplex, ao Cinemark, em suma, aos complexos de salas, e vê o filme na Sala 7, por exemplo. Com o passar do tempo, o filme visto é localizado nos arcanos de sua memória como um filme visto no Multiplex ou em qualquer complexo. Creio que a atmosfera do cinema, como os de antigamente, quando cada um tinha um estilo arquitetônico, uma atmosfera especial, era muito importante para a "incorporação" do filme na memória do cinéfilo. Não sei se já entrou para a "Confraria dos Baixistas", daqueles que vivem a baixar os filmes diretamente da internet. "Você viu tal filme?". A esta pergunta, tenho notado, a resposta é a seguinte: "Não, mas já vou baixá-lo da Internet no E-mule" Não estou a fazer nenhuma crítica aos sócios da 'confraria', mas apenas a constatar fatos.

Romero Azevêdo disse...

Caro Setaro, estive fora estes dois dias. Devo dizer que concordo com suas palavras sobre os antigos templos da arte cinematográfica. lembro de uma charge publicada num jornal americano dos anos 20: um menino dentro de um daqueles suntuosos palácios exibidores, pegado na mão da mãe, pergunta perplexo "Mãe, Deus mora aqui?"Por outro lado também faço parte da confraria dos baixadores de espíritos de celulóide(hoje bits eletrônicos).Quanto a memória das salas creio que faz parte do antigo ritual de ir ver um filme num cinema da cidade. Eu enho até uma mania de, ao rever um filme em DVd ou no TV, ficar lembrando da posição dele quando foi exibido em determinada sala( meio maluco, não ?)É mais ou menos como os fanáticos pelo futebol tentam situar no estádio local aquela trave histórica( por exemplo a do gol do Uruguai no Maracanã em 50 ou a dos mil gols de Pelé em 69)Paro por aqui para não complicar mais ainda, porém creio que você entendeu o espírito da coisa. Ou não ?