Seguidores

07 setembro 2009

Quem se lembra de Lolló?

A mulher mais bela do mundo, diz o título de um filme com esta diva do cinema que, talvez, não seja mais nem conhecida nem lembrada pela nova geração: Gina Lollobrigida. La donna più bella del mondo, de 1959, de Robert Z. Leonard, que tem, no seu elenco, Vittorio Gassman, Robert Alda, Anne Vernon (a mãe de Deneuve em Les parapluies de Cherbourg, 1964, de Jacques Demy), foi um dos primeiros filmes que vi na vida. E que desapareceu de meu horizonte de cinéfilo. Mas é bom clicar na imagem para vê-la ampliada em outra janela e para que Gina possa ser contemplada no esplendor de sua beleza.

04 setembro 2009

A hora do cinema digital


Um dos mais competentes especialistas em cinema digital no Brasil., Luiz Gonzaga Assis De Luca acaba de lançar A Hora do Cinema Dgital - Democratização e Globalização do Audiovisual pela Imprensa Oficial de São Paulo dentro da Coleção Aplauso (Cinema & Tecnologia). Num momento em que o processo digital está a revolucionar não somente a produção, mas, também, a exibição cinematográficas, esta publicação é de leitura imprescindível, principalmente quando se verifica que várias pessoas ainda não entenderam bem o que vem a ser o digital em oposição ao antigo celulóide. Com excelente prefário de Gustavo Dahl, o livro de Luiz Gonzaga De Luca vai a fundo na questão.

O autor é homem de cinema, conhece profundamentos as injunções do mercado exibidor. Quando trabalhou na extinta Embrafilme, a sua participação foi decisiva para fazer da empresa uma líder do mercado, a atuar como seu distribuidor responsável por um período de três anos. Finda a experiência, que, para ele, foi muito importante, trabalhou na produção de desenhos animados e licenciamento de personagens e se assinala aqui outro pioneirismo: a da distribuição do videocassete doméstico. Há 20 anos, atua no setor da exibição cinematográfica, ocupando, atualmente, o cargo de diretor de relações institucionais do Grupo Severiano Ribeiro, a maior empresa exibidora de capital nacional. É também professor do curso de pós-graduação Film & Television Business da Fundação Getúlio Vargas. Graduado em Administração Pública,doutorou-se em Ciências da Comunicação na USP. Em 2004, lançou, também pela Aplauso, Cinema Digital: Um Novo Cinema?
Sobre o livro recente, que já inicei a sua leitura, algumas informações tiradas do site da Livraria Saraiva, onde a publicação pode ser encontrada (inclusive pela internet), entre outras boas livrarias brasileiras:
"As tecnologias digitais vêm provendo a substituição dos equipamentos de cinema. Embora muitos filmes já sejam gravados com câmaras digitais e existam mais de 6 mil cinemas digitais no mundo, ocorrem sérios entraves na substituição tecnológica, a começas pelas dificuldades de obtenção dos recursos necessários para financiar a compra dos novos aparelhos. A Hora do Cinema Digital - Democratização e Globalização do Audiovisual não é apenas uma atualização do livro anterior de Luiz Gonzaga Assis de Luca, Cinema Digital - Um Novo Cinema?. Mais do que responder às questões tecnológicas que ficam em aberto no livro anterior, e que se solucionaram nos últimos anos, discute as questões decorrentes da convergência digital que, ao mesmo tempo, une e separa a indústria cinematográfica. Este livro preenche uma lacuna na literatura da área, abordando um tema atual que interessa não só aos profissionais e aos interessados no cinema, como aos que atuam nas diferentes atividades do audiovisual: distribuidores de homevideo, criadores de games e produtores de programas para diferentes meios e veículos: televisão, telefonia, eventos e internet."

02 setembro 2009

A pulverização do cinema

Texto publicado no site Terra Magazine em 01.09.2009.
Apesar de já ter me referido, aqui, diversas vezes, não custa nada repetir que a estética do videoclip incorporada à narrativa cinematográfica contemporânea, principalmente aos produtos oriundos da indústria cultural de Hollywood, destrói o prazer de ver um filme pela impossibilidade de contemplá-lo devidamente. Para acompanhar a velocidade das mentes internéticas, a indústria descobriu que a melhor fórmula de envolver o espectador que não pensa e é apático é aquela baseada nos cortes incessantes e nas tomadas bem rápidas.

Até mesmo filmes razoáveis e bons, como Frost/Nixon, de Ron Howard, estão estruturados nesta estética, que já foi denominada de estética da tesourinha. Poucos os realizadores que possuem o conceito de duração das tomadas com a exatidão e o ritmo desejados pelo grande cinema. Para ficar num exemplo: Stanley Kubrick possuía um sentido exato da durée do plano. O conceito bem aplicado faz com que o espectador se envolva no espetáculo, a se tornar, dele, cúmplice. O que não é possível no cinema montanha-russa dos tempos atuais.

O público adolescente e aborrecente, que é o alvo da indústria, não pensa, não contempla, e faz da ida ao cinema uma das fases do shoppear. O filme é o que menos conta para a platéia de adolescentes que lotam as salas dos complexos aos sábados. Os espectadores atendem aos celulares e conversam o tempo todo, riem fora de hora, põem os pés (as patas) nas cadeiras dianteiras, quando não infernizam quem está na frente com toques infernais, e há, atualmente, uma tendência a se falar constantemente não somente ao telefone (que virou uma praga) como também com o amigo(a) ao lado. Sem falar, é claro, na comilança desenfreada (bacias e não mais saquinhos de pipocas, cheerburgueres, guloseimas gerais).

A conclusão a que se pode chegar é que o filme montanha-russa é reflexo da mentalidade da platéia, pois a indústria somente se interessa pelo lucro e, portanto, oferece apenas o que público solicita. E as pessoas que vão hoje ao cinema não se interessam em espetáculos engenhosos e inteligentes. Basta que possuam ação, tensão, efeitos especiais mirabolantes. A ausência do humanismo nos filmes contemporâneos é flagrante. Os personagens não possuem aquele tão necessário poder de verdade, de convencimento, mas são apenas e somente marionetes condutoras da ação proposta, títeres robóticos de um cinema sem alma.

Por outro lado, nesta crise da cultura contemporânea, há a tendência de se diluir autores importantes e viscerais, a exemplo do genial Nelson Rodrigues. Como bem observou a ensaísta de cinema Andrea Ormond em seu blog, Estranho encontro, ao fazer uma análise das adaptações cinematográficas do grande dramaturgo, a tendência de diluir é uma constante nestes tempos contemporâneos numa espécie assim de "imitação da arte".

A onda politicamente correta que assola e destrói a liberdade e a criatividade é outro fator que ajuda muito a crise cultural. Havia uma atitude visceral que agora se edulcora. Não existem mais autores de visceralidade sedutora como Pier Paolo Pasolini (principalmente no escatológico Saló, seu canto de cisne), Marco Ferreri (A comilança), entre muitos outros que vingaram no pretérito. Uma tendência dessa diluição crítica pode ser encontrada como exemplo em Beleza americana, de Sam Mendes, uma visão aparentemente crítica, porém dentro de uma vontade de edulcorar que sufoca o que se pretende ser visceral. Seu mais recente filme, Apenas um sonho, apresenta uma evolução dramática e cinematográfica.

Apesar da salgalhada desse artigo, há elos comunicantes entre os assuntos abordados, que refletem bem o fundo do poço a que se chegou no que teimam em chamar pretensiosamente de contemporaneidade: o comportamento selvagem da platéia das salas exibidoras, a apatia diante da arte, a ausência de humanismo nos filmes e na vida, a diluição de temáticas fortes e de autores viscerais em função de uma apreciação dentro de moldes à la delicatessen, a transformação do transitar na urbis em shoppings centers com seus imensos fasts foods.

E as assim chamadas salas de arte não se encontram livres da agitação. Aqueles que as frequentam fazem-no mais por festividade, para aparecer, do que, propriamente, pelo amor ao cinema. A diluição, a falta de base referencial, a completa ausência da cultura literária, e a proliferação dos monossílabos nos sites da internet, bem que são sintomáticos de uma crise cultural sem precedentes. O paradoxal em tudo isso se encontra na possibilidade extraordinária de se obter informações como nunca se viu antes no quartel de Abrantes.

