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19 julho 2009

"Rio Vermelho", de Howard Hawks


Se existe um clássico perfeito para caracterizar o western, o cinema americano por excelência na definição de André Bazin, Rio Vermelho (Red River, 1948), de Howard Hawks, é o exemplar mais autêntico e paradigma de outros filmes do gênero. É verdade que No Tempo das Diligências (Stagecoah, 1939), do mestre John Ford, lança as bases do arquétipico westerniano, mas a fita de Hawks representa, nove anos depois, uma espécie de cristalização e amadurecimento do western na sua mais pura tradução e pureza antes que o gênero seja contaminado pelo psicologismo. Obra-prima incontestável, Rio Vermelho faz parte de um quarteto junto com Onde Começa o inferno (Rio Bravo, 1959), Eldorado (idem, 1965), uma espécie de remake deste último, e, por fim, Rio Lobo (1972), realizado já no ocaso de carreira desse genial diretor, que, aqui, despede-se do cinema.
As fontes míticas do gênero estão na anexação do estado independente do Texas (1845) e a conseqüente guerra dos Estados Unidos contra o México (1846-1848), na descoberta do ouro na Califórnia (1848), na construção da via-férrea transcontinental "Union Pacific" (1864) e na guerra civil entre sulistas e nortistas, a chamada Guerra de Secessão, retratada em inúmeros filmes de O nascimento de uma nação (1914-15), de David Wark Griffifh a ...E o Vento Levou (Gone with the Wind, 1939), de Victor Fleming e David Selznick. Sobre a base da realidade histórica, o western, de fato, construiu uma mitologia, e o crítico André Bazin pôde dizer que o gênero nasceu do encontro de uma mitologia com um meio de expressão. Nele, o cowboy (vaqueiro) é elevado à dignidade de mito: o mito do homem livre, próximo de suas raízes telúricas e captado num estado nascente da sociedade, à qual tem de impor, pela força, a ordem e a prosperidade.
Howard Hawks é um exemplo raro de cineasta que é autor sem se prender a um gênero específico. Se faz westerns primorosos como Rio Vermelho, é capaz, também, de incursionar pelo musical (Os homens preferem as louras), pela comédia (Levada de Breca, Bola de fogo, O Inventor da Mocidade...), pela aventura (Hatari!...), pelo thriller (À Beira do Abismo/The Big Knife...), etc. Em todos os gêneros, entretanto, sua marca está presente, o comportamento de seus personagens é sempre igual, o estilo do cineasta nunca muda, chegando, mesmo, a se dizer da existência de um homus hawksiano.
Rio Vermelho se concentra na história da transferência de um rebanho de Rio Rojo a Abilene, onde os bois e vacas devem ser vendidos no mercado de gado. John Wayne é Thomas Dunson, o chefe, um déspota, que, com seus métodos brutais, provoca uma rebelião entre os vaqueiros.Um destes, Montgomery Clift (Matthew Garth) toma o comando e abandona Wayne, com um cavalo, em pleno deserto.Uma vez vendido o gado em Abilene, Wayne, que com muito esforço consegue chegar à cidade, desafia Clift, mas este, recusa-se a duelar e luta com Wayne com os punhos cerrados. Os dois parecem que não se compreendem, mas a astúcia de uma mulher (Joanne Dru), que Clift salva dos índios, consegue, por fim, a reconciliação entre os dois homens. Além das interpretações excelentes de Montgomery Clift e John Wayne (talvez em seu melhor papel no cinema), assim como a do elenco secundário (Walter Brennan, John Ireland, Noah Beery Jr...), o mais importante em Rio Vermelho é que este filme funciona como um excepcional documento da vida dos cowboys, seus costumes, seu folclore, o ambiente e a paisagem daquele período da colonização norteamericana.
E mais ainda: o sentido perfeito de cinema de Hawks, o alento épico, a paisagem, a simplicidade e força das personalidades individuais. "Rio Vermelho" é a história de uma amizade – um dos temas fundamentais da obra de Hawks. Clift, órfão, depois que seus pais são mortos pelos índios, é recolhido por Wayne que, na travessia de Rio Rojo a Abilene, se desentende com aquele que é quase um filho. O western mais telúrico de Hawks, ainda que Rio Bravo seja mais cortejado, Red River mostra o eterno conflito de seus personagens, que se resolve através de um itinerário físico, captado pela câmera com a força do imediatismo. A música de Dimitri Tiokim fica nos ouvidos.

