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04 abril 2010

Nas asas da Panair

Panair do Brasil, documentário de Marcos Altberg que passou hoje, domingo, no Canal Brasil, dentro da programação do Tudo é verdade, coordenado por Amir Labaki, é um importante documento de uma época e, principalmente, de como a ditadura militar praticou uma violência jurídica inominável contra a empresa, destruindo-a. Como disse o senador (já falecido) Paulo Monteiro de Carvalho (Arthur da Távola), um dos entrevistados, fala-se muito nas torturas, nas prisões, no cerceamento à liberdade, praticados pelos militares, mas fala-se pouco das violências jurídicas. A Panair do Brasil foi vítima de uma violência jurídica que causa espécie e mancha, definitivamente, a imagem do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, o homem sem pescoço, segundo o linguajar popular.

Além do mais, a Panair do Brasil vivia um momento de plena expansão, era uma empresa de muita liquidez, solvente, conhecida no mundo inteiro como centro de excelência e, de repente, um simples decreto ditadorial a põe por terra, destruindo todo o seu patrimônio, e, em consequência, provocando alguns suicídios e deixando desempregadas mais de cinco mil famílias.

Com o desmanche da Panair, a Varig se beneficiou de seus voos internacionais para a Europa e tomou o seu lugar. Quem viaja de avião, hoje, não pode ter ideia do luxo que era uma viagem aérea. Fundada em 1930, a Panair funcionou até 1967, quando a ditadura suspendeu seus voos e a destruiu com uma brutalidade e crueldade impressionantes.

Para se viajar de avião, tinha-se que usar, obrigatoriamente, paletó e gravata. Mesmo meninos tinham de pô-lo. As poltronas, confortáveis, tinham espaço suficiente e as aeromoças, belíssimas e educadas, tratavam os passageiros como verdadeiros príncipes. As refeições a bordo servidas pela Panair eram consideradas do mesmo nivel dos melhores restaurantes de luxo da Europa. E sempre o passageiro chegava a seu destino com uma caixa cheia de brindes: talheres de marcas famosas em miniatura, carteirinhas de cigarro (sim, bom tempo aqueles em que se podia fumar, quando não havia a lei fascista e autoritária que bane dos cigarros de todos os lugares), barras de chocolate, abotoaduras etc, etc.

Um dos entrevistados chega a dizer que o voo semanal da Panair para a Europa era um acontecimento social, saindo, nos principais jornais, a lista dos felizes passageiros.

Tenho orgulho de dizer que viajei uma vez pela Panair do Brasil. O que falta ao documentário é uma investigação mais profunda sobre as causas do ato ditadorial. Ao que parece, os donos da Panair foram contra o golpe de 64. E havia outros interesses, inclusive o da Varig, a grande beneficiada com a destruição da Panair do Brasil.

Milton Nascimento fez uma música como homenagem a Panair cantada por Elis Regina. Vale ressaltar também que, até hoje, os antigos funcionários da Panair ainda se reúnem todos os anos para recordar os bons tempos em que viviam nas asas da Panais. É a família Panair que continua unida, ainda que seus integrantes já velhos e provectos.

PS: O documentário Panair do Brasil, de Marcos Altberg, mostra um trecho de Um só pecado (Le peau douce, 1963), de François Truffaut, quando o personagem interpretado por Jean Dessailly chega a Lisboa, vindo de Paris, num avião da Panair - e se vê bem grande o nome da empresa no avião.


6 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Humberto Castelo Branco era um MONSTRO. Tenho um amigo que o apelidou de SAPURUGA (segundo ele: "mistura de sapo com tartaruga".
Aquilo de fechar a Panair foi uma sacanagem da ditadura que misturou problemas políticos com interesses econômicos.
Quanto à música, de Fernando Brant e Milton Nacimento, tinha um trecho que dizia: "(...) Levei um susto imenso nas asas da Panair
Descobri que as coisas mudam
E que tudo é pequeno nas asas da Panair..."
E Elis a intrepretou divinamente...

André Setaro disse...

Você está sendo gentil com Sapuruga, meu caro Jonga. O fechamento da Panair (e como se fecha, assim, sem mais nem menos, uma empresa que cumpria todos os seus contratos, quite com todos os seus compromissos, e que ajudava muito na imagem do Brasil no exterior?, pelo que vi no filme, e posso pensar, foi por causa de interesses econômicos (a ditadura, talvez, quisesse beneficiar a Varig, como beneficiou) e porque também agiu por 'vendetta', considerando que os seus três donos não apoiaram o golpe descarado.

Jonga Olivieri disse...

Reproduzo a seguir parte de um longo trabalho de "tese" lido na intenet
"... A situação política, cada vez mais crítica, estava diretamente ligada ao futuro da companhia, uma vez que seus dirigentes apoiaram o presidente João Goulart. Estabelecido o governo militar, a edição do Primeiro Ato Institucional, de 10 de abril de 1964, contribuiu para selar o destino da Panair do Brasil, uma vez que, dentre as medidas impostas, figurava a suspensão de garantias constitucionais, estabelecendo um prazo de sessenta dias, durante o qual poderia cassar mandatos e suspender direitos políticos8. A medida atingiu em cheio a candidatura à presidência do então senador Juscelino Kubitschek, sabidamente um entusiasta da aviação e um apoio da Panair do Brasil. Era a única representação civil capaz de fazer frente ao governo militar. A perseguição ao candidato do PSD estendeu-se aos seus apoiadores, dentre os quais figuravam Rocha Miranda e Simonsen..."
Creio, esclarece um pouco das engrenagesn polícas da questão.

Em todo o caso, segue o endereço abaixo:

http://64.233.163.132/search?q=cache:4QS6hA9mhGAJ:www.rj.anpuh.org/resources/rj/Anais/2004/Simposios%2520Tematicos/Alejandra%2520Saladino.doc+porque+fechou+a+panair+do+brasil%3F&cd=2&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br

André Setaro disse...

Esclarecedores os dados apresentados. Muito obrigado. O caso da Panair permanece ainda numa nuvem de fumaça.

Romero Azevêdo disse...

Os militares fizeram algo parecido com a TV Tupi para retaliar Chateubriand( não muito simpático ao golpe). Anos depois, o governo FHC foi obrigado pela Justiça a pagar altos precatórios aos Associados como indenização pelo desmonte arbitrário da rede pioneira de televisão. Ao lacrar os transmissores da Tupi, os golpistas dividiram o espólio entre Silvio Santos e Adolfo Bloch, leia-se TV-S( hoje SBT) e Rede Manchete( que faliu).

Sergio disse...

Assiiti ao documentario e confesso que fiquei impressionado, pela historia, e pela pelicula em si. Achei muito bem feito, informativo e sensivel. Fiquei com a mesma impressão que sua, sobre a motivação do decreto, mas acredito que deva ser bastante dificil levantar documentações sobe tal fato, mas fica nitido os interesses econômicos (Varig como beneficiada) e politicos, pois como dito no documentario, a ditadura fechou tambem a TV Excelsior, que pertenciam a um dos donos da Panair.