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14 junho 2007

"Teorema", de Pasolini



Pasolini teve morte trágica em novembro de 1975, despedaçado pelas rodas de um carro, restando, seu corpo, irreconhecível. Desapareceu na periferia de Roma, numa zona freqüentada por homossexuais e, pelo que se sabe, um deles atacou o cineasta, que, já morto, foi totalmente esmagado pelo automóvel do assassino. Homossexual assumido, Píer Paolo Pasolini já anuncia, como numa premonição, a sua morte em sua derradeira obra, Saló ou Os 120 dias de Sodoma, baseado em relatos do Marquês de Sade adaptados para a Itália fascista dos anos quarenta. O filme é uma verdadeira descida ao inferno e, nele, patentes, o desespero, a desesperança, o ceticismo do autor de Teorema.

Um rico industrial, casado, com dois filhos, recebe, de repente, a visita de um anjo, que, elemento deflagrador, provoca, com a sua presença, uma crise familiar. O anjo, que não se sabe de onde veio, tem relações sexuais com todos os familiares. Estes ficam totalmente atônitos e começam a ter comportamentos esquisitos. A mãe (interpretada pela deusa Silvana Mangano) sai pelas ruas de Roma à cata de homens para satisfazer suas fantasias, com um gosto insólito pelos tipos mais rudes e grossos. O filho vira artista abstrato numa pulsação quase maníaca. A sua irmã, chocada, fica catatônica enquanto o pai, desesperado, corre pelo deserto após doar a sua fábrica aos operários. Apenas a criada (Laura Betti) é que é salva pelo autor, pois sai da casa onde trabalha e se dirige ao vilarejo natal, quando levita e fica parada no firmamento. Objeto de culto e veneração.

O anjo, interpretado por Terence Stamp, é um personagem bem típico dos filmes cujas fábulas apontam pelo aparecimento de um elemento deflagrador que provoca uma crise de identidades ou um pandemônio quando se instala. Geralmente um forasteiro, como o Shane de Os brutos também amam, western grandioso de George Stevens, que, chegando a uma cidade, muda seus rumos e o de seus habitantes. Assim também William Holden, o forasteiro que, em Férias de amor (Picnic), provoca os ânimos de uma sociedade aparentemente ordeira, mas altamente preconceituosa. Stamp, revelado por William Wyler em O colecionador (1964), logo virou, pelo seu carisma, pelo seu olhar angelical, pela sua maneira de ser, um ator cobiçado pelos mestres do cinema, a exemplo de Federico Fellini que o destacou para o quadro principal de seu curta incluso no longa Histórias extraordinárias, filme pouco visto do cineasta de La dolce vita, com um sabor insólito e surrealista - Toby Dammit, o seu episódio, sendo os outros de Roger Vadim e Louis Malle.

O elenco de Teorema é excelente. Além de Stamp e La Mangano, Laura Betti, que faz a servente, atriz combatente, militante e amiga de Pasolini, que, até hoje, preserva a sua memória e trabalha no sentido de que sua morte seja revelada como um assassinato político. O industrial é Massimo Girotti. Rever Teorema é uma exigência nesses tempos pós-modernosos nos quais os filmes como que pararam de investir no desnudamento das idiossincrasias do homem, porque preocupados apenas com as suas ações exteriores. Teorema, de Píer Paolo Pasolini, é um filme aparentemente estranho para aqueles não acostumados à poética do autor. Mas, indiscutivelmente, uma obra de arte.

Marxista, ateu, Pasolini, pouco antes de Teorema, filmou a melhor vida de Cristo no cinema, que foi O evangelho segundo São Matheus, que dedicou ao Papa João XXIII. Além de cineasta, poeta, romancista, articulista, homem de combate, Pasolini revela, em suas obras, o seu sentido humanístico que aflora através de parábolas como Gaviões e passarinhos, entre outros. É a maneira de captar os gestos, é um sentido singular de apreender o homem comum, é a maneira de colocar a câmera diante do humano, a surpreender o insólito do ser, particularidades que fazem de Pasolini uma singularidade, um cineasta que tem uma marca, um estilo, um pensamento, uma visão do mundo e da vida. Um sentido que se aguça com descrença, porém, nos últimos anos de vida, quando a descrença, o ceticismo, e a revolta parecem tomar-lhe conta como expõe muito bem seu canto de cisne chamado Saló.

