A consagrada artista plástica Ediane do Monte está com uma exposição no Centro de Convenções até o dia 13 de maio chamada Imagens da Folia dentro da programação do Encontro Internacional sobre os 30 anos da Lei Franco Basaglia: reformas psiquiatricas e transformacão cultural no Brasil e no mundo. A exposição revela as suas fotografias captadas durante a Primeira Parada de Orgulho Louco, que se realizou pelas ruas da Barra ano passado. Doentes mentais de todos os tipos e de todas as cores saíram em protesto contra os manicômios e fizeram uma festa. Loucos de todo o mundo, uni-vos!!Seguidores
07 maio 2009
Imagens da folia
A consagrada artista plástica Ediane do Monte está com uma exposição no Centro de Convenções até o dia 13 de maio chamada Imagens da Folia dentro da programação do Encontro Internacional sobre os 30 anos da Lei Franco Basaglia: reformas psiquiatricas e transformacão cultural no Brasil e no mundo. A exposição revela as suas fotografias captadas durante a Primeira Parada de Orgulho Louco, que se realizou pelas ruas da Barra ano passado. Doentes mentais de todos os tipos e de todas as cores saíram em protesto contra os manicômios e fizeram uma festa. Loucos de todo o mundo, uni-vos!!06 maio 2009
Do cinema e dos "ratos endinheirados"

A questão última, incontornável, deixada por essas duas constatações é: o cinema (brasileiro) precisa existir ou não?
Há quem, como o Daniel, não tem paciência com o Danilo. Há quem, como o Milton, responda com argumentos aos raciocínios divergentes.
Tenho a impressão de que raciocínios como o do Danilo resultam, em grande medida, de velhos preconceitos em relação ao cinema nacional, somados a essa indignação meio vaga que rola pelos blogs um pouco contra tudo e contra todos, esse tipo de suspeição indiferenciada que transitava pelo "M – O Vampiro de Dusseldorf", com um espírito de linchamento no ar. Ele atinge políticos, em primeiro lugar e por razões meio óbvias, mas pode espirrar em qualquer um.
Como existe um rescaldo neoliberal nessa história, qualquer pessoa com relação direta com o Estado torna-se suspeito.
Assim, o módico subsídio ao cinema torna-se o "meu imposto", aquele mito de que Roland Barthes deu conta nos anos 50 ("Mitologias"). Não se trata do cidadão, trata-se do cidadão reduzido à condição de contribuinte. E indignado.
As contas do Daniel me parecem certas. Mais ou menos eu já as apliquei a um jornalista que veio com esse papo quando eu não queria conversa: dei uma moeda de cinco centavos e pronto.
Mas é claro que a coisa é mais complicada.
Mais resistente, também. E o cinema também tem parte nisso.
Vou tentar fazer uma enumeração, no sentido de abreviar as coisas, para não aborrecer ninguém, ou aborrecer o mínimo possível.
1) A renúncia fiscal é, sim, uma renúncia da sociedade. Se é pequena ou grande, é outra história. Dentro dela, dois aspectos: a) por que o cinema chama tanto a atenção se, de fato, é tão pequeno?; e b) por que o cinema acha que não deve nunca prestar contas disso, que se trata de uma espécie de obrigação da sociedade sustentá-lo e não de uma opção?
2) Quanto ao aspecto b), devo dizer logo de cara que me parece completamente indispensável o financiamento dos filmes pelo Estado. No entanto, é preciso convir que nunca criamos mecanismos capazes de escapar às suspeitas de favorecimento e coisas assim. O fato de transferir a responsabilidade da esfera pública (Embrafilme no passado) para a privada (leia-se: Petrobrás, BNDES, Eletrobrás, etc.) não altera o fundamental. Ou antes, piora: quem decide que filmes serão feitos ou não? São comissões "da sombra". A Embrafilme ao menos se expunha. Teoricamente, mas se expunha. Agora, não.
