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08 abril 2010

Escritos do blogueiro sobre cinema

Escritos sobre Cinema - Trilogia de um Tempo Crítico, de minha autoria, em três volumes, tem lançamento assegurado, em Salvador, na terça que vem, dia 13 de abril, às 20 horas, no Cinema do Museu (que fica no Corredor da Vitória). Na verdade, exceto o volume sobre linguagem e introdução ao cinema, o livro é uma triagem de artigos que iam se perder na lata de lixo do tempo, pois escritos para jornais e revistas, com alguma coisa, pouca, tirada da internet. Quem está acostumado com as asnices aqui cometidas não terá surpresas nem ficará surpreendido com os textos reunidos. Os leitores do blog estão todos convidados (lógico que aqueles que moram nesta engarrafada e terrível cidade).
Comecei a escrever sobre cinema em novembro de 1970, um artigo sobre a importância de Jerry Lewis para o finado Jornal da Bahia em seu suplemento de cor azul. A partir de agosto de 1974, obtive uma coluna para fazer críticas diárias sobre os filmes que estavam em cartaz. Há 35 anos, portanto. Se vou fazer 60 anos, e a considerar ter ido, pela primeira vez ao cinema, aos 7, tenho já 53 anos de estrada. O que me dá arrepios existenciais por causa da passagem do tempo.

Escritos sobre Cinema é editado pela Azougue em parceria com a Edufba (editora da Universidade Federal da Bahia) e teve o patrocínio do Fundo de Cultura do Estado da Bahia.
É GRÁTIS!
Clube da Crítica – Saladearte Cinema da UFBA às 16h às 17h30
14 de abril (quarta): A decadência da crítica nos jornais e o seu advento em blogs e sites com Sérgio Alpendre (editor da Paisà)
15 de abril (quinta): Panorama atual da crítica cinematográfica com Francis Vogner (crítico da Cinética e professor de Cinema)
16 de abril (sexta): A Inexistência da crítica na Bahia como reflexo de seu momento cultural com Marcos Pierry (Jornalista e professor de cinema) e André França (artista visual e professor de cinema)

05 abril 2010

Pré-Jornada em compromisso com o universo indígena



Antes da Jornada Internacional de Cinema da Bahia, que acontece há mais de 30 anos todo mês de setembro, há, também, uma Pré Jornada e, no ano em curso, há uma homenagem aos nossos indígenas com uma mostra de filmes curiosos e importantes (pelo menos do ponto de vista etnográfico) e uma exposição preciosa de Guido Boggiani, fotógrafo italiano do século retrasado. Trata-se de uma programação do Clube de Cinema da Bahia.

As programações da Pré Jornada contam com apoio da: Petrobras, Secretaria de Cultura do Governo do Estado da Bahia, Fundação Cultural do Estado da Bahia – DIMAS e Fundação Pedro Calmon, Fundo Nacional de Cultura, CHESF, AECID, Instituto Camões, Consulado Geral de Portugal na Bahia, Banco do Nordeste, Goethe Institut de Salvador.
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Exposição Fotográfica: Guido Boggiani y el Chaco
Uma Aventura Del Siglo XIX ( 1861-1901)
Exposição fotográfica do trabalho pioneiro do pintor e fotógrafo italiano Guido Boggiani (1861-1901). Nome de destaque na pintura naturalista na Itália, o artista interrompeu sua carreira e rumou em 1887 para a América do Sul, passando a pesquisar, sistematicamente, a vida e cultura dos índios do Gran Chaco, região fronteiriça entre Brasil, Argentina e Paraguai. A obra de Guido Boggiani foi salva pelo explorador botânico e etnógrafo tcheco Alberto Vojtech Fric (1882-1944) que conseguiu recuperar as 415 fotos após o episódio de seu desaparecimento. Com medo de terem seus espíritos aprisionados nas fotos, os Chamacocos assassinaram o “bruxo”, denotando que o pioneirismo de Guido Boggiani custou-lhe a vida.
Esta exposição abriu a XXXII Jornada Internacional de Cinema da Bahia, em edição de destaque aos POVOS INDÍGENAS DA AMÉRICA DO SUL, em 2005. Hoje reeditada, reafirma o compromisso da Jornada Internacional de Cinema da Bahia com o universo indígena voltando-se para temáticas de relevância, a exemplo do descumprimento de direitos assegurados pela Constituição Federal aos povos indígenas e o descaso com que são tratados. A falta de compromisso das autoridades com as populações indígenas e a seqüencia de fatos graves que apontam para a extinção de importantes tribos, vítimas de massacres na luta desigual com madeireiros, garimpeiros e gananciosas disputas por terras. A questão indígena, pela gravidade deve estar presente na pauta das discussões de todos os seguimentos que lutam por um mundo mais justo e de iguais condições para todos.

ONDE:
Biblioteca Pública do Estado da Bahia. Rua General Labatut, 27. Barris. Salvador-Bahia. Funcionamento: Seg a Sex das 8h às 22h. Sáb das 8 h às 12h. 09 a 15 de abril de 2010.:Palestra de Abertura sobre Guido Boggiani proferida por Bohumila Sampaio de Araújo. Auditório da Biblioteca, 15:00.

Mostra Povos Indígenas do Brasil, Sala Walter da Silveira, 09 a 15 de abril de 2010, 16h30min. Programação especial de sessões de filmes dedicados à luta dos Povos Indígenas do Brasil, seguidos de debate no dia 15 de abril. Participarão do debate convidados que trabalham com a temática indígena.

MOSTRA POVOS INDÍGENAS DO BRASIL.
SALA WALTER DA SILVEIRA. 09 a 15 de abril de 2010.

Introdução
Todo dia é dia de Índio, ou pelo menos deveria ser, afinal é ele o legítimo dono de todas as Terras do Brasil e das Américas. Contudo, tudo isto não passa de utopia, pois a realidade é bem outra...
Historicamente, desde que espanhois e portugueses desembarcaram nas costas do Novo Mundo, a cordial acolhida dos nativos tem sido retribuída ao longo de mais de 500 anos com o genocídio praticado pelo intruso, dito civilizado.
De qualquer modo, aproveitamos este mês de abril para darmos início a programação Pré –Jornada 2010, que este ano terá como tema central, a luta pela salvação do nosso planeta. Afinal, ninguém melhor do que o índio representa a natureza, que através de uma conscientização pela imagem cinematográfica, esperamos contribuir para salvá-la.
A programação de abertura da Pré-Jornada Internacional de Cinema da Bahia acontecerá na Biblioteca Pública do Estado e na Sala Walter da Silveira, de 09 a 15 de abril, compreendendo uma exposição, palestras e mostra de filmes. Após as sessões Maria Hilda Paraíso, Hirton Fernandes, Yakuy Tupinambá e Franklin Oliveira Jr. participarão do debate. Confira.
Programação:
09.04
Imbé Gikegü Cheiro de Pequi. (2006, 36’, Brasil) (Acervo da Jornada de Cinema da Bahia)

Sinopse: Ligando o passado ao presente, os realizadores kuikuro contam uma historia de perigos e prazeres, de sexo e traição, onde homens e mulheres, beija-flores e jacarés constroem um mundo comum. Realizadores: Takumã e Maricá Kuikuro
http://www.videonasaldeias.org.br/

10.04
Xicão Xucuru, 1999, 52’, PE/Brasil. (Acervo da Jornada de Cinema da Bahia)

Sinopse: Desde 1985 o cacique Xicão liderava a resistência do povo Xucuru, lutando pelo reconhecimento e demarcação de suas terras no município de Pesqueira. O trabalho desenvolvido por Xicão acompanhado pela comunidade teve como resultado o resgate do respeito às suas reinvidicações, a melhoria da qualidade de vida. Em maio de 1998, Xicão é assassinado por motivos fundiários, causando revolta no movimento indígena brasileiro. Direção: Nilton Pereira.

