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24 julho 2011

O prazer da estesia

A aventura (L'avventura, 1959), de Michelangelo Antonioni, visto no alvorecer dos conturbados anos 60, constituiu-se num choque estético de alta tensão. Além do mais porque seguido de dois anteriores: Hiroshima, mon amour, 1959, de Alain Resnais e, também realizado no mesmo ano, Acossado (A bout de souffle), de Jean-Luc Godard. E A doce vida (La dolce vita, 1960) também não traumatizou nesta mesma época?

A aventura é o exemplo mais perfeito da desdramatização praticada por Antonioni (e também por Roberto Rossellini: Romance na Itália/Viaggio in Italia, 1953), que detona, com o domínio completo da anti-narrativa, uma nova perspectiva para o cinema neste drama extraordinário sobre a incomunicabilidade humana. Godard, em O desprezo (Le mépris, 1963) foi muito influenciado por Viaggio.

Mas, pensando bem, há quanto tempo não tomo um choque estético no cinema? Há algumas décadas, suponho. Daí a se dizer que o cinema se esgotou em invenções, havendo mesmo a necessidade de se concordar com Orson Welles, quando ele afirma que a arte cinematográfica tem seu apogeu entre 1912 e 1962, 50 anos, e, a partir daí, entra no seu perigeu. Evidentemente que, depois desta data, excelentes filmes são feitos. O funeral da chamada sétima arte, ainda segundo o cineasta de Cidadão Kane, (outro choque em 1941), está bem refletida em O homem que matou o facínora (The man who shot Liberty Valance, 1962), de John Ford, com John Wayne e meu amigo James Stewart.

Se o cinema nasce oficialmente com a projeção feita pelos Irmãos Lumière no Boulevard des Capucine, Paris, em 28 de dezembro de 1895, a sua linguagem, no entanto, somente se estabiliza vinte anos depois com David Wark Griffith em O nascimento de uma nação (The birth of a nation) no qual o célebre realizador americano sistematiza as invenções anteriores dos elementos da linguagem fílmica com rara e surpreendente eficiência dramática.

A linguagem, porém, estabelecida em The birth of a nation (nasce uma narrativa convincente) ainda precisa esperar muitos anos para ser enriquecida e aperfeiçoada, estilizada em outras formas de expressão. O ocaso da década de 50 e o advento da de 60 é uma época de grande riqueza que se poderia chamar mesmo de revolucionária, ainda que suas sementes tivessem sido lançadas nos anos 50 (e a contribuição de certos diretores americanos não pode nem deve ser desprezada, a exemplo de Robert Wise em Quero viver/I want to live, Robert Aldrich em A morte num beijo/Kiss me deadly, 1955 e A grande chantagem/ The big knife, 55, entre outros).

Com a predominância do cinema-montanha-russa, e a incorporação da estética do videoclip ao espetáculo cinematográfico oriundo da indústria cultural, a produção média está um verdadeiro lixo e há uma crescente infantilização temática. O cinema que se vê hoje não é o mesmo que se via num passado nem tão remoto assim. 

Outro dia, numa das salas desses complexos espalhados pelos shoppings centers, antes do filme que fui ver, contei sete trailers e todos com a estética da tesourinha, monstros, explosões, fugas alucinadas, exterminadores do futuro, etc, a demonstrar que existe, no cinema contemporâneo, uma falta absoluta de humanismo nos filmes. Os personagens não são gente de carne e osso, mas títeres, marionetes, condutores, apenas, da ação acelerada e ininterrupta.

Alguns realizadores procuram cabelo em ovo, como é o caso de Lars Von Trier, que, em sua busca pela renovação da linguagem cinematográfica, tenta de tudo. Abole o cenário realista em Dogville, alia o musical a uma história violenta em Dançando no escuro, tenta o digital, a câmera na mão a tremer o tempo todo em função da idéia fixa de inovar de qualquer maneira. Como é possuidor de talento, se não houve uma renovação na estética, pelo menos conseguiu fazer bons filmes embora os anteriores ao apetite renovatório sejam as suas melhores obras como Ondas do destino (de uma sensibilidade à flor da pele) e Os idiotas.