O que reina é o império do audiovisual. A facilitação da expressão através das imagens em movimento se, por um lado, democratizou o acesso às câmeras digitais, por outro, determinou uma enxurrada de “inexpressividades”, como se pode observar nas dezenas de eventos que acolhem os pequenos filmes realizados pelo digital. Antes, o acesso à expressão cinematográfica era muito difícil. Havia a bitola 16mm, mas os custos, altos, não permitiam que qualquer um pudesse manipular a câmera, que exigia um mínimo de conhecimento técnico.

Filma-se hoje como antigamente se fazia poesias. Se, antes, as pessoas, que queriam se expressar, faziam-no pelos versos, e, quando publicados em suplementos literários ou revistas, sentiam-se revigorados, atualmente é o filme o móvel expressivo da nova geração. Bom que assim seja, mas o tempo, sempre implacável, se encarregará de reter o que presta e devolver, à lixeira do esquecimento, as tolices feitas.




A imagem é de Cão Branco, de Samuel Fuller. Seria bom soltar este cachorro numa sessão lotada numa tarde de sábado no Iguatemi.

31 agosto 2009

De coração partido




O repórter fotográfico ad hoc Jonga Olivieri (ad hoc porque, na verdade, é um publicitário tarimbado e faz um free lance para este blog com sua máquina digital) enviou mais duas fotos de dois cinemas do Rio de Janeiro: em cima as ruínas do Plaza e embaixo o Metro-Passeio (a imagem à esquerda o mostra em plena atividade e a da direita é a atual). Admirador dos cinemas cariocas, este bloguista sente o desaparecimento das magníficas salas da Cidade Maravilhosa e vê, aterrado, as ruínas do Plaza, enquanto as pipocas e as guloseimas triunfam nas salas dos complexos, quer sejam os Multiplex, quer sejam os Cinemarks (e assemelhados). No Metro-Passeio, que tem este nome porque ficava em frente ao Passeio Público, vi vários filmes, e me recordo, especialmente, de A filha de Ryan (Ryan's daughter, 1970), quando o cinema instalou projetores na bitola de 70mm. Dirigido por David Lean, com a sua habitual competência de narrador, Ryan's daughter, filmado na Irlanda, no telão do Metro-Passeio irradiou emoção pela sua belíssima fotografia a mostrar Sarah Milles com sua sombrinha sendo carregada pelo vento implacável sob os olhares argutos de Robert Mitchum e sob a batuta melódica de Maurice Jarre. Fazer o quê diante de uma sessão tão estimulante? Na saída, ir ao Amarelinho na Cinelândia para pensar o filme aos goles parcimoniosos de chopes bem tirados (aqueles chopes somente encontradiços no Rio de Janeiro). Era o que se poderia chamar de uma tarde inesquecível como matinée cinematográfica. Acredito que meu repórter fotográfico também deve ter se atirado aos pés do divino Chopp carioca (e aqui a maiúscula se faz mais do que necessária).
Tirei, e sem pedir licença, estas informações que vão abaixo, do site de Luiz Darcy, Saudades do Rio, que falam sobre o Metro-Passeio. Vamos a elas:
"O Metro-Passeio, inaugurado em 1936 na Rua do Passeio nº 62, chegou a ter 1821 lugares e, como se vê na foto, ficava ao lado da loja da Mesbla (em determinada época a Mesbla propôs arrendar o Metro para exibir sessões gratuitas para os seus clientes). O Metro-Passeio foi o segundo cinema do Rio a ter ar refrigerado (o primeiro foi o pequenino Varieté, que funcionou na Av. Atlântica nº 1080, de 1935 a 1942). É um exemplo de "art déco": o uso da verticalidade bem acentuada com suas linhas em direção ao infinito sugere um arranha-céu típico da cidade de Nova York."
E mais, e do mesmo site, uma notícia de jornal, com a ortografia da época:
"Um dos eventos mais sensacionaes do anno de 1936, foi sem duvida alguma a inauguração do Cine Metro. O Rio ganhou um de seus mais bellos e confortaveis cinemas. Deante de todos os factores que se apresentaram nesso novo cinema, não mais tornou-se crível a permissão das casas antigas com as mesmas pretensões. Foi o ponto de partida para uma remodelação, um melhoramento em regra. A cinematographia no Brasil ficou dividida em duas epocas: antes e depois do Metro".
Um comentário de Ana Lúcia no mesmo site (http://fotolog.terra.com.br/luizd:422):
"A Cinelândia é um "jardim precioso" de estilos arquitetônicos grandiosos. Há, na Praça Floriano, uma sucessão de prédios art-decó e semi-art-decó. Além do cinema Odeon (totalmente art-decó) o Metro BoaVista é um excelente exemplo deste estilo, que foi moda no Rio, mais encontrado nesta região. Os cinemas Metro foram um marco de excelência em salas de cinema, com prédios sempre muito bem projetados, em estilo sempre lindíssimo, muito acima dos outros cinemas todos, em termos de luxo e conforto internos. Mas, a mim me parece, às vezes, que o brasileiro em geral, não gosta de luxo e conforto, não gosta de ver belos prédios. Levando-se em consideração que os governantes são eleitos pelo povo e, em tese, o representam, o que se vê é sempre, na história do Rio, a substituição da tradição e da beleza pelo modernismo de gosto duvidoso. E do conforto das antigas salas de cinema pelas salinhas pequenas ou pelos grandes "depósitos de cinéfilos".
P.S: O Metro Passeio foi assim denominado em substituição a seu antigo nome Metro Boa Vista.

30 agosto 2009

"Avanti!", de Billy Wilder

Avanti!, de Billy Wilder, que aqui teve acoplado um sub-título (Amantes à italiana), comédia crepuscular de um extraordinário realizador (que, depois, ainda faria, A primeira página/The front page, 1974, Fedora, 1978, e Amigos, amigos , negócios à parte/Buddy, Buddy, 1981) sintetiza, admiravelmente, o cinema e a visão de mundo wylderianas.

Jack Lemmon é o milionário americano Wendell Armbuster, Jr, que, com o falecimento do pai ocorrido na Itália, vê-se obrigado a deixar as suas atividades para ir a este país para resolver os problemas da transferência do corpo para os EUA. O ponto de partida, antes da apresentação dos créditos, já dá uma idéia da graça e da espirituosidade do autor: enquanto um avião está parado à espera de levantar vôo, um jatinho pousa a seu lado, diminuto, a trazer Lemmon, ainda em roupas esportivas, que sobe, apressadamente, no outro. No interior da aeronave, conversa com um desconhecido e lhe segreda alguma coisa. Os dois se levantam sob os olhares estupefatos dos passageiros e se trancam no banheiro. Quando saem, Lemmom está vestido com o paletó e gravada enquanto o outro fica com as suas roupas de golfe. Dá-se a decolagem. Plano de detalhe das rodas do avião a se fechar para alçar voo. Partitura inebriante de Carlo Rustichelli. E os créditos se apresentam no espaço.

Ao chegar à Itália, Lemmom vem a saber que seu pai viera a morrer num acidente de carro ao lado da amante. E, para sua surpresa, vem a conhecer a filha dela (Juliet Mills), cuja estadia italiana também tem como objetivo a resolução dos trâmites protocolores em relação da corpo da progenitora. O conflito entre os dois se instaura mas, aos poucos, estabelece-se uma afetividade e uma relação amorosa. No final, apaixonados, Lemmom promete voltar todos os anos à Itália para se encontrar com ela - exatamente como seu pai.

Filmado in loco, Avanti! é uma comédia romântica tão engenhosa quanto inteligente. Mas, dito assim o seu argumento, apenas se pode ter uma idéia do que é realmente o filme. O mais importante nele é o tratamento dado ao tema, a maneira pela qual Wilder articula os elementos da linguagem cinematográfica, a lhes dar um dinamismo impressionante, além do mais considerando ser Avanti! baseado em uma peça teatral de autoria de Samuel A. Taylor, mas roteirizado com a energia e a esperteza de seu colaborador habitual I. A. L. Diamond

Quando vi Avanti! pela primeira vez, na tela grande do cinema, em 1974, impressionei-me pelos diálogos ironicos, envolventes, e, principalmente, pela mise-en-scène wilderiana. Sátira aos filmes viaggio in Italia, Avanti!, sobre ser uma comédia delirante, resume o cinema de Billy Wilder na sua visão do homem em conflito com o mundo e na sua peculiar esperteza de driblar as situações.

Não se tem mais, no cinema contemporâneo, uma comédia como Avanti! nem um diretor como Billy Wilder. A indústria cinematográfica americana marginalizou-o, quando, ainda em plena capacidade criativa, deixou-o sem trabalho, até a sua morte, ocorrida em 2002 (é de 1906), por longos 21 anos, considerando que seu derradeiro filme é de 1981: Amigos, amigos, negócios à parte. Wilder queixava-se amargamente da falta de oportunidade, porque aos 75, quando assina o seu último filme, ainda se encontrava em pleno vigor.