11.04
Yã Katu O Brasil dos Villas Boas. 2004, 63’, Brasil. (Acervo da Jornada de Cinema da Bahia)
Sinopse: Dezesseis anos depois de um exílio compulsório imposto pelo governo militar brasileiro dos anos 1960/1980, Orlando Villas Bôas retorna ao Parque Nacional do Xingu para um encontro emocionado com o seu passado e revela ao mundo a sociedade equilibrada, sensível e sofisticada da nação indígena. Na contramão da história, mostra-nos como as diferenças tribais podem resultar em convivência harmônica, culturalmente enriquecedora, e não em guerra. Direção: Nilson Villas Boas.

12.04
O último Kuarup Branco, 2007, 52’, Brasil. (Acervo da Jornada de Cinema da Bahia)
Sinopse: O filme é uma viagem de contato, imersa em um ambiente visual que evoca os estados alterados de consciência nos misteriosos rituais indígenas do Xingu. Neste trajeto, aparece a voz dos índios como protagonista e o espectador é conduzido às mensagens da velha índia Airé, da nação Ikpeng. Direção: Bhig Villas Boas.

13.04
Póstuma-Cretan, 1980, 13’, PR/Brasil. (Acervo da Jornada de Cinema da Bahia)
Sinopse: O filme mostra os acontecimentos na reserva indígena de Manguerinha, no Paraná, que levaram à morte o cacique Angelo Cretan. Direção: Ronaldo Duque

Uma Assembléia Ticuna, 2000, 20’, RJ/Brasil. (Acervo da Jornada de Cinema da Bahia)
Sinopse: O filme localiza uma reunião entre autoridades indígenas e, paralelamente, acompanha a maior expressão cultural desse povo: a festa da moça nova (ritual de iniciação feminino) realizada concomitantemente à reunião de lideranças. Direção: Bruno Pacheco de Oliveira.
Histórias de Avá- O povo invisível, 1998, 19’, RJ/Brasil.(Acervo da Jornada de Cinema da Bahia)
Sinopse: O filme conta a história da tribo de índios Avá-Canoeiro que está ameaçada de extinção e narra a tentativa de se fazer contato com grupos de Avá que se encontram ainda isolados a 500 km da capital do Brasil. Direção: Bernardo Palmeiro.
14.05
Rondon: Amor, Ordem e Progresso (2003, 87’, Brasil) ( Acervo da Jornada de Cinema da Bahia)
Sinopse: O documentário resgata a trajetória de vida do grande sertanista, contada em depoimentos de estudiosos e seguidores - como Darcy Ribeiro e os irmãos Villas Boas -, e ilustrada por imagens da época, traçando o perfil do homem que escreveu sua história junto com as demarcações de nossas fronteiras. Direção: Marco Altberg

15. 05
E14 Encontro das Culturas dos 14 Povos Indígenas da Bahia (2008, 54’, Ba/Brasil) (Secretaria de Cultura/Ba, Irdeb/Ba)

Sinopse: O E-14 teve como sede a Aldeia Tuxá, na cidade de Rodelas-Ba. Contou com a participação de aproximadamente 500 pessoas, dentre esses 266 representantes indígenas dos povos Atikum, Kaimbé, Kiriri, Kantaruré, Pankararé, Pankaru, Pataxó, Pataxó Hã-Hã-Hãe, Truká, Tumbalalá, Tupã, Tupinambá, Tuxá, Xucuru-Kariri, quatro representantes por aldeia: um pajé, um jovem, uma mulher e um gestor indígena interessado em elaboração de projetos culturais, que formaram grupos de trabalho com o objetivo de- além de integrarem-se num intercâmbio cultural- apontarem diretrizes à preservação, ao fortalecimento e ao desenvolvimento das culturas indígenas no Estado da Bahia. Realização: Secretaria de Cultura-Ba/ Irdeb-Ba.
Nesta sessão,os convidados que trabalham com a temática indígena, Maria Hilda Paraíso, Hirton Fernandes, Yakuy Tupinambá e Franklin Oliveira Jr. participarão do debate.

"I Vitelloni", de Federico Fellini

A visão de Abismo de um Sonho (Lo Sceicco Bianco, 1952), de Federico Fellini, filme inédito no Brasil desde o seu lançamento, foi importante para se ter uma idéia de como um gênio cinematográfico já expõe suas coordenadas temáticas e estilísticas desde a sua primeira obra. Fellini, antes de Lo Sceicco Bianco já tinha compartilhado a direção em Mulheres e Luzes (Luci de Varietà, 1950), com Alberto Lattuada. Abismo de um Sonho é, porém, o seu filme inaugural como autor integral e completo. O começo de uma carreira extraordinária que fez de Fellini um dos grandes artistas do século XX. O seu filme seguinte, I Vitelloni (Os Boas-Vidas, 1953) pertence, hoje, a qualquer antologia de cinema. É obra surpreendente. Considerando que a obra-prima de um cineasta só pode ser uma, Fellini rasgou o conceito de obra-prima, pois, extrapolando a lógica classificatória, realizou várias.Filme- crônica, I Vitelloni tem como centro a cidade natal do cineasta (rodado em Viareggio representa, porém, a eterna Rimini, que seria, décadas mais tarde, e de maneira estilizada, a inspiração de Amarcord). Fellini fala de sua juventude, de seus vizinhos, parentes, em especial dos amigos. Dos cinco boas-vidas, três têm exatamente o mesmo prenome dos atores que os interpretam: Alberto (Sordi), Leopoldo (Trieste) e Ricardo (Fellini, irmão do realizador). Há, portanto, um espírito familiar-comunal, um encanto particular na narração, os indicativos de um cineasta excepcional cuja poesia emerge a cada seqüência (e não se pode esquecer da inebriante música de Nino Rota). O cineasta de La Dolce Vita faz com que cada personagem se defina, represente uma coisa: Fausto (Franco Fabrizzi), o sedutor barato, Alberto, o bufão da turma, Leopoldo, o intelectual de província, Ricardo, a nulidade personificada. Mas a maneira de Fellini tratá-los foge ao que pode parecer, assim à primeira vista, uma estereotipia acadêmica.
No italiano popular, vitelloni significa literalmente vitelos gordos. No filme, "os boas-vidas" são jovens provincianos, que praticam o ócio e vivem às custas de suas famílias. Segundo o próprio Fellini, estes boas-vidas "chegam à casa dos trinta fazendo discursos e repisando suas piadas de moleques. Brilham durante a estação balneária cuja espera os ocupa durante o resto do ano. São desempregados da burguesia, mas são também amigos a quem eu quero bem. Flaiano, Pinelli (os roteiristas) e eu começamos a conversar sobre isso e, sendo todos ex-vitellonis, cada um tinha milhões de coisas para contar. Após toda uma série de histórias engraçadas, fomos tomados por uma grande melancolia, e fizemos este filme" Alberto é um sentimental, um grande chorão, agarrado à infância, que se emociona muito facilmente e que, na sua ingenuidade provinciana, não percebe as armadilhas do destino. Leopoldo, um escritor frustrado, cuja ambição se situa no âmbito de sua "paróquia" (e, com este, a fantástica seqüência do velho dramaturgo homossexual, um farsante, que o convida a ler seus textos na praia). Moraldo é o mais jovem, que, enfastiado, decide sair, ir para Roma (é nele que Fellini se projeta), e nele se encontra o embrião de um filme não realizado, Moraldo in Città
Sérgio Augusto, num ensaio intitulado Os boêmios errantes de Fellini (publicado no livro que contém o roteiro de I vitelloni) observa com muita precisão: "Como todas as outras confissões, inclusive as mais diluídas (As Noites de Cabíria) e as transferidas (Julieta dos Espíritos), elas correspondem a um período na vida do autor em que a profissão, o trabalho, o fazer-alguma-coisa, possui uma significação primordial. Abismos de um sonho: recordações do Fellini-fumettista; A estrada da vida: lembranças do Fellini-saltimbanco; Trapaça, Cabíria, Dolce vita: memórias e impressões da província e da metrópole pela ótica urbanizada (leia-se romanizada) do Fellini-repórter, com graduações variáveis de envolvimento e distanciamento; Oito e Meio: as angústias do Fellini-cineasta.
As fantasias "postas em ordem" em Vitelloni pertencem a uma fase anterior à do Fellini en route, fora de casa, em transito entre a Romagna ou a Toscana e Roma, do Fellini mais dominado pelo sentimento de vegetar e pela inércia sonolenta de Rimini que pelo esplendor vitalístico dos anos de aprendizado vividos com uma máscara de responsabilidade nas estradas do interior e nas avenidas da capital."Quatro os "capítulos" principais através dos quais o filme se articula. É importante observar que Fellini não segue a lei de progressão dramática da cartilha griffithiana (de David Wark Griffith, o pai da narrativa cinematográfica), parecendo, às vezes, que o filme é meio descosido. Mera impressão. Tem-se, portanto, estes quatro atos, por assim dizer, subdivididos num grande número de situações secundárias, que se concluem no epílogo com a despedida de Moraldo, o mais jovem dos vitelos gordos. Que inventividade cinematográfica, que poesia emana do momento em que Moraldo, da janela do trem em movimento, observa seus amigos adormecidos!
O primeiro capítulo conta o casamento apressado de Fausto, que engravidou Sandra, a irmã de seu amigo Moraldo. O segundo descreve a existência dos outros boas-vidas durante a lua-de-mel de Fausto e Sandra. No terceiro, assiste-se à fracassada e indolente tentativa de Fausto de se dedicar a um trabalho estável, e, finalmente, no quarto, à passagem de uma companhia de revista (com o velho farsante já citado), com mais uma traição de Fausto e uma crise conjugal mais séria."
Os boas-vidas, por sua originalidade de composição e tratamento temático, é quase um filme-arquétipo, que influenciou sobremaneira obras posteriores. Vê-se, nitidamente, rastros de I Vitelloni em Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973), de Martin Scorsese, em Loucuras de Verão (American Graffiti, 1974), de George Lucas, em O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas (St.Elmo fire, 1986), de Joel Schumacher e, principalmente, em I Brasilischi. de Lina Wertemuller, entre muitos outros.

