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17 março 2006

A OBRA-PRIMA DE JERRY LEWIS


Revi recentemente quase todos os filmes dirigidos por Jerry Lewis e, na minha opinião, a sua obra-primíssima é O Otário (The Patsy, 1964), que pode ser encontrado em excelente cópia em DVD - a imagem ao lado é deste filme Impressionante a capacidade de Lewis em experimentar e inovar, subvertendo códigos estabelecidos.Não é à toa que Jean-Luc Godard o considerou um dos mais progressistas cineastas do cinema americano.Infelizmente, para a maioria, que o aprecia, ele é considerado, apenas, um excelente comediante, vinculado, inclusive, às sessões da tarde da Globo dos anos 80. Ledo e ivo engano. Um ensaio sobre a obra lewsiana de autoria de Chris Fujiwara pode ser lido no seguinte link:http://www.sensesofcinema.com/contents/directors/03/lewis.html

16 março 2006



Jerry Lewis e Stella Stevens em O professor aloprado (The nutty professor, 1963), um dos filmes mais importantes do autor, que hoje, dia 16 de março, cumpre 80 anos.

Jerry Lewis faz 80 anos


Jerry Lewis, um dos maiores comediantes de toda a história do cinema, nasceu no dia 16 de março de 1926, completando, portanto, hoje, 80 anos. O blog não poderia esquecer a data de um dos mais inventivos diretores (quando resolveu também dirigir) do cinema americano dos anos 60. Pelo menos, ainda que rasgando o conceito, tem duas obras-primas: O otário (The patsy, 1964) e O professor aloprado (The nutty professor, 1963). Obras-primas, diga-se de passagem, do processo de criação cinematográfico em todos os tempos.
Enquanto nos dias atuais inexiste uma, por assim dizer, poética do gag, com uma exacerbação das situações num “speed” escatológico ou na procura “nerd” do ridículo, mas, sempre, sem nenhuma inventividade cinematográfica, as comédias de tempos idos evocam o riso pela imaginação criadora, quer do ponto de vista do ser, quer do ponto de vista da narrativa fílmica. Assim, faz-se necessário, aqui, relembrar com urgência urgentíssima a genialidade de Jerry Lewis, um dos maiores comediantes do cinema em todos os tempos, e de seu singular O Professor Aloprado (The Nutty Professor, 1963), obra-prima não só da comédia mas do cinema. Inclui-se nessa excelência criadora também O otário. Artista criador, revolucionário mesmo na concepção de uma mise-en-scène originalíssima, Jerry Lewis é um poeta ou, como disse Jean-Luc Godard, “o mais progressista cineasta do cinema americano dos anos 60”. Versão (ou inversão?) de O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, O Professor Aloprado conta como um pacato e modesto professor de química, feio, dentuço, desengonçado e mal ajambrado, consegue criar uma fórmula capaz de lhe impor a beleza e o charme. Apaixonado por uma de suas alunas (Stella Stevens), ele tenta conquistá-la quando toma a poção mágica e vira o charmoso Buddy Love. A fórmula, no entanto, tem duração limitada e, de repente, a criatura se transforma, aos poucos, no criador, principalmente nos momentos idílicos entre Buddy e Stella, mas ele, sabidamente, desaparece. Buddy Love provoca celeuma na escola, deixando, estupefatos e apaixonados, desde a secretária (a lewsiana Kathleen Freeman), as alunas e até o grave e circunspecto diretor. O clímax se dá no baile de formatura no momento em que Buddy, o convidado de honra, se metamorfoseia no desengonçado professor. A inventividade de Jerry Lewis no plano da linguagem cinematográfica é imensa. Cenas brilhantes que se encontram em qualquer antologia que se preze da comediografia cinematográfica: (1) o processo de transformação do professor Kelp em Buddy Love com um extraordinário uso da cor poucas vezes observado na história da arte do filme; (2) a câmera subjetiva em lugar de Buddy finda a metamorfose (e ainda quando o espectador não sabe do resultado) e o espanto dos transeuntes que circulam na porta da boate; (3) a seqüência do ginásio traduz com absoluta perfeição a frustração essencial do personagem lewisiano diante da mitificação esportiva norteamericana; (4) a ambigüidade estampada no close up de Stella Stevens quando Buddy inicia os tiques diccionais de seu criador; (5) o professor a olhar e imaginar Stella na porta da sala em várias mudanças de sua indumentária; (6) depois da noite perdida, e de ressaca, o professor pálido, na aula, ouvindo, desesperado, o ruído exagerado do giz riscando o quadro, a aluna que assoa o nariz, etc, numa conjugação funcional da imagem e do som; (7) toda a seqüência do baile de formatura, e, em especial, a cena da transformação da criatura no criador; entre muitas outras. Lewis desmistifica o espetáculo, revelando seus códigos com uma coragem inusitada para a linguagem da época. O final é de uma terrível elegância, quando os principais atores, um a um, como se estivessem num palco de teatro, agradecem enquanto seus nomes são creditados na tela. O último é Jerry Lewis que, literalmente, quebra a lente da câmera.
Este artista mal compreendido, que somente vem a receber o respeito crítico a partir do número especial que lhe dedica o sisudo Cahiers du Cinema, é o máximo representante da comicidade non sense do cinema americano posterior a 1945. Lewis parodia, com seus filmes dirigidos nos anos 60, e com singular acerto, as frustrações psicológicas do american way of live. Os seus instrumentos de análise (ou, se se quiser, o seu método) estão na utilização imaginativa da técnica do gag. Gênio da comédia, cantor das orquestras de Jimmy Dorsey e Ted Florita, Jerry Lewis (Joseph Levitch, New Jersey, 1926) forma dupla com Dean Martin em 1946, atua em televisão e rádio, e, em pouquíssimo tempo, torna-se popular coast to coast em toda a América. A dupla mais burlesca do mundo do espetáculo logo é convidada para ingressar no cinema – e isto se faz através da Paramount.Entre 1949 e 1956, Lewis começa uma extraordinária carreira solo sob as ordens de um mestre da comédia: Frank Tashlin. Aliás, a sua separação de Dean Martin revela que o êxito da dupla radica fundamentalmente no talento cômico de Lewis. Artistas e modelos (1955), filme que assinala a sua estréia sob a direção de Tashlin, dá início a uma série de títulos que se constituem em agudas sátiras da sociedade norte americana expostas com um estilo refinado que se aproxima algumas vezes do cartoon e das histórias em quadrinhos. É, porém, quando Jerry Lewis decide montar uma companhia independente (a Jerry Lewis Productions Inc.) que emerge o seu gênio. Desde O Mensageiro Trapalhão (The Bellboy,1960), obra de estréia, o indicativo da originalidade na arte de conceber a mise-en-scène está presente. Neste filme, não há progressão dramática mas uma sucessão de sketchs, assim como em Mocinho encrenqueiro (The errand boy, 1961). O Terror das mulheres (The ladie´s man, 1961) deslancha a sua fase de obras-primas absolutas (se é possível a um artista ter mais de uma obra-prima!). Filme que representa na obra de seu autor um inequívoco manifesto sobre a concepção da mulher e uma irrefutável fulminação do matriarcado, O Terror das mulheres é delirantemente desmistificador (a partir mesmo do cenário, uma grande mansão na qual os segredos do décor são revelados ao público). Vem O professor Aloprado em 1963 e, em seguida, O Otário (The Patsy, 1964), outra obra magistral, onde aperfeiçoa, amadurece e enriquece definitivamente o seu estilo: a crueldade que consiste em fazer rir de si próprio; a magistral utilização do showburn; o gosto do espetáculo e a vontade em revelar ao espectador o décor, o desdobramento de sua personalidade autor-ator, a explosão em personagens múltiplas, etc. Lewis continua a filmar, tem uma crise nos anos 70, mas seus maiores filmes, os geniais, estão na década de 60.
Parabéns Jerry Lewis! Muitos anos, ainda, de vida!

