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12 fevereiro 2012

"O anjo exterminador", de Buñuel: apenas meio século!


Publicado e escrito especialmente para a revista eletrônica Terra Magazine em 31.01.2012
Os 50 anos de O anjo exterminador (El angel exterminador, 1962), de Luis Buñuel, obra-prima do surrealismo cinematográfico, não podem passar em branco. Sobre ser o maior realizador surrealista da história do cinema, Luis Buñuel tem uma trajetória desigual, cheia de acidentes de percurso, vindo a estrear, em fins dos anos 20, com filmes puristas no que diz respeito aos postulados surrealistas: Un chien andalou (Um cão andaluz, 1928), em colaboração com o excêntrico Salvador Dali, e, dois anos depois, L'âge d'or (A idade do ouro, 1930). Nestas duas obras, Buñuel pretendeu passar ao cinema o surrealismo em estado bruto: as imagens se desenrolam como num processo onírico de associação de idéias. A cena inicial de Un chien andalou é clássica: um homem, com uma navalha, decepa o globo ocular de uma mulher enquanto as nuvens passam, indiferentes, no céu enluarado.
Em 1962, quando O anjo exterminador estreou em Paris, o exibidor solicitou a Buñuel que escrevesse alguma coisa para ser colocada na porta do cinema, a fim de esclarecer melhor os espectadores. Buñuel escreveu o seguinte: "A única explicação que pode ter esse filme é que ele, na verdade, não tem nenhuma." Woody Allen, em seu recente Meia-noite em Paris (Midnight in Paris), quando do retorno no tempo aos esfuziantes anos 20 na Cidade Luz, há um momento impagável: o personagem se encontra com o próprio Buñuel e dá a ele a idéia de fazer um filme como O anjo exterminador sobre um grupo de burgueses que depois de um jantar comemorativo, sem que haja obstáculos que o impeçam de sair, ficam trancados meses e meses na mansão. Buñuel se espanta com a idéia e diz que não compreendeu o por que de o grupo não poder sair.
Em 1955, Luis Buñuel se encontra com André Breton em Paris e este, desanimado, aborrecido, diz ao cineasta: "O escândalo não existe mais!" Breton, autor do manifesto surrealista, é o seu principal nome. Se o escândalo não existe mais, pour épater les bourgeois (para escandalizar os burgueses), o que se pode dizer hoje, decorridos mais de 50 anos, no momento de vale-tudo em que o BBB expõe, sem arte e sem surrealismo, a demência verificada na mentalidade da sociedade atual? A juventude, passou-a nos atribulados anos 20 em Paris, quando os artistas se amontoavam (como mostra Midnight in Paris, como mostra Sinfonia em Paris/An american in Paris, 1950, de Vincente Minnelli, entre tantos outros). Na capital da França, o aragonês Buñuel conheceu a nata e ficou amigo de muitos, além de trabalhar como assistente de direção em uma ou duas películas. Mas o que o atraiu mesmo foi o movimento surrealista liderado por André Breton. Nos anos 30, teve uma experiência mal sucedida em Hollywood, e, com a Guerra Civil da Espanha (1936/1939) exilou-se no México, onde estabeleceu a sua residência, ainda que, no final da carreira tenha filmado bastante em Paris. Terminadas as filmagens, porém, voltava para o aconchego de sua casa mexicana.
Metáfora surrealista sobre o homem e a sociedade, El angel exterminador (o título é bíblico, premonitório e profético) tem na impossibilidade de sair da mansão, sem que nada impeça que seus convidados saiam, um recurso de surrealismo que o autor utiliza para, na verdade, fazer um estudo de comportamentos, um laboratório para a observação de burgueses metidos a aristocratas que, com o tempo, fazem com que caiam as suas máscaras de hipocrisia, e, em consequência, as normas de etiquetas sejam relegadas.
Em uma suntuosa mansão de Nóbile (Enrique Rambal) se celebra um jantar elegante depois que os participantes voltam de uma ópera. Ao término da recepção, os convidados se dão conta de que não podem abandonar o salão. Reclusos por força invisível naquele lugar, iniciam um verdadeiro processo de degradação que deixa a descoberto o ser primário e zoológico que luta para sobreviver e, com isso, são esquecidos todos os prejuízos e convencionalismos sociais. Tudo é pulverizado e destruído, inclusive os luxuosos trajes dos personagens e o mobiliário rico da sala. Eles se alimentam graças a uns cordeiros que conseguem pegar - e que vivem, surrealisticamente, dentro da mansão, recorrendo a toda a classe de fórmulas - cerimônias mágicas, invocações maçônicas, rezas - numa série de tentativas para por fim àquela situação. O parágrafo seguinte contém spoiler e para os suscetíveis melhor que não seja lido.
Finalmente, depois de vários meses de reclusão, os convidados repetem os instantes finais da festa, e, desse modo, conseguem sair da casa. Na catedral do México, assistem a um solene Te Deum. Mas, findo este, comprovam que nem os oficiantes nem seus assistentes conseguem abandonar a igreja. O plano final apresenta cordeiros que entram na catedral enquanto nas ruas explode uma revolução.
(Na versão disponível em DVD de O anjo exterminador, a empresa distribuidora achou por bem cortar uma cena. No original, quando os convidados chegam à mansão de Nóbile, a chegada deles, entrando pela porta e subindo as grandes escadarias, é filmada duas vezes sob dois ângulos diferentes. O responsável pela edição do DVD cometeu um desastre com o corte, interferindo indevidamente na integridade da obra cinematográfica. Talvez por achar que, com a supressão de dois momentos idênticos, viesse a dar mais legibilidade ao filme. Já a versão em VHS, distribuído pela Sagres, mantém a obra na sua integralidade).
O surrealismo parte de uma atitude revolucionária em filosofia, cujo verdadeiro objetivo não consistiria em interpretar o mundo, mas, sim, em transformá-lo. Na forma exposta por seu principal animador, André Breton, o surrealismo revela forte influência do materialismo dialético, dele retirando sua "lógica da totalidade". Assim como o sistema social constitui um todo e nenhuma de suas partes pode ser compreendida separadamente, a arte não deve ser o reflexo de uma parcela de nossa experiência mental (a parcela consciente), mas uma síntese de todos os aspectos de nossa existência, especialmente daqueles que são mais contraditórios.
O surrealismo buñuelesco se, no princípio, seguia fielmente os postulados bretonianos, com o passar do tempo foi se diluindo, com o acréscimo de um humor refinado, sutil, ainda que bem corrosivo, a exemplo de O charme discreto da burguesia (1973), O fantasma da liberdade (1974) e Este obscuro objeto do desejo (1977, seu último filme, pois viria a morrer em 1983. Entre os seus filmes de minha predileção, os dois primeiros, Ensaio de um crime (1956), Viridiana(1960), que causa escândalo na época, O anjo exterminador, Nazarin, O alucinado,La mort em CE jardin, A bela da tarde, e O charme discreto da burguesia. Sem esquecer de uma fita mexicana, Los olvidados, que realizou em 1950. Em Este obscuro objeto do desejo, por exemplo, uma mesma personagem é interpretada por duas atrizes diferentes.
Obra sobre a alienação dos indivíduos alienados por crenças e atitudes, e, também, sobre as vacuidades das fórmulas postiças de convivência, El Angel exterminador constitui, de certo modo, uma prolongação dos grandes temas apontados em Laje d'or., mas com uma maturidade e lucidez ideológicas tais que fazem do filme uma síntese perfeita de toda a obra e ideário de seu autor. O roteiro original - de Buñuel e Luiz Alcoriza - leva o expressivo título de Os náufragos da Rua da Providência. O anjo exterminador foi premiado em Cannes (1962), Sestri-Levante (1962) e Acapulco (1963).

