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05 fevereiro 2009

A imensa solidão do Tio Ethan

Moniz Vianna sabia que John Ford estava com câncer de pulmão. Conta a lenda que, na redação do Correio da Manhã, teria dito que no dia da morte de seu diretor favorito também largaria a crítica de cinema. Morto Ford, e aqui não é mais lenda, lembro-me de ter comprado o Correio, que publicava no seu caderno cultural uma página inteira sobre Ford escrito por Moniz Vianna. Devo ter guardado, mas difícil achar na bagunça em que estão arrumados meus recortes de jornais. Interessante que antigamente recortava algumas críticas que achava importantes. Hoje não recordo nada. Por que será? Conta-se que, abandonada a escrita cinematográfica, o grande crítico se aposentou, ainda que, vez por outra, fosse ao cinema. O hábito, no entanto, foi se acabando. No final da vida, via muito dvds em seu apartamento de Copacabana e, para satisfazer seu neto, concordava em ver determinados filmes escolhidos pelo descendente. Ontem, na Folha de S. Paulo, Carlos Heitor Cony escreveu sobre o amigo, companheiro de redação. E hoje, no mesmo jornal, Ruy Castro, que o chama de o maior crítico de cinema do mundo. Ainda continuo a homenagear Moniz Vianna, que, por sinal, era baiano, mas desde cedo se transferiu para o Rio de Janeiro. Formou-se em Medicina, mas se atraiu logo pelo jornalismo e, neste, pela crítica de cinema. Moniz Vianna teve muita influência na minha formação cinematográfica, porque seu leitor voraz. Não seria exagero dizer que o pouco que sei escrever devo a Moniz Vianna e a Machado de Assis, além de Walter da Silveira. Três estilistas admiráveis. Pena que a nova geração não tenha tido a oportunidade da leitura dos textos de Moniz Vianna. Mas há uma possibilidade com o lançamento, já há quatro anos, de Um filme por dia (Companhia das Letras), coletânia de suas melhores críticas organizada por Ruy Castro. É uma obra imprescindível. Lia tanto Moniz Vianna que chegava a dizer, ainda adolescente, quando me perguntavam o que queria ser quando crescer. A resposta vinha rápida: "Quero ser um Moniz Vianna!!"
Na imagem, John Wayne, no plano final do belíssimo Rastros de ódio (The seachers), talvez a obra máxima de John Ford. Depois de ter resgatado Natalie Wood, nada mais lhe resta fazer na vida. Imagem rara da solidão humana e da beleza e da poesia fordianas.

9 comentários:

Romero Azevêdo disse...

Caro Setaro, me perdoe a ignorância ( que é um grande pecado): nunca li Moniz Vianna ! Respeito o mito mas, confesso de novo, não conheço a obra. Os críticos que fizeram a minha cabeça foram Jean-Claude Bernardet, Jairo Ferreira, Rogério Sganzerla, Braulio Tavares (nos anos 70)e alguns textos de José Carlos Avellar. Glauber, que li apenas em sua última fase no JB ("Apocoppolacalypse" é demolidor)e no Correio Braziliense, tinha um estilo que gosto muito.Atualmente leio, vez em quando, Merten no Estadão on-line, Arlindo Machado( em livros)e tem um cara de Recife, Amin Stepple, que escreve muito bem (infelizmente não regularmente)na revista Teorema. Na Bahia, já disse e repito, André Setaro domina o gol, a zaga, o meio-de-campo e o ataque.
Em tempo: a Funarte lança hoj no Rio o livro "Ankito, minha vida...meus humores", diz o texto publicado no site: " Escrito em linguagem informal pela atriz Denise Casais Lima Pinto, esposa do artista, o livro narra a trajetória de sucesso do comediante e resgata, por meio dela, preciosos capítulos da história das artes cênicas brasileiras.". Perguntar não ofende: se estivesse vivo, o grande Moniz Vianna iria prestigiar esse lançamento ?
(Ainda sobre Ankito: o ator está com 84 anos e luta contra um câncer)

André Setaro disse...