04 abril 2010

Nas asas da Panair

Panair do Brasil, documentário de Marcos Altberg que passou hoje, domingo, no Canal Brasil, dentro da programação do Tudo é verdade, coordenado por Amir Labaki, é um importante documento de uma época e, principalmente, de como a ditadura militar praticou uma violência jurídica inominável contra a empresa, destruindo-a. Como disse o senador (já falecido) Paulo Monteiro de Carvalho (Arthur da Távola), um dos entrevistados, fala-se muito nas torturas, nas prisões, no cerceamento à liberdade, praticados pelos militares, mas fala-se pouco das violências jurídicas. A Panair do Brasil foi vítima de uma violência jurídica que causa espécie e mancha, definitivamente, a imagem do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, o homem sem pescoço, segundo o linguajar popular.

Além do mais, a Panair do Brasil vivia um momento de plena expansão, era uma empresa de muita liquidez, solvente, conhecida no mundo inteiro como centro de excelência e, de repente, um simples decreto ditadorial a põe por terra, destruindo todo o seu patrimônio, e, em consequência, provocando alguns suicídios e deixando desempregadas mais de cinco mil famílias.

Com o desmanche da Panair, a Varig se beneficiou de seus voos internacionais para a Europa e tomou o seu lugar. Quem viaja de avião, hoje, não pode ter ideia do luxo que era uma viagem aérea. Fundada em 1930, a Panair funcionou até 1967, quando a ditadura suspendeu seus voos e a destruiu com uma brutalidade e crueldade impressionantes.

Para se viajar de avião, tinha-se que usar, obrigatoriamente, paletó e gravata. Mesmo meninos tinham de pô-lo. As poltronas, confortáveis, tinham espaço suficiente e as aeromoças, belíssimas e educadas, tratavam os passageiros como verdadeiros príncipes. As refeições a bordo servidas pela Panair eram consideradas do mesmo nivel dos melhores restaurantes de luxo da Europa. E sempre o passageiro chegava a seu destino com uma caixa cheia de brindes: talheres de marcas famosas em miniatura, carteirinhas de cigarro (sim, bom tempo aqueles em que se podia fumar, quando não havia a lei fascista e autoritária que bane dos cigarros de todos os lugares), barras de chocolate, abotoaduras etc, etc.

Um dos entrevistados chega a dizer que o voo semanal da Panair para a Europa era um acontecimento social, saindo, nos principais jornais, a lista dos felizes passageiros.

Tenho orgulho de dizer que viajei uma vez pela Panair do Brasil. O que falta ao documentário é uma investigação mais profunda sobre as causas do ato ditadorial. Ao que parece, os donos da Panair foram contra o golpe de 64. E havia outros interesses, inclusive o da Varig, a grande beneficiada com a destruição da Panair do Brasil.

Milton Nascimento fez uma música como homenagem a Panair cantada por Elis Regina. Vale ressaltar também que, até hoje, os antigos funcionários da Panair ainda se reúnem todos os anos para recordar os bons tempos em que viviam nas asas da Panais. É a família Panair que continua unida, ainda que seus integrantes já velhos e provectos.

PS: O documentário Panair do Brasil, de Marcos Altberg, mostra um trecho de Um só pecado (Le peau douce, 1963), de François Truffaut, quando o personagem interpretado por Jean Dessailly chega a Lisboa, vindo de Paris, num avião da Panair - e se vê bem grande o nome da empresa no avião.