10 fevereiro 2012

Nostalgia de François Truffaut


François Truffaut, se vivo estivesse, teria completado dia 6 de fevereiro passado, 80 anos, pois nasceu em Paris em 1932. Mas morreu cedo, em 1984, aos 52 anos, vitimado por um câncer no cérebro (tumor cerebral). Em sua homenagem, posto este artigo.

Ao contrário do cinema de seus companheiros da Nouvelle Vague - Godard, Rohmer, Chabrol, Rivette, Resnais... racionalista e cerebral, o de François Truffaut é feito com a emoção e o coração, com extrema sensibilidade e uma simpatia incomum pelos seus personagens, que são tratados com ternura, generosidade e afeto. O crítico ferrenho, radical, intransigente, das revistas Cahiers du Cinema e Arts et Spetacules, que ataca em seus escritos o cinema clássico francês e o realismo psicológico de acadêmicos como Claude Autant Lara, Julien Duvivier, entre outros, sofre uma espécie de metamorfose quando passa a realizar filmes, transformando-se num cineasta terno e amável.

Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, cuja tradução literal é Os Quatrocentos Golpes), além de inaugurar a Nouvelle Vague – juntamente com Acossado, de Godard, Hiroshima, de Resnais... -, dá início à carreira de Truffaut como realizador de longas. E, neste 2009, a distância deste filme é de exatos 50 anos. Aqui também começa o ciclo dedicado a Antoine Doinel (sempre interpretado por Jean Pierre Léaud), um personagem com evidentes elementos autobiográficos, através do qual aborda o rito de passagem da infância à idade adulta. É a nostalgia da adolescência que Truffaut reflete nos filmes do ciclo Doinel, a fugacidade do tempo e a ânsia de amar, a chegada a idade adulta, o casamento... (Antoine et Colette, 1982, episódio de O Amor aos Vinte Anos/L’Amour a vints ansBeijos Proibidos/Baisers Volés, 1968, Domicílio Conjugal/Domicile Conjugal, 1970, e; Amor em Fuga/L’Amour en Fuite, 1978).

(Em Os Incompreendidos, Truffaut, avant la lettre, considerando a época, alude à Nouvelle Vague e a seu amigo e colega Jacques Rivette, quando os pais de Antoine – que, por sinal, nos outros filmes do ciclo estão sempre ‘indo ao cinema’ – decidem ir ver Paris Nous Appartient, de Rivette, filme emblemático, apesar de pouco conhecido do movimento francês, e, de volta, no automóvel, consideram-no ‘muito bom’ – melhor homenagem impossível).

Romântico, sem, contudo, abandonar a visão irônica e dolorosa das relações afetivas, Truffaut tem a sua obra-prima já na terceira incursão longametragista: Uma Mulher para Dois/ Jules et Jim (1961), crônica de uma relação triangular (Oskar Werner, Jeanne Moreau...) baseada no texto literário de Henri Pierre Roché, autor que lhe serviria de inspiração para realizar, dez anos depois, abordando a mesma temática da dificuldade de amar, As Duas Inglesas e o Continente/ Les Deux Anglaises et le Continent (1971). O problema da comunicação no amor, aliás, do amor impossível, en fuite, é uma constante na filmografia de Truffaut, como revelam A História de Adele H/ L’Histoire de Adele H (1976), com Isabelle Adjani, A Mulher do Lado/ La Femme de la Cote (1981), entre outros.

Se seus colegas da Nouvelle Vague procuram elaborar uma linguagem que desconstrói o discurso cinematográfico tradicional, revertendo os cânones da lei de progressão dramática griffithiana, François Truffaut não pretende nunca em seus filmes dissolver a estrutura lingüística, mas, ao contrário, busca desesperadamente a fluência narrativa, o toque mágico capaz de envolver o espectador a fazê-lo pensar que não está no mundo’. É verdade que brinca com a metalinguagem, mas num sentido de reverência e ao cinema como em A Noite AmericanaLa Nuit Americaine (1973), belíssima homenagem ao processo de criação cinematográfica onde Truffaut comparece como ele mesmo no papel de um diretor que faz um filme. O filme dentro do filme, portanto.

