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19 agosto 2009

Os Sem Cinema são, agora, maioria avassaladora

Se a miséria está instalada na cultura baiana (nada a ver com política cultural deste ou daquele governo, pois a coisa é crônica), no plano nacional, e no tocante ao cinema em particular, ir ao cinema somente é permitido à classe média alta para cima. O povo e a classe média estão praticamente excluídos, a formar uma geração dos Sem Cinema. Triste realidade. E assustadora, porque quem não se habitua cedo a ir ao cinema não vai nunca mais.
Sim, uma ida ao cinema atualmente significa um gasto considerável, que fura o orçamento do classe média, que está pagando a conta das bolsas familiares. A verdade é que, depois do Plano Real, a economia se dolarizou, os preços subiram muito e os salários, congelados em freezer potente. Um casal para ir ao Multiplex gasta, de saída, 32 reais, considerando que o ingresso custa a 16. Se quiser se empipocar, como é de praxe, mais uma grana – e os complexos de cinema cobram muito mais nas guloseimas compradas dentro deles. Mas, uma ida a seco, e de ônibus, adicione-se aos 32 dos ingressos, os 8 das passagens (2 reais por cabeça). O resultado assinala que um filme custa 40 reais. Muito caro. E o povo, e o povo, como é que pode ir ao cinema? Já que não mais existem os chamados cinemas de rua nem os de bairros?

Se formos fazer uma comparação entre o número de salas exibidoras que Salvador tinha em 1958 e o que tem atualmente, a conclusão é uma só: os cinemas estão fechando suas portas. Com uma população de, mais ou menos, quinhentos mil habitantes, a província possuía em torno de quase trinta salas, considerando, no cômputo final, as de primeira linha, os poeiras da Baixa dos Sapateiros, e os cinemas de bairro. Para arredondar o raciocino, que se coloque trinta salas em 1958 para quinhentos mil habitantes, sendo que cada uma delas tinha, em média, mil poltronas, variando entre as salas maiores, de quase duas mil cadeiras, como o Guarany e o Jandaia, e as menores, que beiravam a mil lugares. Para não haver crescimento das salas exibidores, e considerando, sempre, a densidade demográfica, nos dias que correm – e como correm!, com uma população de dois milhões e quinhentos mil habitantes – e, aqui, nivelando por baixo, Salvador deveria ter, no mínimo, cento e cinqüenta salas, pois a sua população, entre 1958 e 2005, aumentou cinco vezes. O cálculo é simples. Multiplicam-se as trinta salas do passado por 5 e se tem o número de cinemas que a cidade deveria ter e, repetindo-se, sem haver crescimento. Mas atualmente o que se tem é um máximo de trinta e cinco salas e cada uma com um máximo de 400 lugares, a maior parte se localizando nos complexos chamados Multiplex.

Então que se faça uma nova contagem, considerando que cada cinema, em 1958, tinha em média mil lugares e, hoje, trezentos. Trinta vezes mil, em 1958, é igual a trinta mil. Que se coloque, para ficar bem claro, em números inteiros: tinha-se, na província, nesta época, 30.000 lugares e, se o número for multiplicado por cinco, porque a população cresceu cinco vezes, tem-se o número redondo de 150.000. Este, o número que, para não se constatar crescimento, mas, apenas, manutenção, deveria a cidade possuir em número de lugares. Mas o que se tem atualmente? Com a média de 400 lugares e 35 salas, fazendo-se a multiplicação, o resultado é de 14.000 lugares. Que diferença brutal!

Se antigamente o povo ia muito ao cinema, hoje, como disse Gustavo Dahl, há alguns anos, no Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual, não tem acesso a ele. O cinema, que era um meio de comunicação de massa, atualmente é um veículo cujo acesso somente é possível à elite. Antes, existiam os cinemas de primeira linha, lançadores, que ficavam concentrados no centro histórico, os poeiras da Baixa dos Sapateiros e os de bairro. Luiz Carlos Barreto, que conhece muito bem a mercadologia cinematográfica, afirmou, em recente entrevista no Canal Brasil, que o ingresso custava em torno de um dólar e, nos cinemas de segunda, cinqüenta centavos. É como se hoje o ingresso para entrar numa das salas do Multiplex custasse dois reais e cinqüenta centavos, a inteira, a inteira! Mas quanto custa realmente? Em torno de quatorze reais. Como uma pessoa que ganha a miséria do salário mínimo pode freqüentar as salas de exibição? Ir com a família ao cinema? Nem pensar.