3) Quanto dinheiro é necessário para fazer um filme? De vez em quando o MinC lança um edital do "baixo orçamento", um pouco como quem atira moedas aos pobres no trânsito. Mas não promove uma mísera discussão sobre o orçamento dos filmes e sua relação entre custo e eficácia. Nem promove uma mínima ação para baixar o custo dos filmes e facilitar que se façam mais filmes. Ora, já vi projetos (isso já faz anos) em que o valor do roteiro era de R$ 300 mil. Hoje seria o dobro. O que deve ser mais do que a Clarice Lispector, digamos, recebeu de direitos autorais ao longo da vida. O roteiro não valia nada, por supuesto, o que é outra história. Mas é preciso haver diretrizes claras sobre certas coisas, traçar linhas entre o justo e o abuso. Não é fácil, mas é necessário. Nem todo filme pode ser barato. Mas há que se evitar o mais possível esse tipo de abuso.
4) Quanto vale o trabalho de um ator? Me lembro que, quando morei na França, os orçamentos eram montados em torno disso. O Delon "valia" 500 mil entradas em Paris, a Deneuve, 400 mil. Faz sentido. Quanto vale aqui a Fernanda Montenegro? Ou o Tony Ramos? Não se pode aferir. Porque em termos de mercado tudo é absolutamente distorcido, sobretudo pela TV. Então, não se pode falar em termos de mercado. O valor de um filme nunca é o de troca. Tem de haver um outro valor. Todo mundo que gosta de cinema sustenta que o melhor filme do ano foi o do Tonacci. A "classe", quando deu seu prêmio, nem passou perto, entre outras porque não deve tê-lo visto. Um problema a que se devia dedicar a Ancine é este: partir da percepção de que existe o caos nesse setor e ver de conter esse caos. Por isso, não deve causar indignação quando alguém sugere que "seu imposto" é usado para pagar "celebridades". Pode até ser uma fantasia, não importa. Mas também é verdade que os orçamentos de cinema raramente são claros. Transparentes, para usar a palavra do momento.
5) Quando um filme é proposto a qualquer comissão, o mínimo a exigir dele devia ser um plano de marketing. Ou seja, com quem esse filme pretende falar e como. Qual é seu ponto de venda? Na prática, isso se chama trailer. O trailer devia ser feito antes do filme (não o trailer físico, é claro). Mas como exigir isso num não mercado como o nosso? Em outras palavras: se não se resolve a questão da distribuição, se ao menos não se começa a pensar nela, para que fazer os filmes? Para ficar no fundo de um armário? Para que os filmes da Globo façam um milhão de espectadores, sejam aceitáveis ou não, só porque possuem uma grande máquina de publicidade por trás e trabalham no sentido de reiterar algo que o espectador já se acostumou a ver? (casos recentes: "Se Eu Fosse Você" e "Divã").
6) Se a maior parte dos filmes não leva espectadores ao cinema, como exigir que os exibidores ponham filmes nacionais na tela? Eles têm prejuízo, é claro. Isso posto, por que não existe um mecanismo para subsidiar as salas de cinema? A construção e a manutenção delas. Daí pode-se exigir, em troca, a exibição de filmes brasileiros dentro de certas normas a serem definidas.
7) E por falar nisso por que o preço das entradas é tão absolutamente pornográfico, proibitivo, restritivo, feito para ricos? Cinema sempre foi arte de pobres, para pobres, para "o povo". Não é aceitável que ninguém se preocupe com isso e ache que cinema custar o que custa é um fato da natureza. Não é.
