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15 fevereiro 2010

Alhos & Bugalhos


1) A foto aí em cima é de O desprezo (Le mépris, 1963), de Jean-Luc Godard, em CinemaScope, com a bela Brigitte Bardot secando ao sol e, no outro extremo, Michel Piccoli. Neste filme, Godard aproveita ao máximo as possibilidades estéticas do formato, que tem, no elenco, Fritz Lang como ele mesmo. Considero um dos melhores trabalhos do polêmico diretor francês, o qual, queiram ou não seus poucos detratores, é responsável por um filme-farol: Acossado (A bout de souffle, 1959), que determinou novas regras para a gramática cinematográfica. Gosto muito do Godard dos anos 60 e menos, muito menos, da fase posterior. Filmes como Pierrot, le fou (me recuso a dar, aqui, o título que tomou em português: O demonio das onze horas), mUma mulher é uma mulher (Une femme est une femme), Tempo de guerra (Les carabiniers), Viver a vida (Vivre sa vie), Alphaville, entre outros, são, no mínimo, encantadores.

2) Na segunda metade da década de 60, o Jornal do Brasil tinha o seu Conselho de Cinema que atribuia, toda sexta-feira, estrelas (no máximo 5) e uma rotunda bola preta. Anos antes, o Correio da Manhã também o tinha. Vamos ver se me lembro dos participantes do conselho do JB: Alberto Shatovsky, Alex Viany, Maurício Gomes Leite, Valério Andrade, Sérgio Augusto, José Wolf, Ely Azeredo, José Carlos Avellar, entre outros que não me chegam à memória neste momento. Os do Correio: Ironildes Rodrigues, Antonio Moniz Vianna, Van Jafa, Ronald F. Monteiro, Paulo Perdigão, Salvyanno Cavalcantti de Paiva, e, quem mais?
3) A primeira vez que vi um Conselho de Cinema foi na revista francesa Cahiers du Cinema lá pelos idos dos anos 60. Conselho respeitável, que incluia, além dos seus redatores, que viraram cineastas famosos (Godard, Truffaut, Rivette...), nomes do prestígio do historiador Georges Sadoul. As cotações variavam de bola preta a quatro estrelas - no Correio e JB iam até cinco. Admirador de Jerry Lewis desde cedo, ficava impressionado como o comediante, tido como um mero clown em países como o Brasil, era consideradíssimo pela turma do Cahiers. O Otário (The patsy, 1964), recebeu, de quase todos os conselheiros, quatro estrelas, enquanto filmes, não tão ruins assim, recebiam uma enxurrada de bolas pretas (Dr. Jivago, de David Lean, me vem, agora, à mente). A revista eletrônica Contracampo (http://www.contracampo.com.br ) também tem seus conselheiros.

4) Era uma época na qual Godard estava no auge e era um referencial para os bate-papos cinematográficas das pessoas que frequentavam o cinema Paissandú (de saudosa memória). Na saída, o pessoal se reunia nos bares e pizzarias que existiam na calçada da sala de exibição e o papo varava a madrugada regado, geralmente, a chope carioca e da Brahma (quando a Brahma era a Brahma e não o arremedo que se transformou). A Geração Paissandú surgiu daí.

5) Havia os críticos que não gostavam de Godard e davam bola preta para quase todos os seus filmes. Moniz Vianna não gostava, assim como o seu discípulo Valério Andrade. Quem adorava Godard, entre outros, era Maurício Gomes Leite, crítico oriundo de Minas que morreu há alguns anos atrás em Paris. E realizou um dos melhores filmes dos anos 60: A vida provisória, com Paulo José, Dina Sfat, Mário Lago, e, no final, fazendo uma ponta, Carlos Heitor Cony.

6) Não era de bom-tom se convidar, para a mesma mesa, um godardista e um anti-godardista. Naquela época, as discussões eram acirradas, levava-se o cinema muito a sério, e o cinema tinha um status político que perdeu completamente nos dias de hoje. Lembro-me que, no lançamento de Terra em transe em Salvador, houve um debate no auditório do Jornal da Bahia, reunindo os intelectuais e universitários baianos, que se prolongou até a madrugada. Diferente dos tempos contemporâneos que se caracterizam pela apatia, pela indiferença. E a indiferença, já disse William Shakespeare em Hamlet, a indiferença também é crime.

