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07 setembro 2009
Quem se lembra de Lolló?

04 setembro 2009
A hora do cinema digital

02 setembro 2009
A pulverização do cinema
Até mesmo filmes razoáveis e bons, como Frost/Nixon, de Ron Howard, estão estruturados nesta estética, que já foi denominada de estética da tesourinha. Poucos os realizadores que possuem o conceito de duração das tomadas com a exatidão e o ritmo desejados pelo grande cinema. Para ficar num exemplo: Stanley Kubrick possuía um sentido exato da durée do plano. O conceito bem aplicado faz com que o espectador se envolva no espetáculo, a se tornar, dele, cúmplice. O que não é possível no cinema montanha-russa dos tempos atuais.
O público adolescente e aborrecente, que é o alvo da indústria, não pensa, não contempla, e faz da ida ao cinema uma das fases do shoppear. O filme é o que menos conta para a platéia de adolescentes que lotam as salas dos complexos aos sábados. Os espectadores atendem aos celulares e conversam o tempo todo, riem fora de hora, põem os pés (as patas) nas cadeiras dianteiras, quando não infernizam quem está na frente com toques infernais, e há, atualmente, uma tendência a se falar constantemente não somente ao telefone (que virou uma praga) como também com o amigo(a) ao lado. Sem falar, é claro, na comilança desenfreada (bacias e não mais saquinhos de pipocas, cheerburgueres, guloseimas gerais).
A conclusão a que se pode chegar é que o filme montanha-russa é reflexo da mentalidade da platéia, pois a indústria somente se interessa pelo lucro e, portanto, oferece apenas o que público solicita. E as pessoas que vão hoje ao cinema não se interessam em espetáculos engenhosos e inteligentes. Basta que possuam ação, tensão, efeitos especiais mirabolantes. A ausência do humanismo nos filmes contemporâneos é flagrante. Os personagens não possuem aquele tão necessário poder de verdade, de convencimento, mas são apenas e somente marionetes condutoras da ação proposta, títeres robóticos de um cinema sem alma.
Por outro lado, nesta crise da cultura contemporânea, há a tendência de se diluir autores importantes e viscerais, a exemplo do genial Nelson Rodrigues. Como bem observou a ensaísta de cinema Andrea Ormond em seu blog, Estranho encontro, ao fazer uma análise das adaptações cinematográficas do grande dramaturgo, a tendência de diluir é uma constante nestes tempos contemporâneos numa espécie assim de "imitação da arte".
A onda politicamente correta que assola e destrói a liberdade e a criatividade é outro fator que ajuda muito a crise cultural. Havia uma atitude visceral que agora se edulcora. Não existem mais autores de visceralidade sedutora como Pier Paolo Pasolini (principalmente no escatológico Saló, seu canto de cisne), Marco Ferreri (A comilança), entre muitos outros que vingaram no pretérito. Uma tendência dessa diluição crítica pode ser encontrada como exemplo em Beleza americana, de Sam Mendes, uma visão aparentemente crítica, porém dentro de uma vontade de edulcorar que sufoca o que se pretende ser visceral. Seu mais recente filme, Apenas um sonho, apresenta uma evolução dramática e cinematográfica.
Apesar da salgalhada desse artigo, há elos comunicantes entre os assuntos abordados, que refletem bem o fundo do poço a que se chegou no que teimam em chamar pretensiosamente de contemporaneidade: o comportamento selvagem da platéia das salas exibidoras, a apatia diante da arte, a ausência de humanismo nos filmes e na vida, a diluição de temáticas fortes e de autores viscerais em função de uma apreciação dentro de moldes à la delicatessen, a transformação do transitar na urbis em shoppings centers com seus imensos fasts foods.
E as assim chamadas salas de arte não se encontram livres da agitação. Aqueles que as frequentam fazem-no mais por festividade, para aparecer, do que, propriamente, pelo amor ao cinema. A diluição, a falta de base referencial, a completa ausência da cultura literária, e a proliferação dos monossílabos nos sites da internet, bem que são sintomáticos de uma crise cultural sem precedentes. O paradoxal em tudo isso se encontra na possibilidade extraordinária de se obter informações como nunca se viu antes no quartel de Abrantes.
O que reina é o império do audiovisual. A facilitação da expressão através das imagens em movimento se, por um lado, democratizou o acesso às câmeras digitais, por outro, determinou uma enxurrada de “inexpressividades”, como se pode observar nas dezenas de eventos que acolhem os pequenos filmes realizados pelo digital. Antes, o acesso à expressão cinematográfica era muito difícil. Havia a bitola 16mm, mas os custos, altos, não permitiam que qualquer um pudesse manipular a câmera, que exigia um mínimo de conhecimento técnico.