02 abril 2010

A patuleia comanda o espetáculo

O que se observa atualmente dentro das salas de exibição cinematográfica é um, por assim dizer, ato de selvageria, que determina os gestos predatórios, os comportamentos esdrúxulos e incompatíveis com o homem civilizado. O filme pouco importa para aqueles que o assistem nos complexos (Multiplex, Cinemark, Aeroclube...), constituindo-se num mero pretexto - ou, mesmo, conseqüência - do ato de ir ao shopping ou, se quiser, shoppear. Vai-se aos centros de compras da cidade para passear, consumir, praticar o lazer, após a destruição das praças e dos jardins e do comércio tradicional que se fazia nas ruas e avenidas de um centro deteriorado pela inércia, falta de vontade política, descaso pela memória. O ir ao cinema, então, se transformou numa das etapas desse processo de shoppear. Após a perambulação pelo shopping, o desfile costumeiro, o encontro com amigos, surge o cinema como uma espécie de saídeira do passeio. A maioria do público, adolescente, que faz parte dessa chamada, muito propriamente, geração fim-de-mundo, não se programa para ver determinado filme com antecedência. Os multiplexados consumidores do lixo cultural ficam atraídos pelos cartazes, inclinando-se pela fita que, por acaso, sugira ação e aventura, sexo e violência e tenha, no seu elenco, um ator ou atriz da moda.
Após a tomada do circuito exibidor pelas multinacionais estrangeiras, com a entrada em cena da UIP que, com os complexos Multiplex e Aeroclube, conseguiu fechar os cinemas de rua, restando, apenas, pequenos oásis fora desse esquema - a Circuito Sala de Arte, o Espaço Glauber Rocha, e a Walter da Silveira, pode-se observar desde 1998 - data da inauguração do Multiplex - uma mudança nos hábitos, nas maneiras, no comportamento diante do espetáculo cinematográfico. Estimulados pelo modelo americano, os jovens associam o cinema à pipoca e as empresas procuram lhes dar a consciência de que é preciso comer para ver. Assim, a comilança tornou-se uma regra, com as companhias estabelecendo em suas salas de espera verdadeiros centros de fast food. O comer para ver virou um reflexo condicionado a ponto de os jovens não admitirem assistir a um filme sem a complementação das bacias de pipocas e refrigerantes gigantescos, além de hambúrgueres variados. E, para pasmo geral, como não bastassem tal festim de colesterol, vendem-se, agora, dentro das salas, os estimulantes guloseimosos que tanto desesperam os cinéfilos que gostam, em paz e sossego, de ver um filme.
Acrescente-se a isso, as conversas laterais, o atendimento solícito de celulares em plena audiência fílmica, os risos fora de hora, que geram a total ausência de integração entre a emissão da obra cinematográfica e a sua recepção. Para o amante do bom cinema, ir aos complexos de salas tornou-se um inferno.
Registra-se, com isso, dois fenômenos: o da incivilidade e o da falta de educação. Mas o interessante a observar é que no passado havia um certo respeito, um comportamento diferente mesmo nos chamados cinemas populares, os poeiras. Se, atualmente, nota-se uma apatia e desinteresse diante do filme, o que se observava antes era uma interação, ainda que barulhenta em salas de segunda, entre o público e o espetáculo cinematográfico. Gritava-se e batia-se nas cadeiras (de pau) quando a cavalaria chegava a tempo de salvar os personagens de um ataque de índios, torcia-se pelo herói, aplaudia-se um beijo romântico etc.
Qual a causa dessa selvageria, dessa decadência, dessa brutalidade? Entre outros fatores, um poderoso: a influência devastadora da teledramaturgia que condicionou o receptor a uma passividade absoluta. Considerando que um filme tem uma duração limitada, todo e qualquer plano lhe é importante. O que não ocorre na televisão com as novelas, pois, aqui, o enchimento tradicional de linguiça se faz no sentido de possibilitar a quem as assista uma desatenção já prevista. Assim, quem assiste a três capítulos de uma novela pode deixar de ver quatro ou cinco e quando retorna encontra a história perfeitamente inteligível. A história é sempre repetida em vários ângulos a fim de dar ao receptor uma possibilidade de encontrá-la sempre compreensível. Resultado: a deformação provocada pela teledramaturgia televisiva - no modo de recebê-la, no modo de assisti-la fez com que a nova geração pratique a mesma atitude descompromissada quando diante de uma obra cinematográfica.
Pensa-se numa choldra de débeis mentais, numa escumalha de aloprados imberbes, alucinados diante da tela luminosa da sala de projeção. Uma patuléia desvairada que se agita no escuro à procura de um modo de ser mais peculiar às tribos ágrafas. Ir aos complexos, hoje, principalmente nas sessões vespertinas de fim de semana, é um convite ao desespero, salvo se a pessoa também faz parte dessa patuleia, dessa choldra, dessa escumalha.

31 março 2010

As aberrações do "Direito de Imagem"

Publico, aqui, texto lúcido e coerente que me foi enviado pelo cineasta Tuna Espinheira que é de autoria do intelectual e escritor Alexei Bueno. Abrindo as devidas e necessárias aspas:
"O recente episódio do processo intentado contra a Editora Aprazível, em seu livro sobre o fotógrafo José Medeiros, em que representantes legais dos herdeiros de Manuel Bandeira, em verdadeira aberração postulatória, reivindicaram – e ganharam em primeira instância – o direito a retirar de circulação um livro imenso, no meio do qual há uma foto do poeta, em meio a outras pessoas, e ainda receberem indenização, é um marco do ponto a que chegou a aberração do infame conceito de “direito de imagem”, que transforma grandes figuras da nacionalidade, homens de imagem pública e notória, que como homens públicos voluntariamente viveram, em algo como marcas de roupas e refrigerantes.

Antes disso outra aberração, talvez ainda maior, foi intentada contra os proprietários do belo curta metragem “O poeta do Castelo”, realizado por Joaquim Pedro de Andrade e produzido por Fernando Sabino. Sem sequer entrar no mérito de que Manuel Bandeira nem viúva deixou, nem filhos teve, é bom lembrar que Joaquim Pedro era filho de seu maior amigo, Rodrigo Melo Franco de Andrade. Quando o poeta acedeu ao desejo do jovem cineasta de ser retratado em seu curta, ele obviamente doou a sua imagem, a sua participação, ao cineasta. Reivindicar “direito de imagem” sobre esse curta-metragem, mais de quatro décadas depois, é mais ou menos como se algum sobrinho do saudoso Maurício do Valle processasse os herdeiros de Glauber Rocha por sua participação nos quatro filmes do genial cineasta em que ele atuou. Há um princípio jurídico de grande importância, o da razoabilidade, que está sendo atropelado por todas essas aberrações. E mais: um sinal óbvio de civilização são os limites à propriedade, em nome do bem comum, inclusive o bem cultural. Maior exemplo não existe do que o tombamento. Se Ouro Preto não tivesse sido declarada Monumento Nacional nos anos de 1930, todas as suas casas seriam hoje cubos de concreto, com janelas basculantes de vidro blindex! Se há limites de propriedade para os bens físicos, por que não os haveria para bens imateriais, como as obras literárias, às vezes de muito maior importância?

O chamado “direito de imagem” representa a própria morte da cultura. Como, numa foto coletiva, às vezes com dezenas de pessoas, não se expor, ao publicá-la, à ânsia argentária de algum sobrinho-bisneto de um grande homem? Uma jurisprudência sórdida está sendo criada. E o pior, enquanto o direito à obra literária chega a 70 anos após a morte do autor, esse conceito vago de “direito de imagem” - que não significa nada e pode por isso mesmo significar tudo – não tem prazo de validade! O autor destas linhas, por exemplo, é 11º neto do célebre Anhanguera. Juridicamente, quem sabe, poderia processar algum livro didático que reproduzisse um retrato supositício de seu antepassado, morto há mais de três séculos! Como poderão trabalhar dessa maneira os críticos, os iconógrafos, os antologistas, os documentaristas?

E para escárnio maior, os responsáveis por tais processos dizem querer proteger Manuel Bandeira dos “aproveitadores”, que devem ser, provavelmente, os falecidos Joaquim Pedro de Andrade, José Medeiros e Fernando Sabino, ou os excelentes editores do livro sobre José Medeiros. Até onde vai tudo isso? Se para bens físicos pode haver o tombamento ou a desapropriação, nada se pode fazer em relação a imagens públicas de homens públicos? Pode a cultura de algum país civilizado ser entregue à chicana dos rábulas, descumprindo de forma evidente o que seria a vontade dos autores, se vivos fossem? Onde fica a razoabilidade? Onde fica a cultura brasileira em tudo isso? Entregue aos rapaces ou às mediocridades ávidas de exercer poder? Que este texto sirva como um manifesto, a conclamar todos os que trabalham com e pela cultura no Brasil"

30 março 2010

Passando o tempo

Esta bela garota aparece logo nos primeiros planos de Sem medo da morte (The enforcer, 1976), de James Fargo, mais um filme com Clint Eastwood na pele do duro inspetor Harry Callaham. Revi-o, ontem, em DVD, e o que posso dizer é que passei hora e meia distraído. E é uma obra cheia de clichês e, como se gosta de dizer, lugares comuns. Mas tem uma narrativa dinâmica, fluente. Não é uma expressão da arte do filme. Mas cinema também é divertimento. Gosto dos filmes de Callaham. Claro, Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971), de Don Siegel, é mais sofisticado, mais bem trabalhado em sua estrutura narrativa, pois dirigido por um diretor acima da média. O resto é conversa fiada de críticos impertinentes e abusados.

29 março 2010

Janela Internacional de Cinema do Recife


Janela Internacional de Cinema do Recife abre inscrições
para mostras competitivas de curtas-metragens

Realizadores de curtas-metragens de todo o Brasil e do mundo podem inscrever seus filmes a partir desta segunda-feira (29 de março) nas mostras competitivas da 3ª edição do festival Janela Internacional de Cinema do Recife, promovido pela CinemaScópio Produções Cinematográficas e Artísticas. Assim como nos anos anteriores, as inscrições serão realizadas gratuitamente através do site do festival
www.janeladecinema.com.br . Após a inscrição on-line, os realizadores devem enviar cópia em DVD ou link da obra disponível na internet para a produção do festival.