Reproduzo aqui o que o crítico Luis Carlos Merten do "Estado de São Paulo" escreveu quando da morte de Antonio Moniz Vianna:



PARIS - A cidade amanheceu hoje coberta de neve e o frio não arrefeceu, embora a ausência de vento já tenha proporcionado um alívio em relação a ontem. Fiz a ronda das livrarias, tinha de comprar uma mala nova (a minha arrebentou), redigi um texto longo, envolvendo alguma pesquisa, para o 'Caderno 2'. Como consequência, só agora pude voltar ao post e aos e-mails. Foi por meio deles que fiquei sabendo da morte, no sábado, de Antônio Moniz Vianna. Nunca o conheci - quero dizer. nunca tive contato direto com ele. Muitos anos atrás, antes que o livro com a seleção de críticas o resgatasse do seu auto-exílio voluntário - até ontem sei, foi Moniz Vianna quem resolveu parar de escrever -, tentei, sem êxito, fazer um capa com ele no 'Caderno 2', no tempo em que existiam os Encontros Notáveis. Aos sábados, publicávamos uma grande entrevista, de várias páginas, com personalidades fundamentais. Fiz algumas - várias -, mas não tantas quanto gostaria, porque me faltaram entrevistas como a que eu sonhava fazer com Moniz Vianna, retraçando seus anos no 'Correio da Manhã'. Acho que não há ofensa em dizer que, num certo sentido, Moniz Vianna foi um grande reacionário - como Nelson Rodrigues? -, na contracorrente do cinema que se pretendia revolucionário nos anos 60. Em plena nouvelle vague, Moniz Vianna ousava proclamar que John Ford era the best, 'o' mestre. Em pleno Cinema Novo, ele permanecia um defensor solitário de Lima Barreto, enaltecendo as qualidades de 'O Cangaceiro' e sendo capaz de ver grandeza até em 'A Primeira Missa'. Já contei para vocês que meu irmão, funcionário da Varig em Porto Alegre, levava para casa os jornais que recolhia dos aviões e que faziam a minha felicidade. Foi o Ildo, sem saber, quem me abriu as portas para leituras tão conflitantes quanto as de Jean-Claude Bernardet e Moniz Vianna, no começo dos anos 60. Bernardet dedicou sei lá quantas críticas a 'O Bandido Giuliano', de Francesco Rosi, na 'Última Hora', em São Paulo. Moniz Vianna, enquanto isso, dissecava 'O Homem Que Matou o Facínora', de John Ford, no 'Correio da Manhã', do Rio (e o jornal era um baluarte da resistência ao regime militar. Eu já lia o 'Estado' em Porto, mas me encantava o suplemento de cultura do 'Correio da Manhã', onde li textos que me fizeram evoluir, sobre Tati, Kubrick e García Márquez.) De volta a Bernardet e Moniz Vianna, nunca achei que tivesse de escolher entre os dois, ou entre os filmes que defendiam, e durante toda a minha vida minhas escolhas foram sempre no sentido de provar, para os outros e para mim, que não são paixões excludentes e é possível, sim, gostar de extremos. Se não, qual é a graça? Onde fica o sagrado direito à diferença? Moniz Vianna havia parado de escrever, mas nos implacáveis arquivos do 'Estado' eu nunca deixei de reencontrar (e reler) seus textos sobre os grandes diretores que amávamos. Lembro-me quando ele publicou uma série de filmografias de grandes diretores, mas entre os grandes diretores de Moniz Vianna estavam aqueles que muitos de meus futuros colegas considerariam, ou consideravam, pequenos - George Sidney, por exemplo, cuja filmografia lhe mereceu não um, mas três extensos artigos, nos quais eu me lembro como ele estudava a influência do pintor Holbein nos filmes históricos que Sidney realizara. Tenho na minha estante, em São Paulo, o volume com as críticas de Moniz Vianna. Nunca o li, nem sequer folheei, talvez porque não precisasse. Sei bem quanto a leitura de Moniz Vianna me abriu os olhos para Ford, Preminger, Peckinpah, Wilder, para o cinema de gênero - western, filme de gângsteres, noir, musical - que ele amava e me transmitiu esse amor. Implicava com certas preferências dele, por Fred Zinnemann, por exemplo, mas isso fazia parte da nossa 'relação'. Ninguém é perfeito, que diabo... Acho que o legado de um grande crítico deve ser isso. Compartilhar sua experiências, seu amor. Nunca o conheci pessoalmente, mas o conhecia, sim, no íntimo, pelo que escrevia. Só tenho a agradecer pela existência de Moniz Vianna. Não era uma filiação intelectual. Era uma coisa muito mais visceral, de emoção mesmo. Quem me dera um dia dissessem de mim que insuflei a alguém esse mesmo amor pelo cinema.

