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30 maio 2007

Nada além d'Esses Moços



Há um quê de chapliano nos filmes de José Araripe, principalmente Mister Abrakadabra, que possui a dinâmica do cinema mudo e revela, em suas imagens, uma querência de poesia que possa emergir daqueles sonhadores que se encontram marginalizados do convívio social, assim como nos três perâmbulos de Esses moços. Em Rádio Gogó, curta, assim como a fita do mágico, que assinala a derradeira aparição de Jofre Soares no cinema, também o enfoque é sobre pessoas que tentam se firmar como autênticos locutores, embora não passem de simulacros perdidos.

Em um determinado momento de Esses moços, eis que Gideon Rosa adentra o vagão de trem, trajando passeio completo, e como pastor, declama alto e bom som suas palavras de ordem divinas. O velho Diomedes, sentado, ainda que não se espante, diz a ele que Jesus falava mais baixo. O trem da Calçada me faz também recordar a minha infância, apesar de criado na Cidade Alta, no bairro de Nazaré. Mas ia muito à Cidade Baixa e um belo dia tomei o trem para ir a São Tomé de Paripe passar o domingo com um parente que lá veraneava. O trem tem um sabor nostálgico. Esses moços como que redescobre a imagem de uma Bahia que parecia perdida, ainda que marginalizada e pobre.

Gil cantando Esses moços, de Lupicínio Rodrigues, encerra o filme, que vai mostrando as imagens suburbanas. Um touch poético, sem dúvida, e a imagem de Diomedes no trem, sentado, expressa toda a sua solidão e a sua necessidade de integração a um passado que o vento levou, quando era músico de orquestra, da orquestra dos ferroviários. Ao contrário de filmes como Ó Pài, Ó, cujos gritos carnavalizam uma Bahia decadente, mas, por outro lado, registram a miséria de nossa cultura, Esses moços tem uma narrativa tranquila, sem os faniquitos peculiares à contemporaneidade axesística.

Um nome a registrar: a do diretor de fotografia Hamilton Oliveira cuja iluminação dá a Esses moços uma intensa participação da luz no processo de criação cinematográfica. Fotografia boa é aquela que irradia a luz, pontuando-a nos locais exatos e que possa servir de apoio à narrativa. Hamilton soube compreender, fotograficamente, os propósitos de Araripe em Esses moços e lhe deu a iluminação adequada. Já conhecido do cinema baiano por sua competência, Hamilton Oliveira dá, aqui, no filme de Araripe, passos largos em direção à sua consolidação como um dos melhores diretores de fotografia do cinema brasileiro.

Publico amanhã, na minha coluna da Tribuna da Bahia, um comentário crítico sobre Esses moços.
A foto que ilustra o post é a de José Araripe, o diretor.

5 comentários:

André Setaro disse...

O filho de Hamilton Oliveira é diretor de fotografia também. Esqueci o seu nome. A memória está fraca. O álcool a destruiu, pois a tinha boa, me lembrava de tudo. Fui, em 2004, jogando a modéstia na parede, o ator principal de um filme digital, 'À margem do tempo', de Júlia Lima, baseado em conto de Jorge Luís Borges. Sou o Borges velho (com maquiagem pesada para me fazer parecer um homem idoso, provecto) que se encontra com o Borges moço (Lucas Valladares, principal ator de 'Eu me lembro', de Edgar Navarro). Num banco, banco de praça, à beira de um rio, o velho se reencontra consigo próprio. O filme é sobre isto. O iluminador foi o filho de Hamilton. Lembro-me que o eletricista tinha o apelido (e nos créditos está assim) de Onze mil, porque, trabalhando em 'Amazônia em chamas', de John Frankenheimer, tomou um choque violentíssimo (11.000 woltz), quase morrendo, mas a produção o mandou para Chicago onde passou dois anos fazendo enxertos de pele e, afinal, findo o tempo de cativeiro hospitalar, pode se dar ao mundo e voltar ao cinema.

jorge alfredo disse...