8) Acima de todas essas coisas, me parece que o cinema não pode ser pensado como um caso isolado. Porque o preconceito também não é isolado. Há os que não vão ceder por nada. Eles acham que o dinheiro, público, é uma coisa para ser enfurnada. Não é. Isso é um pensamento construído sobre premissas falsas, sobre a idéia de que não existe investimento, mas gasto. É esse pensamento que levar a supor que Bolsa Família é distribuição indevida do "meu imposto", que só serve para incentivar a preguiça, essas coisas. Ele não leva em conta que isso promove distribuição de renda, faz a sociedade funcionar sobre a construção e existência de um mercado interno (não se espantem, eu estudei Celso Furtado em tempos muito remotos). Em geral, quem pensa assim são uns ferrados, mas assumem o pensamento dos "ratos endinheirados". Nesse particular tenho muitas dúvidas. Ou antes: se eu tomo a periferia de São Paulo, essa coisa que chamam de bairros, não são na verdade bairros. São depósitos de gente. De pessoas que não têm a mínima chance de acesso a bens culturais. Mas é aí que se pode construir o mercado brasileiro de cinema. É aí que pode surgir o cinema barato. Aí que os Céus, Cieps e que outro nome tenham precisam existir para mostrar filmes, peças de teatro. Enfim, para fazer a função do cinema, que é tornar as pessoas felizes e informadas. Não endinheiradas. Mas felizes, informadas, integradas à cultura. Aí o cinema pode entrar e mostrar uma série de coisas sobre o Brasil e o mundo. A preço acessível, isto é, justo. Sem essa história de ONG. Isso é obrigação do mesmo Estado que dá dinheiro para cineastas e que tais. Mostrar os filmes. Fazer com que existam. Montar filmotecas (isso hoje é barbada, o DVD é barato). Ora, como querem que as escolas públicas depois funcionem na hora do Enem? Não pode. Então formamos uma sociedade de analfabetos funcionais e esperamos que funcione. Não funciona. O cinema não é tudo. Mas também não é essa coisa só de dar dinheiro para ratos endinheirados, pagar salário de celebridades. Os filmes têm uma função. Precisam de um empurrãozinho, caramba.
9) Peço que me perdoem por esse post que mais parece discurso do Fidel Castro, mas o assunto é mesmo interminável e mais cedo ou mais tarde íamos topar com ele. Então que seja agora, que estamos numa entressafra cinematográfica dolorosa (ah, tem tantos filmes nacionais que podiam ser lançados nessa hora em que a indústria está meio fora de eixo), e em que acabei de sobrevoar São Paulo. De cima é uma visão terrível. Não sei como se pode viver aqui não sendo rico. É que nem sociedade de casta: ¾ das pessoas estão condenadas a vegetar, sem chance nenhuma. A TV é que engana e faz parecer que não é.
10) Para quem quiser pensar no assunto (e para completar o decálogo), fica aí a frase luminosa do Rogério Sganzerla: "Um país sem cinema é que nem um país sem luz elétrica".
04 maio 2009
"Quartas Baianas" comemora 5 anos

O projeto Quartas Baianas comemora cinco anos de existência bem-sucedida no próximo dia 6 de maio, com evento no foyer e na Sala Walter da Silveira. A celebração inicia às 19h com o Café & Cinema, um bate-papo informal entre cinéfilos com degustação da apreciada bebida e de sequilhos. Em seguida, o crítico de cinema André Setaro e o realizador Felipe Kowalczuk tecem comentários sobre o filme Viagem ao Fim do Mundo, de Fernando Coni Campos, obra que será exibida às 20 horas, na Sala Walter da Silveira, com entrada franqueada ao público, como é o costume.
Criado para divulgar, através de exibições gratuitas e regulares a cada semana no cinema de arte mais antigo e tradicional de Salvador, a produção cinematográfica baiana, a realizada por diretores, atores e técnicos baianos ainda que não realizados na Bahia ou mesmo de produção de fora, mas com locação na “boa terra”, o projeto persiste em seu propósito inicial, fortalecido pela parceria entre a Diretoria de Audiovisual (Dimas), da Fundação Cultural do Estado da Bahia, e a Associação Baiana de Cinema e Vídeo (ABCV) e seus contumazes apoiadores Irdeb e Oriente Filmes.
O cineasta Joel de Almeida, que junto ao fotógrafo Lúcio Mendes coordenam o projeto, esclarece que ele “nasceu com o objetivo de poder mostrar ao público baiano que se renova a cada ano nas salas de cinema, um pouco do acervo que existia na Dimas de filmes em 16mm e 35mm e que ninguém conhecia”. Outro aspecto que Joel levanta “é que com a retomada do cinema brasileiro e advento das novas tecnologias, a produção cinematográfica baiana vem crescendo geometricamente e o projeto Quartas Baianas se firma como mais uma janela de exibição da produção local passada e contemporânea, inclusive com lançamentos de filmes”.