O cinema americano, após a crise de bilheteria dos anos 70, quando apostou, em sua primeira metade, nos cineastas mais arrojados e independentes, descoberto o filão guerra-nas-estrelas e a constatação de que o grande público era infanto-juvenil, concentrou-se na infantilização temática, a perder em invenção e ousadia até chegar, hoje, ao abominável cinema-montanha-russa das tomadas rápidas e dos efeitos mirabolantes.

Avanti! é um exemplo de como o cinema pode ser ao mesmo tempo um espetáculo agradável e inteligente.

Veja o trailer de Avanti! em meu outro blog: Momentos da arte do filme (http://setaroandreolivieri.blogspot.com/) E clique no cartaz para vê-lo maior.

26 agosto 2009

A questão "Revoada" vista de fora do Brasil


Recebi de Jorge Vital, que conheci, quando a Bahia era a Bahia e não a cidade engarrafada, congestionada e enfartada dos tempos atuais, esta mensagem que coloca bem a questão Revoada, principalmente por um estudioso que mora há algum tempo nos Estados Unidos. Vital acompanhou todo o imbroglio por este blog e pelas publicações do espaço virtual que deram conta do terrível castigo imposto a um cineasta idealista como José Umberto. Eis a sua mensagem, a sua visão e o seu parecer:

Caro André Setaro,
Este texto é a uma reação, uma resposta (desde o estrangeiro) ao seqüestro realizado por Rex Schindler do filme Revoada do cineasta baiano José Umberto Dias. Assim, escrevo-lhe sobre a minha relação com o cineasta e com a atividade artística baiana dentro do contexto econômico-político nacional.

Conheço José Umberto Dias desde 1968: éramos colegas do curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia (quando esta ainda estava localizada no bairro de Nazaré) da Universidade Federal da Bahia (UFBa). Naquele tempo, a convite do diretor iniciante Zé Umberto e do roteirista Zé Carlos Menezes, tive uma pequena participação ("ponta") no seu primeiro curta metragem Perâmbulo.
Tempo depois, ainda que estivesse fortemente interessado em sociologia, teatro e cinema, e já tivesse participado de algumas experiências teatrais com relativo êxito (como ator na peça Rebelião do Novo Sol de Capinan, Tom Zé e Chico Assis; como ator e co-diretor do Gey Espinheira na obra teatral Os Justos de Albert Camus; como ator e músico da peça Rosa-Rosae do professor Nelson Araújo, como ator principal do super-8 O Rei do Cagaço do Edgard Navarro), continuava dedicado a música e a composição musical, sendo então, tocador de violão, participante de festivais de música popular, e estudante de teoria, ritmo e violoncelo nos Seminários de Música da UFBa.
Foi nesse período que Zé Umberto também me convidou para compor uma das músicas do seu primeiro longa metragem O Anjo Negro (1973): aceitei imediatamente e compus a música que, ambos (ele e eu) ficamos satisfeitos com o resultado fílmico-musical.
Embora nascido em Salvador, vivo atualmente nos USA. Aqui neste país, tenho sido professor de Língua, Literatura e Estudos Culturais em diversas universidades norte-americanas: University of Califórnia, San Diego; University of Minnesota, Washington University, University of Wisconsin. Apesar da distância da terra natal, procuro, dentro do possível, acompanhar as realizações artísticas (filme, música, literatura...) e seguir a discussão cultural no Brasil, na Bahia, além de aproveitar para continuar falando e escrevendo na língua portuguesa com os amigos brasileiros. Faz um ano, estive na Bahia para o lançamento do meu livro Memorial da Ilha e Outras Ficções em Salvador, Feira de Santana e Lençóis. Em Salvador, estive constantemente acompanhado e assistido por muitos amigos, mas sobretudo por dois queridos amigos-artistas: o cineasta Edgard Navarro (que escreveu uma generosa matéria para o jornal A Tarde sobre meu livro) e a artista plástica Norma Couto (criadora da capa do citado romance).
Mas voltando a minha relação com o cineasta Zé Umberto e o filme O Anjo Negro, ainda vivia em Salvador quando fiquei sabendo que embora o filme tivesse sido exibido em várias capitais do país, teve seu lançamento nacional prejudicado pela estrutura colonial do mercado devido à sistemática submissão dos interesses nacionais aos interesses do capital estrangeiro (sobretudo da indústria de entretenimento norte americana).
Não era a primeira, nem a última vez que um filme brasileiro sério, realizado com muitas dificuldades materiais (dado a grande limitação financeira e material do setor cinematográfico) tivesse baixa assistência das pessoas, devido ao entreguista circuito exibidor brasileiro. Tampouco estas limitações eram reduzidas ao cinema: já era uma condição estrutural de todo processo de produção cultural e artística (literatura, música, artes plásticas...) brasileira, dentro do sistema capitalista, na sua vertente tupiniquim. Foi desde essa época que aprendemos que o Brasil não era, nem é, um país pobre; era e é sim, um país injusto, por isso colonizado e imperializado.
Também nesta época aprendemos que um dos objetivos centrais da política cultural da ditadura militar brasileira era inviabilizar (através da censura, do seqüestro, da prisão e da eliminação física de intelectuais e artistas) a produção cultural da resistência brasileira (fosse ela modernista, nacionalista de esquerda ou socialista). O exílio de Glauber Rocha, realizador de Deus e o Diabo na Terra do Sol e de Terra em Transe, foi e é um dos mais significativos emblemas daquela miserável política. Também nesse tempo aprendemos que um dos eixos centrais da política ditatorial consistia em neutralizar o crescimento do cinema nacional através do desenvolvimento tecno-burocrático do sistema televisivo (TV Globo e companhias) nacional para homogeneizar ideologicamente a mentalidade da sociedade brasileira por todo o território nacional, cooptando, simultaneamente, os tubarões, os delatores, os oportunistas, e os picaretas em geral dentro do setor.
A corrupção, a falta de transparência, a concentração de riqueza na mão de uma pequena minoria, o crescimento da disparidade econômica entre ricos e pobres, o aumento da violência no campo e cidade, foram e são as principais características antidemocráticas da sociedade brasileira que herdamos da ditadura militar; mas até hoje, não houve nenhuma punição para os militares responsáveis por toda essa desgraça social. A impunidade segue sendo a moeda corrente da nossa política nacional e local. (Para aqueles que ainda não notaram, mirem-se no exemplo do PT e do "nosso grande líder" o Sr. Lula da Silva, que atualmente anda abraçado com os senhores José Sarney e Fernando Collor, dois dos políticos mais degradados e corruptos da sociedade brasileira, ombro a ombro, com o ex-governador baiano, o finado Antonio Carlos Magalhães).
É dentro desse contexto histórico alucinante que me permito afirmar que o seqüestro do filme Revoada é muito mais do que um abuso de poder e da violência local contra o cineasta José Umberto ; é uma alegoria, e um sintoma da injustiça e da impunidade que devasta a sociedade brasileira contemporânea.
Observando retrospectivamente a presença dos tubarões capitalistas ou governamentais nas revoltas águas baianas da produção artística local (até onde sei, os mais notórios dos ataques predatórios se manifestaram no setor do cinema: Rex Schindler contra Luiz Paulino em Barravento, Vivaldo Costa Lima contra Tuna Espinheira na Fundação do Pelourinho, e, mais recentemente Moisés Augusto contra Edgard Navarro em Eu me lembro, Rex Schindler contra José Umberto em Revoada) me solidarizo não só com José Umberto e o filme Revoada mas com todos os trabalhadores das artes em geral e do cinema nacional em particular, vitimados pela sistemática opressão e exploração do capital nacional e estrangeiro.
Dado o anterior, tudo o que quero, concretamente, neste momento, deste texto, é pressionar para que o produtor Rex Schindler devolva ao diretor e roteirista José Umberto o material filmado de Revoada para que o diretor possa proceder a montagem e a edição do seu filme de acordo a sua concepção pessoal. É um direito inalienável e legítimo do autor baiano.
Para isso, seguiremos resistindo a opressão do Sr. Rex Schindler, e lutando para que as autoridades baianas despertem da sua acomodação burocrática e tomem as rédeas neste assunto absurdo: consigam a devolução imediata do material filmado de Revoada ao seu legítimo autor: o roteirista e diretor José Umberto.