15 março 2006

Sensualidade à flor da pele


Poucas as mulheres com o poder de sedução de Linda Fiorentino, que possui uma sexualidade à flor da pele. Não é, no entanto, uma atriz de primeira grandeza, mas convence nos filmes que trabalha. Como é exemplo Jade, de William Friedkin, obra impactual cujo lançamento em DVD ceifou-lhe as partes laterais, pois o filme originariamente é em cinemascope e está apresentado em tela cheia.Até quando as distribuidoras vão praticar esses atentados à integridade da obra cinematográfica? Até quando? Creio que vão continuar o massacre, pois as distribuidoras pequisam o gosto médio do público, que é péssimo. Ariano Suassuna tem razão quando diz: "Infeliz do artista que molda sua arte pelo gosto médio do público". Se Jade se encontra massacrado em DVD, o que resta fazer aquele que nunca o viu? Esperar por uma reprise em cinemas é esperar Godot. Talvez seja o caso, dada a excelência do filme, de tapar o nariz e procurar ver assim mesmo no abominável full screen.

14 março 2006

"Jade", de Friedkin: força e impacto


Jade, quando lançado nos cinemas, na segunda metade dos anos 90, passou batido. Mas o filme me causou um grande impacto, registrando-o na época, como uma voz a clamar no deserto, na minha coluna em jornal local. Se houve alguma manifestação favorável da crítica, não a vi pela imprensa. Creio que Jade foi exibido em brancas nuvens. E há, inclusive, um certo preconceito em relação a William Friedkin, seu autor, por causa do obscurantismo de se achar que todo filme de ação é uma mixórdia oriunda de Hollywood. Poucos os diretores que sabem usar e determinar o tempo cinematográfico como William Friedkin, mais conhecido por causa de filmes como Operação França e O exorcista. Há poucos dias, revendo Bullit, alguém comentou que o que importa realmente neste filme é o tempo. Jade envolve o espectador de tal maneira, mas um envolvimento, por assim dizer, estético, pela sua delirante mise-en-scène. Com roteiro de Joe Eszterhas (o mesmo de Instinto selvagem, de Paul Verhoeven), Jade é um filme brilhante. Quando o vi na tela grande, retornei três vezes, mas ontem, localizando-o numa locadora, aluguei-o na hora sem olhar e ler se estava íntegro no seu enquadramento. Colocado no aparelho, eis que vejo, horrorizado, que Jade está sendo lançado (como Menina de ouro, de Clint Eastwood) em abominável full frame ou full screen ou seja lá que denominação possa ter um filme quando é ceifado, arruinado, destruído na sua integridade para se moldar ao gosto de um público débil mental, que prefere a tela cheia ao cinemascope. Retirei o disco, não revi Jade. Devolvi à locadora e não o joguei fora porque teria prejuízo. No elenco, David Caruso, a sensualíssima Linda Fiorentino, Chazz Palminteri, Richard Crenna, entre outros. A iluminação é de um artista da luz: Andrzej Bartkowiak. E a música de James Horner fica no ouvido.

12 março 2006

"O jardineiro fiel" em DVD


Fernando Meirelles, realizador formado pelo filme publicitário, tem predileção pela câmara na mão e se recusa, sempre, a estruturar as suas seqüências em pontos geométricos - a seqüência com paredes onde a câmara se situa em lugares determinados como que a fechar um espaço determinado. Em Meirelles, a indeterminação do espaço é uma de suas características. O resultado final é um estilhaçamento, estabelecendo sua mise-en-scène com tomadas rápidas, frenéticas. Mas da extrema fragmentação consegue, por talentoso, fazer emergir uma poética, uma escrita consistente. Ainda que não aprecie a chamada estética do videoclip acoplada à narrativa cinematográfica, aceitando-a, apenas, no videoclip como tal, rendo-me ao discurso fílmico de O jardineiro fiel, que acaba de sair em DVD. É um filme muito acima da média do que estamos acostumados a ver no cinema contemporâneo industrial. Adaptação do livro de John Le Carré (O espião que saiu do frio, entre outros), Meirelles adaptou-o à sua maneira, inserindo uma parte documental filmada in loco, na África, que faz lembrar, em alguns momentos, Cidade de Deus. Há uma tomada de um galo a correr que me parece uma citação deste último. Ao contráro de Baz Luhrmann, que em Moulin Rouge faz do estilhaçamento um processo de esfacelamento narrativo corrosivo, provocando, no espectador, apenas ruídos indesejáveis, o realizador de O jardineiro fiel sabe juntar os cacos de sua intempestiva fragmentação com engenho e arte. A estrutura narrativa dessa obra de insólita importância é pensada e bem articulada, a oferecer ao espectador informações em conta-gotas a respeito da trama, criando, com isso, um filme in progress, que se faz surpreender a cada instante no seu desenvolvimento. Quem o perdeu na tela grande, tem, agora, a oportunidade de avaliá-lo no disquinho.