A iniciativa de implantar o Quartas Baianas partiu de conversas da diretoria da ABCV antes das reuniões semanais, até que José Araripe Jr, ex-diretor do Centro Técnico de Audiovisual (CTAV) do Ministério da Cultura (Minc), atuando hoje numa das gerências da TV Brasil e, à época, presidente da associação, levou a idéia para a diretoria da Dimas. “Poucas semanas depois, a idéia estava em prática”, recorda Joel.
Em cinco anos de realização, o Quartas Baianas atraiu aproximadamente 11 mil pessoas (10.784 exatamente) para a exibição de 250 programas diferenciados, incluindo longas e curtas metragens, documentários e obras ficcionais, além de eventualmente lançamentos de filmes inéditos, assim como esclarecedores comentários de especialistas sobre as obras em cartaz, integrando as sessões. A freqüência média é de 43,13 telespectadores por programa, o que configura um quantitativo nada desprezível para filmes que, freqüentemente, não dispõem dos esquemas massivos de divulgação que sustentam produções em circulação nos circuitos comerciais.
Os coordenadores do projeto Lúcio Mendes e Joel de Almeida escolhem a programação seguindo critérios que correspondem a programas temáticos, programas que coincidem com datas históricas, comemorativas, aniversários e homenagens a realizadores, atores, técnicos, entre outras pautas sugeridas pelos profissionais da área.
Os programas das Quartas Baianas despertam interesse não só dos cineastas veteranos e já estabelecidos, mas de público de trabalhadores em trânsito para a Estação da Lapa, como também de estudantes freqüentadores da Biblioteca Pública e universitários interessados na sétima arte, sobretudo os alunos e recém-graduados em cinema da FTC, que costumam fazer os lançamentos de seus filmes em sessões especiais, lotando a casa de seus jovens amigos e admiradores. Exemplo é o estudante Son Araújo, que lançou em edições bem movimentadas das Quartas Baianas, na Sala Walter da Silveira, os filmes de curta-metragem O Foco, Carrinho de Pau e A Fuga.
Tratando de obras inéditas, da dupla de diretores Gabriel Lopes Pontes e Tau Tourinho, estreou numa das versões do projeto o filme Incarcano a Tiortina, que trata de um certo “heroísmo” do consumo de cachaça. E é com essa diversidade temática, frescor, vigor, pluralidade estética que as democráticas Quartas Baianas vieram atravessando o último qüinqüênio, estimulando a participação e acesso do público com sessões gratuitas.
Entre os momentos mais destacados do projeto figura a exibição do filme A Grande Feira, de Roberto Pires, ocasião em que foi homenageado o ator baiano Milton Gaúcho, que compareceu emocionado à sessão, sendo recebido com flores e calorosos aplausos do público, que lotou a sala cult dos Barris. Foi a última aparição do ator numa sala de exibição, pois veio a falecer pouco tempo depois.
Destaca-se também como momento relevante do projeto a exibição do documentário Bahia Por Exemplo, de Rex Schindler, em que o público se deliciou com imagens belíssimas de Salvador nos anos 60, aspectos que não existem mais fora de registros captados no passado, além de preciosos depoimentos de personalidades (artistas e escritores), que ajudaram a construir um pouco da popularidade da cidade.
A diretora da Dimas Sofia Federico avalia que há muito a celebrar nesses cinco anos. “Ao longo desse tempo, a Sala Walter da Silveira vem exibindo filmes baianos de épocas diversas, produzidos por realizadores de várias gerações, nos territórios de identidade da Bahia”. Sofia considera que “as sessões são agregadoras, promovem encontros e intercâmbio, e possibilitam ao público o acesso à produção audiovisual baiana”. Outro aspecto importante, segundo destaca, é que o projeto permitiu formar um acervo. “Este é um projeto essencialmente de difusão audiovisual, mas também de memória e sensibilização de público. Espero que tenha vida longa!”.
Dia 6 de maio, às 20h – Sessão especial de comemoração de 5 anos do projeto Quartas Baianas, com exibição do filme Viagem ao Fim do Mundo Direção: Fernando Coni CamposFicção. 95 min, 1968.
Elenco: Karin Rodrigues, Anik Malvil, Jofre Soares, Talula Campos, Fabio Porchat, Walter Forster e José Marinho
Sinopse - Diversos personagens embarcam em um avião: um time de futebol, um "cartola", um velho decrépito, um grupo de freiras e uma garota propaganda. Sonhos, delírios, reflexões e situações concretas relacionam, ou não, um indivíduo a outro. Cenas de arquivo com guerras, fome e romarias religiosas intercalam-se a uma mítica mulher Natureza.