Outra vertente temática na obra truffautiana é a dominante policial, influência, na certa, de sua admiração por Alfred Hitchcock – seu livro de entrevista com este, Hitchcock/Truffaut, da Brasiliense (e, agora, em outra edição pela Cosac ou Companhia das Letras), é, simplesmente, uma aula magna de cinema. Há Hitchcock em Fareinheit 451 (1966), que faz na Inglaterra, com o mesmo Oskar Werner de Jules et Jim, baseado na ficção-científica de Ray Bradbury. Outra obra alusiva ao mestre é A Noiva Estava de Preto/ La Mariée Était em Noir (1967), com Jeanne Moreau ou, mesmo, Tirez sur le Pianiste, segundo filme (1960), e A Sereia do Mississipi/ La Sirene du Mississipi (1969), no qual declara, através das imagens em movimento, a sua paixão momentânea, Catherine Deneuve, que trabalha, aqui, ao lado de Jean Paul Belmondo. E no seu canto de cisneDe Repente num Domingo/ Vivement Dimanche (1984), cujo ‘claro/escuro’, proposital, vem em auxílio de uma proposta estilística em função do film noir francês. Sem esquecer o elaborado, como mise-en-scène, Um só pecado (Le peau douce, 1963).

Autor, porque dono de um estilo próprio, marcante, ainda que com um universo temático diversificado, François Truffaut, na sua filmografia, envereda por assuntos diversos, a exemplo de O Garoto Selvagem/ L’Enfant Sauvage (1970), filme sobre a luta de um médico, no século XIX, para ‘domar’, um menino bárbaro criado sem contato com a civilização – influência possível para Werner Herzog em O Enigma de Kaspar Hauser. Na Idade da Inocência/ L’Argent de Poche (1976), experiência na qual, repetindo Jean Vigo (Zero de Conduite), o universo que retrata é constituído somente de crianças. Sem esquecer O Último Metrô/ Le Dernier Metro (1980), uma volta ao passado, Segunda Guerra Mundial na França ocupada, para valorizar, numa situação-limite, a importância dos pequenos gestos.

Em todos os filmes de François Truffaut, um denominador comum: a narrativa que sobrepuja a fábula, a doce fabulação que advém de um sentido preciso de mise-en-scène, o touch truffautiano, sempre terno, apaixonado, capaz de levar ao espectador o prazer do autor com o que está a filmar e o prazer, imenso, de se assistir ao que se está a ver.

08 fevereiro 2012

"O Silêncio", de Ingmar Bergman

O silêncio (Tystnaden, 1963), uma das obras mais admiradas de Ingmar Bergman, realizada no mesmo ano de Luz de inverno (Nattvardsgästerna), reflete o problema da incomunicabilidade através da distância emocional entre duas irmãs (Ingrid Thulin e Gunnel Lindblom). que viajam por um país estranho e desconhecido acompanhadas de um menino perplexo e curioso (Jorgen Lindstrom) e se hospedam num grande hotel desabitado e no silêncio de um país cuja língua desconhecem. A fase bergmaniana dos anos 60 é muito rica, assim como também a foi a dos 50. Filme para ser visto também em silêncio, silêncio respeitoso ao qual se deve reverenciar toda obra de arte. 

07 fevereiro 2012

A necessidade dos ruídos

O grande Alain Resnais
Quando do advento do cinema falado, em fins dos anos 20, a verborragia tomou conta dos filmes e se destruiu por completo a estética da arte muda. A linguagem cinematográfica alcançara uma perfeição quase absoluta, mas pedia o som. Este veio de forma desordenada e os filmes perderam, por assim dizer, a sua arte, para se transformarem em avalanches de diálogos. Foi preciso esperar a década de 30 para que houvesse uma compreensão da exata estrutura audiovisual do cinema e, então, alguns cineastas conseguiram dosar a imagem e o som, que entraram em conjugação harmônica. O surgimento do cinema falado também veio a estabelecer uma série de problemas, como bem mostra, de maneira satírica, aquele que é considerado o maior musical de todos os tempos: Cantando na chuva (Singin'in the rain, 1952), de Stanley Donen e Gene Kelly.
Há, na parte sonora, três bandas: a banda dos diálogos, a banda da partitura musical, e a banda dos ruídos. Esta última, por incrível que pareça, ainda se encontra pouco utilizada como elemento estético. Um filme argentino, extraordinário, O pântano, de Lucrecia Martel, é um exemplo perfeito da sábia utilização dos ruídos. Martel esteve ano passado no Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual e falou sobre a estética dos ruídos.
Lars von Trier, cineasta dinamarquês, soube usar o ruído com propriedade nas cenas da floresta em O anticristo, assim como a própria Martel os utiliza com eficiência estética e dramática em O pântano (os ruídos das cadeiras no pátio onde se encontra uma piscina, os raios etc). Os fratelli Coen sabem usá-los em seus filmes, notadamente no oscarizado Onde os fracos não têm vez.
Foi apresentado no Cannes Classic, evento do festival do mesmo nome, a cópia remasterizada de Psicose, causando, ainda hoje, 50 anos depois, um grande impacto na platéia, principalmente por causa da partitura impactual de Bernard Herrmann que, na remasterização do filme consegue ser ouvida em todos os seus detalhes. Aliás, a narrativa para Psycho é executada, hoje, em concertos da maior expressão no cenário internacional. O grande Herrmann, que assinou as trilhas dos principais momentos hitchcockianos, morreu em 1975, após compor a partitura de Taxi Driver, de Martin Scorsese, na qual, pela primeira vez, se utiliza de instrumentos eletrônicos.
Nunca se pode deixar de esquecer e verificar que o cinema é uma estrutura audiovisual. Mas as pessoas insistem em dar valor a um filme por causa do seu elo semântico, isto é, o conteúdo, a mensagem. O que é um erro, pois o valor cinematográfico de um filme se encontra na sua linguagem, na maneira de o cineasta a articular por meio dos planos, dos movimentos de câmera, da angulação, da montagem etc.
O advento do som provocou uma reviravolta completa na já estabelecida estética da arte muda que alguns realizadores, a exemplo de Charles Chaplin, se recusaram a aderir ao cinema falado. Chaplin realizou Luzes das cidades (City lights, 1930), quando o som já era moeda corrente nas salas exibidoras. E ficou agarrado a uma estrutura narrativa da era muda em 1936 em Tempos modernos, e somente veio a falar em 1941 quando fez um discurso bombástico em O grande ditador (embora neste filme a estrutura narrativa continuasse a ser do cinema mudo).
Mas muita água rolou debaixo da ponte em 116 anos de cinema, arte jovem, como se pode ver, se comparada às outras. Lucrecia Martel fez O pântano com a consciência de uma cineasta ciente das possibilidades estéticas do cinema contemporâneo. Argentina, é considerada pelos críticos, uma das diretoras mais originais da atualidade. Basta dizer que A menina santa, de sua autoria, é um dos filmes preferidos de Pedro Almodóvar.
Em Os brutos também amam (Shane, 1953), de George Stevens, quando Paredão (Elisha Cook Jr), tirando onda de valentão, tenta, no lamaçal diante da taberna onde se encontra o temível pistoleiro Wilson (Jack Palance), dizer-lhe algumas poucas e boas, Wilson, com seu olhar frio, fita o pobre Paredão enquanto coloca, maneirosamente, as suas luvas pretas (sinal que vai sacar da arma). O tiro que Wilson dispara tem um ruído tão intenso, que causa grande impacto. George Stevens, numa entrevista antológica a Paulo Perdigão publicada na revista Filme/Cultura, disse ao crítico carioca que o som do tiro foi, na verdade, o som de um tiro de canhão. Há, por outro lado, ruídos que servem como sinal de pontuação, como a mala que cai no final de Frenesi, de Alfred Hitchcock para sinalizar, com impacto e mise-en-scène, o término do filme.
E a palavra como elemento estético, um fim em si mesma, aconteceu com o extraordinário, e imprescindível, Hiroshima, mon amour (1959), de Alain Resnais, que provocou, na época, comoção diante de sua originalidade. Originalidade que seria reforçada dois anos depois pelo próprio Resnais em O ano passado em Marienbad. E, impressionante, este realizador, com quase 90 anos de idade, continua em atividade, tendo nos brindado, ano retrasado, com um filme que foi, de longe, o melhor, As ervas daninhas (Les herbes folles). Outro longevo é o português Manoel de Oliveira, que já passou dos 100 e continua filmando.