O Janela Internacional de Cinema do Recife acontecerá de 12 a 20 de novembro de 2010 no Cinema São Luiz e no Cinema da Fundação (Fundaj Derby), com duas mostras competitivas de curtas-metragens – uma destinada aos filmes brasileiros e a outra aos filmes estrangeiros. O prazo para inscrição de filmes internacionais é até 11 de junho. Já os filmes nacionais podem ser inscritos até 18 de junho. O resultado da seleção está programado para ser divulgado no dia 28 de setembro.

Em ambas as mostras, podem concorrer filmes produzidos em qualquer formato de captação de imagem (35 mm, digital, celular...) e de qualquer gênero, realizados a partir de janeiro de 2009, com duração máxima de 35 minutos.

Não há limites para o número de inscrições. Sendo assim, cada realizador pode inscrever na seleção quantos filmes desejar. Todos os filmes selecionados para exibição nas mostras competitivas concorrem à Premiação do Júri Oficial, formado por profissionais da área audiovisual, e do Júri Janela Crítica, formado por jovens que participam de oficina de crítica de cinema durante o festival.

FESTIVAL - Em 2009, o festival teve 648 curtas inscritos, dos quais foram selecionados 72 filmes, com origem em oito estados brasileiros e 22 países. Durante nove dias, o festival atraiu um público de seis mil pessoas, que além das mostras competitivas de curtas-metragens, pode assistir longas-metragens e sessões especiais com videoclipes pernambucanos e curtas do festival alemão de Oberhausen.

O festival contou com patrocínio do Governo de Pernambuco, por ter sido contemplado pelo Programa de Fomento ao Audiovisual Pernambucano, da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe), e o co-patrocínio da Prefeitura do Recife, através da Fundação de Cultura da Cidade do Recife (FCCR).

SERVIÇO:
3º Festival Janela Internacional de Cinema do Recife
Inscrições para mostras competitivas
Site:
www.janeladecinema.com.br
Prazo para inscrições:
Para filmes estrangeiros - até 11 de junho
Para filmes brasileiros - até 18 de junho
Informações: 55 (81) 3032-4972
fest@janeladecinema.com.br

ASSESSORIA DE IMPRENSA
Flora Noberto – 55 (81) 9282-5443 3431-2460
floranoberto@gmail.com

Clique na imagem para vê-la altaneira.

28 março 2010

"Rio Vermelho", de Howard Hawks

Se existe um clássico perfeito para caracterizar o western, o cinema americano por excelência na definição de André Bazin, Rio Vermelho (Red River, 1948), de Howard Hawks, é o exemplar mais autêntico e paradigma de outros filmes do gênero. É verdade que No Tempo das Diligências (Stagecoah, 1939), do mestre John Ford, lança as bases do arquétipico westerniano, mas a fita de Hawks representa, nove anos depois, uma espécie de cristalização e amadurecimento do western na sua mais pura tradução e pureza antes que o gênero seja contaminado pelo psicologismo. Obra-prima incontestável, Rio Vermelho faz parte de um quarteto junto com Onde Começa o inferno (Rio Bravo, 1959), Eldorado (idem, 1965), uma espécie de remake deste último, e, por fim, Rio Lobo (1972), realizado já no ocaso de carreira desse genial diretor, que, aqui, despede-se do cinema.

As fontes míticas do gênero estão na anexação do estado independente do Texas (1845) e a conseqüente guerra dos Estados Unidos contra o México (1846-1848), na descoberta do ouro na Califórnia (1848), na construção da via-férrea transcontinental Union Pacific (1864) e na guerra civil entre sulistas e nortistas, a chamada Guerra de Secessão, retratada em inúmeros filmes de O nascimento de uma nação (1914-15), de David Wark Griffifh a ...E o Vento Levou (Gone with the Wind, 1939), de Victor Fleming e David Selznick. Sobre a base da realidade histórica, o western, de fato, construiu uma mitologia, e o crítico André Bazin pôde dizer que o gênero nasceu do encontro de uma mitologia com um meio de expressão. Nele, o cowboy (vaqueiro) é elevado à dignidade de mito: o mito do homem livre, próximo de suas raízes telúricas e captado num estado nascente da sociedade, à qual tem de impor, pela força, a ordem e a prosperidade.

Howard Hawks é um exemplo raro de cineasta que é autor sem se prender a um gênero específico. Se faz westerns primorosos como Rio Vermelho, é capaz, também, de incursionar pelo musical (Os homens preferem as louras), pela comédia (Levada de Breca, Bola de fogo, O Inventor da Mocidade...), pela aventura (Hatari!...), pelo thriller (À Beira do Abismo/The Big Knife...), etc. Em todos os gêneros, entretanto, sua marca está presente, o comportamento de seus personagens é sempre igual, o estilo do cineasta nunca muda, chegando, mesmo, a se dizer da existência de um homus hawksiano.

Rio Vermelho se concentra na história da transferência de um rebanho de Rio Rojo a Abilene, onde os bois e vacas devem ser vendidos no mercado de gado. John Wayne é Thomas Dunson, o chefe, um déspota, que, com seus métodos brutais, provoca uma rebelião entre os vaqueiros.Um destes, Montgomery Clift (Matthew Garth) toma o comando e abandona Wayne, com um cavalo, em pleno deserto.Uma vez vendido o gado em Abilene, Wayne, que com muito esforço consegue chegar à cidade, desafia Clift, mas este, recusa-se a duelar e luta com Wayne com os punhos cerrados. Os dois parecem que não se compreendem, mas a astúcia de uma mulher (Joanne Dru), que Clift salva dos índios, consegue, por fim, a reconciliação entre os dois homens. Além das interpretações excelentes de Montgomery Clift e John Wayne (talvez em seu melhor papel no cinema), assim como a do elenco secundário (Walter Brennan, John Ireland, Noah Beery Jr...), o mais importante em Rio Vermelho é que este filme funciona como um excepcional documento da vida dos cowboys, seus costumes, seu folclore, o ambiente e a paisagem daquele período da colonização norteamericana.

E mais ainda: o sentido perfeito de cinema de Hawks, o alento épico, a paisagem, a simplicidade e força das personalidades individuais. Rio Vermelho é a história de uma amizade – um dos temas fundamentais da obra de Hawks. Clift, órfão, depois que seus pais são mortos pelos índios, é recolhido por Wayne que, na travessia de Rio Rojo a Abilene, se desentende com aquele que é quase um filho. O western mais telúrico de Hawks, ainda que Rio Bravo seja mais cortejado, Red River mostra o eterno conflito de seus personagens, que se resolve através de um itinerário físico, captado pela câmera com a força do imediatismo. A música de Dimitri Tiokim fica nos ouvidos.