Filma-se hoje como antigamente se fazia poesias. Se, antes, as pessoas, que queriam se expressar, faziam-no pelos versos, e, quando publicados em suplementos literários ou revistas, sentiam-se revigorados, atualmente é o filme o móvel expressivo da nova geração. Bom que assim seja, mas o tempo, sempre implacável, se encarregará de reter o que presta e devolver, à lixeira do esquecimento, as tolices feitas.
31 agosto 2009
De coração partido


30 agosto 2009
"Avanti!", de Billy Wilder

Jack Lemmon é o milionário americano Wendell Armbuster, Jr, que, com o falecimento do pai ocorrido na Itália, vê-se obrigado a deixar as suas atividades para ir a este país para resolver os problemas da transferência do corpo para os EUA. O ponto de partida, antes da apresentação dos créditos, já dá uma idéia da graça e da espirituosidade do autor: enquanto um avião está parado à espera de levantar vôo, um jatinho pousa a seu lado, diminuto, a trazer Lemmon, ainda em roupas esportivas, que sobe, apressadamente, no outro. No interior da aeronave, conversa com um desconhecido e lhe segreda alguma coisa. Os dois se levantam sob os olhares estupefatos dos passageiros e se trancam no banheiro. Quando saem, Lemmom está vestido com o paletó e gravada enquanto o outro fica com as suas roupas de golfe. Dá-se a decolagem. Plano de detalhe das rodas do avião a se fechar para alçar voo. Partitura inebriante de Carlo Rustichelli. E os créditos se apresentam no espaço.
Ao chegar à Itália, Lemmom vem a saber que seu pai viera a morrer num acidente de carro ao lado da amante. E, para sua surpresa, vem a conhecer a filha dela (Juliet Mills), cuja estadia italiana também tem como objetivo a resolução dos trâmites protocolores em relação da corpo da progenitora. O conflito entre os dois se instaura mas, aos poucos, estabelece-se uma afetividade e uma relação amorosa. No final, apaixonados, Lemmom promete voltar todos os anos à Itália para se encontrar com ela - exatamente como seu pai.
Filmado in loco, Avanti! é uma comédia romântica tão engenhosa quanto inteligente. Mas, dito assim o seu argumento, apenas se pode ter uma idéia do que é realmente o filme. O mais importante nele é o tratamento dado ao tema, a maneira pela qual Wilder articula os elementos da linguagem cinematográfica, a lhes dar um dinamismo impressionante, além do mais considerando ser Avanti! baseado em uma peça teatral de autoria de Samuel A. Taylor, mas roteirizado com a energia e a esperteza de seu colaborador habitual I. A. L. Diamond
Quando vi Avanti! pela primeira vez, na tela grande do cinema, em 1974, impressionei-me pelos diálogos ironicos, envolventes, e, principalmente, pela mise-en-scène wilderiana. Sátira aos filmes viaggio in Italia, Avanti!, sobre ser uma comédia delirante, resume o cinema de Billy Wilder na sua visão do homem em conflito com o mundo e na sua peculiar esperteza de driblar as situações.
Não se tem mais, no cinema contemporâneo, uma comédia como Avanti! nem um diretor como Billy Wilder. A indústria cinematográfica americana marginalizou-o, quando, ainda em plena capacidade criativa, deixou-o sem trabalho, até a sua morte, ocorrida em 2002 (é de 1906), por longos 21 anos, considerando que seu derradeiro filme é de 1981: Amigos, amigos, negócios à parte. Wilder queixava-se amargamente da falta de oportunidade, porque aos 75, quando assina o seu último filme, ainda se encontrava em pleno vigor.
O cinema americano, após a crise de bilheteria dos anos 70, quando apostou, em sua primeira metade, nos cineastas mais arrojados e independentes, descoberto o filão guerra-nas-estrelas e a constatação de que o grande público era infanto-juvenil, concentrou-se na infantilização temática, a perder em invenção e ousadia até chegar, hoje, ao abominável cinema-montanha-russa das tomadas rápidas e dos efeitos mirabolantes.
Avanti! é um exemplo de como o cinema pode ser ao mesmo tempo um espetáculo agradável e inteligente.
Veja o trailer de Avanti! em meu outro blog: Momentos da arte do filme (http://setaroandreolivieri.blogspot.com/) E clique no cartaz para vê-lo maior.
