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09 agosto 2008

O homem mais insuportável do mundo



O cinema de João Caçapava é um cinema que se move em direção a um olhar sobre a solidão e as idiossincrasias do ser humano. Não é um cinema de invenção, como alguns neófitos de carteirinhas (leia-se diplomas de cineastas) procuram fazer e cujo resultado, na maioria das vezes, é um discurso inorgânico na procura do óbvio ululante. Caçapava em O homem mais insuportável do mundo - primeiro filme de uma trilogia que compreende O homem mais pobre do mundo e O homem mais normal do mundo - envereda, neste seu trabalho de estréia, pelo enfoque num personagem trancado em si mesmo e na mais absoluta solidão. O filme pretende acompanhar a trajetória do dia-a-dia desse personagem que todos consideram um homem insuportável, de difícil convivência, de nenhum relacionamento. Uma pessoa cuja idiossincrasia resvala até o desespero, mesmo porque, ele mesmo, não chega a se suportar.

O que importa, no entanto, na criação cinematográfica, é a maneira pela qual o realizador se utiliza dos elementos determinantes da linguagem cinematográfica. Assim, muito mais importante do que João Caçapava diz em O homem mais insuportável do mundo é como ele explicita a sua fábula. É a narrativa que alavanca esta e não o contrário.

O rosto do ator Paulo Ferreira é bem sintomático da insuportabilidade do personagem. A escolha do intérprete se, por um lado, é feliz, pelo tipo, por outro, Caçapava, por ser Ferreira um intérprete mais de teatro, não conseguiu conter os maneirismos típicos dos atores de teatro. Já não bastaria o tipo em si para fazer valer a condiçao de ser insuportável? Mas Ferreira exagera nas suas expressões, no seu constante e quase impenetrável calundu.

Há, indiscutível, na narrativa caçapaviana, um rigor na sua escrita fílmica. As tomadas obedecem a um conceito de duração com bastante funcionalidade em relação àquilo que quer explicitar: a insuportabilidade de Adágio, o nome do personagem, que, por ironia esperta, tem como único passatempo, para despir a solidão, uma vitrola de veludo através da qual ouve um adágio. E a companhia de Malvado, a companhia de "Deus", um cachorro pitt bull.

O dia-a-dia de Adágio, porém, é alterado quando quebra suas pernas e, por isso, obrigado a ficar em casa. A sua empregada doméstica, que Adágio, ao sair para o trabalho, tinha a mania de deixá-la trancada, vem em seu socorro para auxiliá-lo e traz, com ela, uma menina, que, aos poucos, consegue, destrancar um pouco a sua incomunicabilidade.

A seqüencia de sua queda, filmada no esquisito interior do Edifício Sulacap, é muito bem executada com um travelling para a frente e uma partitura eficiente, advindo a surprêsa, quando o personagem entra numa porta e se dá o acidente.

É com este rigor de construção que O homem mais insuportável do mundo manda o seu recado bem dado. Os planos de detalhes (a campanhia da porta, a fechadura com a chave sendo retirada, entre outros) e uma aplicação sonora perfeita que dão um, por assim dizer, touch especial a O homem mais insuportável do mundo. O filme, vale ressaltar, seria outro se não tivesse como diretor de fotografia Petrus Pires, que dá ao filme uma iluminação adequada às solicitações do tema.

João Caçapava, ao contrário de muitos dos realizadores baianos, possui o tão necessário sense of humor. Seu filme tem inseridas observações irônicas sobre o comportamento esquisito das pessoas ditas humanas: as duas senhoras no elevador, os diálogos de Adágio, o nome do cachorrinho, o comportamento sui generis deste ao encontrar pessoas, etc.

Um filme sobre a solidão, este O homem mais insuportável do mundo, que, se não chega a ser uma obra-prima, estando, na verdade, muito longe disso, é um dos filmes mais interessantes e estranhos dessa nova safra do cinema baiano curtametragista tão cheia de provocações vazias e pretensões autorais irritantes.

2 comentários:

Anônimo disse...

Este pra mim é o melhor curta dos ultimos tempos. Quem nunca se
sentiu "O Homem mais insuportavel do mundo"??A mensagem do filme é de
uma sensibilidade, de uma veracidade que até incomoda os "seres normais".
Grande abraço.

Yogoreta Tamashii-Sama disse...

O Homem mais Insuportavel do mundo é um filme que, acredito, não visa agradar o público. Mostra de forma única, um tipo de sentimento negativista, que atinge boa parte da população, mas que é pouco debatido em nossa sociedade. A conversa subliminar entre Adágio e o seu cachorro "Deus", mostra, claramente, as verdadeiras intenções do autor e também mostra o quão brilhante este filme é.
Parabéns a todos envolvidos neste trabalho!