O fato inconteste é que a era dos grandes inventores de fórmulas do cinema acabou e está bem enterrada. Mas é preciso que a nova geração, cujo conhecimento cinematográfico, se muito, se concentra mais nos anos 90 e, pouco, nos 80, precisa, urgentemente, se quiser compreender o cinema contemporâneo, voltar-se para o passado para entender as contribuições daqueles filmes essenciais, aquelas obras que provocaram choques estéticos quando foram apresentadas.

É preciso que se veja, mas ver e rever com um olhar investigatório e, mesmo, se for o caso, arqueológico: O encouraçado Potemkin e Outubro, de Sergei Eisenstein, Aurora (Sunrise), de Friedrich W. Murnau, A paixão de Joana D'Arc, de Carl Theodor Dreyer, Luzes da cidade, de Charles Chaplin, Cidadão Kane, de Orson Welles, Roma, cidade aberta, de Roberto Rossellini, Ladrões de bicicleta, de Vittorio De Sica, Rocco e seus irmãos, de Luchino Visconti, Rastros de ódio, de John Ford, Morangos silvestres, de Ingmar Bergman, a trilogia A aventura/A noite/O eclipse, de Michelangelo Antonioni, Histórias de Tóquio, de Yasujiro Ozu, Os melhores anos de nossas vidas, de William Wyler, Hiroshima, mon amour e O ano passado em Marienbad, de Alain Resnais, Acossado, de Jean-Luc Godard, Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, Assim estava escrito, de Vincente Minnelli, Cantando na chuva, de Stanley Donen/Gene Kelly, Crepúsculo dos deuses, de Billy Wilder, Os brutos também amam (Shane), de George Stevens, Crônica de um verão, de Jean Rouch e Edgar Morin, Retrato de mulher, de Frtiz Lang, A regra do jogo, de Jean Renoir, Um punhado de bravos, de Raoul Walsh, Pickpocket, de Robert Bresson, Um corpo que cai, de Alfred Hitchcock, Matar ou morrer, de Fred Zinnemann, Contos da lua vaga, de Kenji Mizoguchi, A roda da fortuna, de Vincente Minnelli, Meu tio, de Jacques Tati, A condessa descalça, de Joseph L. Mankiewicz, Johnny Guitar, de Nicholas Ray, Sedução de carne, de Luchino Visconti, Oito e meio, de Federico Fellini, Lola Montès, de Max Ophuls, O mensageiro do diabo, de Charles Laughton, Palavras ao vento, de Douglas Sirk, O sétimo selo, de Ingmar Bergman, Cinzas e diamantes, de Andrdzej Wajda, Onde começa o inferno (Rio Bravo), de Howard Hawks, entre muitos e muitos outros.

Para o prazer de ter, em alta tensão, alguma estesia.

3 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Fico alarmado com a facilidade que se tem hoje de rever obras importantes que anos atrás eram até impossíveis de assistir, posto que tinha-se que aguardar uma exibição em algum cinema (ou cinemateca).
Paralelamente me pergunto: esta geração que cresceu vendo filmeclipes tem de fato interesse em revê-las?
A falta de um pensamento humanista ajuda muito neste mundo pós moderno e cru... Enfim, para onde caminha a humanidade?

André Setaro disse...

Ver alguns clássicos, antes do DVD, o estudioso de cinema tinha que ficar esperando alguma programação na cinemateca (e somente existem cinematecas no Rio e em São Paulo). Ou viajar a Paris para tentar ver, sob solicitação, algum filme importante na Cinemateque Française ou, em Nova York, no Moma.

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Texto primoroso, Setaro. Parabéns.

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