Atenciosamente,

Jorge Vital de Brito Moreira

A imagem mostra um momento de Revoada, com Jackson Costa e Edlo Mendes.

24 agosto 2009

Manual descomplicado de roteiro

Roberto Lyrio Duarte Guimarães ou, como é mais conhecido, Roberto Duarte, lança, amanhã, dia 25 de agosto, a partir das 18 horas, no Instituto Goethe (Icba), que se localiza no Corredor da Vitória, o livro Primeiro Traço - Manual descomplicado de roteiro, um tratado sobre o roteiro cinematográfico ou, segundo as palavras do autor, "o meu pequeno manual". Na verdade, Roberto Duarte é um pesquisador que está sempre a refletir sobre a construção do roteiro e pode ser considerado um dos poucos especialistas no assunto. Há mais de uma década realiza oficinas quase permanentes abertas ao público que se destinam a ensinar, discutir, analisar, e pensar sobre a elaboração do roteiro, que é a pré-visualização de um filme. Excetuando-se os casos particulares, aqueles de cineastas que dispensam o roteiro, o fato é que este é imprescindível para um filme que se queira consistente e bem alinhavado. Duarte sabe caminhar pelos labirintos de sua construção.

A recomendação aqui é feita sem nenhuma hesitação. Leiam e comprem Primeiro Traço - Manual descomplicado de roteiro. E clique na imagem para ver a capa em tamanho maior. O livro é editado pela Edufba e contou com o apoio da Fapesb.

23 agosto 2009

Entrevista com o autor deste blog

Saiu, hoje, no jornal soteropolitano A Tarde, uma entrevista comigo, com este blogueiro que vos fala, dentro da série Memória Baiana que, sempre aos domingos, o antigo vespertino (hoje sai com as galinhas) publica com o propósito de resgatar tempos idos e vividos da velha província. A entrevista se encontra na íntegra em A Tarde On Line, gravada em vídeo, e, no jornal impresso, os trechos considerados os mais importantes pela repórter que me fez o interview. Não disse nada, como de hábito, bato nas teclas de sempre. Parece coisa de Narcísio ter colocado minha foto, mas, no afogadilho da pressa, não achei outra. De qualquer modo e de qualquer maneira, encontra-se condizente com o assunto. Muitas vezes, ao falar de certos assuntos, que, penso, são fatos e constatações da verdade, tocam a me chamar de saudosista. Costumo, nestes tempos de farta e abundante mediocridade, falar coisas desagradáveis, principalmente quando se trata da arte baiana, que se encontra em processo de metástase.
Para ver e ouvir a entrevista:

19 agosto 2009

Os Sem Cinema são, agora, maioria avassaladora

Se a miséria está instalada na cultura baiana (nada a ver com política cultural deste ou daquele governo, pois a coisa é crônica), no plano nacional, e no tocante ao cinema em particular, ir ao cinema somente é permitido à classe média alta para cima. O povo e a classe média estão praticamente excluídos, a formar uma geração dos Sem Cinema. Triste realidade. E assustadora, porque quem não se habitua cedo a ir ao cinema não vai nunca mais.
Sim, uma ida ao cinema atualmente significa um gasto considerável, que fura o orçamento do classe média, que está pagando a conta das bolsas familiares. A verdade é que, depois do Plano Real, a economia se dolarizou, os preços subiram muito e os salários, congelados em freezer potente. Um casal para ir ao Multiplex gasta, de saída, 32 reais, considerando que o ingresso custa a 16. Se quiser se empipocar, como é de praxe, mais uma grana – e os complexos de cinema cobram muito mais nas guloseimas compradas dentro deles. Mas, uma ida a seco, e de ônibus, adicione-se aos 32 dos ingressos, os 8 das passagens (2 reais por cabeça). O resultado assinala que um filme custa 40 reais. Muito caro. E o povo, e o povo, como é que pode ir ao cinema? Já que não mais existem os chamados cinemas de rua nem os de bairros?

Se formos fazer uma comparação entre o número de salas exibidoras que Salvador tinha em 1958 e o que tem atualmente, a conclusão é uma só: os cinemas estão fechando suas portas. Com uma população de, mais ou menos, quinhentos mil habitantes, a província possuía em torno de quase trinta salas, considerando, no cômputo final, as de primeira linha, os poeiras da Baixa dos Sapateiros, e os cinemas de bairro. Para arredondar o raciocino, que se coloque trinta salas em 1958 para quinhentos mil habitantes, sendo que cada uma delas tinha, em média, mil poltronas, variando entre as salas maiores, de quase duas mil cadeiras, como o Guarany e o Jandaia, e as menores, que beiravam a mil lugares. Para não haver crescimento das salas exibidores, e considerando, sempre, a densidade demográfica, nos dias que correm – e como correm!, com uma população de dois milhões e quinhentos mil habitantes – e, aqui, nivelando por baixo, Salvador deveria ter, no mínimo, cento e cinqüenta salas, pois a sua população, entre 1958 e 2005, aumentou cinco vezes. O cálculo é simples. Multiplicam-se as trinta salas do passado por 5 e se tem o número de cinemas que a cidade deveria ter e, repetindo-se, sem haver crescimento. Mas atualmente o que se tem é um máximo de trinta e cinco salas e cada uma com um máximo de 400 lugares, a maior parte se localizando nos complexos chamados Multiplex.

Então que se faça uma nova contagem, considerando que cada cinema, em 1958, tinha em média mil lugares e, hoje, trezentos. Trinta vezes mil, em 1958, é igual a trinta mil. Que se coloque, para ficar bem claro, em números inteiros: tinha-se, na província, nesta época, 30.000 lugares e, se o número for multiplicado por cinco, porque a população cresceu cinco vezes, tem-se o número redondo de 150.000. Este, o número que, para não se constatar crescimento, mas, apenas, manutenção, deveria a cidade possuir em número de lugares. Mas o que se tem atualmente? Com a média de 400 lugares e 35 salas, fazendo-se a multiplicação, o resultado é de 14.000 lugares. Que diferença brutal!

Se antigamente o povo ia muito ao cinema, hoje, como disse Gustavo Dahl, há alguns anos, no Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual, não tem acesso a ele. O cinema, que era um meio de comunicação de massa, atualmente é um veículo cujo acesso somente é possível à elite. Antes, existiam os cinemas de primeira linha, lançadores, que ficavam concentrados no centro histórico, os poeiras da Baixa dos Sapateiros e os de bairro. Luiz Carlos Barreto, que conhece muito bem a mercadologia cinematográfica, afirmou, em recente entrevista no Canal Brasil, que o ingresso custava em torno de um dólar e, nos cinemas de segunda, cinqüenta centavos. É como se hoje o ingresso para entrar numa das salas do Multiplex custasse dois reais e cinqüenta centavos, a inteira, a inteira! Mas quanto custa realmente? Em torno de quatorze reais. Como uma pessoa que ganha a miséria do salário mínimo pode freqüentar as salas de exibição? Ir com a família ao cinema? Nem pensar.

O Plano Real dolarizou a economia de uma forma perversa. O povo está excluído do cinema, assim como a chamada classe média baixa. A conclusão é estarrecedora e reveladora: apenas dez por cento da população baiana pode ir ao cinema, sendo que dois milhões e tanto de pessoas estão completamente fora da rota cinematográfica. Constatou-se, em pesquisa recente, que a maioria dos baianos nunca foi ao cinema. Um grupo organizou uma sessão cinematográfica num bairro periférico e o que se viu foi espantoso. As pessoas ficaram maravilhadas pelas imagens em movimento, pois estavam a contempla-las pela primeira vez. E isto aconteceu na região metropolitana de Salvador!
Na década de 50, o Brasil tinha perto de dez mil salas exibidoras. Em 1975, já se contavam apenas cinco mil. No ano passado, chegou a mil e novecentos. Os cinemas interioranos fecharam suas portas. Assim como aqueles de rua, como os antigos e inesquecíveis da Baixa dos Sapateiros e os de bairro. O que se constata é que os cinemas estão sendo construídos para o usufruto de uma elite que pode pagar os quatorze reais de ingresso, ainda a se refestelar com as guloseimas caríssimas que lhe são oferecidas no fast food. O público se infantilizou e se idiotizou. Ir ao cinema, antes um ritual, uma solenidade, uma função, atualmente é comparável a uma ida ao fast food.

Triste país!