06 fevereiro 2012

James Bond: meio século

Sempre gostei muito da série 007 - e para quê negá-lo? - desde o primeiro O satânico Dr. No (Dr. No, 1962), de Terence Young, que vi no seu lançamento, adolescente. Depois Moscou contra 007 (From Russia with love, 1963), também de Young, um chinês que trabalhava no cinema britânico, e 007 contra Goldfinger (Goldfinger, 1964), de Guy Hamilton. Young volta a dirigir 007 contra a chantagem atômica (Thunderball, 1965), cujo vilão, o nosso conhecido Adolfo Celi. Bem e vai por aí. Sean Connery, o melhor Bond de todos. Mas sabem que gostei muito de Cassino Royalle com Daniel Craig?

"Limite" (1931), de Mário Peixoto

Limite, filme brasileiro realizado em 1931 por Mário Peixoto, é uma obra-prima, que permaneceu décadas, após a sua apresentação na época, deteriorado, até que, em 1980, pôde ser visto depois de restaurado com a paciência de Jó por um amigo e grande entusiasta da obra única de Peixoto. Conta a lenda que o realizador Sergei Eisenstein o viu em Moscou e ficou assombrado com a sua ousadia estilística.

05 fevereiro 2012

"Histórias Cruzadas": ficção e realidade do capitalismo nos EUA



Tenho a honra de publicar a exegese do Professor (Ph.d) Jorge Moreira, de Wisconsin, sobre Histórias Cruzadas (The Help), filme que, por coincidência, está entrando em cartaz no Brasil (e também na Bahia). Analista severo, e sem papas na língua, da crise pela qual passa o capitalismo, o Professor Moreira, não passa, na verdade, de um baiano, e baiano da Ilha de Maré. Nas horas vagas, que lhe são poucas, gosta de escrever histórias e já tem um livro publicado: Memorial da Ilha, que não é outra senão a de Maré, onde passou a sua Idade da Ilusão, a sua meninice. Já publiquei aqui no blog alguns artigos de Moreira. Mas vamos em frente porque atrás vem gente. Abrindo as aspas devidas:


"Histórias Cruzadas é o título do filme The Help em língua portuguesa que está baseado no livro romance homônimo e ambos (filme e livro) têm tido uma extraordinária recepção popular entre o público dos EUA.

Basta dizer que o livro de Kathryn Stockett (suposta autora do romance) transformou-se em um notável “best seller” ocupando por várias semanas o primeiro lugar na lista dos livros mais vendidos do jornal The New York Times.

O filme The Help, do diretor Tate Taylor, também está tendo um  grande sucesso de bilheteria  no país pois teve o custo total de apenas 25 milhões de dólares mas já arrecadou mais  de $205  milhões de dólares até agora (dados da Wikipédia).

The Help já ganhou prêmios em alguns festivais de cinema e atualmente está competindo ao prêmio Oscar de 2012 em três categorias (melhor filme, melhor atriz, e melhor atriz coadjuvante).

The Help é um filme que tem despertado as lacrimosas emoções do público e tem feito espectadores e críticos entrarem no chororô para logo sair do cinema com a alma lavada, contentes, e sem sentimento de culpa para atormentar o corpo e a alma.