Europa mata a Menina de Ouro

A distribuidora de DVDs Europa matou, praticamente, a oportunidade de contemplação de Menina de ouro (Million dollar baby), de Clint Eastwood, com o lançamento de cópias standard de um filme originariamente concebido em cinemascope. Menina de ouro não deve ser visto em DVD assim como está, porque o que a Europa fez se caracteriza como um atentado criminoso à integridade da obra cinematográfica. Adaptou-se ao gosto médio do público, infelizmente, que se interessa apenas pelo enredo do filme, preferindo-o, inclusive, segundo pesquisas das próprias distribuidoras, dublado em português. Sempre evitei ver filmes dublados, pois considero a dublagem uma intromissão indevida que descaracteriza o filme. Em primeiro lugar, a inflexão vocal tem muita importância na interpretação dos atores e, em alguns casos, faz mesmo parte da própria mise-en-scène. E, quando dublado, há um descontrole na mixagem da obra cinematográfica, ficando as bandas dos ruídos e da partituras diminuídas em função dos diálogos em português. A Europa, que nunca teve assim muita credibilidade, perdeu-a por completo com o lançamento no abominável full screen (tela cheia) de Menina de ouro, quando o certo seria o letter box, a preservar o cinemascope original.

10 março 2006

II Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual


Vai acontecer de novo, entre os dias 2 e 9 de abril deste 2006, mais um Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual. A iniciativa, que começou no ano passado, com a presença de Costa-Gavras, foi muito bem sucedida e, embora ele não goste de aparecer, o idealizador do seminário é Walter Pinto Lima que, auxiliado por equipe muito competente, colocou na prática uma idéia que tinha há algum tempo. Creio que Waltinho, como é chamado pelos amigos, poderia pensar em estabelecer na Bahia um festival internacional de cinema no estilo dos grandes eventos mundiais, pois a cidade de Salvador já oferece infra-estrutura hoteleira e um décor magnífico para tal empreitada. O seminário passado mostrou ótimo nível de organização e uma grade de programação que tinha nomes respeitávels do mundo intelectual do cinema: Robert Stam, que vem de novo, o casmurro Michel Marie, o próprio Costa-Gavras, entre muitos outros que seria fastidioso citar. Para maiores informações e até inscrições on line, o site deve ser consultado: http://www.seminariodecinema.com.br/index.php
Na foto ao lado o cineasta argentino Fernando Solanas, que tem alguns filmes na programação. Tomara que seja exibido o já clássico 'La hora de los hornos'.

Transcrevo abaixo a mensagem que me foi enviada, noticiando a realização do evento. Abrindo aspas:
" Sucesso na primeira edição, este ano o II Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual acontece entre os dias 2 e 9 de abril. Com a presença de renomados cineastas, acadêmicos e críticos, serão realizados na Reitoria da UFBA, em Salvador, debates e mesas-redondas discutindo questões como a influência do neo-realismo italiano no pré-cinema novo, as perspectivas do cinema político na América Latina, o cinema ibero-americano e os novos caminhos do audiovisual, com enfoque para o tema Cinema e Multiculturalismo. Vão abrilhantar as discussões, diretores e estudiosos como Adriano Aprà, Tunico Amâncio, Mariarosaria Fabris, Eduardo Escorel, Robert Stam e Ferrucio Marotti, entre outros.

Nesta edição, um dos homenageados do SEMCINE é o cineasta Nelson Pereira dos Santos, que receberá da Universidade Federal da Bahia o título de Doutor Honoris Causa. Faz parte da programação a “Mostra de Cinema Ibero-Americano” películas inéditas na Bahia do espanhol Benito Zambrano (Habana Blues), do português Manuel de Oliveira (Espelho mágico) e do argentino Fernando Solanas (Argentina latente). Serão apresentados também filmes do alemão Jürgen Böttcher Strawalde, no Goethe Institut – Salvador. "
Com vagas limitadas, os interessados residentes no interior da Bahia e em outros estados do Brasil poderão se inscrever através do site do Seminário, a partir do dia 6 de março. Na mesma data, abrem-se as inscrições para os residentes em Salvador, que deverão comparecer na Reitoria da UFBA munidos de carteira de identidade. A taxa de inscrição custa R$ 10,00.

Maiores informações: 71-3263-7998/7499
E-mail:
semcine@ufba.br

09 março 2006

A mãe, de José Umbelino e Fernando Beléns, abordagem poética-documental da trajetória de Lúcia Rocha em média metragem. Para maiores informações consultar o site da novíssima onda cuja postagem vai abaixo.

A Novíssima Onda Baiana

Desenvolvido pelo cineasta baiano Jorge Alfredo Guimarães, o diretor premiado de Samba Riachão, o encarte dentro do site da ABCV (Associação Baiana de Cinema e Vídeo) dedicado a catalogar os filmes baianos - da época da chamada retomada do cinema brasileiro - é uma fonte não somente de pesquisa, mas, também, para se conhecer a produção que se consolidou na Bahia nesse período. A recente premiação de Eu me lembro, de Edgard Navarro, no Festival de Brasília, vem coroar uma série de longas que surgiram a partir do ano 2000, a exemplo de Três histórias da Bahia, de Sérgio Machado, Edyala Iglezias, e José Araripe Jr, Samba Riachão, ex-aequo com Lavoura arcaica em Brasília, Cascalho, de Tuna Espinheira, A cidade das mulheres, de Lázaro Faria, entre outros que estão por vir, como o longa de Pola Ribeiro e o de Fernando Beléns, entre outros. Para visitar o site, basta clicar no endereço que se segue:
http://www.abcvbahia.com.br/novaonda/index.htm

07 março 2006

A musa do blog


Brigitte Bardot, a musa do Setaro's Blog, aqui no auge de sua beleza.