26 agosto 2009
A questão "Revoada" vista de fora do Brasil

Recebi de Jorge Vital, que conheci, quando a Bahia era a Bahia e não a cidade engarrafada, congestionada e enfartada dos tempos atuais, esta mensagem que coloca bem a questão Revoada, principalmente por um estudioso que mora há algum tempo nos Estados Unidos. Vital acompanhou todo o imbroglio por este blog e pelas publicações do espaço virtual que deram conta do terrível castigo imposto a um cineasta idealista como José Umberto. Eis a sua mensagem, a sua visão e o seu parecer:
Caro André Setaro,
Este texto é a uma reação, uma resposta (desde o estrangeiro) ao seqüestro realizado por Rex Schindler do filme Revoada do cineasta baiano José Umberto Dias. Assim, escrevo-lhe sobre a minha relação com o cineasta e com a atividade artística baiana dentro do contexto econômico-político nacional.
Conheço José Umberto Dias desde 1968: éramos colegas do curso de Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia (quando esta ainda estava localizada no bairro de Nazaré) da Universidade Federal da Bahia (UFBa). Naquele tempo, a convite do diretor iniciante Zé Umberto e do roteirista Zé Carlos Menezes, tive uma pequena participação ("ponta") no seu primeiro curta metragem Perâmbulo.
Tempo depois, ainda que estivesse fortemente interessado em sociologia, teatro e cinema, e já tivesse participado de algumas experiências teatrais com relativo êxito (como ator na peça Rebelião do Novo Sol de Capinan, Tom Zé e Chico Assis; como ator e co-diretor do Gey Espinheira na obra teatral Os Justos de Albert Camus; como ator e músico da peça Rosa-Rosae do professor Nelson Araújo, como ator principal do super-8 O Rei do Cagaço do Edgard Navarro), continuava dedicado a música e a composição musical, sendo então, tocador de violão, participante de festivais de música popular, e estudante de teoria, ritmo e violoncelo nos Seminários de Música da UFBa.
Foi nesse período que Zé Umberto também me convidou para compor uma das músicas do seu primeiro longa metragem O Anjo Negro (1973): aceitei imediatamente e compus a música que, ambos (ele e eu) ficamos satisfeitos com o resultado fílmico-musical.
Embora nascido em Salvador, vivo atualmente nos USA. Aqui neste país, tenho sido professor de Língua, Literatura e Estudos Culturais em diversas universidades norte-americanas: University of Califórnia, San Diego; University of Minnesota, Washington University, University of Wisconsin. Apesar da distância da terra natal, procuro, dentro do possível, acompanhar as realizações artísticas (filme, música, literatura...) e seguir a discussão cultural no Brasil, na Bahia, além de aproveitar para continuar falando e escrevendo na língua portuguesa com os amigos brasileiros. Faz um ano, estive na Bahia para o lançamento do meu livro Memorial da Ilha e Outras Ficções em Salvador, Feira de Santana e Lençóis. Em Salvador, estive constantemente acompanhado e assistido por muitos amigos, mas sobretudo por dois queridos amigos-artistas: o cineasta Edgard Navarro (que escreveu uma generosa matéria para o jornal A Tarde sobre meu livro) e a artista plástica Norma Couto (criadora da capa do citado romance).
Mas voltando a minha relação com o cineasta Zé Umberto e o filme O Anjo Negro, ainda vivia em Salvador quando fiquei sabendo que embora o filme tivesse sido exibido em várias capitais do país, teve seu lançamento nacional prejudicado pela estrutura colonial do mercado devido à sistemática submissão dos interesses nacionais aos interesses do capital estrangeiro (sobretudo da indústria de entretenimento norte americana).
Não era a primeira, nem a última vez que um filme brasileiro sério, realizado com muitas dificuldades materiais (dado a grande limitação financeira e material do setor cinematográfico) tivesse baixa assistência das pessoas, devido ao entreguista circuito exibidor brasileiro. Tampouco estas limitações eram reduzidas ao cinema: já era uma condição estrutural de todo processo de produção cultural e artística (literatura, música, artes plásticas...) brasileira, dentro do sistema capitalista, na sua vertente tupiniquim. Foi desde essa época que aprendemos que o Brasil não era, nem é, um país pobre; era e é sim, um país injusto, por isso colonizado e imperializado.