André Setaro disse...

Romero não sei lhe dizer se o 'espirito' de São Moniz Vianna iria ao lançamento do livro de Ankito. E aqui para nós: entre os comediantes nacionais, que muito admirava (Oscarito, genial, Grande Otelo, outros), achava Ankito o mais chatinho, apesar de 'Metido a bacana'.

Jonga Olivieri disse...

Repetindo. Listas são listas e é difícil mesmo que uma seja igual à outra. Se Moniz Vianna não colocou alguns que a gente acha que deveriam estar lá, que façamos a nossa. E respeitemos a dele, que merece respeito mesmo. Pelo que foi, pelo que representou para a crítica de cinema neste país.
A cena de "Rastros de ódio" utilizada é linda e profundamente humana. Característica daquele irlandês de "sangue quente" que era Ford, que levava muita emoção às suas tomadas. Foi utilizada no dia da morte de Wayne e marejou muitos olhos por aí... inclusive os meus que perderam naquele dia um ícone da infância-juventude. Um símbolo da interação entre o indivíduo e a tela numa sala escura.
Ankito surgiu na aus~encia de Oscarito e teve o seu papel na chanchada. Hoje, aos 84 anos, sofrendo de cancer, está no fim. Mas eu acho que teve o seu papel em filmes como "Fé em deus e pé na tábua" e tantos outros, ao refazer a dupla com Grande Otelo.
Gostei da lembrança que voc~e teve de "O homem do Sputnick". Obra-prima!

Romero Azevêdo disse...

Setaro, Oscarito era o teatro( de revista), Ankito era o circo. Respeito muito sua opinião mas, data venia, permita-me discordar: Ankito não tem nada de chato. Além das comédias( "abacaxis" para o erudito Vianna)populares, trabalhou também com Bressane ( que o tem como um ator excelente). Quando Ankito surgiu, Oscarito estava saindo de cena( só fez mais dois filmes depois da estréia do pistoleiro bossa nova metido a bacana).

P.S. Acho que a lista dos dez melhores filmes brasileiros segundo Moniz Vianna está publicada de cabeça para baixo.

Romero Azevêdo disse...

Setaro, ainda na esteira da efeméride fúnebre que cobriu de luto boa parte da cinefilia brasileira e a propósito do belo artigo de Merten que você republicou nesse espaço ultra-democrático, reproduzo abaixo artigo de Luiz Zanin originalmente publicado ontem no blog que ele mantém no Estadão on-line. Segue o texto:

"De mortuis nil nisi bonum"

“Dos mortos só se diz o bem”. É como pode ser traduzida a frase latina do título. Verdade, mas na vida cultural nem sempre é assim que se deve fazer. A frase vem sendo aplicada com rigor no caso da recente morte do crítico Antonio Moniz Vianna, com louvores que têm extrapolado os limites da gratidão e da admiração até se transformarem em hagiografia.

Não sou da época de Vianna e nem nasci ou vivi no Rio, onde ele exerceu seu métier – foi crítico durante muitos anos no Correio da Manhã, onde mantinha sua coluna diária sobre cinema. Mas li, com muito proveito, a coletânea organizada por Ruy Castro faz alguns anos, chamada justamente de Um Filme Por Dia (Cia das Letras). São 91 textos críticos, selecionados, segundo o organizador, de mais de 3 mil artigos disponíveis. E, de fato, o nível desses textos é muito alto, aliando a cultura à legilidade, esta última uma exigência de quem escreve em jornal e se dirige, em tese, a um público amplo e não especializado.

No entanto, acho que Moniz Vianna errou feio ao não reconhecer a importância do Cinema Novo – que estava, justamente, nascendo sob seus olhos, enquanto ele exercia o seu ofício. Bem, avaliações e apreciações estéticas são sempre, e em boa medida, subjetivas. Gostar ou não de um filme: quer coisa mais pessoal? Acontece que, com o recuo histórico, o Cinema Novo recebeu um reconhecimento crítico praticamente unânime. Basta viajar para o exterior e conversar com os melhores críticos de países como França, Itália, Inglaterra e Estados Unidos para constatar que, em boa parte, cinema brasileiro é ainda sinônimo de Cinema Novo. Em matéria de cinema, o nome de Glauber é ainda o que mais provoca admiração entre os entendidos.

