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27 maio 2007

A roda da fortuna



Na década de 90 dois realizadores americanos despontaram na preferência da crítica: os irmãos Joel e Ethan Coen, principalmente depois do impacto em Cannes de Barton Fink, em 1991. Seu melhor filme, no entanto, na minha opinião, continua sendo A roda da fortuna (The hudsucker proxy, 1994), uma comédia de invenção que remete ao cinema de Frank Capra, principalmente, Billy Wilder, com alusões diversas (de Metrópolis, de Fritz Lang, a Cidadão Kane, de Orson Welles). Mas os irmãos Coen se perderam nesta última década e se encontram muito longe de seus sucessos pretéritos. Poucos os cineastas que, reconhecidos, entram, assim, em franca decadência, ainda que seus últimos trabalhos não sejam desprezíveis. A roda da fortuna é um primor de narratividade, de invenção de fórmulas, de cinema enquanto explicação do próprio cinema, uma obra cinematográfica na qual a narrativa tem uma função primordial em relação ao que está sendo contado. Os interiores da empresa de Hudsucker, com a disposição espacial dada pelos enquadramentos dos Coen, o busto do fundador da companhia que se suicida, as mesas, a altura, etc, fazem sugerir a biblioteca de Thatcher em Kane e a disposição de Welles na maneira de enquadrar, dispor os objetos no quadro fílmico. Por outro lado, a fábula é Frank Capra, e o anjo, no final, interpretado por Charles Durning, vem a lembrar, imediatamente, A felicidade não se compra (It' wonderful life, 1946). Os escritórios com as mesas enfileiradas remetem à cenografia que Alexandre Tauner fez para Billy Wilder em Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960), que, pensei nas últimas semanas, colocaria entre os dez maiores filmes de todos os tempos (pena que não tenha cópia em DVD). O 'subterrâneo', onde ficam os empregados menos graduados, pode fazer recordar Metrópolis (1928), clássico de Lang.
Joel e Ethan Coen sabem fazer emergir a mise-en-scène como na seqüência final, quando Tim Robbins se joga do alto do edifício da empresa e, de repente, o tempo pára, e, neste interregno, encontra o velho empresário que praticara o mesmo gesto suicida. Paralelamente ao que acontece entre os dois personagens, Robbins e Charles During, efetua-se a luta contra o tempo entre o seu vigilante, que parou o tempo para tentar ajustar as coisas - dirigindo-se, inclusive, ao público antes de acionar o dispositivo, e aquele careca que deseja o desastre - o que aparece sempre a pintar os letreiros da porta de vidro. Há também, entre outros momentos, muita criatividade no processo de lançamento do bambolê desde a idéia inicial até a sua colocação no mercado, a expectativa gerada diante de sua viabilidade comercial, o estouro de vendas, a introdução de noticiários em branco e preto fakes, o menino que, por acaso, pegando um bambolê jogado fora, acionando-o, vira atração da garotada do colégio vizinho. Os Coen fazem da narrativa um instrumento poético para uma comédia que reflexiona sobre os clichês do cinema do pretérito para contar uma fábula de maneira inteligente e encantadora.

Recomendaria para quem gosta de cinema que fosse procurar The hudsucker proxy nas locadoras. Vale a pena. No elenco, Tim Robbins, Jennifer Jason Leigh, Paul Newman, Charles Durning, Sam Raimi, John Mahoney, entre outros. A iluminação é de um artista: Roger Deakins, e a partitura, extremamente funcional, de Carter Bartwell.

8 comentários:

Davi Lopes Ramos disse...

Eu não poderia concordar mais!

Acho esse filme excelente, um primor de narrativa, e tecnicamente o melhor dos Coen. Além do trabalho diferenciado de enquadramento, também me impressionaram os diálogos afiados, o texto redondo e surpreendente, que não se perde em momento algum, se constituindo em verdadeira aula de como se deve escrever e atuar falas!

André Setaro disse...

Realmente, 'The Hudsucker proxy' é o filme mais bem construído dos Coen. Um primor de cinema, de construção de 'mise-en-scène', um primor de fábula, que remete aos belos momentos de Capra, um diálogo afinado, acelerado, inteligente (vide Jennifer Jason Leigh e John Mahoney na redação do 'Argus'). Você soube ver 'A roda da fortuna', caro Davi.

Maria Bouzas disse...

Fraco, este Roda da Fortuna, um dos mais fracos. Gosto de Blood Simple, muito mais bem resolvido.

André Setaro disse...

O que significa 'um filme bem resolvido'? Há jargões, nesta maldita contemporaneidade, que são empregados para justificar uma opinião. O filme 'bem resolvido' é um exemplo, assim como o roteiro 'cheio de buracos', a narrativa 'clicherizada', 'bem hollywoodiana', ou 'enxuta' - agora me lembrei de uma chanchada brasileira: 'Garota enxuta'. Um filme pode ser belo e bom se 'rasga' as estruturas de linguagem assim como se obedece, plano a plano, a narrativa 'hollywoodiana' baseada na progressão dramática de Griffith. O que importa é o 'touch', o talento daquele que realiza o filme, a maneira pela qual aplica nele os elementos da linguagem cinematográfica. O resto é besteira e pedantismo, 'contemporaneidade' (escutai o mestre Harold Bloom) e os chavões da mesmice.

Davi Lopes Ramos disse...

Quanto à "decadência" dos Cohen, devo dizer que esta tem sido das mais honrosas. Acho que o novo filme deles promete. Falando nisso, Setaro, o que você acha de Ajuste Final?

André Setaro disse...

'Ajuste final', com Albert Finney, é muito, muito bom, e tem uma narrativa rigorosamente construída com alusões ao filme de gangster. Mas o que prevalece é o sentido coeniano do tempo cinematográfico, como dimensiona este na duração da tomada, que Kubrick, a este respeito, é um mestre. 'Arizona nunca mais' é uma comédia divertida e inteligente, mas fica nisso. Gosto muito de 'Barton Fink' e vejo atributos surpreendentes em 'Gosto de sangue', obra de estréia, filme que dá início à filmografia de Joel e Ethan Coen. Apesar de apenas ser Joel quem assina a direção, os filmes são dos dois. Deviam fazer como os 'fratelli' Taviani.

Leandro Caraça disse...

Nunca escondi a decepçãp com os últimos três filmes dos Coen. Por outro lado, adoro "Fargo", "O Grande Lebovski (o mais subestimado ao lado de "A Roda da Fortuna") e "E Aí, Meu Irmão, Cadê Você ?".

André Setaro disse...

'A roda da fortuna' é muito subestimado por aqueles que se dizem críticos e entendidos de cinema. A crítica muitas vezes se pauta pelo que já está estabelecido, sendo poucos aqueles que sabem ver com seus próprios olhos. A maioria vê com os olhos dos outros. Triste mas verdadeiro.