Ascom – Dimas – Funceb
Tels: 3116-8123 / 3116-8111
Email: fabarretto@gmail.com
www.dimas.ba.gov.br Depoimentos de cineastas sobre o projeto ‘Quartas Baianas’
CINEASTAS BAIANOS FALAM SOBRE O PROJETO
Por todos os motivos citados, acho que o Quartas Baianas é um projeto que deve ter sua continuidade assegurada pela atual administração, bem assim pelas administrações futuras da cultura no Estado”.
Edgard Navarro (diretor de Eu Me Lembro, Superoutro e em fase de realização de O Homem Que Não Dormia)
e-mail: edgardnavarro@terra.com.br
"O que a Associação Baiana (ABCV) fez ao criar o Quartas Baianas foi dar o passo para a primeira filmografia do século I do cinema baiano, a sessão semanal além de atualizar o público da produção contemporânea e histórica, cumpre um papel fundamental de dar visibilidade à produção interna, trazendo à tona uma realidade que surpreende e diz: Yes, nos temos filmes! - e nesse espaço mais de 400 obras já foram desengavetadas, possibilitando a pesquisadores e críticos uma leitura mais ampla, e principalmente unindo os realizadores e elevando a auto-estima. Ponto pra a Dimas, que sempre acolheu a iniciativa."
José Araripe Jr. (cineasta, ex-diretor do CTAV do Minc, ex-presidente da ABCV e atual gerente da TV Brasil
e-mail:
joseararipejr@uol.com.br)
"Durante muito tempo, o curta-metragem era o pobre do cinema. Era considerado como um passo inevitável para fazer um longa, mas chamava pouca atenção fora dos festivais. Hoje, o curta esta reconhecido como uma forma de arte em si, assim como o conto na literatura. E de repente, lembrem-se que cineastas importantes como Alain Resnais, Roman Polanski Jean-Marie Straub têm uma obra de curta-metragistas. Iniciativas como as Quartas Baianas são duma importância chave para essa mudança. Mais do que uma janela de exibição, as Quartas Baianas se destacam pela qualidade da curadoria, e seu papel de historiador do cinema baiano".
Bernard Attal (e-mail:battal1@mac.com)
“Muitos filmes brasileiros, de boa qualidade e até premiados em festivais nacionais e internacionais, não são vistos pela nossa gente. Tratam dos nossos problemas, têm os nossos cheiros e mau cheiros, mostram a nossa geografia, a nossa cultura, a nossa cor, falam o nosso idioma, mas, injustamente, permanecem no anonimato, esquecidos em prateleiras. Poucos chegam à chamada
tela grande. Essa inadmissível - mas verdadeira - situação é determinada pelo fato de as poderosas empresas distribuidoras e exibidoras de filmes estarem vinculadas às produtoras norte-americanas, não tendo, portanto, interesses na comercialização dos produtos nacionais. A quase totalidade das nossas casas de exibição representa o ponto de venda do filme estrangeiro. Essa é a dura realidade confrontada pelos produtores, cineastas, técnicos, atores, críticos e estudiosos do cinema brasileiro. É verdade que algumas produções do Rio e de São Paulo conseguem furar esse bloqueio imposto pela indústria norte-americana, seja através de associações ou concessões comerciais. Mas, se essa circunstância é danosa para a produção fílmica desses dois Estados do Sudeste, mais torturante é ainda para os realizadores de outras regiões. Quase nenhum filme de outro Estado do Brasil consegue ser visível nacionalmente. Nesse contexto, insere-se o cinema baiano. E é nesse campo inóspito e minado que o projeto Quartas Baianas, promovido pela Fundação Cultural do Estado da Bahia e tão bem comandado pelos cineastas Joel Almeida e Lúcio Mendes, vem atuando há cinco anos. O trabalho desses dois organizadores não se circunscreve apenas à exibição dos filmes feitos na Bahia. Eles vão muito além porque garimpam produções antigas, totalmente esquecidas, desconhecidas e abandonadas. Abrem mofados baús, descobrem, pesquisam e mapeiam filmes feitos há muitos anos, que ninguém sabia existir. Não fosse o paciente e persistente trabalho realizado por Joel e Lúcio, jamais teríamos a oportunidade de assistir aos audiovisuais de várias gerações de cineastas da nossa terra, pioneiros, amadores e profissionais. É real que, devido ao distante tempo de realização e também a má conservação, alguns dos filmes exibidos apresentaram deficiências nas partes visual e sonora, mas o projeto é muito grande e útil para a arte cinematográfica baiana. É a memória de tudo que aqui se fez na sétima arte. Por tudo isto, os dois organizadores são pessoas merecedoras dos nossos aplausos e a Fundação Cultural deverá emprestar mais apoio para a subsistência e perpetuação do projeto.”