Já Moniz Viana, que havia reconhecido no Glauber de Deus e o Diabo na Terra do Sol um cineasta promissor, via em Terra em Transe uma grave regressão. Ele abre assim seu artigo: “Terra em Transe é a obra-prima da indisciplina narrativa, o clímax da antitécnica – é o caos, ou só um disparate”. Gosto é gosto, e tenho a impressão de que muita gente concordaria com as palavras de Moniz Viana ainda hoje. E, de fato, o filme de Glauber é de molde a causar perplexidade, ainda mais em quem tem a narrativa clássica do cinema norte-americano como referência mais forte.

Talvez seja interessante lembrar que, na ocasião da estréia de Terra em Transe, outro espectador ilustre, Nelson Rodrigues, se sentiu tão estupefato quanto o crítico do Correio da Manhã. Mas, depois de considerar o filme “mais complicado que um ideograma chinês virado de cabeça para baixo", reconheceu a sua importância, seu tom de “jorro”, ou vômito, dessa realidade às vezes absurda chamada Brasil.

Enfim, acho que Moniz Vianna foi mesmo um dos críticos importantes do País. No entanto, não ter reconhecido a importância do Cinema Novo, em estado nascente, foi um grave erro crítico. Equivalente ao de alguém que tenha considerado o cubismo um absurdo e Les Demoiselles d’Avignon uma impostura. Em tempo: não faltaram críticos de arte para dizer isso mesmo de Picasso e de sua obra-prima. O grande crítico, o crítico de choque, é aquele que consegue reconher o novo, que aparece à sua frente e muitas vezes não pode ser comparado com parâmetros já conhecidos. É a chamada intuição crítica. A de Moniz Vianna falhou neste caso.

Por isso tudo acho que está faltando um livro na estante brasileira – uma história, para valer, rigorosa e ampla, da crítica cinematográfica no País. Esta obra exigiria alguém com tempo, isenção, preparo e alma de pesquisador. Ele teria, acima de tudo, de reconhecer o quanto a crítica cinematográfica pode ser dependente do tempo e circunstâncias em que é exercida. Teria portanto de relativizá-la, em suas conclusões e "verdades". Segundo, seria obrigado a desprovincianizar o debate, fazê-lo suprarregional. Moniz Vianna e grandes críticos cariocas como Sérgio Augusto, Ely Azeredo, Ruy Castro e outros teriam de dividir espaço com críticos de latitudes e longitudes diferentes. Porque achar que o Brasil, mesmo o Brasil dos anos 50 e 60, se resume à Zona Sul do Rio de Janeiro é o cúmulo do narcisismo, uma posição próxima do autismo.

Escrevia-se sobre cinema em outros lugares do País e uma história da crítica não poderia ignorar por exemplo o trabalho de Walter da Silveira na Bahia, os de PF Gastal e Enéas de Souza no Rio Grande do Sul e os de Rubem Biáfora e Francisco Luiz de Almeida Salles em São Paulo. E nem poderia confinar Paulo Emilio Salles Gomes à condição, no caso marginal, de ensaísta acadêmico. Para quem não sabe, Paulo Emilio não permaneceu no gueto universitário. Foi crítico de jornal durante muitos anos. Escreveu com regularidade no Suplemento Literário do Estado de S. Paulo e teve curta passagem pelo Jornal da Tarde. Seu trabalho está reunido nos dois volumes de Paulo Emilio – Crítica de Cinema no Suplemento Literário e no livro Um Intelectual na Linha de Frente.

Contra hagiografias só existe um antídoto: contextualização e senso da História. O que vem a dar no mesmo.

Stela B. de Almeida disse...