O itinerário torno do bloquista de plantão


Nasci em 12 de outubro de 1950, no Rio de Janeiro, precisamente na Tijuca, mas ainda em tenra idade vim para Salvador. Minha mãe, daqui, conheceu meu pai durante um passeio à Cidade Maravilhosa. Casaram-se em 1948 e permaneceram no Rio. Grávida do terceiro filho, em abril de 1953, meu pai, num sábado de Aleluia, chegando em casa, sentiu dor lancinante no coração e, em questão de minuto, estava morto, roxo, com a fisionomia deformada pela angústia e pela dor do enfarte agudo do miocárdio. Tinha apenas 44 anos, deixando-me, como herança, a cidadania italiana - que adquiri, pois ele era do sul da Itália, imigrante que veio no princípio do século com os pais, descascando, menino ainda, batatas no porão do navio - e uma pesada herança cardíaca, candidato a um heart attack, segundo os especialistas, com excelentes condições de tê-lo, pois pratico com muito prazer o tabagismo desenfreado, os porres semanais de álcool, o sedentarismo cômodo e delicioso de não ter que me movimentar muito, exceção se faça ao exercício de levantamento de copos, cuja habilidade, tenho-a comprovada.

Meu avô materno - também italiano que possuía fazendas de cacau em Ilhéus - alternava a moradia entre esta cidade litorânea do interior da Bahia e Salvador, onde tinha uma casa de muitos quartos, velha, mas atmosférica, no bairro de Nazaré. Apesar de ter parentes no Rio por parte da família Setaro, e, ainda, duas tias por parte materna, que moravam nesta cidade cantada em prosa e verso, vim para Salvador por causa do convite feito por meu avô. Como este ficava mais tempo em Ilhéus, minha mãe teria a casa de Nazaré à sua disposição. Assim entrei na baianidade pela porta da morte paterna. Sou baiano em decorrência de uma estenose que explodiu de forma extemporânea. Naquele tempo não havia os sofisticados exames atuais, fazia-se, se muito, um eletro, uma tirada de tensão arterial. Meu pai nunca tinha ido a um médico, apesar de já ter dado sinais da insidiosa ateriosclerose: vermelho, a tensão parecia-lhe alta, queixando-se de taquicardia, etc. Entrei na Bahia não pelas mãos de Carlinhos Brown, mas pela fatalidade. Não fosse a morte, atualmente estaria no Rio de Janeiro, pedindo a benção a Dona Rosinha Garotinha ou, talvez, presunto fresco jogado numa rua de Copacabana. A minha infância fez-se, entretanto, em Nazaré, nos encantadores e dourados anos 50, quando Salvador tinha, apenas, 500 mil habitantes, o bairro era calmo, poucos carros, poucos ônibus, alguns bondes. Podia-se, inclusive, jogar bola na rua, porque se ouvia, longe, o ronco do motor de um carro que se avizinhava.
Os cinemas se concentravam no centro - Excelsior, Liceu, Art, Glória (depois Tamoio), Guarany, Bahia (que somente foi inaugurado em 1968) e, no Largo 2 de Julho, o Capri. Na Baixa dos Sapateiros, ficavam o Tupy e, no corredor da rua J.J. Seabra, os poeiras Jandaia - ainda majestoso, Aliança e Pax. Sem contar os cinemas de bairro. Cada um tinha o seu: Oceania (no Farol da Barra, no edifício do mesmo nome), Nazaré (na Praça Almeida Couto, no Jardim de Nazaré), Amparo (no Engenho Velho de Brotas), Brasil, São Jorge e São Caetano (na Liberdade), Itapagipe, Roma, entre muitos outros. Vivendo de mesada, ia ao cinema todos os dias. Freqüentava muito os da Baixa de Sapateiros, que passavam programas duplos, às vezes triplos, mas, também, ia muito ao centro da cidade. Menino, ia andando e voltava andando, ocasionalmente tomando o famigerado Nazaré-Praça da Sé. Gostava mais dos bondes vermelhos da Circular, com aqueles motoneiros com um chapéu esquisito na cabeça. Pongava-se nos bondes e, quando cheios, ficava-se em pé no estrado. A Rua Chile era o ponto chique da cidade. A maioria dos consultórios médicos - ainda não existia Rita Lee, digo a Garibaldi, das lojas, dos dentistas, das livrarias, aí se concentrava. Tenho saudades da casa de chá da Lojas Duas Américas - não esqueço da primeira escada rolante instalada na Bahia que os soteropolitanos ficavam admirando, parados, estupefatos, onde uma tia minha tomou uma queda que a deixou dois meses de cama - e da Sloper. E da porta da Livraria Civilização Brasileira - que incendiou em 1965, quando estava dentro do Tamoio a ver Dr Fantástico (Dr. Strangelove), de Stanley Kubrick.

Lembro-me do misterioso crime da Livraria Científica, quando mataram, à queima-roupa, o seu dono. Políticos e intelectuais, a las cinco de la tarde, se reuniam religiosamente na porta da Civilização, formando rodinhas onde o papo corria solto. As moçoilas elegantes da época - e não as lacraias da contemporaneidade - faziam o flirt, que consistia numa olhada rápida para um homem bem apessoado, podendo, nisso, dar-se o início de um namoro. E vice-versa. Tinha medo do Ed. Sulacap. Mas adorava o cinema Guarany – que vai ser revivido, quase que, como o Fênix, ressuscitado, com aquele cheiro de ar condicionado que se sentia de fora, na Praça Castro Alves. E, ao lado, o famoso Restaurante e Bar Cacique, onde, na parte ao ar livre, os intelectuais da época gostavam de ficar tomando cerveja. Entre o Guarany e o Cacique, mais para o fundo, o Tabaris, que, menino, ficava olhando curioso, principalmente aquela placa azul onde estava inscrito: rigorosamente proibida a entrada de menores de 21 anos. Diziam-me adultos que o freqüentavam - sempre de paletó e gravata, manga de camisa era para vagabundo, assim como barba de 2 dias - que mulheres lindas ali faziam ponto, vindas da França, Polônia, Argentina, etc. Dançava-se e bebia-se ao som de orquestra de sopro regida, muitas vezes, pelo saudoso Vivaldo da Conceição, quando não aparecia -e aparecia sempre - orquestras nacionais e internacionais. Uma noite, saindo do Guarany, com 13 anos, fiquei olhando para aquelas mulheres lindas, frustrado por ser menor de idade, com o porteiro me olhando feio, apontando para a placa impeditiva. O Tabaris encerrou suas atividades étilicas, musicais e sexuais em 1968, quando completei 18 anos.