6 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Pasolini teve uma importância muito grande num elenco e numa época de grandes diretores italianos; sendo Fellini (na minha opinião) o maior deles.
Teorema é sem sombra de dúvida sua obra máxima. Mas trouxe também uma série de outras que estão inseridas na história do cinema.

André Setaro disse...

Olivieri você, na minha opinião, é um 'connaisseur' dos labirintos da arte do filme, sabe vê-la, ainda que não se tenha dedicado, vida afora, a ter o cinema como linha de vida.

Sobre Pasô, acho que, segundo a minha impressão, o melhor dele é 'Il vangello secondo Matheo', que realizou em 1967. Apesar de ateu, como ele, fiquei impressionado com a sua espiritualidade e a sua beleza, seu despojamento, que fazem dos outros filmes baseados nos evangelhos meros espetáculos ocasionais e descartáveis ('O rei dos reis', de Nicholas Ray, 'A maior história de todos os tempos', de George Stevens, 'A paixão de Cristo', de Mel Gibson, 'Jesus de Nazaré', de Franco Zefirelli, sem considerar as 'modernidades' descabidas daquele que fez o ridúclo 'Invasão bárbara', um canadense cujo nome esqueço agora, e que teve a audácia de 'modernizar' a vida de Cristo em 'Jesus de Montreal'.

Alessandra disse...

Concordo com o missivista que falou que o melhor de Pasô é Teorema, que considero uma obra-prima dos anos 60, um filme conceitual destinado a uma espécie de experiência sensorial, um discurso mais para o pensamento do que para a emoção. A captação da ânsia do homem humilde, principalmente na sua condição de animal que faz sexo, é essencial no universo pasoliano, principalmente nos últimos filmes, a trilogia consitutída de Decameron, Cantos de Canterburry, As mil e uma noite. Recomendaria um livro sobre o cineasta escrito por Luiz Nazário, que saiu naquela antiga e tão decantada coleção da Brasiliese, que se chamava Encanto Radical. É mais fácil de ser encontrado nos bons sebos do Rio e São Paulo.

André Setaro disse...

Sim, 'Teorema' causou impacto quando do seu lançamento, impacto e estranheza pela recusa de Pasolini em articular, nele, uma dinâmica narrativa na qual estão acostumados os cinéfilos de carteirinha. Aliás, li uma entrevista, domingo passado, que saiu no Estadão, de Jean-Claude Bernardet, que revela um ponto decisivo para a compreensão da chave pela qual se pode abrir o entendimento da linguagem cinematográfica. O crítico (já com 70 anos) diz que a maioria das pessoas (e fala de pessoas que se dizem cineastas e criticos) está mais afeita às formas de conteúdos do que às formas de expressão e pouca gente entende o cinema como estrutura de significação audiovisual. Concordo inteiramente com Bernardet nesse quesito. Muita gente que se diz cineasta não entende nada de cinema. Vejo isso em muitos roteiros que são dados a julgamento aqui em Salvador e em muitos filmes baianos que se querem cinema sem sê-lo. Agora vou dar ração às galinhas, porque elas estão com fome.

Amelí disse...

Professor,

É com prazer que sou apresentada ao seu blog. Estava sim, e muito, cansada dos scrapks do orkut e dos portais que repetem as mesmas informações...

Abençoada com a tv a cabo, já que moradora distante da GPW e Video Hobby, poderei agora apreciar o bom cinema e ler bons comentários sobre ele.

Abraços,

Amelí
(Produção Cultural - 4º semestre)

Cassiano Mendes disse...

Pasolini, além de cineasta,
postulou-se como um pensador de seu tempo, desesperando-se com os rumos do capitalismo, e, na incredulidade e ceticismo, deu-se ao desespero, com a culminância em sua própria morte, espécie de flagelo pessoal, no qual se entregou completamente. Um assassinato cultural, sem dúvida,ainda que há aqueles que queiram ver apenas uma morte por causa de viadagem explícita e inconsequente. O homossexualismo de Pasolini se reflete em suas obras como adoração e, também, como dor, prazer, sacrifício tarkovskiano.