24 março 2010

"O Sétimo Selo", de Ingmar Bergman


Não apenas um cineasta, mas um autor completo, um pensador que se vale do cinema para refletir suas angústias, suas dúvidas, refletir sobre a condição humana, Ingmar Bergman é um dos maiores realizadores cinematográficos de todos os tempos. Houve uma época, nos idos dos 60 e 70, que o seu nome despertava imensa curiosidade e, por causa dela, formou-se um verdadeiro culto ao diretor, que alguns chamaram de bergmania. Se na primeira fase de sua carreira não conheceu o sucesso nas bilheterias, considerado pelos exibidores um cineasta maldito, a partir dos meados dos anos 60 um mercado se abriu para suas obras. Principalmente na sua fase psicanalítica - Cenas de um Casamento, Face a Face, Sonata de Outono... Os filmes de Bergman que mais aprecio, no entanto, exceção se faça a A Paixão de Ana (1970), e, também a O Silêncio, são aqueles da primeira fase, notadamente O Sétimo Selo Morangos Silvestres, A Fonte da Donzela, Noites de Circo, (nunca o tema da humilhação foi tão bem exposto) Mônica e o Desejo, Sorrisos de uma Noite de Verão, Juventude, entre outros. No frigir dos ovos, entretanto, posso dizer que admiro a todos os seus filmes.
O Sétimo Selo, obra-prima da primeira fase do cineasta, ainda que produzido em 1956, somente em 1976, vinte anos depois de sua realização, foi lançado no Brasil através da distribuidora "Cinema 1" e, aqui na Bahia, apresentado neste mesmo ano no antigo cine Nazaré da Praça Almeida Couto. Já Morangos silvestres obteve estréia ainda na segunda metade do decurso dos 50, conseguindo grande impacto e estupefação na época de seu lançamento.
Alegoria tragicômica em forma de mistério medieval, com um desenvolvimento livre do imaginário da Idade Média, O sétimo selo (Det sjunde inseglet) tem sua fábula estruturada na volta de Antonius Blok (Max Von Sydow) à Suécia após dez anos de luta na cruzada e o jogo que estabelece com a Morte num tabuleiro de xadrez. Antonius e seu lacaio Jons (Gunnar Blornstrand) se dirigem, por uma longa jornada, ao castelo onde moram, e, no caminho, contemplam uma terra arrasada pela peste. Este itinerário de Blok, do erro inicial à Verdade final, é conduzido com extrema maestria por Ingmar Bergman, que se utiliza, aqui, do cinema, como um veículo "filosofante" e reflexivo acerca da condição humana. No percurso, Blok e Jons encontram vários personagens mas apenas um casal de artistas mambembes se constitui num remanso de paz e tranquilidade, longe da mesquinharia e da hipocrisia dos outros. Blok, entretanto, continua o jogo de xadrez com a Morte (impressionante caracterização de Bengt Ekerot), mas esta, de repente, ganha partida. Vencedora, precisa levar consigo todos os personagens, deixando na vida somente o casal de cômicos (Bibi Andersson e Nils Poppe), o único capaz de desfrutá-la de maneira pacífica e feliz.
O Sétimo Selo, antes da consagração definitiva que se daria, um ano depois, em Morangos silvestres, já coloca Bergman, no panorama internacional, como um dos grandes cineastas do século XX. Trata-se de um filme, a rigor, gnoseológico em que se estuda a origem e a possibilidade do conhecimento por parte do homem. Por autor, os filmes de Bergman se constituem, na verdade, em variações sobre um mesmo tema. Em todos eles, presentes: a incomunicabilidade dos seres, a angústia do estar-no-mundo, a inevitabilidade e o mistério da morte, os tormentos da relação amorosa...
O sétimo selo volta às raízes do cinema nórdico de Victor Sjostrom e Mauritz Stiller, à floração sueca, quando a natureza tinha uma forte influência no comportamento das personagens. Assim, Det sjunde inseglet pertence à série de filmes que Bergman realizou e que possuem um decór histórico, ainda que o fato de a ação localizada na Idade Média não tira a esta obra magistral seu caráter contemporâneo. O homem que Bergman estuda é o homem do aqui e do agora.Veja-se o caso dos dois protagonistas principais, o Cavaleiro e seu lacaio, que formam, a seu modo, um binômio no qual se debate o tema das fontes das possibilidades de conhecimento - não somente o conhecimento de Deus mas de tudo aquilo que escapa à constatação estrita dos sentidos.
Elementos de mistérios - a bruxa, a peste, a procissão penitencial.., simbolismos e participações insólitas, como a personagem da Morte, criam, em O sétimo selo, um clima tenso ao qual contribuem uma planificação e uma iluminação ( do artista Gunnar Fischer antes de Bergman trabalhar com o iluminador Sven Nykvist) cuidadas com esmero.Aposentando-se antes dos 70 anos, com o filme-síntese "Fanny e Alexander", Ingmar Bergman despediu-se do cinema prematuramente para se retirar e viver em sua ilha particular. Depois do ensaio, filme que realizou para a tv, não é considerado pelo autor sueco obra "para cinema". A ausência de Bergman apresenta uma lacuna para o cinema contemporâneo, pois a escassez de cineastas-pensadores é, muito mais que impressionante, assustadora. A visão de O sétimo selo, em sua versão restaurada e íntegra, surge, portanto, como uma grande oportunidade de se entrar em contato com um dos mestres supremos da sétima arte nestes derradeiros momentos do século XX.
Em O sétimo selo, como a afirmar a condição de autor do cinema moderno, Bergman mostra uma constância temática e estilística, um universo ficcional próprio e um estilo - que faz o artista! - pessoalíssimo. À guisa de um pequeno exemplo, que se veja alguns personagens secundários, os quais, vêem se repetindo nos filmes de Bergman de filme a filme: o casal dos artistas ambulantes (presentes desde Noites de Circo até O Rosto; a controvérsia estabelecida entre o ferreiro e sua mulher - contraponto e complemento.
Nas palavras do ensaista Claude Beylie (no indispensável As obras-primas do cinema, Martins Fontes): "A mensagem é clara. Continuamos ameaçados pela peste, que se chama, hoje, guerra nuclear, e, diante deste perigo, não há outro recurso além dos corações puros. Bergman opõe ao fanatismo e à intolerância, "O leite da ternura humana". No entanto, seu filme nada tem de dogmático. Ele joga o jogo da ingenuidade iconográfica, desenvolve livremente o imaginário medieval. Faz-nos pensar em Durer, nas xilogravuras de Hans Beham, na "dança macabra" de Orcagna. A reflexão filosófica é irrigada sem cessar por um onirismo límpido e, até, por traços de humor, notadamente através do personagem do escudeiro."

21 março 2010

Um domingo animado e na Grécia

Domingo, dia de melancolia, véspera da segunda-feira, quando se pega no batente, é um dia triste, salvo para aqueles que gostam de praia. A rigor, há precisos e exatos 30 anos que não vou à praia. E quando ia, três décadas passadas, era para encher a cara nas barracas e voltar riscando pelas estradas da vida.

20 março 2010

Los Angeles Brazilian Film Festival 2010


Recebi da comissão organizadora do Los Angeles Brazilian Film Festival a programação para este ano. O evento já se encontra na sua terceira edição. A organização é de dois brasileiros: Nazareno Paulo, que se formou na Faculdade de Comunicação da UFBa, onde vim a conhecer a sua esfuziante personalidade, e Meire Fernandes, sua esposa. Transcrevo aqui o informativo enviado. O texto não é meu, portanto. A imagem é de Carlotta Joaquina, de Carla Camuratti, que será exibido durante o festival.


Los Angeles, Califórnia – Em sua 3ª edição, o Los Angeles Brazilian Film Festival - LABRFF 2010 celebra os 15 Anos da Retomada do Cinema Brasileiro, com uma seleção de filmes que marcaram o período que ficou conhecido no mundo inteiro como um dos melhores momentos do cinema nacional, comparável apenas ao Cinema Novo. O LABRFF acontece de 27 de abril a 2 de maio, na capital mundial do cinema, Los Angeles, e exibirá mais de 60 filmes entre longas e curtas metragens, documentários, animações e projetos de vídeos.

O festival vai incluir na sua grade de programação uma Mostra Tributo ao Cinema da Retomada com filmes que resistem à passagem do tempo, e revelam ter se tornado referências para o cinema brasileiro. Considerado o marco inicial desse período, o filme “Carlota Joaquina”, de Carla Camurati (Copacabana Filmes, 1995), será exibido juntamente com “Terra Estrangeira”, de Walter Salles e Daniella Thomas (Videofilmes, 1995), “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles (O2, 2003), “ O Quatrilho” de Fábio Barreto (LC Barreto, 1994) e “Lavoura Arcaica”, de Luiz Fernando Carvalho (Videofilmes, 2001).

