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05 fevereiro 2012

"Histórias Cruzadas": ficção e realidade do capitalismo nos EUA



Tenho a honra de publicar a exegese do Professor (Ph.d) Jorge Moreira, de Wisconsin, sobre Histórias Cruzadas (The Help), filme que, por coincidência, está entrando em cartaz no Brasil (e também na Bahia). Analista severo, e sem papas na língua, da crise pela qual passa o capitalismo, o Professor Moreira, não passa, na verdade, de um baiano, e baiano da Ilha de Maré. Nas horas vagas, que lhe são poucas, gosta de escrever histórias e já tem um livro publicado: Memorial da Ilha, que não é outra senão a de Maré, onde passou a sua Idade da Ilusão, a sua meninice. Já publiquei aqui no blog alguns artigos de Moreira. Mas vamos em frente porque atrás vem gente. Abrindo as aspas devidas:


"Histórias Cruzadas é o título do filme The Help em língua portuguesa que está baseado no livro romance homônimo e ambos (filme e livro) têm tido uma extraordinária recepção popular entre o público dos EUA.

Basta dizer que o livro de Kathryn Stockett (suposta autora do romance) transformou-se em um notável “best seller” ocupando por várias semanas o primeiro lugar na lista dos livros mais vendidos do jornal The New York Times.

O filme The Help, do diretor Tate Taylor, também está tendo um  grande sucesso de bilheteria  no país pois teve o custo total de apenas 25 milhões de dólares mas já arrecadou mais  de $205  milhões de dólares até agora (dados da Wikipédia).

The Help já ganhou prêmios em alguns festivais de cinema e atualmente está competindo ao prêmio Oscar de 2012 em três categorias (melhor filme, melhor atriz, e melhor atriz coadjuvante).

The Help é um filme que tem despertado as lacrimosas emoções do público e tem feito espectadores e críticos entrarem no chororô para logo sair do cinema com a alma lavada, contentes, e sem sentimento de culpa para atormentar o corpo e a alma.

O filme narra a história de Eugenia “Skeeter” Phelan (Emma Stone) uma jovem mulher rica, branca e o seu relacionamento com duas empregadas negras, Aibileen Clark (Viola Davis) e Minny Jackson (Octavia Spencer), durante o período do movimento pelos Direitos Civis nos anos 1960.
Skeeter” é uma jornalista recém formada que decide escrever um livro sobre a vida das empregadas domésticas pobres que trabalham nas "casas brancas" da cidade de Jackson, no estado de Mississipi, sul dos EUA, porem adotando a perspectiva das empregadas (conhecidas como the help) para mostrar o tratamento racista que elas têm que aguentar quando estão trabalhando para famílias de brancas ricas. 
Mesmo intimidadas pelo perigo de serem descobertas e castigadas pelos brancos (se são identificadas como coautoras do livro), as empregadas afroamericanas (depois de muita resistência) decidem corajosamente dar seus depoimentos para “Skeeter”. Depois de publicado, o livro obtém um grande sucesso de vendas resultando na melhora da situação econômica das colaboradoras negras.
The Help (de forma e estilo clássico hollywoodiano), destaca-se pela utilização de alguns elementos formais que colaboram para manter o agradável ritmo do filme assegurando a atenção e o interesse do espectador ate o seu final. Entre os elementos formais que despertaram a minha atenção estão: a utilização de protagonistas múltiplos (que me lembrou a sua utilização no filme Hannah e suas irmãs pelo diretor Woody Allen); e a vigorosa atuação do conjunto de atrizes e atores do filme com destaque especial para a brilhante atuação de Viola Davis no papel da doméstica Aibilene (ainda que os personagens sejam quase todos baseados em conhecidos estereótipos da sociedade estadunidense).

Uma sequência de cenas que despertou particularmente a minha atenção (pelo nível de mistificação e manipulação ideológica), mostra Minny Jackson, uma  das empregadas domesticas, recebendo dinheiro pelo trabalho e pelo perigo que correram ousando narrar as suas experiências pessoais no relacionamento com as mulheres brancas e ricas. 

A sequência começa quando Minny, desempregada e triste, está na cozinha da sua casa fritando frango para os três filhos, menores de idade. Neste momento, uma das filhas entrega-lhe a correspondência que havia chegado pelo correio. Minny abre um envelope e encontra um bilhete da jovem jornalista “Skeeter” com a quantia de 46 dólares (uma fortuna para a época) em dinheiro vivo. O bilhete informa-lhe que o dinheiro corresponde a uma adiantamento que a editora pagou pela edição do livro e que chegará mais dólares no futuro.

Minny, deslumbrada de alegria, esquece do frango sendo queimado na frigideira e sai correndo para a casa da amiga Aibilene para mostrar-lhe a carta e a quantidade de dinheiro que recebeu.