Menino de Nazaré, aproveitava os terrenos baldios para jogar um bába, com a bola feita com meias velhas. E, num elevado perto de minha casa, gostava de empinar arraias. Tinha todo o material necessário: cola para a linha, vidro picado e as grandes e belas pipas, coloridas, bonitas de ver no céu, paradas, enquanto as controlava com os meus dedos insignificantes, sentindo a força de seu puxão. No mais das vezes, andar e andar muito, conversando com os camaradas de ocasião, espiando as meninas do Convento do Sagrado Coração de Jesus, ajudando a missa de Padre Lemos todos os domingos na Igreja do mesmo nome, que fica, ainda, em frente, à famosa Mendoeira e ao lado da antiga e saudosa Faculdade de Filosofia, onde tinha um pé de jambo que gostava de roubar. Havia ali, entre a igreja e a faculdade, a banca de Seu Paranhos, onde, todos os sábados, meio-dia, via um caminhão jogar um pacote de jornais ’A Tarde’, que comprava com assiduidade neste dia para ver os filmes que iam estrear na segunda-feira - naquela época os cinemas mudavam as suas programações neste dia. Como coroinha, tive que aprender todo o latim da missa, para responder ao padre. ’Introibo aldaterei dei’, dizia o Padre Lemos, ao que respondia: ’Ad - esqueci... Gostava da atmosfera da igreja, do rito, da liturgia, principalmente as Vésperas do Mosteiro de São Bento com cantos gregorianos. Enquanto isso, lia ’Bolinha’, ’Luluzinha’, ’O Pato Donald’, ’Mickey Mouse’, ’Fantasma’, ’Mandrake’, ’Jerônimo, o herói do sertão’, ’As aventuras do Anjo’, entre outras revistas, que gostava de trocar na porta do cinema Casa de Santo Antônio, quando, antes do início da sessão da tarde, muitos meninos se postavam frente a sala exibidora com montes e montes de revistas.

Lia também livros, como ’Tarzan’, de Edgard Rice Burrough - não sei se está certa a grafia, ’Servidão humana’, de Somerset Maugham, livros de George Simenon, José de Alencar, Morris West (’A filha do silêncio’, ’O advogado do diabo’), Harold Robbins, Joaquim Manoel de Macedo, Graciliano Ramos, os que achava na biblioteca da escola. E gostava de comprar o ’Correio da Manhã’ aos domingos, revezando com o calhamaço de ’O Estado de S.Paulo’ e o ’Jornal do Brasil’. Nestes bons tempos, os jornais do sul somente eram vendidos na Praça Municipal e quem os quisesse adquirir tinha que ir até lá. Foi aí, com 12, 13 anos, que comecei a ler o crítico do ’Correio’ Antonio Moniz Vianna. O primeiro filme que vi foi ’Um estranho no paraíso’, musical de Vincente Minnelli, naquele cinemascope do Guarany. Lembro-me da estréia de ’Os dez mandamentos’, de Cecil B. De Mille, em Salvador, em 1959. Para se ter uma idéia do atraso dos filmes, esta superprodução é de 1956 e somente três anos depois chegou a Salvador. Neste particular, os filmes eram lançados primeiro no Rio e São Paulo e levavam, muitas vezes, mais de um ano para aqui serem exibidos. Assim, como ia muito ao Rio, pois tinha hospedagem gratuita, assistia, em primeira mão, a muitas fitas que somente muito tempo depois aportariam nestas plagas. Mas voltando a ’Os dez mandamentos’, o seu lançamento, no Tupy, foi um acontecimento. Filas quilométricas por toda a Baixa dos Sapateiros. Duas sessões apenas: às 15 e 21 horas. Duas filas: uma para comprar o ingresso e outra ’para entrar’. Lembro-me que cheguei às 14 horas, consegui comprar o ingresso às 16 horas e fiquei na sala de espera apinhada de gente a esperar a sessão das 21. Tinha também vendedores de ingressos, os cambistas, que, lógico, cobravam mais caro.

O mesmo aconteceu com o lançamento de ’Ben-Hur’ e, antes, antes mesmo de ’Os dez mandamentos’, com ’A volta ao mundo em 80 dias’, de Michael Anderson, com David Niven e Cantiflas e um elenco de centenas de astros em pequenas pontas como Marlene Dietrich, Frank Sinatra, Fernandel... Minha formação cinematográfica se fez indo ao cinema e através do cinema de gênero: épicos históricos, comédias, musicais, ’thrillers’, aventuras, policiais, e, principalmente, o ’western’. O cinema nacional vivia a sua fase de chanchada. Vi muitas, com Oscarito, Zé Trindade, Grande Otelo, Ankito, Colé, agareza, Violeta Ferraz, Renato Restier, Cyll Farney, Sonia Mamede, Fada Santoro, Adelaide Chiozzo, etc, etc. Filmes como ’De vento em popa’, ’O homem do sputnick’, Nem Sansão nem Dalila’, ’Matar ou correr’, todos estes de Carlos Manga, e, com Zé Trindade, ’Mulheres, cheguei!’, ’O batedor de carteiras’, ’O camelô da rua larga’, ’O massagista de madame’, ’Aguenta o rojão’. Não posso citá-las aqui, porque transbordaria o espaço. Falava-se muito na Vera Cruz e, principalmente, em ’O cangaceiro’, filme nacional, creio, o mais visto até hoje. De repente, vi ’Rio zona norte’, de Nelson Pereira dos Santos, e estranhei Grande Otelo em papel dramático, que perde o filho assassinado, como um compositor popular que tem suas músicas roubadas por um aproveitador. Nesta época o cinema americano médio não tinha a nulidade dos tempos atuais. Era, na verdade, um grande cinema, aquele do qual François Truffaut considerou como o cinema do ’grande segredo’. Nos anos 50, havia realizadores como Stanley Kubrick, Robert Aldrich, Budd Boeticher, William Wyler, John Sturges, John Ford, John Huston, Vincente Minneli, George Cukor, Richard Brooks, George Seaton, Frank Tashlin, Alfred Hitchcock, Roger Corman, Raoul Walsh, Henry Hathaway, Jacques Tourneur, Howard Hawks, Leo McCarey, Anthony Mann, etc, etc, e mais etc.

