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06 agosto 2008

Falta grave em reportagem de "A Tarde"



O jornal A Tarde, de Salvador, em sua edição de domingo passado, 3 de agosto, em seu novo encarte, uma revista semanal chamada Muito, publicou uma reportagem de capa sobre a cena do cinema baiano atual assinada pela repórter Katherine Funke, com o título de Eles fazem cinema.

Se o propósito da matéria foi dar uma visão geral do movimento cinematográfico e das novas perspectivas que se abrem para o cinema baiano, cometeu duas falhas graves que a fazem incompleta e mal informada, ao omitir o processo de Revoada, segundo longa metragem de José Umberto, e Cascalho, de Tuna Espinheira. O primeiro, que tambem recebeu recursos do Minc (não foi somente Trampolim como é citado), encontra-se a ser espoliado e esfacelado pelo seu produtor, que, aproveitando-se de um interregno na saúde de seu realizador (felizmente recuperado), seqüestrou o material filmado e, ao que parece, montou-o à sua revelia, desfigurando o seu trabalho, a sua concepção estética, em função de fazer um filme mais palatável para o mercado (sempre o maldito mercado). O segundo, baseado em romance homônimo do consagrado escritor Herberto Salles, está prestes a ser lançado, apesar dos quatro anos de espera numa prateleira.

A omissão por uma reportagem que se quer abrangente sobre a produção baiana se constitui em falta grave do ponto de vista jornalístico, principalmente quando se tem em conta que Revoada e Cascalho são filmes que receberam verbas governamentais, um do Minc, e o outro, o de Tuna Espinheira, teve seu roteiro premiado em concurso do edital da Secretaria de Cultura e Turismo (Fundação Cultural do Estado da Bahia).

Privilegiou-se, na reportagem de Katherine Funke, uma nova suposta nova onda que se encontra a emergir nas praias soteropolitanas. Mas não deixou de citar filmes em fase de conclusão de veteranos como Pau Brasil, de Fernando Belens, e O jardim das folhas sagradas, de Pola Ribeiro.

A omissão teria sido feita de propósito ou tudo não passa de ignorância dos fatos? O affair Revoada é importante na medida em que é um caso que mostra a interferência indevida de um produtor no processo de criação de um cineasta, ainda que este tenha movido ação popular de resgate na Justiça Federal. José Umberto é um cineasta com respeitáel quilometragem rodada e que faz cinema na Bahia desde os anos 60 já tendo, inclusive, realizado um longa, O anjo negro (1973), entre várias curtas premiados (A musa do cangaço, recentemente lançado em DVD) e autor do primeiro filme marginal do cinema baiano, o média Vôo interrompido.

E Tuna Espinheira tem em sua ficha filmográfica um punhado de curtas também premiados, e é também um realizador que labuta no meio cinematográfico soteropolitano desde a década de 60.

Que reportagem (ou seja lá que nome tenha!) é essa que omite fatos relevantes do cinema baiano, em se tratando de obras de realizadores já consolidados?

Fica aqui o espanto e o assombro diante de tal reportagem que, como está, presta mais uma desinformação sobre o momento atual do cinema baiano do que, propriamente, uma informação com bases referenciais exatas.

A foto ao lado é de Revoada, com o ator Jackson Costa a querer matar, com um falcão, uma mulher da Casa Grande.

13 comentários:

Cassiano Mendes disse...

Estarrecido fiquei eu, que acompanho as idas e vindas do cinema baiano atraves dos tempos. É de causar espécie que um jornal como A Tarde e uma revista nova, a Muito, que lhe é acoplada aos domingos, mas editada por jornalistas do mesmo veículo, possa dar à público uma reportagem tão tendenciosa cujo propósito, segundo parece, é privilegiar um determinado grupo de cineastas neófitos e que ainda nada apresentaram de consistente. A omissão de um caso grave como o de Revoada, de José Umberto, não pode ficar sem um alerta para a desinformação que se está a praticar na imprensa baiana. Também nada se falou, conforme leio no post deste blog, sobre o filme do venerando Tuna Espinheira, que espera, com uma paciência de franciscano ante o pecado, que Cascalho, feito há quatro anos atrás, tenha a sua hora e vez no mercado exibidor, o que parece que está prestes de acontecer. Quem é a jornalista Katherine Funke? Ela pesquisou, para fazer a malfadada reportagem, alguma coisa mais consistente sobre a realidade do cinema baiano?
As pessoas que estão mais a par dos problemas que afligem nossa cinematografia ficaram espantadas e assombradas com o desserviço prestado por esta revistinha que de "muito" não tem nada. Já começou mal a sua trajetória editorial.

Mariana Dias disse...

Quanta bobagem! A jornalista tem todo direito de dar a face que quer 'a reportagem. Isso nao significa privilegiar ninguem, mas apenas escolher o que acha mais importante para a reportagem.
Privilegiar o que? Um cinema de ma' qualidade, sem expressividade como o baiano, se e' que tal coisa existe. E' um cinema de perdedores, esse cinema baiano.