7 comentários:

Stela B. de Almeida disse...

Mas você disse em aula que não existe essa demarcação de gêneros, me fez acreditar que a classificação é arbitrária. De todo modo o texto de hoje contém uma síntese muito bem elaborada do western, que não é o meu genero por definição, dizem também que as histórias de cowboy são coisas de macho, mas isso é puro preconceito porque percebe-se neste mito a história da colonização americana, sem dúvida prevalescendo a história dos machos.

André Setaro disse...

A demarcação de gêneros é um dos sustentáculos do sistema hollywoodiano, que, a rigor, se estabelecia pelo 'system studio', 'star system', e a divisão dos filmes em gêneros. Há o 'cinema de gêneros' e o 'cinema de autor'. Mas também existem autores que fazem cinema de gênero. O grande Howard Hawks é um exemplo, pois sabia incursionar, com rara sapiência, por diversos gêneros, principalmente a comédia e o western.

MOLOI LORASAI disse...

VIM ANUNCIAR que o meu documentário PARA LÁ DA SERRA não entrou na Jornada da Bahia. Concluo que os critérios técnicos estão à frente da arte.
Gostei do teu post sobre a montagem.

André Setaro disse...

Estou lendo sobre Montgomery Clift, um dos atores principais de 'Rio vermelho'. E por falar em machos, John Wayne, sabendo ser Clift homossexual, ainda que trabalhassem juntos no filme, não falava com ele e procurava ficar longe dele. Nas refeições, que eram feitas numa grande mesa, Wayne preferia ficar separado numa mesa pequena e solitário para não ficar perto de Clift, para não se 'contaminar', como disse. Mas no filme há diálogos marcantes, e os dois estão excelentes nas suas respectivas atuações. Mas, terminadas as filmagens, cada um deles ia para seu canto. O "Titio Ethan" de 'Rastros de ódio' nunca tolerou "viado" em sua frente. Conto o que li e não estou a tomar posição nem achando a atitude de John Wayne correta.

Mais: Wayne, quando soube ia interpretar 'face a face' com Clift quase recusa o papel e gritou com Howard Hawks: "Por que não me informou antes que ia contratar este VEADO?

Ha, ha, ha, ha, ha...

Filmes Polvo disse...

Peter Bogdanovich conta, no fundamental livro "Afinal, quem faz os filmes", que John Ford assistiu a "Rio Vermelho" e ficou estupefato com a intensa atuação de John Wayne, a quem, até então, o mestre considerava um ator medíocre. "Esse filho da puta sabe atuar", teria dito a alguém. Reza a lenda que, num encontro, anos depois, com Hawks, Ford teria lhe dirigido um olhar mortal, misto de inveja e admiração. Não é à toa que, logo após "Rio Vermelho", Ford tenha feito com Wayne "Legião Invencível", em que o papel do Duke lembra um pouco o do vaqueiro do filme de Hawks.

Jonga Olivieri disse...

O gênero "western", talvez por ter marcado a minha infância e adoloescência ficou marcado, e, para mim, quando surge um novo, eu não perco.

Todavia "weatern" criou uma mitologia da sociedade estadunidense que difere muito do que foi na realidade. Li um livro intitulado "O Faroeste" (The westernerrs) autoria de Dee Brown (Record/1974) entretem-se longamente na questão e nos mostra que a coisa estava mais para morte com tiro pelas costas e por emboscadas do que em duelos frente à frente que foram vangloriados pela tela.
Tudo isto faz parte da necessiade de contruir um "mito nacional" num frisson patriótico.
A soiedade estadunidense foi formada essencialmente pela força buta das armas contra o próximo, "principalmente quando o próximo estava próximo" e ameaçando os seus interesses.
Uma verdadeira selva de chumbo... Pelas costas!

Marcelo Miranda disse...

O comentário de "Filmes Polvo" aí em cima era meu.