Tinha escrito um e-mail cuidadoso relembrando a aula número oito de 17 de setembro de 2007 da Oficina de Introdução ao Cinema. Não entendo bem porque, após digitar com interesse e concentração nos dados que me pus a consultar em anotações que por hábito costumo fazer, fugiram como por mágica da tela. Indignada com semelhante ousadia deste programa que rouba idéias, ainda que mais importantes apenas talvez, para quem as escreve, voltei a digitá-las, desta vez com menos humor e mais determinação. Não conheci Moniz Vianna, muito menos os críticos de cinema que constantemente são apresentados neste espaço. Espaço talvez um dos poucos e únicos de resistência ao significado da sétima arte, mais ontem que hoje. Contudo, sempre leio os livros lançados, outros esquecidos nas prateleiras das bibliotecas, sobre os considerados filmes para sempre ou como se quer, nas recentes edições, os 1.001 filmes para ver antes de morrer. E os machos e rebeldes a que Ruy Castro menciona _Um filme é para sempre_ edição de 2006, indica com clareza a quem a memória cinematográfica tem prestigiado. Nada contra, aliás são excelentes, mas tenho a impressão que de que se faz necessário releituras dos melhores/dos sempre mais e novas imagens que ficaram esquecidas e novas listas que nunca foram realizadas, possam vir a reinterpretar e redirecionar a linguagem cinematográfica. Mas como ia dizendo, a aula sobre o filme The seachers( 1956) tratava do western como o cinema americano por excelência e John Ford estava como nesta imagem que vejo, falava da poética e demonstrava que o tratamento da linguagem cinematográfica tem mais força, muitas vezes, que a história temática.

André Setaro disse...

ABI LAMENTA MORTE DO IMPERADOR DA CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA
O baiano Antonio Moniz Vianna além da bela carreira como jornalista foi também um dos mais importantes críticos cinematográficos do País. Nascido em Salvador em 1924, morreu no Rio de Janeiro — onde se formou em Medicina —, no dia 31 de janeiro, aos 84 anos idade.

Antonio Moniz Vianna começou a escrever sobre cinema no jornal Correio da Manhã, em 1946, função que exerceu no antigo diário até o ano de 1973. Foi o responsável pela formação de toda uma geração de talentosos críticos de cinema, da qual fazem parte Sérgio Augusto, Ruy Castro e Walter Lima Jr., que hoje atua como diretor.

Vianna foi um dos fundadores da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), criou vários cineclubes entre os quais o Círculo de Estudos Cinematográficos, cujas projeções eram realizadas no Auditório Oscar Guanabarino que funciona no 9º andar do edifício-sede da ABI, no Centro do Rio.

Para o cineasta Dejean Magno Pellegrin, Moniz Vianna é um verbete do cinema brasileiro para o qual deu importantes contribuições não só na criação de cineclubes, mas também na formação de muitos críticos e cineastas:
— Conheci o Moniz Vianna em 1945, quando eu tinha 15 anos de idade. Ele formou a cabeça de muita gente. Entre as suas crias estão Paulo Perdigão, Carlos Fonseca e Valério Andrade. A atuação do Moniz Vianna pelo cinema brasileiro foi de uma importância capital, pelas salas históricas que ele criou, como os cineclubes na ABI, com os parceiros Alexis Vianni e Décio Vieira Ottoni, que também foi um grande crítico do Diário Carioca.

Moniz Vianna fez críticas duras ao Cinema Novo sobre o qual chegou a escrever que era “palhaçada de gente despreparada”, mas para Dejean Pellegrin apesar de ser um crítico “radical e cáustico” sabia reconhecer o valor de uma boa obra cinematográfica.

Valério Andrade, que desde 1987 dirige o Festival de Cinema de Natal, foi o primeiro assistente de Moniz Vianna no Correio da Manhã, em 1959. Segundo ele, a ausência de Moniz Vianna no cenário cultural brasileiro já vem sendo sentida desde os anos 70, quando ele deixou de escrever suas críticas:
— O Moniz Vianna é insubstituível, desde que ele parou de escrever não surgiu nenhum outro crítico de cinema igual a ele. Eu sou de Natal e devo a minha iniciação cinematográfica a ele, a quem eu acompanhava no Correio da Manhã, do Rio de Janeiro. Na minha cidade, como em outras capitais, as suas críticas eram leituras obrigatórias. O Moniz foi o maior crítico do cinema brasileiro. Polêmico, mas que fazia uma crítica diária de forma notável, seus textos são verdadeiros ensaios.