16 agosto 2009

A miséria cultural baiana

Para este domingo, 16 de agosto, vamos novamente bater na tecla da cultura e da miséria.
Publicado originariamente na revista eletrônica Terra Magazine (04.08.2009)

Diz-se que a Bahia já teve seu Século de Péricles, uma alusão ao período efervescente que se situou nos anos 50 e na primeira metade dos 60, quando Salvador congregava o que havia de mais criativo na expressão artística. Estimuladas pela ação da Universidade Federal da Bahia, comandada, e com mão de ferro, pelo Reitor Edgard Santos, as artes desabrocharam com o surgimento do Seminário de Música, da Escola de Teatro, do Museu de Arte Moderna, dos inesquecíveis concertos na Reitoria, da porta da Livraria Civilização Brasileira na rua Chile, dos papos ao por do sol frente à estátua do Poeta, no bar e restaurante Cacique, dos debates calorosos da Galeria Canizares (no Politeama), da “boite” Anjo Azul (na rua do Cabeça), entre tantos outros pontos que faziam da Bahia um recanto pleno de engenho e arte.

Na Escola de Teatro, por exemplo, que, inicialmente, foi dirigida por Martim Gonçalves, montava-se, lá, de Bertolt Brecht, passando por Ibsen, Eugene O’Neill, entre tantos, a Strindberg, com um rigor inusitado, e tal era a excelência de seus espetáculos que vinham pessoas do sul do País, e até do exterior, vê-los encenados “in loco”. No curso de preparação de ator, o estudante levava alguns anos para poder participar de uma montagem teatral, iniciando a sua trajetória como um mordomo mudo ou de poucas falas. Somente ter o seu nome no programa da peça já era um prêmio, uma alegria, um consolo.

O recente livro, “Impressões Modernas – Teatro e Jornalismo na Bahia”, de Jussilene Santana, analisa a configuração do teatro como temática na imprensa baiana em meados do século XX e, pela primeira vez, faz justiça a Martim Gonçalves, o responsável pela excelência das montagens teatrais, criador da Escola de Teatro (que hoje tem o seu nome), mas muito criticado na sua época e até mesmo denegrido pelos opositores. Após a leitura deste livro imprescindível, a conclusão é única e inequívoca: sem Martim Gonçalves não se teria um teatro baiano do nível a que chegou, ainda que, décadas depois, tenha perdido todo o seu vigor, transformando-se num grande proscênio destinado à proclamação de “besteiróis”, honradas as exceções de praxe.

Cinqüenta anos depois, meio século passado, a realidade cultural baiana é uma antípoda da efervescência verificada, uma época que foi chamada, inclusive, de “avant garde” pela sua disposição de inovar, pela marca de vanguarda da mentalidade de seus artistas e intelectuais. Atualmente, a Bahia regrediu muito culturalmente a um estado, poder-se-ia dizer, pré-histórico, e o “homo sapiens” do pretérito se transformou no “pithecantropus erectus” do presente. Aquele estudante do parágrafo anterior, por exemplo, não existe mais.

Na Bahia miserável da contemporaneidade, qualquer um pode pular em cima de um palco, qualquer um se sente apto a dirigir uma peça, “mexer” com cinema, fazer filmes. Com as sempre presentes exceções de praxe, o teatro que se pratica na Bahia é um teatro besteirol, que faria corar aqueles que participaram da antiga escola de Martim Gonçalves.

A Bahia não está apenas mergulhada em bolsões de pobreza, na violência diuturna e desenfreada, com seu povo excluído de tudo – e até mesmo dos cinemas, mas do ponto de vista cultural a miséria é a mesma. Miséria cultural, descalabro, ausência do ato criador, apatia, desinteresse. Eventos existem para a satisfação de pseudo-intelectuais que não possuem as bases referenciais necessárias para a compreensão do que estão a ver ou a ouvir. O momento presente, se comparado aos meados do século passado, assinala uma regressão cultural sem precedentes. Como disse Millor Fernandes, a cultura é regra, mas a arte, exceção, o que se aplica sobremaneira sobre o estado atual da cultura baiana. Cultura se tem em todo lugar, mas arte é difícil, e a arte baiana praticamente não existe.

Com o desaparecimento dos suplementos culturais e o advento de normas editoriais que privilegiam o texto curto, além da incultura reinante pela assunção do império audiovisual em detrimento da cultura literária (vamos ser sinceros: ninguém hoje lê mais nada), a crítica cultural veio a morrer por falência múltipla das possibilidades de exercício da inteligência numa imprensa cada vez mais burra e superficial.

Sérgio Augusto, crítico a respeitar, que militou nos principais jornais cariocas, em entrevista ao “Digestivo Cultural”, site da internet (vale a pena lê-la na íntegra:
http://www.digestivocultural.com/entrevistas/entrevista.asp?codigo=10), do alto de sua autoridade no assunto, afirmou que o jornalismo cultural está morto e enterrado, ressaltando que se fosse um jovem iniciante não entraria mais no jornalismo porque não vê, nele, perspectivas para a crítica de cultura (área de sua especialidade).

Dava gosto se ler o Quarto Caderno do Correio da Manhã com aqueles artigos copiosos, imensos, que abordando cultura e artes em geral, eram assinados por Paulo Francis, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, José Lino Grunewald, Antonio Moniz Viana, entre tantos outros. A rigor, todo bom jornal que se prezasse tinha seu suplemento cultural. Aqui mesmo em Salvador, vale lembrar o do Diário de Notícias e o do Jornal da Bahia (em folhas azuis). Atualmente, resiste o Suplemento Cultural de A Tarde (mas, mesmo assim...).

A inexistência da crítica de arte não diz respeito apenas ao soteropolitano. É uma constatação geral no jornalismo brasileiro. Mas, e os cadernos culturais e as ilustradas da vida? Caracterizam-se pela superficialidade e servem, apenas, como guia de consumo, com suas resenhas ralas. Atualmente, os cadernos dois, assim chamados, são até contraproducentes porque elogiam o que deveriam criticar, colocando na posição de artistas personalidades que deveriam, no máximo, estar no departamento de limpeza de estações rodoviárias.

A crítica de arte serve justamente para isso: para, construtivamente, sem insultos, mas com argumentos sólidos, desmontar aquilo que não presta. Que falta não faz uma crítica de teatro séria, que, semanalmente, venha a apreciar o que se está a apresentar na cidade como literatura dramática! Ou uma crítica de artes plásticas. A interferência de um crítico faria corar muitos pintores que estão expondo na Bahia e posando como artistas. Assim também uma crítica de cinema que fosse menos paternalista com os “coitados’ dos cineastas baianos cujas imagens são a de “franciscanos” em busca da expressão cinematográfica, mas cujos resultados, em sua grande maioria, remetem o espectador aos braços de Morpheu, quando não à aporrinhação.

Se a miséria da cultura baiana é cristalina, a miséria da crítica cultural é, também, imensa. Que esmola pode ser dada para se acabar com ela?

10 agosto 2009

Pola Ribeiro tenta salvar "Revoada"

Vê-se uma luz no fim do túnel para a salvação de Revoada, de José Umberto, que foi montado à sua revelia com um resultado desastroso e que se revela totalmente oposto à concepção original de seu autor. E a luz está na intervenção de Pola Ribeiro, diretor-geral do Irdeb, e, também, o representante do audiovisual baiano, que tenta resolver o impasse.

Pola Ribeiro é o intermediário do acordo entre o produtor Rex Schindler e o cineasta José Umberto para que o império do Autor se mantenha de acordo com o projeto original aprovado pelo MinC (patrimônio público). O apoio de Pola Ribeiro se manifestou na sala de reunião da diretoria do Irdeb que teve as presenças de Edgard Navarro (Eu me lembro) e Luz Paulino dos Santos (roteirista original e diretor das primeiras filmagens de Barravento). As tratativas para solucionar o impasse também se desenvolveram com a reunião que Pola patrocinou com Umberto e a família de Rex Schindler.

Creio que o apoio de Pola Ribeiro é fundamental para se resolver esta questão difícil, cuja solução seria importante para o Cinema Baiano, principalmente no seu significado simbólico. Pola estaria, nesse sentido, na posição de um pacificador, e a resolução do impasse teria um significado extremamente importante para tirar o Cinema Baiano das sombas nas quais se encontra escondido pelas picuinhas desordenadas, pelos interesses comerciais, e pelo poder econômico a preponderar sobre a criação artística. Basta dizer que o Edital de Baixo Orçamento do MinC (do qual Revoada foi um dos vencedores) visa prestigiar a produção independente, a política do Autor de filmes. O que aconteceu com Revoada, assim é se me parece, descaracteriza o propósito e o objetivo precípuo dos editais do MinC, a transferir o processo de criação para os interesses nada autorais do produtor em questão.