Também nesta época aprendemos que um dos objetivos centrais da política cultural da ditadura militar brasileira era inviabilizar (através da censura, do seqüestro, da prisão e da eliminação física de intelectuais e artistas) a produção cultural da resistência brasileira (fosse ela modernista, nacionalista de esquerda ou socialista). O exílio de Glauber Rocha, realizador de Deus e o Diabo na Terra do Sol e de Terra em Transe, foi e é um dos mais significativos emblemas daquela miserável política. Também nesse tempo aprendemos que um dos eixos centrais da política ditatorial consistia em neutralizar o crescimento do cinema nacional através do desenvolvimento tecno-burocrático do sistema televisivo (TV Globo e companhias) nacional para homogeneizar ideologicamente a mentalidade da sociedade brasileira por todo o território nacional, cooptando, simultaneamente, os tubarões, os delatores, os oportunistas, e os picaretas em geral dentro do setor.
A corrupção, a falta de transparência, a concentração de riqueza na mão de uma pequena minoria, o crescimento da disparidade econômica entre ricos e pobres, o aumento da violência no campo e cidade, foram e são as principais características antidemocráticas da sociedade brasileira que herdamos da ditadura militar; mas até hoje, não houve nenhuma punição para os militares responsáveis por toda essa desgraça social. A impunidade segue sendo a moeda corrente da nossa política nacional e local. (Para aqueles que ainda não notaram, mirem-se no exemplo do PT e do "nosso grande líder" o Sr. Lula da Silva, que atualmente anda abraçado com os senhores José Sarney e Fernando Collor, dois dos políticos mais degradados e corruptos da sociedade brasileira, ombro a ombro, com o ex-governador baiano, o finado Antonio Carlos Magalhães).
É dentro desse contexto histórico alucinante que me permito afirmar que o seqüestro do filme Revoada é muito mais do que um abuso de poder e da violência local contra o cineasta José Umberto ; é uma alegoria, e um sintoma da injustiça e da impunidade que devasta a sociedade brasileira contemporânea.
Observando retrospectivamente a presença dos tubarões capitalistas ou governamentais nas revoltas águas baianas da produção artística local (até onde sei, os mais notórios dos ataques predatórios se manifestaram no setor do cinema: Rex Schindler contra Luiz Paulino em Barravento, Vivaldo Costa Lima contra Tuna Espinheira na Fundação do Pelourinho, e, mais recentemente Moisés Augusto contra Edgard Navarro em Eu me lembro, Rex Schindler contra José Umberto em Revoada) me solidarizo não só com José Umberto e o filme Revoada mas com todos os trabalhadores das artes em geral e do cinema nacional em particular, vitimados pela sistemática opressão e exploração do capital nacional e estrangeiro.
Dado o anterior, tudo o que quero, concretamente, neste momento, deste texto, é pressionar para que o produtor Rex Schindler devolva ao diretor e roteirista José Umberto o material filmado de Revoada para que o diretor possa proceder a montagem e a edição do seu filme de acordo a sua concepção pessoal. É um direito inalienável e legítimo do autor baiano.
Para isso, seguiremos resistindo a opressão do Sr. Rex Schindler, e lutando para que as autoridades baianas despertem da sua acomodação burocrática e tomem as rédeas neste assunto absurdo: consigam a devolução imediata do material filmado de Revoada ao seu legítimo autor: o roteirista e diretor José Umberto.
Atenciosamente,
Jorge Vital de Brito Moreira
A imagem mostra um momento de Revoada, com Jackson Costa e Edlo Mendes.
24 agosto 2009
Manual descomplicado de roteiro

A recomendação aqui é feita sem nenhuma hesitação. Leiam e comprem Primeiro Traço - Manual descomplicado de roteiro. E clique na imagem para ver a capa em tamanho maior. O livro é editado pela Edufba e contou com o apoio da Fapesb.
23 agosto 2009
Entrevista com o autor deste blog

19 agosto 2009
Os Sem Cinema são, agora, maioria avassaladora
Se formos fazer uma comparação entre o número de salas exibidoras que Salvador tinha em 1958 e o que tem atualmente, a conclusão é uma só: os cinemas estão fechando suas portas. Com uma população de, mais ou menos, quinhentos mil habitantes, a província possuía em torno de quase trinta salas, considerando, no cômputo final, as de primeira linha, os poeiras da Baixa dos Sapateiros, e os cinemas de bairro. Para arredondar o raciocino, que se coloque trinta salas em 1958 para quinhentos mil habitantes, sendo que cada uma delas tinha, em média, mil poltronas, variando entre as salas maiores, de quase duas mil cadeiras, como o Guarany e o Jandaia, e as menores, que beiravam a mil lugares. Para não haver crescimento das salas exibidores, e considerando, sempre, a densidade demográfica, nos dias que correm – e como correm!, com uma população de dois milhões e quinhentos mil habitantes – e, aqui, nivelando por baixo, Salvador deveria ter, no mínimo, cento e cinqüenta salas, pois a sua população, entre 1958 e 2005, aumentou cinco vezes. O cálculo é simples. Multiplicam-se as trinta salas do passado por 5 e se tem o número de cinemas que a cidade deveria ter e, repetindo-se, sem haver crescimento. Mas atualmente o que se tem é um máximo de trinta e cinco salas e cada uma com um máximo de 400 lugares, a maior parte se localizando nos complexos chamados Multiplex.