O filme narra a história de Eugenia “Skeeter” Phelan (Emma Stone) uma jovem mulher rica, branca e o seu relacionamento com duas empregadas negras, Aibileen Clark (Viola Davis) e Minny Jackson (Octavia Spencer), durante o período do movimento pelos Direitos Civis nos anos 1960.
Skeeter” é uma jornalista recém formada que decide escrever um livro sobre a vida das empregadas domésticas pobres que trabalham nas "casas brancas" da cidade de Jackson, no estado de Mississipi, sul dos EUA, porem adotando a perspectiva das empregadas (conhecidas como the help) para mostrar o tratamento racista que elas têm que aguentar quando estão trabalhando para famílias de brancas ricas. 
Mesmo intimidadas pelo perigo de serem descobertas e castigadas pelos brancos (se são identificadas como coautoras do livro), as empregadas afroamericanas (depois de muita resistência) decidem corajosamente dar seus depoimentos para “Skeeter”. Depois de publicado, o livro obtém um grande sucesso de vendas resultando na melhora da situação econômica das colaboradoras negras.
The Help (de forma e estilo clássico hollywoodiano), destaca-se pela utilização de alguns elementos formais que colaboram para manter o agradável ritmo do filme assegurando a atenção e o interesse do espectador ate o seu final. Entre os elementos formais que despertaram a minha atenção estão: a utilização de protagonistas múltiplos (que me lembrou a sua utilização no filme Hannah e suas irmãs pelo diretor Woody Allen); e a vigorosa atuação do conjunto de atrizes e atores do filme com destaque especial para a brilhante atuação de Viola Davis no papel da doméstica Aibilene (ainda que os personagens sejam quase todos baseados em conhecidos estereótipos da sociedade estadunidense).

Uma sequência de cenas que despertou particularmente a minha atenção (pelo nível de mistificação e manipulação ideológica), mostra Minny Jackson, uma  das empregadas domesticas, recebendo dinheiro pelo trabalho e pelo perigo que correram ousando narrar as suas experiências pessoais no relacionamento com as mulheres brancas e ricas. 

A sequência começa quando Minny, desempregada e triste, está na cozinha da sua casa fritando frango para os três filhos, menores de idade. Neste momento, uma das filhas entrega-lhe a correspondência que havia chegado pelo correio. Minny abre um envelope e encontra um bilhete da jovem jornalista “Skeeter” com a quantia de 46 dólares (uma fortuna para a época) em dinheiro vivo. O bilhete informa-lhe que o dinheiro corresponde a uma adiantamento que a editora pagou pela edição do livro e que chegará mais dólares no futuro.

Minny, deslumbrada de alegria, esquece do frango sendo queimado na frigideira e sai correndo para a casa da amiga Aibilene para mostrar-lhe a carta e a quantidade de dinheiro que recebeu.

As duas mulheres começam a pular de alegria e enquanto Minny grita “estamos ricas, estamos ricas”, Aibiline narra (voz em off) que a jornalista “Skeeter” recebeu 600 dólares  como um adiantamento pelo romance e que ela  dividiu o dinheiro entre ela e as 13 empregadas que colaboraram no livro cabendo 46 dólares para cada uma.

Esta sequência (construída para convencer o espectador de que através da solidariedade entre raças, os oprimidos se libertarão da opressão) sugere que as negras pobres já não terão problemas econômicos pelo resto de suas vidas, mas o espectador atento e critico, pode paradoxalmente se dar conta da espetacular manipulação ideológica que o filme esconde e que trata de generalizar através  do ideologema (liberal, burguês e capitalista) de que a superação dos conflitos e contradições entre  as diferentes classes sociais pode ser obtida sem a luta de classes entre capitalistas e trabalhadores.

E a mistificação e manipulação ideológica podem ser verificadas se os leitores e espectadores deixarem por um momento a ficção e forem informados honestamente que Kathryn Stockett, a suposta autora do romance, na realidade roubou a história de uma mulher negra de 60 anos de idade, de carne e osso, chamada Ablene Cooper que trabalhou para a família e o irmão da suposta autora por um período de 12  anos.
(Ver o link do The New York Times:

Reproduzo aqui as duras palavras de Ablene Cooper contra o roubo da sua vida por Kathryn Stockett: “Her family hired me as a maid for 12 years but then she stole my life and made it a Disney movie”: "Sua família me contratou como empregada doméstica por 12 anos mas então ela roubou minha vida e fez dela um filme de Disney”
(Ver link do jornal inglês  Mail Online.com:

Logicamente, Ablene Cooper, a pobre empregada domestica real, entrou com um processo jurídico contra Kathryn Stockett, demandando 75.000 doláres, mas um juiz branco do sul dos EUA recusou dar prosseguimento à sua demanda.

Queremos acreditar que ainda resta para a verdadeira Ablene, um último recurso (será?): apelar a decisão do juiz branco do sul dos EUA em uma outra corte de justiça estadunidense.

Por último, gostaria de voltar à ficção para sugerir que o olhar do filme para o passado histórico, ao invés de nos ajudar (to help) a entender a realidade da permanência do racismo contra os pobres, pretos e latinoamericanos no presente, mistifica o passado e esconde (indiretamente) não apenas o aumento do desemprego e da deterioração das condições de vida dos pobres, mas sobretudo esconde  a intensificação da perseguição racista branca cujo objetivo é legitimar, numa situação de crise econômica, o saqueio dos  postos de trabalho que têm sido, tradicionalmente, ocupados por trabalhadores negros e latinoamericanos, dado os baixos salários e as péssimas condições de vida dos mesmos.

Na minha opinião, o filme busca (direta ou indiretamente) nos distrair do pesadelo resultante do mítico “sonho americano”, tratando de nos fazer esquecer do sentimento de culpa que sentimos pelo racismo que não para de crescer no país, devido a política oficial do governo do afroamericano Barack Obama que expandiu o sistema policial para prender e expulsar latinoamericanos (sobretudo mexicanos) do território nacional mas que continua fazendo discursos demagógicos e hipócritas (prometendo uma reforma migratória) afim de obter os votos da população latinoamericana para a sua reeleição  à presidência dos EUA.