Não se pode esquecer que Pau Brasil, de Fernando Belens (recentemente apresentado no encerramento do V Seminário do Cinema e do Audiovisual), O jardim das folhas sagradas, de Pola Ribeiro, O homem que não dormia, de Edgard Navarro, e Revoada, de José Umberto, são filmes que formam um dos arcos da evolução cíclica do Cinema Baiano. A cópia de Revoada, editada sem a presença de seu autor, espúria, não pode ser mostrada como exemplo de uma expressão individual, pois, sobre descaracterizar uma obra cinematográfica, desvirtua, como já disse, a razão de ser dos editais do Minc. Seus negativos estão íntegros, e a batalha consiste em dar a oportunidade de Umberto montar o seu filme segundo o seu projeto original. A intervenção política de Pola Ribeiro não ficaria restrita a uma intervenção para salvar apenas um filme, mas seria um beau geste em favor de todo o Cinema Baiano.

Como disse José Umberto: "O Cinema Baiano está envolvido atualmente por uma Sombra, e é preciso, o quanto antes, afastar este fantasma shakespeariano, porque, afastado, todos irão respirar o ar puro da criação inviolável". Mais: "A questão, hoje, não é de um filme em si, mas uma questão ética que transcende a individualidade de uma obra para alcançar a dimensão coletiva da inviolabilidade da obra artística na sua pureza original, porque, na verdade, o artista verte lágrimas de sangue ao ver sua obra inacabada."

Salvar Revoada, penso, é uma questão moral. E não há dúvida sobre isso. É superar um pesadelo, é limpar a estrada para um Cinema Baiano livre da consciência culpada. A História, nesse sentido, pede passagem.

E a passagem está sendo aberta com a intervenção de Pola Ribeiro, gestor administrativo, mas, e principalmente, também um criador de imagens em movimento.
MENSAGEM DE APOIO DE EDGARD NAVARRO
Recebi uma mensagem importante de apoio do cineasta Edgard Navarro
"Prezado André,
Atento às notícias sobre o filme REVOADA, de José Umberto, leio em seu blog que existe uma luz no fim do túnel para a salvação do filme, por intervenção de Pola Ribeiro, diretor do IRDEB. Venho dar o meu testemunho de que a solução está realmente a caminho, pois tenho acompanhado de perto o desenrolar dos fatos. O primeiro passo foi dado há cerca de 2 meses atrás, quando Pola recebeu o cineasta em seu gabinete, na presença de um assessor jurídico, para inteirar-se das possibilidades reais que o caso oferecia. Em solidariedade ao cineasta e amigo José Umberto (e juntamente com ele próprio), Luiz Paulino dos Santos e eu comparecemos à referida reunião, de onde saímos todos com a sensação de que finalmente uma solução será encontrada para pôr um feliz termo ao complicado episódio que tem emperrado a finalização de REVOADA. Depois daquele dia tenho me comunicado frequentemente com Pola e posso dizer que confio em que ele está realmente empenhado em resolver o problema, tendo se oferecido para mediar o diálogo entre os envolvidos e tentar, desta forma, a solução justa e pacífica que todos esperamos. Louvável sob todos os aspectos esta atitude do IRDEB, através de sua diretoria, demonstrando que, acima de quaisquer interesses individuais, prevalece a preocupação com a cinematografia baiana, que dentro em breve poderá contar com mais um filme de que se possa orgulhar. Aliás, não se poderia esperar outra atitude de uma pessoa que é e sempre foi apaixonada pelo cinema e que conhece o valor exato do que está em jogo. Esperamos para breve, portanto, o dia em que os negativos do filme REVOADA voltarão finalmente às mãos de seu autor pra que ele possa montá-lo como melhor lhe aprouver, segundo seu desejo e sensibilidade estética. Acreditamos mesmo que, juntamente com os negativos, estará sendo devolvida a confiança e algo da dignidade perdida por todos nós, que fomos impactados com a usurpação de um direito inalienável do criador. Reitero que o que está acontecendo se deve ao fato de que Pola também é um criador e sabe o quão precioso e intransferível é esse direito de que tratamos.
Saudações cinematográficas!
Edgard Navarro"

09 agosto 2009

O Pai Sandú

O publicitário Jonga Olivieri, bloguista (Novas Pensatas: http://novaspensatas.blogspot.com/), pintor e desenhista (http://pinturas-jonga.blogspot.com/ ) e, nas horas vagas, free-lancer como repórter fotográfico dos cinemas antigos do Rio de Janeiro, enviou-me, desta vez, para dar continuidade à serie sobre as antigas, e inesquecíveis, salas de projeção cariocas, uma montagem do Cinema Paissandú, que o mostra em seu auge e hoje, com as portas cerradas, acabado e fechado. O Pai Sandú, que resolvo chamá-lo assim porque um verdadeiro pai cinematográfico para toda uma geração de cinéfilos, constitui-se, nos anos 60, num point indispensável para todos aqueles que, cinéfilos, gostavam de assistir às últimas novidades do cinema mundial. Há um capítulo essencial sobre a Geração Paissandú em Um filme é para sempre, de Ruy Castro (Companhia das Letras), cuja leitura se faz obrigatória para todos os que gostam da arte do filme.
Após as exibições no Pai Sandú, as pessoas se reuniam em bares e pizzarias nas circunvizinhanças para discutir o último travelling de Godard. Ir ao cinema, naquela época, era uma festa (no melhor sentido). Uma festa para os sentidos, uma festa para o espírito, uma festa para a inteligência. Bebia-se muito chopp (e no Rio, o chopp é uma delícia dos deuses).

06 agosto 2009

Olney São Paulo

Para ver a programação da Homenagem a Olney São Paulo é preciso cliclar na imagem para vê-la ampliada em outra janela.
A primeira vez que ouvi falar de Olney São Paulo foi quando, em 1965, assisti a O grito da terra, seu primeiro longa metragem, na tela do cinema Excelsior, situado na Praça da Sé em Salvador. Lá se vão 44 anos. Mas me ficou na memória a bela fotografia em preto e branco e a música e letra do tema principal, além do fato de se constituir num filme genuinamente baiano - e mais: feirense.
Os anos se passam. Ouvi falar da proibição de Manhã cinzenta, filme no qual Olney registra os acontecimentos do explosivo ano de 1968 através de imagens ficcionais e documentais inseridas numa fábula meio surrealista. Um casal de estudantes, militantes e combativos, é preso e torturado, tendo, como algozes, um cérebro eletrônico e um robô. A censura não gostou nada e, além de proibir o filme, o seu autor, Olney, acabou a ter o mesmo destino dos personagens de seu filme: cadeia e tortura.

Em 1972, na primeira Jornada Baiana, sem a dimensão internacional que depois iria adquirir, mas apenas restrita aos filmes e mostras da soterópolis, vim a conhecer pessoalmente a figura de Olney São Paulo no jardim do Instituto Goethe, palco do evento. Olney, sobre ser um cineasta profundamente enraizado com a sua cultura e seu povo, era uma pessoa de lhano trato cuja característica principal, e poucos como ele, podia se destacar na simpatia, na afeição que tinha pelos seus semelhantes, longe da arrogância, da petulância e da pretensão de muitos de seus colegas realizadores cinematográficos. Esta simpatia singular, marca registrada de sua esfuziante personalidade, fazia-o querido por todos que dele se aproximavam.

Em 1975, com um ano de coluna na Tribuna da Bahia, eis que O forte, segundo longa, é lançado no Tamoio distribuído pela Embrafilme. Adaptação de um romance homônimo de Adonias Filho, O forte, no entanto, por problemas de produção, não alcançou um resultado satisfatório. Há lacunas e buracos que podem ser atribuídos à uma crise na produção, mas, crítico neófito, ousei criticá-lo em minha coluna da Tribuna. Na semana seguinte, recebo, na portaria deste jornal, um envelope a conter uma carta do cineasta com quatro laudas na qual rebate os meus comentários. Como na minha coluna não havia espaço para publicá-la, solicitei ao editor-chefe na época que, excepcionalmente, alargasse a coluna para conter, ipsis literis, a carta de Olney São Paulo. E assim aconteceu.
Pensei que depois dessa Olney estivesse retado comigo, mas, dois anos depois, numa outra jornada, encontro o cineasta no mesmo jardim do Goethe, sorriso largo, e, vindo em minha direção, abraçou-me. É um exemplo de sua personalidade, de sua integridade como homem e como artista. A partir de então, sempre me mandava fotografias e cartões sobre os filmes que estava a fazer até que, de repente, veio a dolorosa notícia de sua morte, a Implacável que o levou ainda jovem e disposto a muitas idéias e muitos filmes.