Então que se faça uma nova contagem, considerando que cada cinema, em 1958, tinha em média mil lugares e, hoje, trezentos. Trinta vezes mil, em 1958, é igual a trinta mil. Que se coloque, para ficar bem claro, em números inteiros: tinha-se, na província, nesta época, 30.000 lugares e, se o número for multiplicado por cinco, porque a população cresceu cinco vezes, tem-se o número redondo de 150.000. Este, o número que, para não se constatar crescimento, mas, apenas, manutenção, deveria a cidade possuir em número de lugares. Mas o que se tem atualmente? Com a média de 400 lugares e 35 salas, fazendo-se a multiplicação, o resultado é de 14.000 lugares. Que diferença brutal!
Se antigamente o povo ia muito ao cinema, hoje, como disse Gustavo Dahl, há alguns anos, no Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual, não tem acesso a ele. O cinema, que era um meio de comunicação de massa, atualmente é um veículo cujo acesso somente é possível à elite. Antes, existiam os cinemas de primeira linha, lançadores, que ficavam concentrados no centro histórico, os poeiras da Baixa dos Sapateiros e os de bairro. Luiz Carlos Barreto, que conhece muito bem a mercadologia cinematográfica, afirmou, em recente entrevista no Canal Brasil, que o ingresso custava em torno de um dólar e, nos cinemas de segunda, cinqüenta centavos. É como se hoje o ingresso para entrar numa das salas do Multiplex custasse dois reais e cinqüenta centavos, a inteira, a inteira! Mas quanto custa realmente? Em torno de quatorze reais. Como uma pessoa que ganha a miséria do salário mínimo pode freqüentar as salas de exibição? Ir com a família ao cinema? Nem pensar.
O Plano Real dolarizou a economia de uma forma perversa. O povo está excluído do cinema, assim como a chamada classe média baixa. A conclusão é estarrecedora e reveladora: apenas dez por cento da população baiana pode ir ao cinema, sendo que dois milhões e tanto de pessoas estão completamente fora da rota cinematográfica. Constatou-se, em pesquisa recente, que a maioria dos baianos nunca foi ao cinema. Um grupo organizou uma sessão cinematográfica num bairro periférico e o que se viu foi espantoso. As pessoas ficaram maravilhadas pelas imagens em movimento, pois estavam a contempla-las pela primeira vez. E isto aconteceu na região metropolitana de Salvador!
Na década de 50, o Brasil tinha perto de dez mil salas exibidoras. Em 1975, já se contavam apenas cinco mil. No ano passado, chegou a mil e novecentos. Os cinemas interioranos fecharam suas portas. Assim como aqueles de rua, como os antigos e inesquecíveis da Baixa dos Sapateiros e os de bairro. O que se constata é que os cinemas estão sendo construídos para o usufruto de uma elite que pode pagar os quatorze reais de ingresso, ainda a se refestelar com as guloseimas caríssimas que lhe são oferecidas no fast food. O público se infantilizou e se idiotizou. Ir ao cinema, antes um ritual, uma solenidade, uma função, atualmente é comparável a uma ida ao fast food.
Triste país!
16 agosto 2009
A miséria cultural baiana

Publicado originariamente na revista eletrônica Terra Magazine (04.08.2009)
Na Escola de Teatro, por exemplo, que, inicialmente, foi dirigida por Martim Gonçalves, montava-se, lá, de Bertolt Brecht, passando por Ibsen, Eugene O’Neill, entre tantos, a Strindberg, com um rigor inusitado, e tal era a excelência de seus espetáculos que vinham pessoas do sul do País, e até do exterior, vê-los encenados “in loco”. No curso de preparação de ator, o estudante levava alguns anos para poder participar de uma montagem teatral, iniciando a sua trajetória como um mordomo mudo ou de poucas falas. Somente ter o seu nome no programa da peça já era um prêmio, uma alegria, um consolo.