Cícero Bathomarco (diretor de cinema
e-mail: cbathomarco@terra.com.br)
Mateus Damasceno (jovem cineasta)
03 maio 2009
Viagem ao fim do mundo
Viagem ao fim do mundo, segundo longa do baiano Fernando Cony Campos, não aparece nas constantes listagens do que se convencionou chamar de Cinema Marginal (ou cinema de invenção ou cinema experimental ou cinema underground - ou, ainda udigrudi), mas está muito mais perto deste do que do Cinema Novo, a possuir, na sua estrutura narrativa, características familiares à sublevação que se observa na segunda metade dos anos 60: fragmentação da narratividade com enxertos de materiais de procedência diversas (gráficos, desenhos, fotos de revistas, documentários velhos, etc). É chegada a hora, portanto, de se rever Viagem ao fim do mundo para se ter a sua exata dimensão, para se o colocar no seu devido lugar na história do cinema brasileiro. O filme, que vai ser apresentado em Salvador dentro do projeto das Quartas Baianas (dia 6 de maio na Sala Walter da Silveira), revi-o hoje e constatei que é uma obra marginalizada dentro dos próprios adeptos do Cinema Marginal (que já está a sair, em cópias luminosas, numa coleção de DVDs numa iniciativa de Eugenio Puppo e outros), mas uma marginalização não consciente que vem em consequência do desconhecimento do filme, que, lançado em 1968, quase que desapareceu de mostras e eventos.Velocidade das tomadas está a destruir o espetáculo
A estética do vídeoclip, que, como metástase, invade a indústria cultural cinematográfica, está a destruir a linguagem fílmica. Os filmes são fragmentados, picotados, como se uma máquina de costura fosse a montadora das películas, a destruir, com isso, o clima, a ambientação, a durée – leia-se conceito de duração. Admite-se tal velocidade para o vídeoclip como tal, mas quando a sua estética se expande para a dramaturgia cinematográfica vê-se, neste caso, um perigo real e imediato para o cinema. Os grandes cineastas sempre tiveram em mente o conceito de duração que proporciona o clima, o envolvimento e, neste, a instalação do poder de convencimento capaz de tornar o espectador um cúmplice do espetáculo.
Acontece que a nova geração, a do audiovisual, perdeu, por causa da asfixia proporcionada pela indústria cultural, a capacidade de contemplar e, sem contemplar, não existe possibilidade de se adentrar na coisa para a conhecer. Tudo se passa muito rápido, as tomadas se sucedem em questão de segundos, e a maioria dos filmes contemporâneos redunda na nulidade. Exemplares, nesse sentido, Chamas de vingança, do virtuoso Tony Scott, ou A supremacia Bourne, com Matt Dillon (o terceiro Boune é diferente e bastante palatável), ou, mais recentemente, As duas faces de um crime, de Jon Avnet, com Robert De Niro e Al Pacino péssimos todos pela preferência que adotaram na montagem pela estúpida e destruidora estética do vídeoclip, que parece uma pandemia (para ficar na onda global que ataca o mundo) a assolar os espetáculos oriundos de Hollywood. É por isso que, quando surgem filmes como Onde os fracos não têm vez e Sangue negro a sensação é de algo diferente, de obras que passam uma emoção e uma reflexão, com clima e eficiência dramática, que seriam impossíveis dentro da estética da tesourinha ou da máquina de costura.