O crítico neófito que era não sabia que a concretização de O forte se constituiu por uma espécie de milagre, tamanhos os obstáculos, que tornaram a sua rodagem um verdadeiro calvário, uma via-crucis. Mas também a obra cinematográfica é o que está na tela, o resultado de um processo de elaboração.

A homenagem que a Prefeitura de Feira de Santana está a fazer a Olney São Paulo, inclusive com a inauguração de uma rua com seu nome, é uma homenagem mais que justa. Apesar de nascido em Riachão de Jacuípe, Olney viveu muitos anos em Feira de Santana e se considerava um feirense. Se um dos maiores cineastas baianos, Olney Alberto São Paulo é, sem sombra de dúvida, o maior realizador cinematográfico feirense de todos os tempos.
P.S: Publico aqui, para mais informações sobre Olney São Paulo, um texto do jornalista e poeta Gilfrancisco, que achei na internet.Gilfrancisco, conheço-o há mais de trinta anos desde a época da agitação icbana.
"Perdi mais um amigo. Quantos me restam? Recuso-me a contá-los. Mais um amigo que se vai, mais uma vida que se esvai. Olney Alberto São Paulo (8 de agosto, 1936; Riachão de Jacuípe-BA/ 15 de fevereiro, 1978; Rio de Janeiro-RJ). Considerado um dos cineastas fundamentais para a sétima arte brasileira, Olney São Paulo completa 29 anos de morto mas, continua infelizmente esquecido do grande público, apesar da sua vasta obra, entre curtas e longa-metragem e da importância histórica que ela assume. Em dezembro de 1975, patrocinado pela Cinemateca, pela primeira vez, foi possível o público brasileiro assistir à “Mostra Olney São Paulo”, com exceção do filme “Manhã Cinzenta”, proibido em todo território nacional.
A primeira vez que ouvi falar de Olney São Paulo foi em 1970, na residência (Edifício Nossa Senhora de Lourdes, Areial de Cima ap. 306- 2 de Julho) dos feirenses Antonio Álvaro, professor de alemão e filósofo e Ary da Silva Moreira, acadêmico de direito da UFBA, meu colega de repartição pública. No velho “balança mais não cai” tive conhecimento do compacto “Grito da Terra”, trilha sonora interpretada por Fernando Lona (1937-1977), uma preciosidade que guardo até hoje.
Pessoalmente, só o conheci em 1972 durante a Jornada Nordestina de Curta Metragem (BA), organizada por Guido Araújo, exatamente no dia 13 de setembro, quando ele (Olney) me presenteou com um exemplar do livro “A antevéspera e o canto do sol”. A partir daí fizemos uma boa amizade que se intensificou durante as filmagens do longa-metragem O Forte e, desta forma, cheguei a ser seu assistente de produção no filme dirigido por Guido Araújo “Festa de São João no Interior da Bahia” (1978) e Ciganos do Nordeste, documentário dirigido por ele (1978).
Feira de Santana
Na Princesa do Sertão, Olney estuda no Santanópolis (Colégio, Ginásio, Escola Normal e Escola Técnica de Comércio) e começa a se interessar pela obra de Jorge Amado, escrevendo-lhe algumas cartas (1956 e 1957) solicitando informações sobre andamentos das filmagens de algumas de suas obras. Sua primeira incursão como cineasta acontece logo após ter adquirido uma câmara Bell & Howell, com o documentário “O Bandido Negro”, sobre Lucas da Feira (1804-1849), chefe de bando terrível, terror de sua região, que durante 20 anos tornou-se personagem da literatura popular. O projeto não foi concluído por falta de recursos. Ainda estudante Olney revela-se como ator, teatrólogo e editor.Em Feira de Santana, Olney dirige dois números da revista Sertão (1961-1963), órgão da Associação Cultural Filinto Bastos. Esse número 1, capa de Duval Queirós, “Um dia em feira de Santana”, com 54 páginas, data de 1 de setembro de 1961, traz colaboradores como: Edgar Suzarte, João Assis, Raimundo Almeida e outros.
O segundo e último número da revista saiu em novembro de 1963, tendo capa “Mandacarus”, desenho do pintor feirense Juracy Dória Falcão, 54 páginas e colaboravam intelectuais como: Edivaldo Boaventura, Eurico Alves, Olney São Paulo, Jorge Amado e outros. Em 1961 Nelson Pereira dos Santos estava para fazer “Vidas Secas” (realizado posteriormente) no interior da Bahia, mas as chuvas, em abundância, impediram que isso ocorresse. Então ele improvisou um outro roteiro e resultou no Mandacaru Vermelho, rodado em Juazeiro do Norte, Ceará. Nesse filme Olney foi seu assistente, desta forma a experiência serve como porta de entrada para a sétima arte. Em Salvador, o jovem cineasta estabelece vários contatos com gente da geração nova, tendo Glauber Rocha à frente. Olney começava a vislumbrar novos rumos para o cinema brasileiro e, em 1963, foi assistente de direção de Oscar Santana no filme O Caipora.
Grito da Terra
Baseado no livro de Ciro Carvalho Leite, o filme tratava de questões agrárias e da fome no nordeste. Camponeses na luta pela terra e que ao sentirem-se famintos saqueiam para sobreviver. A pré-estréia aconteceu em novembro de 1964 na cidade de Feira de Santana. Aclamado no I Festival Internacional de Filmes da Guanabara, onde Ney conhece o cineasta baiano Fernando Coni Campos e trocam várias idéias. O resultado da conversa foi o registro dos dias negros brasileiro, no curta-metragem “Manhã Cinzenta”, realizado nos anos de 1968/1969, a partir do conto homônimo do cineasta baiano, que abre o livro “A antevéspera e o canto do sol”. O Grito da Terra é uma crônica rural, um depoimento sobre a vida do sertanejo desamparado e explorado.
Lamento de Justino, composição de Orlando Sena e Lona e Terra Seca, ambas com orquestração de Remo Usai, funciona perfeitamente no filme, sem quebrar o ritmo da narrativa, obtendo efeitos surpreendentes, valorizando dramaticamente as situações.
Manhã Cinzenta
No inicio de 1967, Olney aporta na “cidade maravilhosa”, terra de São Sebastião, que tanto amou e em cuja comunidade se integrou. Trazia dos confins do sertão baiano sua mulher e três filhos Ivigri, Olney e Pilar e seu filme O Grito da Terra. O roteiro de Manhã Cinzenta foi escrito ainda em Feira de Santana, mas Olney aproveitou a crise estudantil de 1968. Segundo ele “Manhã Cinzenta” é um projeto de um filme em três histórias, do qual participariam, além deste, mais dois episódios que eu ia fazer: uma comédia e um cinema-verdade”. Esse curta trata de um casal de estudante, em um país imaginário, que ao ouvir noticias de transformação política, com outros colegas, começa a imaginar torturas físicas e mentais, que culminariam com uma morte por fuzilamento. O conto foi escrito em 1966.
Em agosto, Olney exibe o filme em sessão especial no MAM (Museu de Arte Moderna) para alguns amigos cineastas. Por prudência, antes de enviá-lo para a censura, temeroso de cortes, fez várias cópias e enviou para diversos cineclubes do país e festivais internacionais. O filme teve sua exibição proibida no Brasil, com o rótulo de subversivo.
Prisão
Depois de ter sua residência invadida pelos militares à procura de documentos e projetos cinematográficos comprometedores, Olney foi levado pela polícia federal, permanecendo por dez dias em local desconhecido. Retornou doente, com pneumonia, que evoluiria, mais tarde, para câncer no pulmão.
Preso, torturado e depois processado pela ditadura militar, quando uma cópia do filme Manhã Cinzenta , documentário de 1968, censurado em todo o território nacional, encontrado na residência de um dos participantes do primeiro seqüestro político no país, embora nada tivesse a ver com a ação terrorista.
Glauber Rocha, criador do cinema novo, dedicou-lhe três páginas de louvor no livro Revolução do Cinema Novo, 1981, coletânea de artigos escritos sobre tudo: amigos, inimigos, cinema e até sobre sua sanidade mental, onde o considera como mártir e herói do cinema brasileiro: “Olney é a Metáfora de uma Alegorya. Retirante dos sertões para o litoral – o cineasta foi perseguido, preso e torturado. A Embrafilme não o ajudou, transformando-o no símbolo do censurado e reprimido. Manhã Cinzenta é o grande filmexplosão de 1968 e supera incontestavelmente os delírios pequeno-burgueses dos histéricos udigrudistas. Montagem caleidocóspia desintegra signos da luta contra o Systena – panfleto bárbaro e sofisticado, revolucionário a ponto de provocar prisão, turtura e iniciativa mortal no corpo de Artysta. O Cinema Nordestino, Cinema Popular metaforizado em Olney e Miguel Torres, vítimas dos invasores – Heroys do Brazyl!”.
O Forte
Mesmo durante os anos de chumbo, depois de muitas lutas, apesar da saúde fragilizada, Olney conseguiu filmar novamente, em 1972, quando assina contrato com a extinta Embrafilme (Empresa Brasileira de filme) e realiza O Forte, longa-metragem baseado no romance do escritor baiano Adonias Filho. Estive no set de filmagem por várias vezes, levado pelo amigo Guido Araújo, cuja filha Milena Araújo, na época com 3 ou 4 anos, era uma das personagens do filme, juntamente com Monsueto Campos de Meneses (1924-1973), compositor carnavalhesco, destacou-se com os sucessos: Me deixa em paz; A fonte secou; Mora na filosofia (gravado por Caetano Veloso).
No recinto fantasmagórico dos seus muros desenrola-se o que um crítico chama “o lado claro-escuro da vida”, uma mistura caleidoscópica do cotidiano, ou seja, os encontros clandestinos dos namorados Jairo e Tibiti, e do épico, a saber, as rápidas evocações de episódios marcantes, alguns sangrentos da história da Bahia (e portanto do Brasil) em que o Forte desempenhou algum papel: a chegada dos portugueses, a invasão holandesa, um levante de escravos.
No fim, o Forte – vestígio remanescente de um passado atribulado, injusto e muitas vezes glorioso – é demolido, ao mesmo tempo em que Jairo e Tibiti esperam o nascimento do seu primeiro filho, que jamais o verá. O Forte é um filme de tendência mais lírico que trágico: o que o Forte representa está espiritualmente vivo na mentes e nos atos dos homens. Segundo seu realizador, o filme “é uma história de amor que se passa na Bahia”.MorteApós as filmagens de Festa de São João no interior da Bahia, Olney de passagem por Salvador, almoçou comigo e Guido Guerra no Restaurante do Sesc, no Pelourinho. Conversamos mais uma vez sobre o projeto do longa-metragem, a Revolta dos Alfaiates, e combinamos que eu daria continuidade nas pesquisas para rever o material após seu retorno de Natal. Acho que ele estava envolvido numa filmagem sobre as fortificações no nordeste brasileiro.
Ultimamente Olney vinha trabalhando intensamente nesse projeto,longa-metragem histórico com ação passada no período do Brasil colônia, na Bahia, quando foi organizado um movimento popular, caracterizado como a primeira tentativa de libertação brasileira do jugo de Portugal. Semanas depois do nosso encontro, soube do seu internamento e que os médicos haviam diagnosticado câncer generalizado.
Visitei Olney São Paulo no Hospital da Beneficência Portuguesa, do Rio, juntamente com Guido Araújo, Luiz Orlando, Celinha e Vera Moss, quatro ou cinco dias anterior à sua morte; a conversa foi muito breve, Maria Augusta, sua mulher havia nos recomendado. Entreguei o número 3 do jornal alternativo “Universo”, dirigido por Damário Dacruz, que tinha um artigo seu, bem como texto/pesquisa que eu havia feito sobre a Conjuração dos Alfaiates, seu próximo projeto para a realização de um longa-metragem. O amigo estava muito debilitado pela doença, parecia uma criança, tinha um sorriso celestial e um olhar distraído. Estava no soro e respirava artificialmente, falava pausado com dificuldade. Disse-me “Gil Brega, vou ficar bom para fazermos muitos filmes; um pulmão já está bom o outro falta pouco para me recuperar”. Na verdade ele já havia perdido um pulmão e parte do outro, a doença devora-o rapidamente. Mas em momento algum demonstrou que estava no fim.
Falei algo que não recordo, em seguida saímos do quarto e fizemos alguns comentários no corredor.
Deixei aquela casa de saúde com a certeza de que não mais o veria. Com destino a Caxias do Sul (RS), onde participaria da XII Jornada Nacional de Cineclubes, dois dias após o início dos trabalhos, o presidente da mesa, Marco Aurélio, noticiava o seu falecimento, em 15 de fevereiro de 1978, após três paradas cardíacas, aos 41 anos. Em, seguida, o diretor da Cinemateca do MAM, Cosme Alves Neto, anunciava uma retrospectiva da sua filmografia. Ao retornarmos a Salvador, Guido Araújo providenciou junto ao Cosme a exibição da mostra em homenagem a Olney São Paulo no Clube de Cinema da Bahia.Olney publicou: A antevéspera e o Canto do Sol – prefácio de Alex Viana (1969);12 Contistas da Bahia, (1969); Moderno Conto Baiano (1974); Dezoito Contistas Baianos (1978). E teve recentemente publicado (1999) o livro Olney São Paulo e a peleja do cinema brasileiro, de Ângela José.Olney, deixou esposa e três filhos Irving (1966-2007), Ilya e Pilar."