O recente livro, “Impressões Modernas – Teatro e Jornalismo na Bahia”, de Jussilene Santana, analisa a configuração do teatro como temática na imprensa baiana em meados do século XX e, pela primeira vez, faz justiça a Martim Gonçalves, o responsável pela excelência das montagens teatrais, criador da Escola de Teatro (que hoje tem o seu nome), mas muito criticado na sua época e até mesmo denegrido pelos opositores. Após a leitura deste livro imprescindível, a conclusão é única e inequívoca: sem Martim Gonçalves não se teria um teatro baiano do nível a que chegou, ainda que, décadas depois, tenha perdido todo o seu vigor, transformando-se num grande proscênio destinado à proclamação de “besteiróis”, honradas as exceções de praxe.
Cinqüenta anos depois, meio século passado, a realidade cultural baiana é uma antípoda da efervescência verificada, uma época que foi chamada, inclusive, de “avant garde” pela sua disposição de inovar, pela marca de vanguarda da mentalidade de seus artistas e intelectuais. Atualmente, a Bahia regrediu muito culturalmente a um estado, poder-se-ia dizer, pré-histórico, e o “homo sapiens” do pretérito se transformou no “pithecantropus erectus” do presente. Aquele estudante do parágrafo anterior, por exemplo, não existe mais.
Na Bahia miserável da contemporaneidade, qualquer um pode pular em cima de um palco, qualquer um se sente apto a dirigir uma peça, “mexer” com cinema, fazer filmes. Com as sempre presentes exceções de praxe, o teatro que se pratica na Bahia é um teatro besteirol, que faria corar aqueles que participaram da antiga escola de Martim Gonçalves.
A Bahia não está apenas mergulhada em bolsões de pobreza, na violência diuturna e desenfreada, com seu povo excluído de tudo – e até mesmo dos cinemas, mas do ponto de vista cultural a miséria é a mesma. Miséria cultural, descalabro, ausência do ato criador, apatia, desinteresse. Eventos existem para a satisfação de pseudo-intelectuais que não possuem as bases referenciais necessárias para a compreensão do que estão a ver ou a ouvir. O momento presente, se comparado aos meados do século passado, assinala uma regressão cultural sem precedentes. Como disse Millor Fernandes, a cultura é regra, mas a arte, exceção, o que se aplica sobremaneira sobre o estado atual da cultura baiana. Cultura se tem em todo lugar, mas arte é difícil, e a arte baiana praticamente não existe.
Com o desaparecimento dos suplementos culturais e o advento de normas editoriais que privilegiam o texto curto, além da incultura reinante pela assunção do império audiovisual em detrimento da cultura literária (vamos ser sinceros: ninguém hoje lê mais nada), a crítica cultural veio a morrer por falência múltipla das possibilidades de exercício da inteligência numa imprensa cada vez mais burra e superficial.
Sérgio Augusto, crítico a respeitar, que militou nos principais jornais cariocas, em entrevista ao “Digestivo Cultural”, site da internet (vale a pena lê-la na íntegra: http://www.digestivocultural.com/entrevistas/entrevista.asp?codigo=10), do alto de sua autoridade no assunto, afirmou que o jornalismo cultural está morto e enterrado, ressaltando que se fosse um jovem iniciante não entraria mais no jornalismo porque não vê, nele, perspectivas para a crítica de cultura (área de sua especialidade).
Dava gosto se ler o Quarto Caderno do Correio da Manhã com aqueles artigos copiosos, imensos, que abordando cultura e artes em geral, eram assinados por Paulo Francis, Otto Maria Carpeaux, Álvaro Lins, José Lino Grunewald, Antonio Moniz Viana, entre tantos outros. A rigor, todo bom jornal que se prezasse tinha seu suplemento cultural. Aqui mesmo em Salvador, vale lembrar o do Diário de Notícias e o do Jornal da Bahia (em folhas azuis). Atualmente, resiste o Suplemento Cultural de A Tarde (mas, mesmo assim...).
A inexistência da crítica de arte não diz respeito apenas ao soteropolitano. É uma constatação geral no jornalismo brasileiro. Mas, e os cadernos culturais e as ilustradas da vida? Caracterizam-se pela superficialidade e servem, apenas, como guia de consumo, com suas resenhas ralas. Atualmente, os cadernos dois, assim chamados, são até contraproducentes porque elogiam o que deveriam criticar, colocando na posição de artistas personalidades que deveriam, no máximo, estar no departamento de limpeza de estações rodoviárias.