Assim, em vez de mostrar as causas da intensificação do racismo na atualidade, o filme, complacente e conformista, procura mistificar nos, querendo que acreditemos que o racismo e a opressão dos pretos no sul dos Estados Unidos já não existem. Que é coisa de um passado remoto; do tempo em que Martin Luther King Jr. ainda não tinha sido assassinado pelos brancos ricos e racistas."
Texto de Jorge Moreira

02 fevereiro 2012

Walter Pinto Lima: agente cultural


Cineasta, pintor, e, principalmente, agente cultural, José Walter Pinto Lima, mais conhecido como Waltinho, já está a fazer quase meio século de vida cinematográfica na província da Bahia. Conheço-o desde meados dos anos 60, quando participava ativamente de grupos ligados a cinema e era frequentador das sessões do saudoso Clube de Cinema da Bahia. Para ser exato, vim a conhecê-lo quando de um curso de cinema na Escola de Sociologia e Política (fechada logo depois pela ditadura), em 1967, que ficava logo no princípio da Ladeira da Barra. Um curso de um mês, mas que reuniu quase todas as pessoas interessadas pela arte do filme. Yves de Oliveira, sociólogo, diretor da escola, aceitou a sugestão de Carlos Alberto Vaz de Athayde e cedeu uma sala para a realização do curso, que foi ministrado pelo próprio Athayde, Orlando Senna, e Carlos Vasconcelos Domingues. Walter Lima, nesta época, estava envolvido com as filmagens de O carroceiro, de seu amigo Ney Negrão, que se encontrava em processo de pós-produção.

Assistente de direção do consagrado Meteorango Kid, o herói intergalático, de André Luiz Oliveira, no qual também aparece como ator, Walter Lima pautou sua vida no desejo de fazer cinema. E o fez, apesar de todas as dificuldades da expressão cinematográfica numa cidade como Salvador. Foi o primeiro a gravar em VHS um documentário de collage chamado Brasilianas. Seu registro sobre o músico Walter Smetak, O alquimista do som, é hoje um documento sobre o extraordinário instrumentista. Outro filme de Walter, uma ficção meio godardiana, Nós, por exemplo, tem Edgard Navarro como um dos intérpretes. E, recentemente, reconstituiu um longa que estava inacabado há vinte anos: O império do Belo Monte, com acréscimos atuais, mas conservando as tomadas do pretérito, que mudou de nome e foi apresentado como Antonio Conselheiro, o taumaturgo do sertão.

O cinema de José Walter Pinto Lima é um cinema com fortes acentos de Glauber Rocha e Pier Paolo Pasolini, como pode ser observado em Antonio Conselheiro, o taumaturgo do sertão, obra poemática, cujo ritmo se estabelece mais pela retórica do que pela fabulação. Admirador de Jean-Luc Godard, a influência deste não se faz notar na obra citada, porque uma temática mais chegada aos arroubos glauberianos, que pedia um discurso cinematográfico mais retumbante em sua sintaxe, que acumula materiais de procedências diversas: animação, fotos, narração em off em alguns momentos, declamações poéticas etc.

Mas o que gostaria de ressaltar em José Walter Pinto Lima é seu lado de gestor cultural. Muita gente não sabe (ou finge não saber), mas Waltinho, desaparecido o Clube de Cinema da Bahia sob a regência de Walter da Silveira (que morreu em novembro de 1970), foi quem deu continuidade à sua proposta de difusão do bom cinema através da exibição de filmes no Auditório da Biblioteca Central, que depois, em 1986, viria a se chamar Sala Walter da Silveira.

Iniciadas as exibições no Auditório da Biblioteca Central em 1977, a princípio feitas na bitola de 16mm e apenas uma vez por semana, os primeiros anos foram tímidos em termos de programação, ainda que, no ano seguinte, já se projetasse em 35mm e de quarta a domingo. Foi a partir do advento de Walter Lima como Coordenador da Imagem e do Som (antigo nome para o diretor do atual DIMAS) que houve um impulso considerável. Walter Lima conseguiu ampliar os dias de exibição e trazer para a Bahia mostras de cineastas como Jean-Luc Godard, Luis Buñuel, Robert Bresson, Sergei Eisenstein, entre tantos, e, principalmente, a partir da denominação de Sala Walter da Silveira, esta virou um cinema lançador de filmes raros e expressivos que não interessavam ao mercado exibidor.

Naquela época, anos 80, não havia ainda o DVD nem mesmo o VHS, e a nova geração não conhecia os filmes de um Godard, de um Buñuel, de um Bergman etc. O cinéfilo ficava ao sabor das circunstâncias do mercado exibidor. Conhecia-se mais cinema pela leitura de livros e revistas (falo do cinema mais autoral) do que pela visão dos próprios filmes. Se hoje, por exemplo, é muito fácil se ver qualquer filme (basta baixá-lo da internet em 5 minutos com computador de banda larga com 2MB) ou ir à locadora mais próxima, há vinte anos, perdido o filme no seu lançamento, dificilmente se teria a oportunidade de vê-lo novamente. Quando Walter Lima exibiu, por exemplo, Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, o público lotou completamente o auditório, com gente saindo pelo ladrão.

José Walter Pinto Lima, promotor cultural, realizou um grande trabalho à frente da Coordenação da Imagem e Som da Fundação Cultural do Estado da Bahia. Ninguém mais, depois dele, ousou tanto e promoveu tantos eventos. Os concursos de roteiros, outro exemplo, foram iniciados por ele, antes dos editais governamentais do terceiro milênio. A origem do tão festejado Três histórias da Bahia está num concurso de roteiros para a premiação de uma trinca de curtas que depois foram reunidos no longa citado.

E, para não esquecer, Walter Lima conseguiu solucionar um impasse quase intransponível para que a Sala Walter da Silveira pudesse lançar filmes. A burocracia estatal, como se sabe, trabalha na base de empenhos e demora para pagar. E as distribuidoras não aceitavam lançar filmes na sala dos Barris. Walter conseguiu uma reformulação para que fosse aberta uma exceção e da renda da bilheteria pudesse ser retirada a parte que cabia a distribuidora sem a necessidade do pachorrento empenho. A gestão seguinte, porém, desfez a exceção tão necessária, ocasionando a decadência da Sala Walter da Silveira, que não pode mais lançar filmes novos nem velhos de distribuidoras comerciais, contentando-se com filmes de embaixadas e consulados, apesar dos esforços do atual programador Adolfo Gomes, crítico e estudioso do cinema. Sobre a Sala Walter da Silveira e essa questão do empenho, e a tentativa de desburocratixzação de Walter Lima, escreverei um artigo à parte.