05 agosto 2009

Do meu velho Cine Barlan

Era exatamente como este pequeno projetor que a imagem mostra: manivela verde, aparelho marrom, tudo igual. Em 1960, ainda com 9 anos de idade, ganhei este projetor com o qual passei anos a brincar com ele de exibição de filmes. Estes eram feitos de papel-manteiga desenhados com duas imagens e duas opções de movimento. Chamava-se Cine Barlan. Geralmente, os filmes, que eram girados pela manivela que se vê na foto, que, na verdade, girava-se apenas de cima para baixo e de baixo para cima, tinham em seus títulos: Ali Babá e os quarenta ladrões, Branca de Neve e os sete anões, O chapeuzinho vermelho etc. Que destino levou a minha máquina Barlan? Creio que, com o tempo, foi se quebrando e se destruiu.
Interessante observar que um objeto desses, na época de hoje, não despertaria nenhuma atenção com os novos suportes existentes: DVDs, internet etc. Mas, naquela época, o cinema tinha uma magia que não existe mais, pois as imagens em movimento eram exclusivas das salas de projeção. Ter um arremedo de cinema em casa já era uma maravilha mesmo que apenas por dois movimentos em cada quadro. Havia uma estupefação quando se via, pela primeira vez, um filme ou, melhor dizendo, quando se ia ao cinema pela primeira vez. Armando Maynard, de Aracajú/Sergipe, que tem um blog quase arqueológico sobre o cinema (http://fetichedecinefilo.blogspot.com/), deve ter conhecido o Cine Barlan, assim como o pessoal de minha geração.
Não duvido nada que Jonga Olivieri e Romero Azevedo também devam ter conhecido o Cine Barlan. Foi, para mim, um presente comprado nas Lojas Duas Américas da famosa rua Chile em Salvador, quando a Bahia era a Bahia com B maiúsculo e não a terra arrasada, violenta, dos tempos atuais. Havia, nas Lojas Duas Américas, um departamento de cinema e fotografia. Algumas pessoas da classe média alta compravam, neste, máquinas de fotografias caras e projetores na bitola 16mm. Constituía-se um luxo a família que possuía o projetor 16mm. Os filmes podiam ser alugados nas distribuidoras. A Metro Goldwyn Mayer, por exemplo, tinha um departamento exclusivo para o aluguel de fitas em 16mm, procuradas por famílias mais abastadas (eram muito caras) e clubes sociais. Outros tempos!

03 agosto 2009

A beleza do CinemaScope

Como é belo o cinemascope quando bem usado! Na imagem, um plano de O desprezo (Le mépris, 1963), de Jean-Luc Godard, que foi exibido semana passada, durante a mostra dedicada ao realizador pelo V Seminário de Cinema e Audiovisual, na sua integridade espacial. Em Le mépris, que reputo um dos melhores filmes do cineasta, Godard reflete sobre o processo de criação cinematográfica e, principalmente, sobre o tempo e o espaço. A imagem mostra Michel Piccoli chegando ao terraço, quando encontra, de bruços e com um livro aberto nas nádegas, a bela e eterna Brigitte Bardot. O desprezo já saiu em DVD em cópia boa, mas nada como o ver em tela de cinema, na bitola 35mm, como foi feito.