Sofre, com isso, a linguagem cinematográfica, que, com a incorporação da estética do vídeoclip ao espetáculo cinematográfico, se encontra num processo de marcha-a-ré. É impossível se assistir a um filme, atualmente, com o maneirismo demencial de dar ao espectador apenas alguns segundos de uma tomada. Viciada, a nova geração não mais aceita um filme normal, com a durée controlada e precisa, que, por desvio, tende a considera-lo um filme lento e chato – e não se está a falar aqui de obras realizadas em planos seqüenciais, mas de películas nas quais o realizador concebe a duração dentro dos padrões normais de acompanhamento da atenção. A síndrome matriz, antes de fornecer algo de novo e interessante, estabeleceu um ritmo e um padrão capazes de por o prazer de se ir ao cinema por água abaixo. Como se já não bastasse a instauração dos efeitos especiais como conditio sine qua non do sucesso comercial. E, neste particular, existe um culpado: George Lucas, em 1977, com seu Guerra nas estrelas (Stars war), que, com as continuações dos anos 90, permitiram a emergência da irritabilidade em espectadores menos comprometidos com a velocidade rítmica.
Se o cinema hollywoodiano atual é um cinema dirigido por executivos estranhos ao assunto (Coca-Cola, Mitsubichi, Sony, etc), no passado, entretanto, as coisas eram diferentes. Existiam os grandes estúdios (que foram fundidos com suas características totalmente desaparecidas), regidos por chefões que, poderosos, apesar da ânsia do lucro, gostavam e entendiam de cinema (Harry Cohn, da Columbia, Jack Warner, da Warner, Louis B. Mayer, da Metro, David Selzsnick...).
A planilha da produção, hoje, é uma linha de montagem como uma fábrica de salsichas: tantos filmes de ação, tantos filmes de monstros e alienígenas, e por aí vai. Os efeitos especiais se sobrepuseram em detrimento da construção psicológica dos personagens, da estruturação destes como pessoas de carne e osso. Vê-se marionetes e títeres, a correr dos perigos, a se desvencilhar dos obstáculos, mas, nunca, personagens com poder de convencimento e envolvimento. É verdade que há um Clint Eastwood para salvar o pobre cinéfilo, e, para se ser sincero, mais alguns, como Scorsese, os fratelli Coen, William Friedklin, Paul Thomas Anderson, Robert Zemeckis, entre poucos.
O cinéfilo de antigamente se transformou em mero consumidor. Ver filmes virou sinônimo de comer pipocas e se abastecer, até o afrontamento do estomago, de hambúrgueres, refrigerantes post-mix de 750 ml, guloseimas a perder de vista. Os exibidores revelaram que os complexos Multiplex tiram maior renda com a venda de fast-food do que com os ingressos propriamente ditos. Quem quiser uma prova basta dar uma olhada em sessão noturna de dia de semana, excetuando-se as da quarta cujos ingressos são mais baratos.
E para coroar a decadência do cinema contemporâneo – pelo menos o cinema que se oferece na bandeja do circuito – surgiu a prática odiosa da tesourinha, isto quer dizer: a introdução da estética do vídeo-clip na narrativa cinematográfica. As tomadas rápidas, a insistência da ação contínua e a velocidade excessiva imprimida ao ritmo do filme não deixam margem à respiração e à contemplação. E contrariamente aos filmes dos grandes mestres, que sabiam dosar os momentos fortes e os momentos fracos, nas películas atuais praticamente só existem os primeiros. Não há pausas, necessárias, que preparam o espectador para o clímax. Pena que assim seja, pois os amantes do bom cinema estão se afastando das salas de projeção e se recolhendo ao conforto caseiro para ver filmes de sua preferência em DVD. A oferta destes está excelente. Há filmes para todos os gostos. E não se tem que suportar os celulares vazios, as pipocas em mandíbulas alheias, as conversinhas de débeis mentais, a ambiência, enfim, de um inferno. É de se ter imensa saudades das soirées de um Liceu, de um Guarany, de um Bahia, entre outros, quando a cidade de Salvador ainda conservava alguma educação e boas maneiras.
Há, hoje, uma falta de educação avassaladora que faria corar pessoas de tempos idos.