E o Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual, que agora se chama Cine Futuro? É simplesmente o maior festival de cinema da Bahia e um dos eventos mais importantes do Brasil. Quem, senão Walter Lima, conseguiria trazer nomes tão importantes como Costa-Gavras, Miguel Littin, o biógrafo de Truffaut, o redator-chefe do Cahiers du Cinema, entre tantos outros. Na última noite do seminário do ano passado, impressionado fiquei com o depoimento de Bertolucci, que, convidado para o Cine Futuro, não pôde comparecer, mas mandou uma gravação que foi exibida. Ele diz: "Fiquei triste em não poder aceitar o convite de meu velho amigo Walter Lima!" 

Com esta, acho que disse tudo.


P.S: José Walter Pinto Lima foi um dos produtores de Dawson - Ilha 10 (Dawson - Isla 10), do chileno Miguel Littin, uma produção internacional.

01 fevereiro 2012

Tom Jobim sob Tuna Espinheira



O velho Tuna Espinheira foi ver A música segundo Tom Jobim, de seu amigo Nelson Pereira dos Santos (que produziu um de seus filmes curtos) e saiu deslumbrado com a beleza do documentário. Chegando ao seu apartamento, bateu o comentário que vai abaixo e, na afobação, nem parou no bar vizinho de Seu Hermenegildo para tomar a sua cerveja acompanhada de uma rigorosa Seleta. Abro aspas para evitar desconforto textual:

"Nelson Pereira dos Santos, mestre divisor de águas, da história do cinema brasileiro, faz um gol de placa com o filme: A música segundo Tom Jobim. A opção feliz de contar a saga do compositor tão somente pelas suas próprias criações melódicas foi deveras um grande achado. A edição primorosa trás para as retinas (estas costumeiramente cansadas) dos espectadores, a impressão de estar vendo um filme com um único plano sequencia,     (embora com centenas de cortes)

A abertura do filme, nas asas da Panair, em preto e branco, dando uma visão de um Rio antigo, é deslumbrante e, sem gastar saliva, encarna o maestro iluminado na cidade do Rio de Janeiro e vice versa. Se existe o chamado carioca, com seu jeitinho de ser, seu retrato falado coincide com próprio Tom, não se pode separá-lo da Cidade Maravilhosa, assim como não se deve apartar Dorival Caymmi da Bahia.

Mesmo sendo uma mania antiga, esta de contar um filme, não cabe neste caso, é incontável, só vendo, seu enredo é puramente para ver e ouvir. Um impressionante desfile de artistas, ao nível de Ellla Fitzgerald; Frank Sinatra; Sammy Davis Jr; estas e outras e outras feras imortais, em rico material de arquivo de filmes, tocando e cantando as pérolas musicais do bruxo compositor, a quem o Chico Buarque chamou: de “Maestro Soberano”. É um revezamento de cenas antológicas de artistas nacionais e internacionais, um espetáculo de dar água na boca, para uns, e de deixar a alma lavada, para muitos.   

Sem querer comparar, mas me lembrou  O Baile, de Ettore Scolla. Talvez porque é também a música que conduz o enredo. A realização de um filme mudo, mas não silencioso, como estes dois, enfrenta o suspense do caminhar no fio da navalha. Semelhante a um jogo de armar, cada peça no seu cada qual. É tudo ou nada. É coisa é coisa de mestre.
                      
Nelson fica devendo o filme número 2, agora falado. Tem muito pano prá manga neste outro olhar necessário sobre Jobim, muitas histórias, estórias “causos”, depoimentos, coisas do arco da velha. O Diretor já provou ser um ótimo regente de conversações (vide o documentário sobre Sergio Buarque de Holanda), vai tirar de letra.

Mestre  Nelson , na plenitude dos oitenta anos, fez um gol de placa com o filme: A Música Segundo Tom Jobim."  

e-mail: tunaespinheira@terra.com.br

Cliquem na imagem para vê-la maior e mais nítida.

30 janeiro 2012

Homenagem ao grande Chico Anysio

Em homenagem ao grande comediante, compositor, escritor, Chico Anysio, que se encontra em estado grave internado na UTI do Hospital Samaritano do Rio de Janeiro, um momento de sua inesquecível Escolinha do Professor Raimundo (circa 1991, creio), quando a televisão ainda tinha programa de humor de qualidade. No vídeo, como Rolando Lero, o impagável Rodrigo Cardoso, insuperável na sua maneira de criar situações engraçadas (e rindo de si próprio) A importância de Chico Anysio para a televisão brasileira é enorme. O tempo dirá. 