O Plano Real dolarizou a economia de uma forma perversa. O povo está excluído do cinema, assim como a chamada classe média baixa. A conclusão é estarrecedora e reveladora: apenas dez por cento da população baiana pode ir ao cinema, sendo que dois milhões e tanto de pessoas estão completamente fora da rota cinematográfica. Constatou-se, em pesquisa recente, que a maioria dos baianos nunca foi ao cinema. Um grupo organizou uma sessão cinematográfica num bairro periférico e o que se viu foi espantoso. As pessoas ficaram maravilhadas pelas imagens em movimento, pois estavam a contempla-las pela primeira vez. E isto aconteceu na região metropolitana de Salvador!
Na década de 50, o Brasil tinha perto de dez mil salas exibidoras. Em 1975, já se contavam apenas cinco mil. No ano passado, chegou a mil e novecentos. Os cinemas interioranos fecharam suas portas. Assim como aqueles de rua, como os antigos e inesquecíveis da Baixa dos Sapateiros e os de bairro. O que se constata é que os cinemas estão sendo construídos para o usufruto de uma elite que pode pagar os quatorze reais de ingresso, ainda a se refestelar com as guloseimas caríssimas que lhe são oferecidas no fast food. O público se infantilizou e se idiotizou. Ir ao cinema, antes um ritual, uma solenidade, uma função, atualmente é comparável a uma ida ao fast food.

Triste país!

12 comentários:

Caique Gonçalves disse...

Excelente texto, mestre Setaro, e lamentável constação. Vemos,atualmente, um sem número de salas de projeção fechando as portas. Cidades importantes do interior da Bahia não possuem uma mísera sala, como Catu e Juazeiro, só para citar as que eu tenho certeza. Outras tantas também não devem possuir tal "luxo". Os fechamentos das salas reflete apenas a preocupação mercadológica de que para funcionar tem que dar lucro. Perde os espectadores, perde a indústria cinematográfica nacional, perde os amantes da sétima arte. Sem contar que as salas ditas alternativas - Circuito Sala de Arte - cobram o mesmo preço dos complexos de cinemas dos Shoppings Centers - algo totalmente irreal e sem sentido.

Forte abraço

Anônimo disse...

Mais uma vez, caro Setaro, acho que as coisas melhoraram de um tempo pra cá, mesmo que pouco. Sim, já foi melhor, mas também, já foi pior, antes do circuito Sala de arte. Após a Sala de arte, tivemos o Espaço Unibanco, e ainda temos a promessa de mais outra sala, se não me engano, no bairro do Itaigara. Concordo quanto aos shoppings que, além de caro, há cultura da falta de educação, da qual me sinto sempre solidário quando você se manifesta a esse respeito. Mas, acho que houve um avanço pelo menos em relação ao número de salas. lembro que já foi bem pior, antes da Sala de Arte. E ainda acho covardia comparar com 50 ou 60 anos atrás. Quantro ao que Caique disse, é lógico que para funcionar tem que haver lucro, e eu não vejo problemas nisso. Se não houvesse lucro, todas as salas fechariam. Cinemá, antes de ser arte, é uma indústria, afinal, precisa de dinheiro, maquinas, sala de projeção, vida urbana e, principalmente, público. o que me fascina é como um meio tão industrial conseguiu se transformar em um meio de expressão artística eficiente. E por isso é tão importante incentivar o povo frequentar o cinema, pois, como arte, tem poder de interferência na cultura.

André Setaro disse...

Mas por que você não se identifica? Apesar de discordar, você é bem fundamentado.

Jonga Olivieri disse...

O Anônimo está concentrado em um aspecto que exclui outros.
Principalmente o cinema como diversão de massas... Bom, esta está descartada com ou sem salas especiais.
O resumo da ópera é que o povo foi completamente marginalizado da arte cinematográfica.

Efigênia Coutinho disse...

Triste país!
Postado por André Setaro
Grande guerreiro, meus cumprimentos ao espaço, serei sim uma divulgadora deste seu evento,
com admiração,
Efigênia Coutinho
Escritora

cau disse...

Em 14.06.69, Walter da Silveira escreveu no jornal A Tarde "Desgraçadamente, nem todos puderam ver no estrangeiro, como eu pude ver em Berlim. Terra em Transe parecia outra fita, em sua imagem e som todas as vozes límpidas e sem distorções. (Um dia, se a dublagem chegar, irá saber-se que o defeito sonoro no Brasil não está na gravação da película, mas na sua reprodução pela imensa maioria dos cinemas, não notando o público porque geralmente lê nas sublegendas os diálogos dos filmes estrangeiros....)."

O mesmo Walter da Silveira já havia escrito, anos antes, que a exibição em Salvador de Deus e o Diabo na Terra do Sol havia sido desastrosa “ninguém entendera bem o filme, sobretudo pela falta de salas capacitadas na cidade. Fui atacado por defender o filme, que ficou apenas uma semana em cartaz”.

Eram muitas as salas de cinema no Brasil, é verdade. A imensa maioria, em péssimas condições. Poucas tinham condições de exibição.