A homenagem à Retomada chega num momento em que se discute a reformulação da Lei do Audiovisual. E pretende demonstrar o alto nível da produção nacional alcançada graças às leis de incentivo que fomentaram o ressurgimento do cinema brasileiro. “Na década de 80 e parte dos anos 90, o cinema brasileiro praticamente desapareceu. Por falta de qualquer apoio à produção, durante este período eram lançados menos que dez longas por ano. Na metade dos anos 90, foram criadas leis de incentivo ao cinema e retomou-se assim a produção. Em 2009, foram produzidos perto de 90 filmes brasileiros, e os números continuam crescendo de forma sólida. Mais filmes significa mais qualidade e oportunidade em todas as áreas. Houve uma renovação quase completa de equipes e talentos. Este boom foi chamado de Retomada, e caracteriza-se pela pluralidade temática e de estilos dos filmes. Por isso assistir um ou dois filmes não significa que se conheça o que foi feito no período. Surpresas aparecem o tempo todo. Vale garimpar”, declarou o diretor Fernando Meirelles.

Sobre a seleção dos filmes da Retomada, o fundador do LABRFF, Nazareno Paulo, explica: “São filmes simbólicos. Filmes ícones da Retomada que todo mundo conhece, identifica seus realizadores, comenta a obra, e tem como referência do cinema nacional. É como se fosse uma marca para o País. Quando se fala em futebol ou carnaval, o imaginário coletivo voa e vai buscar referências em imagens clássicas do Brasil. Assim funciona também para o Cinema da Retomada. Quando falamos em qualquer um desses filmes a serem homenageados, estamos nos referindo a filmes que se estabeleceram como sucessos de crítica, público ou bilheteria. E para muitos a primeira cena que vem à cabeça quando se remete a este período é a da Carlota Joaquina, ou a do Zé Galinha, por exemplo”.


Mostras Competitivas

A Seleção Oficial LABRFF 2010 será composta por mais de 60 filmes, com dez longas metragens e quatro documentários integrando as mostras de competição avaliadas pelo Júri Oficial, composto por nomes consagrados e emergentes da indústria cinematográfica nacional e estrangeira. Já os curtas metragens selecionados concorrem na categoria de melhor prêmio escolhido pelo voto popular. Outras duas categorias que também serão premiadas pela votação do público são as de projetos de vídeos e curtas metragens realizados por brasileiros nos Estados Unidos.

A Seleção Oficial LABRFF 2010 completa, incluindo os filmes de animação e as mostras paralelas de longas metragens e documentários convidados, será divulgada dia 25 de março.

Agenda do LABRFF 2010:
1º dia, 27 de abril, terça-feira:
Eventos: Tapete vermelho, cerimônia de abertura, premiére americana de um filme brasileiro (a ser anunciado), festa.
2º dia, 28 de abril, quarta-feira:
Eventos: Exibição de mostras o dia todo.
Film market: Painel de discussão 1 (tema e palestrantes a serem anunciados)
3º dia, 29 de abril, quinta-feira:
Eventos: Exibição de mostras o dia todo.
Film market: Painel de discussão 2 (tema e palestrantes a serem anunciados)
4º dia, 30 de abril, sexta-feira:
Eventos: Exibição de mostras o dia todo, coquetel.
Film market: Painel de discussão 3, Workshop (temas e palestrantes a serem anunciados)
5º dia, 1 de maio, sábado:
Eventos: Exibição de mostras o dia todo, tapete vermelho, cerimônia de entrega de prêmios, premiére americana de filme brasileiro (a ser anunciado), coquetel de premiação.
Film Market: Seminário (tema e palestrantes a serem anunciados)
6º dia, 2 de maio, domingo:
Eventos: Exibição de filmes.
Noite de encerramento com a premiére americana de um filme brasileiro (a ser anunciado), festa de encerramento.


Missão do LABRFF:

O Los Angeles Brazilian Film Festival – LABRFF tem como foco principal a promoção e difusão do audiovisual brasileiro na Califórnia, estimulando oportunidades de negócios através de painéis que discutem a coprodução de cinema entre Brasil e Estados Unidos, locações, legislação e outros assuntos ligados às atividades do setor.
O festival cria visibilidade e promove a cultura brasileira através da mídia mais importante do mundo: o cinema. Para os negócios, o LABRFF vem provando ser mais do que uma opção de mercado, e sim uma oportunidade para estabelecer um intercâmbio legítimo entre profissionais da área, e encontros entre roteiristas, diretores e produtores executivos que querem investir em novos projetos de filmagens no Brasil.

Sobre o Festival:
Histórico:
Fundado em 2007 pela produtora Meire Fernandes e pelo jornalista Nazareno Paulo, o LABRFF tem conquistado a cada ano um aumento significativo na participação de produtores, artistas e espectadores, somando-se um público geral de mais de 12.000 pessoas até o momento. Em duas edições, 2008 e 2009, o LABRFF exibiu 104 filmes, entre longas e curtas metragens, documentários, filmes de animação e projetos de vídeos.

O festival abriu uma janela inédita para a exibição de filmes brasileiros na Califórnia, trazendo produções nunca vistas na costa oeste americana, e sendo responsável pela estréia de mais de 40 filmes nos Estados Unidos. Além disso, já foram distribuídos mais de 15 prêmios, e promovidos seminários, painéis de discussão e workshops sobre destino Brasil de filmagem, e coprodução.

Responsabilidade Social:
O LABRFF tem parcerias com as seguintes instituições:
Turma do Bem
Bravo Youth Foundation

Proteção ao Meio Ambiente:
O LABRFF tem parceria com a seguinte instituição a fim de minimizar o impacto provocado pela emissão de CO2 no meio-ambiente:
METRO

Patrocinadores:
O Los Angeles Brazilian Film Festival não seria possível sem o apoio e dedicação dos seus patrocinadores e parceiros. Cada um deles divide com o LABRFF o amor pelo cinema brasileiro, e reconhece a importância de compartilhar o trabalho e as contribuições de artistas e cineastas brasileiros com o maior público possível.

PATROCÍNIO OFICIAL
Consulado Geral do Brasil em Los Angeles - Ministério das Relações Exteriores
EMBRATUR - Ministério do Turismo
Governo da Bahia - Secretaria de Cultura
IRDEB - Instituto de Rádiodifusão Educativa da Bahia

COMPANHIA AÉREA OFICIAL
Korean Air

APOIO CULTURAL
Stella Artois
Havaianas
JetBlue Airways
Beverly Hills Aesthetic
Fogo de Chão Steakhouse
The Goddess Collection
Jóia Brasil
Agua Luca

PARCEIRO DE INDÚSTRIA
NALIP – National Association of Latinos Independent Producers
ABRAFIC – Brazilian Film Commission Alliance
Newport Beach Film Festival
Kinoforum
Fórum dos Festivais

17 março 2010

"La Notte", de Michelangelo Antonioni


Falar de A Noite (La Notte, 1961), de Michelangelo Antonioni, é falar de uma obra-prima, de um filme emblemático da história do cinema. Responsável pela sublimação da linguagem no ser fílmico, Antonioni praticou um corte longetudinal na evolução da narrativa cinematográfica, com a desdramatização, ou seja, a recusa do espetáculo, a desteatralização, que pode também ser vista em Roberto Rossellini em seu fundamental Viagem à Itália (Viaggio in Itália, 1953), que, a bem da verdade, precedeu o realizador de La Notte. Segundo Marcel Martin, a partir dos anos 50, assiste-se a um progressivo ultrapassar da linguagem, àquilo que se poderia chamar de rejeição das regras tradicionais - da gramática de ferro - para fazer da narrativa fílmica não mais um meio, um veículo de sentimentos e idéias, mas um fim em si: a própria narrativa tornando-se o objeto primeiro da criação. Assim, ficou mais difícil aplicar aos filmes que se colocaram na vanguarda da pesquisa estilística - como a famosa trilogia de Antonioni constituída de A Aventura/L'Avventura, 1960, A Noite, e O Eclipse/L'eclisse, 1962 - os velhos esquemas da "explicação de textos" habitual, ou seja, a distinção escolástica entre a forma e o conteúdo se tornou impossível e absurda. Antonioni, pode-se dizer, instaurou a estética do filme.