“O imperador da crítica”, diz Cony

Em artigo publicado em seu espaço na página 2 da Folha de S. Paulo, nesta terça-feira, dia 3 de fevereiro, o jornalista, escritor e acadêmico Carlos Heitor Cony lembrou a trajetória intelectual e jornalística de Moniz Viana, que durante muitos anos “foi o imperador absoluto na crítica cinematográfica” do Rio de Janeiro. É este o texto de Cony em homenagem ao seu antigo companheiro no Correio da Manhã:

Durante muitos anos, Moniz Vianna foi o imperador absoluto na crítica cinematográfica. Evidente que era contestado, mas ninguém poderia imaginar um filme importante sem sua opinião, fosse contra ou a favor. Antes de mais nada, foi um líder: apesar de responsável pela seção de cinema, durante dois ou três anos foi o redator-chefe do Correio da Manhã.

Criou um grupo que teria influência no jornalismo e na produção cinematográfica, incluindo alguns diretores, como Walter Lima Jr. e Maurício Gomes Leite, e um time de colegas que se destacaram na imprensa nacional, como José Lino Grünewald, Ely Azeredo, Salvyano Cavalcanti de Paiva, Sérgio Augusto, Valério Andrade, Ruy Castro, Wilson Cunha, Paulo Perdigão e outros.

Sua cultura geral era assombrosa: formara-se em medicina e exercia a profissão com seriedade. Mas sua paixão era mesmo o cinema. De 1965 a 1969, estruturou e dirigiu os Festivais Internacionais de Cinema (FIF), que trouxe Fritz Lang e Marco Bellochio ao Brasil. Trabalhou no projeto que criou o Instituto Nacional de Cinema. Entrevistou os principais diretores de sua época, como René Clair e John Ford, que ele particularmente admirava. E os grandes diretores do neorrealismo italiano.

A Companhia das Letras publicou, em 2004, o único livro que seus amigos o obrigaram a escrever: “Um Filme por Dia”. Uma pequena antologia do melhor do cinema feito nos anos 50 e 60. Podiam discordar dele, mas todos o respeitavam. Escrevia com elegância e ritmo. Numa crítica a “7 Mulheres”, de John Ford, ele narra em frases ligeiras o filme, que não chega a ser dos mais importantes daquele diretor. Destacando o close que encerra a história, ele escreveu: “A câmara se afasta. Atrás dela está John Ford”.

ABI (Associação Brasileira de Imprensa) - Rua Araújo Porto Alegre, 71 - Rio de Janeiro - RJ / CEP 20030-012 - Tel. (21) 2282-1292

André Setaro disse...

RUY CASTRO NA 'FOLHA'

Enquanto Antonio Moniz Vianna era vivo, parecia difícil escrever que ele pode ter sido o maior crítico de cinema do mundo em todos os tempos. No íntimo, Moniz gostaria de ouvir isso, porque tinha perfeita noção de seu valor. Mas não era algo a sair dizendo por aí. Podiam tentá-lo a voltar a escrever, e ele há muito dera as costas ao cinema e se aposentara.

Moniz morreu neste fim de semana, no Rio, aos 84 anos, e alguns de nós -outro é Sérgio Augusto- já podemos rasgar o verbo. Se Moniz Vianna não foi o maior crítico do mundo, quem seria? Os franceses André Bazin e Jacques Doniol-Valcroze? Os americanos James Agee, Otis Ferguson, Robert Warshow, Pauline Kael?

Esses eram críticos de revistas semanais -não precisavam ver tudo que saía e tinham tempo para caprichar no texto. Pois nem assim o que fizeram encosta em Moniz. Quanto a Dwight McDonald, Manny Farber e o nosso Paulo Emilio, não eram bem críticos, mas ensaístas. Nenhum deles dissecava um filme por dia, como fez Moniz no "Correio da Manhã", de 1946 a, incrível, quase fins dos anos 60.

Bosley Crowther fez crítica diária, mas suas anêmicas resenhas de 30 linhas no "New York Times" não se comparavam à meia página de jornal que Moniz dedicou a tantos filmes, iluminando-os com sua tranquila erudição em literatura, música, história, trívia e até ciências, não fosse ele médico.
E quem viu tanto cinema?

Os críticos europeus perderam toda a produção de Hollywood na 2ª Guerra -só conheceriam aqueles filmes anos depois. E os americanos, com sua ojeriza a filmes com legendas, não tinham acesso normal à produção comercial europeia. Mas, no Brasil, Moniz assistia de Ann Sheridan a Marisa Allasio e de Gabby Hayes a Tina Louise e Cantinflas, e nos ensinava a ver de tudo.