Hamiltinho, "Esses Moços", pra mim, é poesia pura. Adoro o filme de Araripe e a sua fotografia. Ando ouvindo muita gente falar que não foi ver o filme porque leu no jornal críticas desfavoráveis. É incrível isso! Esse poder da imprensa de influenciar as pessoas. Desde que assisti "Esses Moços" no Cine PE com duas mil pessoas interangindo e se deliciando com o que via na tela, percebi que Araripe acertou em cheio na veia popular. Infelizmente, o mesmo não aconteceu com esses entendidos da crítica. É como disse Araripe; "nas exibições populares foi possível perceber que a opção por uma narrativa ingênua gera empatia com os mais simples, os menos sofisticados – sei que não será fácil agradar os mais exigentes, que acham que a cada filme o cinema tem que ser reinventado – ao ousar fazer um filme sobre outro universo que não o meu, me dei o direito de fabular e prover meus personagens de sentimentos humanos, muito além do simples maniqueísmo. Ser um um pouco iraniano sem ser fundamentalista."
A crítica de
André Setaro destoa de todas essas outras. Parabéns Setaro pela sensibilidade.Tomara que O ELOGIO DA SIMPLICIDADE desperte interesse pra muito mais gente ir conferir o filme.
"Esses Moços" continua em cartaz no Iguatemi às 22,00 horas e no Cinema do Museu às 18.55 horas.

Não deixem de ir!!

jorge alfredo

Jorge Alfredo disse...
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Jorge Alfredo disse...

Hamiltinho, "Esses Moços", pra mim, é poesia pura. Adoro o filme de Araripe e a sua fotografia. Ando ouvindo muita gente falar que não foi ver o filme porque leu no jornal críticas desfavoráveis. É incrível isso! Esse poder da imprensa de influenciar as pessoas. Desde que assisti "Esses Moços" no Cine PE com duas mil pessoas interangindo e se deliciando com o que via na tela, percebi que Araripe acertou em cheio na veia popular. Infelizmente, o mesmo não aconteceu com esses entendidos da crítica. É como disse Araripe; "nas exibições populares foi possível perceber que a opção por uma narrativa ingênua gera empatia com os mais simples, os menos sofisticados – sei que não será fácil agradar os mais exigentes, que acham que a cada filme o cinema tem que ser reinventado – ao ousar fazer um filme sobre outro universo que não o meu, me dei o direito de fabular e prover meus personagens de sentimentos humanos, muito além do simples maniqueísmo. Ser um um pouco iraniano sem ser fundamentalista."
A crítica de
André Setaro destoa de todas essas outras. Parabéns Setaro pela sensibilidade.Tomara que O ELOGIO DA SIMPLICIDADE desperte interesse pra muito mais gente ir conferir o filme.
"Esses Moços" continua em cartaz no Iguatemi às 22,00 horas e no Cinema do Museu às 18.55 horas.

Não deixem de ir!!

jorge alfredo

Hamilton Oliveira disse...

Há um engano aqui...Meu filho não é Diretor de Fotografia como diz o texto. O engano pode ter sido originado pelo meu nome que tem JÚNIOR, no final. Ainda assim me parece estranho porque nunca assino meus trabalhos assim. De qualquer forma não me recordo de ter fotografado o filme citado pelo autor da missiva. Desculpa mas, minha memória vai sendo destruída aos poucos, pelo tempo que nada poupa e não pelo álcool. Só um pouco.
Setaro, gostaria de agradecer a sua generosidade em relação às críticas, tanto no seu blog, quanto na Tribuna. É assim mesmo que eu entendo a iluminação para o cinema. A luz tem que ajudar a contar a história. Se ele for mais do que isso e se sobressaí em si ou por si, ela não é boa para o filme. è só uma bela fotografia. E acho que conseguimos unir as duas coisas em Esses Moços. É a luz da minha cidade, velha conhecida que eu trouxe para o filme. Ela estava - está aí - eu só me apropriei dela para o filme.É simples, sem mirabolantes efeitos de pós-produção, natural. Tentei ao máximo fazer uso da iluminação natural, inclusive nos interiores dia. E considero que foi uma decisão acertada. Funcionou para o proósito da narrativa do filme.
Quanto à luz da cena final do filme dentro do vagão do trem metropolitano, ela também estava lá. Está lá todo mais de fevereiro. Fui buscá-la fazendo o trajeto Calçada-Paripe/Paripe-Calçada inúmeras vezes. Em pé, no mesmo set up, da câmera. E via aquela luz que passava rápidamente sobre o banco do velho vagão, onde estaria sentado o velho Diomedes na sua (última?) viagem em busca do seu passado futuro. E foi aí que eu vi. Vi a sombra no fundo do vagão que "engolia" aquela luz apressada como se ela, a luz, penetrasse num túnel escuro. E é isso que aquela sequencia significa: a fim da existencia, uma viagem rumo ao desconhecido obscuro. Me parece ser esse o destino dos Diomedes. Toda luz se transforma em sombra. Diferentemente da sequencia final do Guiga em Eu Me Lembro, onde tudo se transforma em cor e luz. Mas, essa é outra história...
Abraço,
Hamilton Oliveira