29 janeiro 2012

"A Noite", de Michelangelo Antonioni

Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni em A Noite (La Notte, 1961), de Michelangelo Antonioni
Um dos filmes que me despertaram, no decorrer dos anos 60, para a compreensão do cinema como uma verdadeira expressão da arte, foi, sem dúvida, A Noite (1961), de Michelangelo Antonioni. Visto pela primeira vez no Clube de Cinema da Bahia, La Notte, com o domínio da antinarrativa, promovia o êxtase diante de um cinema que procurava mostrar as difíceis relações entre as criaturas humanas, principalmente no se refere à incomunicabilidade que se manifesta na rotina de um casal. La Notte se constituiu, por assim dizer, numa introdução à cultura superior cinematográfica, formado que era, então, e apenas, pelo cinema de gênero oriundo de Hollywood. A partir de La Notte, vim a conhecer não somente os outros filmes de Antonioni, como as obras dos grandes autores no já citado Clube de Cinema da Bahia (que, neste ano de 2010, cumpre os seus 60 anos de fundação): Resnais, Godard, Truffaut, Kurosawa, Welles, Kenji Mizoguchi, Eisenstein, Fellini, Buñuel, entre tantos. Foi a minha iniciação.
Falar de "A Noite", de Michelangelo Antonioni, é falar de uma obra-prima, de um filme emblemático da história do cinema. Responsável pela sublimação da linguagem no ser fílmico, Antonioni praticou um corte longetudinal na evolução da narrativa cinematográfica, com a desdramatização, ou seja, a recusa do espetáculo, a desteatralização, que pode também ser vista em Roberto Rossellini em seu fundamental Viagem à Itália (Viaggio in Itália, 1953), que, a bem da verdade, precedeu o realizador de La Notte. Segundo Marcel Martin, a partir dos anos 50, assiste-se a um progressivo ultrapassar da linguagem, àquilo que se poderia chamar de rejeição das regras tradicionais - da gramática de ferro - para fazer da narrativa fílmica não mais um meio, um veículo de sentimentos e idéias, mas um fim em si: a própria narrativa tornando-se o objeto primeiro da criação. Assim, ficou mais difícil aplicar aos filmes que se colocaram na vanguarda da pesquisa estilística - como a famosa trilogia de Antonioni constituída de A Aventura/L'Avventura, 1960, A Noite, e O Eclipse/L'eclisse, 1962 - os velhos esquemas da "explicação de textos" habitual, ou seja, a distinção escolástica entre a forma e o conteúdo se tornou impossível e absurda. Antonioni, pode-se dizer, instaurou a estética do filme.
Giovanni Pontano (Marcello Mastroianni), um escritor de sucesso, encontra-se prisioneiro em um universo fictício, incapaz de escrever algo sério, verdadeiro. Sua mulher, Lídia, (Jeanne Moreau) se sente excluída do mundo do marido. A morte de um amigo de ambos (interpretado pelo diretor alemão Bernhard Wicki) faz ainda mais patente o abismo aberto entre eles. Gherardini, o poderoso industrial, tenta comprar o escritor, apesar de seu elevado nível de vida e o orgulho que sente por seu poderio capitalista. Sua filha Valentina (Mônica Vitti), afogada no vazio de seu próprio ambiente burguês, sente uma urgente necessidade de se libertar. Cada um desses personagens de Michelangelo Antonioni permanece preso num beco sem saída. Está exposta a equação existencial tão ao gosto do cineasta de "A Aventura".
Antonioni, que rodou o filme em Milão, fixou sua atenção sobre os meios industriais e intelectuais da populosa cidade italiana. A mesma Milão que serviu de cenário a outra obra-prima do cinema italiano: Rocco e seus Irmãos(Rocco i suoi Fratelli, 1960), de Luchino Visconti, tragédia exemplar que estabelece a cinematografia italiana como a mais poderosa do momento cinematográfico nos sessenta, agrupando verdadeiros gênios como Antonioni, Visconti, Fellini, entre tantos outros como Valério Zurlini. Assim, a fixação da inação em Milão não é aleatória, mas tem um objetivo e um propósito. Antonioni quando elege a profissão de seus personagens sabe perfeitamente o que está a fazer: "Exijo sobretudo intelectuais, porque são os que têm a consciência mais exata da realidade, além de uma sensibilidade, uma intuição, mais sutil, através da qual posso filtrar a realidade que desejo expressar." A expressão dessa realidade nos seus filmes se faz pelo exterior ou pelo interior.
Antonioni em A Noite aprofunda a linha estabelecida em A Aventura. O esquema dramático maneja uma série de abstrações até então inéditas no cinema de Antonioni. Que, pela primeira vez, reúne Jeanne Moreau e Mônica Vitti, as duas atrizes que melhor souberam expressar as facetas da mulher moderna - a mulher contemporânea dos anos 60, quando a libertação se fazia urgente e o cinema um conduto que muito bem expressava o profundo estado de crise da sociedade burguesa. Um estilo que se caracteriza pelas tomadas longas, estabelecendo, com isso, uma espécie de anti-narrativa cuja exasperação chegou em O Eclipse.
Em A Noite, o industrial Gherardi e sua esposa são realmente figuras da alta burguesia milanesa, assim como em sua maioria os convivas são sócios do Barlassina Golf Club (perto do lago Como), transformado em residência daqueles. Antonioni não incide no jogo duplo em relação a esses atores voluntários. Sua serenidade de artista permite-lhe colocar, ao lado da análise implacável nos diálogos e nos planos, o orgulho do capitalismo que escreve ou roteiriza segmentos da História com personagens verdadeiros, casas verdadeiras, cidades verdadeiras.
Walter da Silveira, ensaísta baiano, após a primeira visão de La Notte, entusiasmado, escreveu um ensaio sobre Antonioni do qual destaco aqui esta parte - que se encontra no livro Fronteiras do Cinema: "Ao contrário do que se tem dito, Antonioni seria, por um paradoxo, o cineasta que mais acredita na sensibilidade e na inteligência do público, dispensando-se de ser evidente para ser claro. E se constrói seu relato fílmico sem excluir o elemento não visual do cinema, dando-lhe a importância de um fator de interpretação ou acentuação da imagem, no final de cada filme transmite-nos uma longa cena silenciosa em que só o gesto define e comunica toda a sua essência vital, ética. Em A Aventura, a mão de Claudia desce, hesita, volta a descer sobre o ombro de Sandro, numa indecisa porém insistente vontade de existência a dois, numa dolorosa porém aguda intuição de que, malgrado todas as demissões, resta ainda ao homem uma tênue possibilidade de libertar-se. Em A Noite, o par cujo casamento já no décimo ano foi tomado pelo tédio, a lassidão conduzindo à incerteza, abraça-se sobre a relva numa cópula de desespero, inseguro da permanência além da madrugada. E em O Eclipse já nem se vêem os recantos em que se encontravam - documentação e também metáfora de uma vida comum abandonada."
A iluminação dessa obra-prima é de um artista: Gianni Di Venanzo.