7) Revi, há poucos dias, no Canal Brasil, Eu te amo, de Arnaldo Jabor, com Paulo César Pereio, Sonia Braga, Tarcísio Meira, Vera Fischer. Obra pretensiosa e vazia. E, além do mais, apelativa, a fim de concorrer com as pornochanchadas da época. E os diálogos soam pseudo-intelectuais, pedantes e ridículos. A única coisa boa que o filme tem é a música de Tom Jobim, feita para Vera Fischer, Luiza, uma beleza. Aliás, desde que vi Eu sei que eu vou te amar, que deu uma Palma de Ouro prematura para Fernanda Torres, achei-o um vácuo, com os diálogos insuportávelmente moderninhos. Ainda bem que Arnaldo Jabor saiu do cinema para não cometer mais disparates, ainda que, e não se pode negar, Toda nudez será castigada, uma das melhores versões de Nelson Rodrigues para o cinema, seja um filme a respeitar. E O casamento, não tão bom o outro, não é de se jogar na lixeira. O Canal Brasil, por sinal, não respeita o formato original dos filmes mesmo os standars, espichando a tela para que ela fique, abominavelmente, cheia.

8) Por falar em Canal Brasil, a sua programação desceu muito de nível nos últimos anos, predominando, durante a tarde, os insuportáveis clips musicais (um ou outro se salva). O canal da Net/Sky, mas de propriedade de um grupo liderado por Barretão, Roberto Farias, entre outros, atende aos assinantes mais superficiais e menos exigentes ao programar tantos clips e por tanto tempo. Antes, os filmes eram mais numerosos e a programação mais cinematográfica. Há programas que não dá para se ver, a exemplo de Larica Total. De qualquer forma e de qualquer maneira, o fato é que, malgré tout, é um canal importante que ajuda a mostrar o cinema brasileiro de várias épocas. E que cobre os festivais, mostras e eventos espalhados em todo o território nacional. Assisto sempre ao Canal Brasil, exceção se faça ao turno vespertino.

4 comentários:

Romero Azevêdo disse...

A propósito do item número 6, cito em aspas nota da coluna de Ancelmo Gois em O Globo no último dia 11/02

"Domingo, na sessão de 15h55m do filme “High School Musical” no Cinemark Downtown, no Rio, um guri de uns 6 anos virou-se para a mãe e disse alto, para a gargalhada geral:
— Mãe, cadê o controle remoto para mudar o canal?!"

Andre de P.Eduardo disse...

Uma aula.
Sobre o Jabor, concordo plenamente, mas tenho minhas simpatias por Tudo bem (até gostaria de saber sua opinião).
Forte abraço, Andre.

André Setaro disse...

Obrigado, André.

Realmente, esqueci de 'Tudo bem!', que se salva na filmografia de Jabor, embora fita apenas mediana. O problema do cinema brasileiro é a tal da 'panelinha'. O pessoal do Cinema Novo era amigo dos redatores dos principais jornais, por exemplo. Um filme de Cacá Diegues sempre recebe espaços enormes na mídia. Ação entre amigos.

Hugo Neves disse...

Também concordo que Le Mépris seja de facto um dos filmes mais subvalorizados do Godard,talvez porque a fase Belmondo/Anna Karina seja supra citada como a sua melhor fase por todos os "Godardianos" e eu incluo-me nesse lote...mas existirão sem dúvida outros filmes a merecer um olhar atento,falo de um "Passión" ou de um "Éloge de l'amour" aonde parecem haver algumas reminiscências latentes ao "A bout de soufle".Também gostaria saber mais da importância de Godard dentro de todo o Cinema Novo brasileiro e nomeadamente sobre o seu trabalho com Glauber Rocha em Le Vent d'est(filme este que nunca tive oportunidade de ver).

Saudações de Portugal.