Que outra cinematografia reunia uma galeria de talentos tão grandes? Atualmente a maioria dos grandes diretores morreu e os estúdios são controlados por multinacionais estranhas ao cinema como a Mitsubichi, a Coca-Cola... Ver ’Spartacus’, de Kubrick, na tela do cinema, foi uma experiência duradoura, assim como a comédia ’Se meu apartamento falasse’, de Billy Wilder, ou ’Rio Bravo’, western de Howard Hawks, ou ’Deus sabe quanto amei’, melodrama refinadíssimo de Vincente Minneli, ou a estesia melodramática de um Douglas Sirk - ’Palavras ao vento’, ’Imitação da vida’, ’Tudo isso e o céu também’. A infantilização do cinema americano se deu há algumas décadas com as guerras nas estrelas. O cinema como expressão da arte ou, melhor dizendo, o filme como arte, conheci-o aos poucos, com minhas idas ao Clube de Cinema da Bahia. Estudante secundário do Colégio Estadual da Bahia, filava aulas aos sábados para ver filmes no Guarany, onde Walter da Silveira, o programador do clube, os exibia em 1966. A primeira vez que me impactei com uma obra cinematográfica, considerando-a ’verdadeira expressão da arte’, foi com ’O eclipse’ (’L’eclisse'), de Michelangelo Antonioni. Também fiquei muito extasiado quando vi ’Deus e o diabo na terra do sol’, de Glauber Rocha. No clube, conheci Eisenstein, Resnais, Fellini, Luchino Visconti (seu ’Rocco e seus irmãos’ é uma obra-prima absoluta), Akira Kurosawa, François Truffaut, Yasujiro Ozu, Masaki Kobayashi, Kenji Mizoguchi (seu ’Contos da lua vaga’ me assombra até hoje), Godard, Jacques Rivette, Welles, Jules Dassin, Murnau, Fritz Lang, et caterva.

06 março 2006

Nostalgia de François Truffaut



Com bastante atraso, comprei, semana passada, a biografia de Truffaut escrita com extrema competência por Antoine de Baecque e Serge Toubiana e editada, aqui, pela Record. O livro é muito detalhista e ao mesmo tempo muito interessante. Como estou entretido com a vida do cineasta, aproveito, para 'encher' o blog, que andava desatualizado, para publicar um artigo que escrevi há dois anos sobre o realizador de 'Jules et Jim'. Pena que tenha morrido tão jovem, aos 52 anos, em 1984. O cinema contemporâneo, se vivo estivesse, estaria, sem dúvida, mais rico. E mudando de feijão para feijoada ao molho pardo, vi, ontem, a festa do Oscar. Achei Jon Stewart meio constrangido, não estava à vontade, um pouco nervoso. Quanto a premiação, houve zebra com o Oscar de melhor filme para 'Crash'. Gostei de ver a bela Raquel Weisz receber a estatueta por seu desempenho em 'O jardineiro fiel'. George Clooney não passa de um canastrão no sentido mais extenso que possa ter esta palavra. Mas mudemos de assunto e vamos a Truffaut.