A crítica de arte serve justamente para isso: para, construtivamente, sem insultos, mas com argumentos sólidos, desmontar aquilo que não presta. Que falta não faz uma crítica de teatro séria, que, semanalmente, venha a apreciar o que se está a apresentar na cidade como literatura dramática! Ou uma crítica de artes plásticas. A interferência de um crítico faria corar muitos pintores que estão expondo na Bahia e posando como artistas. Assim também uma crítica de cinema que fosse menos paternalista com os “coitados’ dos cineastas baianos cujas imagens são a de “franciscanos” em busca da expressão cinematográfica, mas cujos resultados, em sua grande maioria, remetem o espectador aos braços de Morpheu, quando não à aporrinhação.
Se a miséria da cultura baiana é cristalina, a miséria da crítica cultural é, também, imensa. Que esmola pode ser dada para se acabar com ela?
10 agosto 2009
Pola Ribeiro tenta salvar "Revoada"

Pola Ribeiro é o intermediário do acordo entre o produtor Rex Schindler e o cineasta José Umberto para que o império do Autor se mantenha de acordo com o projeto original aprovado pelo MinC (patrimônio público). O apoio de Pola Ribeiro se manifestou na sala de reunião da diretoria do Irdeb que teve as presenças de Edgard Navarro (Eu me lembro) e Luz Paulino dos Santos (roteirista original e diretor das primeiras filmagens de Barravento). As tratativas para solucionar o impasse também se desenvolveram com a reunião que Pola patrocinou com Umberto e a família de Rex Schindler.
Creio que o apoio de Pola Ribeiro é fundamental para se resolver esta questão difícil, cuja solução seria importante para o Cinema Baiano, principalmente no seu significado simbólico. Pola estaria, nesse sentido, na posição de um pacificador, e a resolução do impasse teria um significado extremamente importante para tirar o Cinema Baiano das sombas nas quais se encontra escondido pelas picuinhas desordenadas, pelos interesses comerciais, e pelo poder econômico a preponderar sobre a criação artística. Basta dizer que o Edital de Baixo Orçamento do MinC (do qual Revoada foi um dos vencedores) visa prestigiar a produção independente, a política do Autor de filmes. O que aconteceu com Revoada, assim é se me parece, descaracteriza o propósito e o objetivo precípuo dos editais do MinC, a transferir o processo de criação para os interesses nada autorais do produtor em questão.
Não se pode esquecer que Pau Brasil, de Fernando Belens (recentemente apresentado no encerramento do V Seminário do Cinema e do Audiovisual), O jardim das folhas sagradas, de Pola Ribeiro, O homem que não dormia, de Edgard Navarro, e Revoada, de José Umberto, são filmes que formam um dos arcos da evolução cíclica do Cinema Baiano. A cópia de Revoada, editada sem a presença de seu autor, espúria, não pode ser mostrada como exemplo de uma expressão individual, pois, sobre descaracterizar uma obra cinematográfica, desvirtua, como já disse, a razão de ser dos editais do Minc. Seus negativos estão íntegros, e a batalha consiste em dar a oportunidade de Umberto montar o seu filme segundo o seu projeto original. A intervenção política de Pola Ribeiro não ficaria restrita a uma intervenção para salvar apenas um filme, mas seria um beau geste em favor de todo o Cinema Baiano.
Como disse José Umberto: "O Cinema Baiano está envolvido atualmente por uma Sombra, e é preciso, o quanto antes, afastar este fantasma shakespeariano, porque, afastado, todos irão respirar o ar puro da criação inviolável". Mais: "A questão, hoje, não é de um filme em si, mas uma questão ética que transcende a individualidade de uma obra para alcançar a dimensão coletiva da inviolabilidade da obra artística na sua pureza original, porque, na verdade, o artista verte lágrimas de sangue ao ver sua obra inacabada."
Salvar Revoada, penso, é uma questão moral. E não há dúvida sobre isso. É superar um pesadelo, é limpar a estrada para um Cinema Baiano livre da consciência culpada. A História, nesse sentido, pede passagem.
E a passagem está sendo aberta com a intervenção de Pola Ribeiro, gestor administrativo, mas, e principalmente, também um criador de imagens em movimento.