Romero Azevêdo disse...

Papel aguenta tudo nesses dias sombrios.

Alessandra disse...

Mariana, não lhe conheço, felizmente, mas você está equivocada. Um jornalista pode privilegiar determinados aspectos numa reportagem, mas se o propósito é de fazer uma radiografia do cinema baiano, como parece ter sido o objetivo, não poderia omitir dois fatos importantes: o 'roubo' de um filme e o massacre de um autor, no caso José Humberto de Revoada, e a existência de um longa já pronto para ser lançado, no caso Cascalho, de Tuna Espinheira. Este blog é o único que tem a coragem de ser democrático e dizer as coisas sem as papas na língua costumeiras entre esta imprensa tupiniquim.

Mariana Dias disse...

Cara alessandra, voce parace ate' papagaio de cineasta baiano, seguidora de carteirinha, daquelas que dizem amem o tempo todo. Quem se importa com esse cinema de perdedores, e' um perdedor. Abra os olhos e a cabeça. E' um prazer nao lhe conhecer.

Alessandra disse...

Mariana, desculpe lhe dizer, mas você parece uma baiana idiota plena desse rescaldo cultural que tanto desonra o passado da cultura da Bahia, quando, há décadas atrás, tínhamos muita gente de talento. Mas, mesmo no retrocesso verificado na cultura baiana, e assinalado em artigos por André Setaro, há ainda muita gente de valor e o cinema não pode, sob pena de se incorrer em grave "instinto" desinformativo, ser algo de tão severas críticas destituídas de qualquer observação inteligente. Seria você, Mariana, uma moça inteligente? Tem a lucidez suficiente para analisar os fatos culturais? Qual o seu nível?

Algarismo disse...

Não acham, meninas bobas, que já é tempo de se acabar com as afrontas por idéias que não possuem o mínimo fundamento? Eu, aqui do meu canto, leitor deste blog, não sou de comentar nem de falar. Mas me sinto na obrigação de dizer alguma coisa. O cinema baiano, por exemplo, não é um cinema de perdedores, não. É um cinema que reflete o seu momento histórico, as perplexidades observadas na contemporaneidade (sou como Setaro, detesto este termo, mas estou a aplicá-lo). O cinema, de um modo geral, reflete as angústias de sua época. Se agora vivemos numa atormentada sociedade de consumo, hedonista por excelência, haverá o cinema que aqui se faz de refletir o seu tempo, o seu aqui e agora. Parem, Mariana e Alessandra, com esta polêmica boba. A Mariana, principalmente, é muito 'desabusada' e gosta de implicar com as coisas. Pena que seja assim. Porque sua atitude não leva a nada e contribui sobremaneira para o caos no qual estamos todos submersos.

Jussilene Santana disse...

Setaro, como vai?

Pesquisando os jornais da década de 50 (sobre cultura e teatro baianos...), encontro uma matéria falando de outro imbróglio de nossa cinematografia. A autoria de Rampa estava sendo questionada na justiça: Luis Paulino não seria seu autor. Você sabe desta "questão"?

Bom, achei que talvez vc quisesse ter no arquivo e encaminhei para seu e-mail a matéria publicada no Jornal da Bahia, em 14 de março de 1959.

Grande abraço!

Jussilene Santana

Mariana Dias disse...

Cinema baiano nao e' questao de nivel: e' uma merda mesmo, e ponto. Tome, por exemplo, esses mocos. Aquilo e' uma porcaria, por melhores intencoes que tenha passado na cabeca do diretor. E' um cinema mal realizado, que nao se sustenta de pe'. Essa gente devia desistir e dar lugar aos mais novos. Ze Umberto, por exemplo, o que fez Ze Umberto ate' hoje no cinema? alem de cagadas fenomenais, revestidas de um discurso bossalissimo e nefastamente erudito. Meu Deus! Essa gente nao vai emplacar NUNCA!
Alessandra, que preocupacao toda e' essa com nivel? Voce por acaso frequenta uma dessas pos de bosta da Facom, ou so' transa com cineasta baiano? Ja' to vendo a dondoca, correndo atras de cineasta baiano.

Nelito disse...

A "mulher de casa grande" na foto com o ator Jackson Costa (que interpretou o cangaceiro Lua Nova em "Revoada") é a atriz Christiane Veigga, um dos talentos do teatro na Bahia. No filme ela faz a Baronesa de Água Branca.

André Setaro disse...

Bem, ainda que diatribes, meu blog é democrático.

Jonga Olivieri disse...

Pouco tenho acompanhado o cinema baiano, aqui nessas lonjuras do Rio de Janeiro.
De qualquer maneira o debate ativo entre os leitores deste blog deu-me uma idéia de quanta polêmica existe em torno dele. É o tal caso: "falem mal, mas falem de mim". É a prova de que existe algum cinema por terras soteropolitanas. Bem ou mal existe. Mesmo com todas as suas contradições.

Anônimo disse...

Quanto EGO nesse cinema baiano, meu Deus. Quanto EGO, não cabe nem um comentário só.