Ao contrário do cinema de seus companheiros da Nouvelle Vague - Godard, Rohmer, Chabrol, Rivette, Resnais... - mais racionalista e cerebral, o de François Truffaut é feito com a emoção e o coração; com extrema sensibilidade e uma simpatia incomum pelos seus personagens que são tratados com ternura, generosidade e afeto. O crítico ferrenho, radical, intransigente das revistas Cahiers du Cinema e Arts et Spetacules, que ataca em seus escritos o cinema clássico francês e o realismo psicológico de acadêmicos como Claude Autant Lara, Julien Duvivier, entre outros, sofre uma espécie de metamorfose quando passa a realizar filmes, transformando-se num cineasta terno e amável.
Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, cuja tradução literal é Os Quatrocentos Golpes), além de inaugurar a Nouvelle Vague – juntamente com Acossado, de Godard, Hiroshima, de Resnais... -, dá início à carreira de Truffaut como realizador de longas. Aqui também começa o ciclo dedicado a Antoine Doinel (sempre interpretado por Jean Pierre Léaud), um personagem com evidentes elementos autobiográficos, através do qual aborda o rito de passagem da infância à idade adulta. É a nostalgia da adolescência que Truffaut reflete nos filmes do ciclo Doinel, a fugacidade do tempo e a ânsia de amar, a chegada a idade adulta, o casamento... (Antoine et Colette, 1982, episódio de O Amor aos Vinte Anos/L’Amour a vints ans; Beijos Proibidos/Baisers Volés; 1968, Domicílio Conjugal/Domicile Conjugal, 1970, e; Amor em Fuga/L’Amour en Fuite, 1978).
(Em Os Incompreendidos, Truffaut, avant la lettre, considerando a época, alude à Nouvelle Vague e a seu amigo e colega Jacques Rivette, quando os pais de Antoine – que, por sinal, nos outros filmes do ciclo está sempre ‘indo ao cinema’ – decidem ir ver Paris Nous Appartient, de Rivette, filme emblemático, apesar de pouco conhecido do movimento francês, e, de volta, no automóvel, consideram-no ‘muito bom’ – melhor homenagem impossível)
Romântico, sem, contudo, abandonar a visão irônica e dolorosa das relações afetivas, Truffaut tem a sua obra-prima já na terceira incursão longametragista: Uma Mulher para Dois/ Jules et Jim (1961), crônica de uma relação triangular (Oskar Werner, Jeanne Moreau...) baseada no texto literário de Henri Pierre Roché, autor que lhe serviria de inspiração para realizar, dez anos depois, abordando a mesma temática da dificuldade de amar, As Duas Inglesas e o Continente/ Les Deux Anglaises et le Continent (1971). O problema da comunicação no amor, aliás, do amor impossível, en fuite, é uma constante na filmografia de Truffaut, como revelam A História de Adele H/ L’Histoire de Adele H (1976), com Isabelle Adjani, A Mulher do Lado/ La Femme de la Cote (1981), entre outros.
Se seus colegas da Nouvelle Vague procuram elaborar uma linguagem que desconstrói o discurso cinematográfico tradicional, revertendo os cânones da lei de progressão dramática griffithiana, François Truffaut não pretende nunca em seus filmes dissolver a estrutura lingüística, mas, ao contrário, busca desesperadamente a fluência narrativa, o toque mágico capaz de envolver o espectador a fazê-lo pensar que não está no mundo’. É verdade que brinca com a metalinguagem, mas num sentido de reverência e ao cinema como em A Noite Americana/ La Nuit Americaine (1973), belíssima homenagem ao processo de criação cinematográfico onde Truffaut comparece como ele mesmo no papel de um diretor que faz um filme. O filme dentro do filme, portanto.
Outra vertente temática na obra truffautiana é a dominante policial, influência, na certa, de sua admiração por Alfred Hitchcock – seu livro de entrevista com este, Hitchcock/Truffaut, da Brasiliense, é, simplesmente, uma aula magna de cinema. Há Hitchcock em Fareinheit 451 (1966), que faz na Inglaterra, com o mesmo Oskar Werner de Jules et Jim, baseado na ficção-científica de Ray Bradbury. Outra obra alusiva ao mestre é A Noiva Estava de Preto/ La Mariée Était em Noir (1967), com Jeanne Moreau ou, mesmo, Tirez sur le Pianiste, segundo filme (1960), e A Sereia do Mississipi/ La Sirene du Mississipi (1969), no qual declara, através das imagens em movimento, a sua paixão momentânea, Catherine Deneuve, que trabalha, aqui, ao lado de Jean Paul Belmondo. E no seu canto de cisne De Repente num Domingo/ Vivement Dimanche (1984), cujo ‘claro/escuro’, proposital, vem em auxílio de uma proposta estilística em função do film noir francês.
Autor, porque dono de um estilo próprio, marcante, ainda que com um universo temático diversificado, François Truffaut, na sua filmografia, envereda por assuntos diversos, a exemplo de O Garoto Selvagem/ L’Enfant Sauvage (1970), filme sobre a luta de um médico, no século XIX, para ‘domar’, um menino bárbaro criado sem contato com a civilização – influência possível para Werner Herzog em O Enigma de Kaspar Hauser. Na Idade da Inocência/ L’Argent de Poche (1976), experiência na qual, repetindo Jean Vigo (Zero de Conduite), o universo que retrata é constituído somente de crianças. Sem esquecer O Último Metrô/ Le Dernier Metro (1980), uma volta ao passado, Segunda Guerra Mundial na França ocupada, para valorizar, numa situação-limite, a importância dos pequenos gestos.
Em todos os filmes de François Truffaut, um denominador comum: a narrativa que sobrepuja a fábula, a doce fabulação que advém de um sentido preciso de mise-en-scène, o touch truffautiano, sempre terno, apaixonado, capaz de levar ao espectador o prazer do autor com o que está a filmar e o prazer, imenso, de se assistir ao que se está vendo.