O público deixou de ser tolerante com as salas ruins, sobretudo diante de novos meios de entretenimento e lazer que surgiram nas décadas de 80 e 90. As salas tiveram que se modernizar, investir em som e imagem, mas também conforto. São os novos tempos, que, entendo, não são melhores nem piores que os demais. Apenas diferentes, com coisas melhores e outras piores.

Abraços,

Cláudio Marques

Anônimo disse...

Jonga Olivieri, você resumiu a ópera. Mas isso é fácil, difícil é explicá-la. O cinema "como diversão de massas" é o próprio cinema, em sua essência. Algo que, para existir, careça de uma sala de projeção, só pode ser para "diversão de massas", e eu não vejo nenhum problema nisso. É lógico que o cinema transcende essa questão, mas, mais uma vez, o fascinante é exatamente isto – como algo tão feito para as massas consegue ser, dentre outras coisas, uma arte tão capaz de interferir e caracterizar um contexto. E quando eu digo "feito para as massas", para mim isso é um elogio, afinal, Setaro, neste artigo, reclama ainda no primeiro parágrafo que “o povo e a classe média estão praticamente excluídos a formar uma geração dos Sem Cinema”. Poderíamos substituir “o povo e a classe média” por “massas”? Sei que a questão é outra, que isso não explica tudo, mas já que é para resumir a ópera, as salas de Salvador vivem cheias. Resumindo novamente, o que eu quero dizer, mais uma vez, é apenas que já foi pior. E como Cláudio Marques reforça, "os novos tempos não são melhores nem piores que os demais. Apenas diferentes, com coisas melhores e outras piores". Como podemos ver, Walter da Silveira reclamava há anos, Setaro reclama hoje, e, ainda bem, vamos continuar reclamando. Mas é bom também, quando há melhoras, reconhecê-las.

Davi Lopes Ramos disse...

À parte de outros comentários, cabe acrescentar: de 50 para cá, a dieta de audiovisual da população consideravelmente. Hoje temos, além da TV, o DVD e o computador a disputar nosso apetite por enredos e imagens. De qualquer forma, acredito que uma alimentação balançeada é o segredo para a saúde cultural, e o item "cinema" é cada vez mais raro e maltratado. O politicamente incorreto DVD pirata, no entanto, vem suprindo uma função que não foi ainda estudada: é o cinema do pobre, e existem verdadeiros "cinéfilos" (ou "piratéfilos", que seja) se formando nas banquinhas de camêlo, formando gostos e preferências. Não é o grande cinema, mas é cinema (ou simplesmente "filme", para quem teme jogar o termo na lama) popular se proliferando a olhos visto. Não vê quem não quer.

Jonga Olivieri disse...

Caro Anônimo.
Quando eu digo "massas", são as massas mesmo.
Pergunte ao professor Setaro que ele sabe disto.
Nós pegamos um tempo em que o operário, a empregada doméstica, etc, etc, podiam ir a um cinema e se divertir.
Hoje só a "elite" pode frequentar as salinhas exibidoras.
Esta é a essência das coisas.

Achel Tinoco disse...

Basta ver que na Bahia menos de dez por cento das cidade têm cinema. Mas para que cinema, ao povo basta o circo e o político como palhaço sobre o picadeiro enganando toda a gente. Assim caminha a humanidade daqui.

www.achel.zip.net

Davi Lopes Ramos disse...

Faltou um verbo:

*À parte de outros comentários, cabe acrescentar: de 50 para cá, a dieta de audiovisual AUMENTOU consideravelmente.

Anônimo disse...

Primeiramente, muito bom o texto. Ele mostra a triste realidade dos cinemas em Salvador.
Bons tempos em que o centro da cidade tinha os chamados cinemas de rua e também os de bairros: Art (que era muito bom), Bahia, Excelsior (que eu saiba o espaço que era ocupado pelo cinema permanece abandonado), Glauber Rocha(felizmente voltou a funcionar). O Tamoio resistiu bastante (fechou apenas em 2005) e o ingresso era barato (R$ 4, preço único), mesmo assim tinha poucos expectadores. Esses cinemas fecharam por dois motivos: a insegurança, principalmente à noite e o surgimento das salas co circuito Multiplex. Nada contra os cinemas de Shopping, mas há espaço na cidade tanto para esses quanto para os de rua e de bairro.
Uma coisa boa foi o surgimento das salas do circuito Sala de Arte.
Infelizmente, os cinemas estão cada vez menos acessíveis as pessoas de baixa renda (citado no texto). Os preços são salgados, mesmo no circuito Sala de Arte.
Além do ingresso salgado, há ainda o gasto com transporte e também com lanche, que no final, a pessoa gasta uma quantia considerável.
Se foracompanhada pior. É preciso que os ingressos sejam barateados. Atualmente, apenas o Ponto Alto e sala Walter da Silveira vendem ingressos a preços acessíveis.
O número de salas no país já foi bem maior. Menos de 10% dos municípios do país hoje possuem pelo menos uma sala de cinema.

Fábio Sampaio