Giovanni Pontano (Marcello Mastroianni), um escritor de sucesso, encontra-se prisioneiro em um universo fictício, incapaz de escrever algo sério, verdadeiro. Sua mulher, Lídia, (Jeanne Moreau) se sente excluída do mundo do marido. A morte de um amigo de ambos (interpretado pelo diretor alemão Bernhard Wicki) faz ainda mais patente o abismo aberto entre eles. Gherardini, o poderoso industrial, tenta comprar o escritor, apesar de seu elevado nível de vida e o orgulho que sente por seu poderio capitalista. Sua filha Valentina (Mônica Vitti), afogada no vazio de seu próprio ambiente burguês, sente uma urgente necessidade de se libertar. Cada um desses personagens de Michelangelo Antonioni permanece preso num beco sem saída. Está exposta a equação existencial tão ao gosto do cineasta de A Aventura.

Antonioni, que rodou o filme em Milão, fixou sua atenção sobre os meios industriais e intelectuais da populosa cidade italiana. A mesma Milão que serviu de cenário a outra obra-prima do cinema italiano: Rocco e seus Irmãos(Rocco i suoi Fratelli), de Luchino Visconti, tragédia exemplar que estabelece a cinematografia italiana como a mais poderosa do momento cinematográfico nos sessenta, agrupando verdadeiros gênios como Antonioni, Visconti, Fellini, entre tantos outros como Valério Zurlini. Assim, a fixação da inação em Milão não é aleatória mas tem um objetivo e um propósito. Antonioni quando elege a profissão de seus personagens sabe perfeitamente o que está a fazer: "Exijo sobretudo intelectuais, porque são os que têm a consciência mais exata da realidade, além de uma sensibilidade, uma intuição, mais sutil, através da qual posso filtrar a realidade que desejo expressar" A expressão dessa realidade nos seus filmes se faz pelo exterior ou pelo interior.

Antonioni em A Noite aprofunda a linha estabelecida em A Aventura. O esquema dramático maneja uma série de abstrações até então inéditas no cinema de Antonioni. Que, pela primeira vez, reúne Jeanne Moreau e Mônica Vitti, as duas atrizes que melhor souberam expressar as facetas da mulher moderna - a mulher contemporânea dos anos 60, quando a libertação se fazia urgente, e o cinema um conduto que muito bem expressava o profundo estado de crise da sociedade burguesa. Um estilo que se caracteriza pelas tomadas longas, estabelecendo, com isso, uma espécie de antinarrativa cuja exasperação chegou em O Eclipse.

Em A Noite, o industrial Gherardi e sua esposa são realmente figuras da alta burguesia milanesa, assim como em sua maioria os convivas são sócios do Barlassina Golf Club (perto do lago Como), transformado em residência daqueles. Antonioni não incide no jogo duplo em relação a esses atores voluntários. Sua serenidade de artista permite-lhe colocar, ao lado da análise implacável nos diálogos e nos planos, o orgulho do capitalismo que escreve ou roteiriza segmentos da História com personagens verdadeiros, casas verdadeiras, cidades verdadeiras.

Walter da Silveira, ensaísta baiano, após a primeira visão de La Notte, entusiasmado, escreveu um ensaio sobre Antonioni do qual destaco aqui esta parte - que se encontra no livro Fronteiras do Cinema: "Ao contrário do que se tem dito, Antonioni seria, por um paradoxo, o cineasta que mais acredita na sensibilidade e na inteligência do público, dispensando-se de ser evidente para ser claro. E se constrói seu relato fílmico sem excluir o elemento não visual do cinema, dando-lhe a importância de um fator de interpretação ou acentuação da imagem, no final de cada filme transmite-nos uma longa cena silenciosa em que só o gesto define e comunica toda a sua essência vital, ética. Em A Aventura, a mão de Claudia desce, hesita, volta a descer sobre o ombro de Sandro, numa indecisa porém insistente vontade de existência a dois, numa dolorosa porém aguda intuição de que, malgrado todas as demissões, resta ainda ao homem uma tênue possibilidade de libertar-se. Em A Noite, o par cujo casamento já no décimo ano foi tomado pelo tédio, a lassidão conduzindo à incerteza, abraça-se sobre a relva numa cópula de desespero, inseguro da permanência além da madrugada. E em O Eclipse já nem se vêem os recantos em que se encontravam - documentação e também metáfora de uma vida comum abandonada."

A iluminação dessa obra-prima é de um artista: Gianni Di Venanzo.

15 março 2010

Duas palavrinhas

1) Filme extraordinário, Nasce uma estrela (A star is born, 1955), de George Cukor, além de sua fina sensibilidade no tratamento temático e dos belos números musicais, reinventa o cinemascope quando ainda o formato tinha poucos anos de existência plena. Cukor, sábio, sabe usar a sua largura em função da mise-en-scène. Judy Garland, inexcedível, é uma aspirante a atriz que se casa com um famoso ator alcóolatra (James Mason), mas, com a convivência, ela atinge o estrelato, consegue se livrar do vício maldito, enquanto o marido entra em profunda decadência e na embriaguês quase permanente. Se existem muitas mulheres fascinantes no cinema (e como existem!), Judy Garland é, porém, a mais esplendorosa de todas pelo seu imenso talento e seu fascínio como intérprete e cantora. Claro, não tem o sex appeal de Bardot, de Monroe, de tantas. Mas vê-la em cena é uma benção e uma glória.
Quando do lançamento do filme nos anos 50, a Warner, por achar excessivo um musical com três horas de duração, cortou 27 minutos, desfigurando, com isso, esta obra-prima. Há pouco mais de vinte anos, um abnegado pesquisador do American Film Institut pediu ajuda à Academia de Artes e Ciências de Hollywood para que esta solicitasse à Warner permissão para que o pesquisador desse uma busca nos depósitos da companhia. Atendido o pedido, este começou a procurar e acabou por encontrar os 27 minutos cortados. Estragados, precisou restaurá-los, ficando três minutos apenas em fotos fixas pela impossibilidade de revivê-los no celulóide. O DVD duplo, portanto, é uma preciosidade, pois o resgate de um filme extraordinário, que assinala a maior interpretação de Judy Garland no cinema. Ela, na época, estava profundamente depressiva - sempre dependendo de álcool e barbitúrios e, para conseguir trabalhar no filme, fez um esforço enorme para se livrar das drogas. Tem um desempenho maravilhoso como Vicky Lester, a cantora que, descoberta por Norman Mailer (James Mason, soberbo), ator famoso de Hollywood, e que se apaixona por ela, ascende ao estrelato enquanto Mailer, derrotado pelo alcoolismo, vê a sua decadência. Enquanto ela sobe, ele cai. É a segunda versão -e a melhor - dessa história - a primeira, dos anos 30, foi feita por William Wellman, com qualidades inegáveis já que este diretor era um especialista, mas a terceira, de Frank Pierson, com Barbra Streisand, de 1975, é um lixo.

2) O Telecine Cult tem, na sua grade de programação, Avanti!, de Billy Wilder, obra crepuscular do autor de The apartment, mas de um fascínio que ainda surpreende. Avanti! não foi visto, quando do seu lançamento, com muita atenção, e se trata, pelo menos para mim, de um dos momentos gloriosos da filmografia wilderiana. É verdade que os críticos cariocas o elegeram, na ocasião, 1974, um dos melhores filmes do ano. Mas, com o passar do tempo, esta obra quase prima caiu no esquecimento. Já a vi mais de dez vezes e sempre que a revejo a admiração continua intacta.