Atento às notícias sobre o filme REVOADA, de José Umberto, leio em seu blog que existe uma luz no fim do túnel para a salvação do filme, por intervenção de Pola Ribeiro, diretor do IRDEB. Venho dar o meu testemunho de que a solução está realmente a caminho, pois tenho acompanhado de perto o desenrolar dos fatos. O primeiro passo foi dado há cerca de 2 meses atrás, quando Pola recebeu o cineasta em seu gabinete, na presença de um assessor jurídico, para inteirar-se das possibilidades reais que o caso oferecia. Em solidariedade ao cineasta e amigo José Umberto (e juntamente com ele próprio), Luiz Paulino dos Santos e eu comparecemos à referida reunião, de onde saímos todos com a sensação de que finalmente uma solução será encontrada para pôr um feliz termo ao complicado episódio que tem emperrado a finalização de REVOADA. Depois daquele dia tenho me comunicado frequentemente com Pola e posso dizer que confio em que ele está realmente empenhado em resolver o problema, tendo se oferecido para mediar o diálogo entre os envolvidos e tentar, desta forma, a solução justa e pacífica que todos esperamos. Louvável sob todos os aspectos esta atitude do IRDEB, através de sua diretoria, demonstrando que, acima de quaisquer interesses individuais, prevalece a preocupação com a cinematografia baiana, que dentro em breve poderá contar com mais um filme de que se possa orgulhar. Aliás, não se poderia esperar outra atitude de uma pessoa que é e sempre foi apaixonada pelo cinema e que conhece o valor exato do que está em jogo. Esperamos para breve, portanto, o dia em que os negativos do filme REVOADA voltarão finalmente às mãos de seu autor pra que ele possa montá-lo como melhor lhe aprouver, segundo seu desejo e sensibilidade estética. Acreditamos mesmo que, juntamente com os negativos, estará sendo devolvida a confiança e algo da dignidade perdida por todos nós, que fomos impactados com a usurpação de um direito inalienável do criador. Reitero que o que está acontecendo se deve ao fato de que Pola também é um criador e sabe o quão precioso e intransferível é esse direito de que tratamos.
Saudações cinematográficas!
Edgard Navarro"
09 agosto 2009
O Pai Sandú

06 agosto 2009
Olney São Paulo

Em 1972, na primeira Jornada Baiana, sem a dimensão internacional que depois iria adquirir, mas apenas restrita aos filmes e mostras da soterópolis, vim a conhecer pessoalmente a figura de Olney São Paulo no jardim do Instituto Goethe, palco do evento. Olney, sobre ser um cineasta profundamente enraizado com a sua cultura e seu povo, era uma pessoa de lhano trato cuja característica principal, e poucos como ele, podia se destacar na simpatia, na afeição que tinha pelos seus semelhantes, longe da arrogância, da petulância e da pretensão de muitos de seus colegas realizadores cinematográficos. Esta simpatia singular, marca registrada de sua esfuziante personalidade, fazia-o querido por todos que dele se aproximavam.
Em 1975, com um ano de coluna na Tribuna da Bahia, eis que O forte, segundo longa, é lançado no Tamoio distribuído pela Embrafilme. Adaptação de um romance homônimo de Adonias Filho, O forte, no entanto, por problemas de produção, não alcançou um resultado satisfatório. Há lacunas e buracos que podem ser atribuídos à uma crise na produção, mas, crítico neófito, ousei criticá-lo em minha coluna da Tribuna. Na semana seguinte, recebo, na portaria deste jornal, um envelope a conter uma carta do cineasta com quatro laudas na qual rebate os meus comentários. Como na minha coluna não havia espaço para publicá-la, solicitei ao editor-chefe na época que, excepcionalmente, alargasse a coluna para conter, ipsis literis, a carta de Olney São Paulo. E assim aconteceu.
O crítico neófito que era não sabia que a concretização de O forte se constituiu por uma espécie de milagre, tamanhos os obstáculos, que tornaram a sua rodagem um verdadeiro calvário, uma via-crucis. Mas também a obra cinematográfica é o que está na tela, o resultado de um processo de elaboração.
A homenagem que a Prefeitura de Feira de Santana está a fazer a Olney São Paulo, inclusive com a inauguração de uma rua com seu nome, é uma homenagem mais que justa. Apesar de nascido em Riachão de Jacuípe, Olney viveu muitos anos em Feira de Santana e se considerava um feirense. Se um dos maiores cineastas baianos, Olney Alberto São Paulo é, sem sombra de dúvida, o maior realizador cinematográfico feirense de todos os tempos.
05 agosto 2009
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03 agosto 2009
A beleza do CinemaScope