As duas mulheres começam a pular de alegria e enquanto Minny grita “estamos ricas, estamos ricas”, Aibiline narra (voz em off) que a jornalista “Skeeter” recebeu 600 dólares  como um adiantamento pelo romance e que ela  dividiu o dinheiro entre ela e as 13 empregadas que colaboraram no livro cabendo 46 dólares para cada uma.

Esta sequência (construída para convencer o espectador de que através da solidariedade entre raças, os oprimidos se libertarão da opressão) sugere que as negras pobres já não terão problemas econômicos pelo resto de suas vidas, mas o espectador atento e critico, pode paradoxalmente se dar conta da espetacular manipulação ideológica que o filme esconde e que trata de generalizar através  do ideologema (liberal, burguês e capitalista) de que a superação dos conflitos e contradições entre  as diferentes classes sociais pode ser obtida sem a luta de classes entre capitalistas e trabalhadores.

E a mistificação e manipulação ideológica podem ser verificadas se os leitores e espectadores deixarem por um momento a ficção e forem informados honestamente que Kathryn Stockett, a suposta autora do romance, na realidade roubou a história de uma mulher negra de 60 anos de idade, de carne e osso, chamada Ablene Cooper que trabalhou para a família e o irmão da suposta autora por um período de 12  anos.
(Ver o link do The New York Times:

Reproduzo aqui as duras palavras de Ablene Cooper contra o roubo da sua vida por Kathryn Stockett: “Her family hired me as a maid for 12 years but then she stole my life and made it a Disney movie”: "Sua família me contratou como empregada doméstica por 12 anos mas então ela roubou minha vida e fez dela um filme de Disney”
(Ver link do jornal inglês  Mail Online.com:

Logicamente, Ablene Cooper, a pobre empregada domestica real, entrou com um processo jurídico contra Kathryn Stockett, demandando 75.000 doláres, mas um juiz branco do sul dos EUA recusou dar prosseguimento à sua demanda.

Queremos acreditar que ainda resta para a verdadeira Ablene, um último recurso (será?): apelar a decisão do juiz branco do sul dos EUA em uma outra corte de justiça estadunidense.

Por último, gostaria de voltar à ficção para sugerir que o olhar do filme para o passado histórico, ao invés de nos ajudar (to help) a entender a realidade da permanência do racismo contra os pobres, pretos e latinoamericanos no presente, mistifica o passado e esconde (indiretamente) não apenas o aumento do desemprego e da deterioração das condições de vida dos pobres, mas sobretudo esconde  a intensificação da perseguição racista branca cujo objetivo é legitimar, numa situação de crise econômica, o saqueio dos  postos de trabalho que têm sido, tradicionalmente, ocupados por trabalhadores negros e latinoamericanos, dado os baixos salários e as péssimas condições de vida dos mesmos.

Na minha opinião, o filme busca (direta ou indiretamente) nos distrair do pesadelo resultante do mítico “sonho americano”, tratando de nos fazer esquecer do sentimento de culpa que sentimos pelo racismo que não para de crescer no país, devido a política oficial do governo do afroamericano Barack Obama que expandiu o sistema policial para prender e expulsar latinoamericanos (sobretudo mexicanos) do território nacional mas que continua fazendo discursos demagógicos e hipócritas (prometendo uma reforma migratória) afim de obter os votos da população latinoamericana para a sua reeleição  à presidência dos EUA.

Assim, em vez de mostrar as causas da intensificação do racismo na atualidade, o filme, complacente e conformista, procura mistificar nos, querendo que acreditemos que o racismo e a opressão dos pretos no sul dos Estados Unidos já não existem. Que é coisa de um passado remoto; do tempo em que Martin Luther King Jr. ainda não tinha sido assassinado pelos brancos ricos e racistas."
Texto de Jorge Moreira

3 comentários:

J. BRUNO disse...

Confesso que gostei bastante do filme, principalmente das atuações, mas eu também apontei na crítica que escrevi que o filme funciona como um "pano quente" em nosso próprio preconceito. Na histórias, as mulheres brancas (antagonistas) são personagens maniqueístas, elas são ruins demais e suas respectivas maldades as tornam caricatas. Este perfil de personagem nos leva a crer que se temos algum preconceito (na verdade todos nós temos) ele é pequeno e quase inocente perto da suposta crueldade das personagens. Com isso o filme, claramente direcionado para o público americano de hoje (e consequentemente para as premiações)deixa a todos com uma sensação de paz ao final da exibição, ele ao mesmo tempo que acerta contas com um passado, que não é tão passado assim, ainda nos perdoa pelos pecados que nem sempre assumimos ter...

Minha crítica: http://sublimeirrealidade.blogspot.com/2011/12/historias-cruzadas.html

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Excelente texto.

O Falcão Maltês

Jonga Olivieri disse...

Excelente, e não poderia ser diferente a análise (dialética) do Professor Jorge Moreira...