05 março 2006

Rio Bravo, de Howard Hawks


Em 'Onde começa o inferno' ('Rio Bravo', 1959), de Howard Hawks, resposta desse grande mestre ao 'western' psicológico que então emergia no cinema americano, há uma cadência que o distingue dos filmes do gênero que foram seus contemporâneos e, de certa forma, o que interessa ao autor é o estudo de comportamentos de homens numa dada situação. Excetuando-se o tiroteio final, e uns poucos tiros aqui e ali, os seus 144 minutos de projeção se concentram num espaço exíguo, qual seja a delegacia da qual é xerife John Wayne, com algumas deslocações dos personagens pelas ruas e pelo hotel onde se hospeda a bela Angie Dickinson – uma das pernas mais bonitas de toda a história do cinema. Hawks, num faroeste, sempre sinônimo de ação e contínuo corte em movimento, predispõe seu filme – uma obra-prima! – a uma quase 'inação', podendo se ver, nesta obra, um estilo muito mais próximo de Michelangelo Antonioni do que de um John Ford, por incrível que isso possa parecer. Há uma 'escrita' bem marcada na utilização dos procedimentos cinematográficos, há, em Hawks, uma constância temática e estilística. Daí poder ser considerado um verdadeiro autor de filmes. Mas, na sua filmografia, existe uma 'diáspora', porque nas comédias a emergência de um 'non sense', de uma 'loucura', entra em choque com seus filmes fora desse gênero, como podem servir de exemplo 'Levada de breca', 'Bola de fogo', 'O esporte favorito dos homens', 'O inventor da mocidade', entre muitos outros.
Um filme brilhante como 'Hatari!' (1962), por exemplo, segue, na sua estrutura narrativa, um mesmo tipo de itinerário. Se em 'Rio Bravo' os personagens esperam e, durante a maior parte do filme nada acontece de significativo, em 'Hatari!', eles também estão sempre a esperar pela próxima caçada, e é na espera que o cineasta aproveita para estudar a índole comportamental humana. 'Hatari!', que foi visto como mera fita de aventuras, é, na verdade, uma obra grandiosa, inteligente, e que propicia, ainda, o prazer do cinema, o que tem se tornado um fato raro na mediocridade contemporânea que confunde obscuridade com profundidade – ver, por exemplo, 'Filme de amor', de Júlio Bressane. Uma vez, Jean-Luc Godard, 'desconstrutor' do cinema nos anos 60, realizador admirado e considerado de vanguarda, respondendo a um repórter acerca do que era o cinema respondeu-lhe: 'O cinema é Howard Hawks'.
Não se viaja na maionese quando se está diante de um filme de Howard Hawks. Há alguns anos, quando o telecine era 'classic' (Net/Sky), este canal exibiu várias vezes 'Bola de fogo' ('Ballfire'), desse realizador, que tem Gary Cooper e Barbara Stanwick nos principais papéis. Um grupo de eruditos se encontra há anos trancado numa casa com o objetivo de elaborar a mais perfeita das enciclopédias, quando, de repente, uma mulher, fugindo de uma confusão que envolve gangsteres, encontra nela um refúgio. Esfuziante, bela, termina por se fazer apaixonar por Gary Cooper. A mulher, aqui, é elemento deflagrador de uma reviravolta na vida dos sábios.
Ver Hawks é essencial! Infelizmente existem poucos 'hawks' disponíveis em locadoras, mas nas televisões por assinatura de vez em quando um deles se apresenta para o prazer do cinéfilo. Já 'Rio Bravo', cujo título em português deve ser desprezado – 'Onde começa o inferno', tem em dvd e a cópia é das mais luminosas, conservando, como é justo e correto, sem atentar contra a integridade da obra cinematográfico, o formato original pelo qual foi visto nos cinemas. Este filme, uma obra-primíssima, é considerado como um dos maiores filmes de todos os tempos, chegando mesmo, numa lista definitiva solicitada pela 'Folha de S.Paulo' a críticos do mundo inteiro, Inácio Araújo encimá-lo como seu filme preferido. O 'western' em Hawks segue um itinerário, uma trajetória, um percurso: 'Rio Vermelho' (1948), com John Wayne e Montgomery Clift, 'Rio Bravo', com Wayne e Dean Martin, 'Eldorado' (1965), com Wayne e Robert Mitchum e, como canto de cisne, obra crepuscular, 'Rio Lobo' (1970). 'Eldorado' é uma refilmagem disfarçada de 'Rio Bravo', mas, mesmo, assim, filme de brilhantismo assegurado, ainda mais quando se tem presente a figura emblemática do 'sonolento' Mitchum, que a crítica tanto desprezou quando atuava, chamando-o de canastrão e não sabendo vê-lo como um tipo, uma personalidade, um emblema.


21 fevereiro 2006

Annie Hall



Annie Hall (1977), de Woody Allen, que tomou, no Brasil, o ridículo título de Noivo nervoso, noiva nervosa, é, sem dúvida, um dos melhores filmes do realizador - o recente Ponto final (Match point, 2005) também se enquadra no panteão alleniano. Allen está inspiradíssimo nesse filme, que reflete muito bem os modismos da intelectualidade nos anos 70. Filme sobre o amor e a ilusão do amor, reflexão sobre os dilemas dos relacionamentos humanos, veículo para Diane Keaton, a amada, na época, do diretor, visão irônica da intelectualidade novaiorquina, Annie Hall é também um filme sobre o cinema. Já com quase 40 anos - parece que o vi ontem, o que faz imperativo a exclamação: "Ó tempo, suspende o teu vôo".

Com exceção de Desestruturando Harry (1997) e Quero dizer eu te amo, ou, talvez, Celebridades, Allen passou a última década fazendo um filme atrás do outro, sem, contudo, alcançar o nível do passado. Pode-se dizer que o autor de Annie Hall entrou num processo de franca decadência nos últimos tempos. Que não tenha se repetido, não é o caso, pois todo autor de filme se repete, como já disse aqui, mas por falta de inspiração. A redenção veio com Match point, que, se não o redime dos fracassos anteriores, pelo menos ele volta a ser um Allen brilhante como o de A rosa púrpura do Cairo, Zelig, Manhattan, Memórias, e Crimes e pecados - com o qual Ponto final tem alguma afinidade.

A predileção por Ingmar Bergman se faz patente em vários momentos: um cartaz de Face a face na porta do cinema enquanto Allen conversa com Keaton, a alusão a Morangos silvestres (Smultronstallet, 1957), quando Allen, Keaton, e Tony Roberts, passeando por Brooklin, onde o menino Allen passara a infância numa casa debaixo de uma montanha russa, vêem numa mesma tomada o passado de Allen, garoto, com sua família. Assim como o Professor Isaac Bjorg vê, depois de velho, no mesmo plano, a sua meninice, sentado na mesa com seus familiares. O presente e o passado no mesmo plano. Antes de Bergman, porém, quem utilizou o recurso com mais funcionalidade foi um conterrâneo do sueco, Alf Sjoberg, em
Senhorita Júlia.

Impagável, a seqüência da fila do cinema com um pseudo intelectual a fazer digressões sobre Fellini, Marshall McLuhan, e outros, com a linguagem típico do jargão acadêmico. Allen se irrita e diz que ele não entende nada de MacLuhan. Ele se diz professor universitário de festejada universidade americana, mas, de repente, Allen chama o famoso comunicóloco que diz ao professor que, realmente, pelo que ouviu, ele nada entende de suas teorias.

Diane Keaton, nesse filme, lançou até moda com seus vestidos diferentes, com gravata, etc. Annie Hall ganhou vários Oscars, mas Allen esnobou não indo buscá-los, a preferir ficar no seu clube de jazz. No elenco, além da dupla central, Tony Roberts, Shelley Duvall (a magricela que depois seria muito bem aproveitada por Robert Altman - principalmente em Três mulheres e Popeye, e Stanley Kubrick em O iluminado), Sigourney Weaver (ponta quase impercptível), Carol Kane, Paul Simon, Janet Margolin, Christopher Walker (como Duane, irmão de Keaton, sujeito meio aloprado, que depois faria um papel magistral em O franco atirador, de Michael Cimino, que considero o melhor filme sobre o Vietnã, superior mesmo a Apocalipse Now, de Coppola), Jeff Goldblum (a mosca de Cronneberg), entre outros.