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13 novembro 2008

Sim, "Dagoberto" já está "in paradise"

Transcrevo o que escrevi hoje, 13 de novembro em minha coluna da Tribuna da Bahia.
"Lançado quinta passada no Cinema do Museu, "Dagoberto vai ao paraíso", de Raul Moreira, assinala a estréia na direção cinematográfica desse jornalista irrecuperável, mas, desde logo, disposto a jogar na tela o seu humor e a sua “nonchalance”, que caracterizam a sua esfuziante personalidade.

A cópia exibida, em 35mm com Dolby, para um cinema com gente a sair pelo "ladrão", provocou 20 minutos (trata-se de um curta metragem de divertimento e, também, informação, pois o filme faz uma rápida panorâmica sobre os vultos brasileiros das últimas décadas).

Antes de "Dagoberto" começar a narrar a sua trajetória, Moreira, performático, decidiu que o filme deveria ser parido, "comme il faut". E convidou todos os presentes, que estavam se fartando de chopes e salgadinhos, a subirem a escada que leva à entrada do Cinema do Museu e se perfilarem pelas paredes (para se chegar à sala propriamente dita do Cinema do Museu, que fica no Corredor da Vitória, há a necessidade de se descer uma ladeira bem "proporcionada"). O "parto", ainda que ausente um médico obstetra, veio através de uma surpresa, qual seja a de o próprio diretor, Raul Moreira, vestido de noiva e grávida.

A "via-crucis" de Dagoberto é o calvário de um velho Chevette, que pede surrealisticamente a seu último dono que o leve a um ferro-velho para ser desmontado e amassado. O Dagoberto do título é, portanto, o Chevette, que, na sua última "viagem" em vida, a caminho do cadafalso, recorda os seus antigos donos, e através destes, o realizador faz uma espécie de panorâmica dos acontecimentos na política e no comportamento brasileiros dos derradeiros tempos. A voz, portanto, que "comanda" a narrativa, é a voz surrealista do provecto Chevette a ir ao encontro da destruição mas que "pensa", talvez, entrar no paraíso.

Filme de montagem, que introduz na sua estrutura narrativa além das situações em plano "real", imagens de arquivo e animação. Do primeiro dono do Chevette em 1983, o filme acompanha os seus outros compradores e, com eles, registra um certo tipo de comportamento da época abordada, como o rapaz que, a princípio desregrado e amante do "dolce far niente", que se torna um típico yuppie, o padre pedófilo (interpretado com a elegância e a compostura habituais por Lula Meteorango), a moça bonita (aliás a imagem dela no navio, acompanhada de um menino é bem sugestiva).

O único senão que se poderia fazer a "Dagoberto vai ao paraíso" é que as histórias exigiriam uma maior duração para se ter um quadro mais exato da época. Mas a síntese tem mais urgência do que o desdobramento ficcional maior, porque no cinema baiano há a necessidade de se ser sintético por uma questão de sobrevivência, viabilidade e exeqüibilidade.

O mote do filme? Com a palavra Raul Moreira: "Sim, mostrar as transformações do Brasil a partir dos ex-proprietários de Dagoberto e costurá-las com o drama atual de sua existência, que partia do fato de que ele não mais reconhecia o mundo e o mundo muito menos o reconhecia, foi o mote do filme. Para tanto, fundamental era dar uma cara a Dagoberto, quando me veio à idéia de usar um boneco do Topo Giggio, um personagem também fora de tempo, como o próprio Chevette Hatch."

"Dagoberto vai ao paraíso" existiu quase por um milagre de persistência de seu autor, pois segundo ele, "O roteiro foi enviando para participar de um edital da Petrobrás, sem sucesso. E, como a fruta estava ficando madura e caindo do pé, resolvi fazer o filme, ainda que praticamente sem um tostão, levando-se em conta os custos de um curta. A partir de ações quase esquizofrênicas e graças ao apoio de mamãe (Terezinha) e de alguns amigos, entre eles Cássio Sader, Flávio Lopes e o pessoal da Olhar Filmes resolvemos partir para as gravações. Tivemos três fotógrafos: o competente Hans Herald, o preciso Alexandre Andrade e o experimentalista Flávio Lopes. O fiz dispondo basicamente de uma câmera Sony Z1, um refletor pockt, obra de Henrique, da Quanta, dois rebatedores e a velha e imbatível iluminação natural, claro. Com os atores escolhidos, Antônio Fábio, Igor Epifânio, Olga Lama, Tom Valença, Lula Martins, Ricardo Luedy e tantos outros, perfeitos, rodei, em quatro dias, sem que eu carregasse o roteiro nas mãos, pois conhecia o filme de trás para frente. Depois, também em quatro dias, o montamos, graças à habilidade de Cláudio Schwabacher, o mesmo que havia dando o primeiro corte em Eu me Lembro, de Edgard Navarro. Por fim, vieram os efeitos sonoros e música original do mestre Ricardo Luedy."
Que "Dagoberto vai ao paraíso" tenha mais exibição pelo circuito alternativo da cidade. Há um sentido de humor que parece desaparecido do cinema baiano contemporâneo. Graça e espontaneidade.

2 comentários:

Jonga Olivieri disse...

De fato o autor é dotado de um marketing pessoal performático intenso e particular.
Gostei e vou ficar atento aqui no Rio para assistir à curiosa obra...

Mariana Paiva disse...

Boa sorte pra ele mesmo, bom humor anda em falta no cinema. :)
Gostei do post, Setaro, fiquei curiosa para assistir.

um abraço!