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05 fevereiro 2009

Com Moniz desaparecem a graça, a espirituosidade e a ironia

Pelo que estou a ler por aí, pouca gente conheceu ou ouviu falar de Antonio Moniz Vianna, exceção se faça às pessoas mais velhas, o que significa uma lacuna na formação cinematográfica. Até meu amigo Romero, que julgo entender da arte do filme, diz, em comentário, que não leu São Moniz Vianna. O fato é que, ironias à parte, apesar de ter minha formação cinematográfica muito influenciada pelo crítico desaparecido, nunca comunguei de todas as suas opiniões, principalmente às referentes ao Cinema Novo, do qual fui um entusiasta na medida do possível, a apreciar as obras de Glauber, Leon, Saraceni, Guerra, entre outros. Há os grandes filmes cinemanovistas e existem, como em tudo na vida, as obras pachorrentas, que se aproveitam da onda para aporrinhar os espectadores. Moniz Vianna gostava de provocar e produzir frases de efeito. E, com isso, aborrecia muita gente. A revista Filme/Cultura, acho que em seu número 35, dedica-o à crítica de cinema e faz uma homenagem ao mestre que se foi. Há depoimentos de Carlos Diegues, Paulo Perdigão, Arnaldo Jabor, entre outros, que confessam a influência decisiva de São Moniz Vianna.

A adesão total ao cinema americano de Vianna era inegável, mas também admirava muito o cinema italiano (prinpalmente Federico Fellini) e era fã confesso de René Clair. Naquela época, a crítica mais enragé se dividia, em torno do cinema francês, entre René Clair e Jean Renoir. Vianna ficava com Clair em oposição ao realizador de La règle de jeu. Na segunda metade dos anos 60, e bato este post de memória e no afogadilho da pressa, havia dois conselhos de cinema: um, no Correio da Manhã, e outro no Jornal do Brasil. Cada conselho reunia em média dez críticos que, uma vez por semana, além do quadro das cotações estreladas, estabelecia comentários em torno de um filme importante da semana (ao contrário dos dias de hoje, havia sempre um filme importante sendo exibido na semana). Dos críticos do Correio, que possa me lembrar agora, todos eram liderados por Moniz, ainda que, mais tarde, tenha havido certa dissidência, como sói acontecer em tudo que se refere à natureza humana. Ironildes Rodrigues, Paulo Perdigão, Van Jaffa, Valério Andrade (este, fã de carteirinha de São Moniz Vianna, jornalista, deixou a cidade onde nasceu, Natal, para ir ao Rio conhecer o santo homem), Ronald. F. Monteiro (acho que tenho um recorte com os nomes de todos os críticos, mas a preguiça domina o escrevinhador), etc. Não me lembro agora se o conselho do Correio da Manhã era simultâneo ao do Jornal do Brasil. Creio que o deste surgiu com o fim do outro. No JB, o jornal mais importante da época - seu Caderno B era literalmente devorado,. o conselho era composto por Alberto Shatovsky (que depois se tornaria empresário e instalaria no mercado exibidor os saudosos Cinema 1 [na Prado Junior] e o Cinema 2 [na rua Raul Pompéia], ambos em Copacabana), Ely Azeredo (o responsável pela denominação Cinema Novo, estilista admirável, mas olhado de esguelha e de soslaio pelos mais avançados), Sérgio Augusto, José Carlos Avellar, Valério Andrade, Miriam (como é mesmo o outro nome dela?), Alex Viany, Maurício Gomes Leite (realizador de uma das obras-pirmas do cinema brasileiro: A vida provisória), etc.

A questão ideológica era muito forte naquela época. O cinema tinha um status político que perdeu totalmente. Era o tempo da famosa Geração Paissandú. Jean-Luc Godard dava as cartas para a constelação estelar do conselho do JB no qual Maurício Gomes Leite talvez tenha sido o godardiano mais eloquente. Moniz não participava dele, mas seus discípulos, ou suas crias, como se dizia, penduravam no conselho muitas bolas pretas, a exemplo do fiel seguidor Valério Andrade. Glauber, via Paulo Perdigão, mostrou, em sessão especial, Deus e o diabo na terra do sol para Moniz Vianna, que o viu e se entusiasmou. Também elogiou O dragão da maldade contra o santo guerreiro.

Bem, o problema de hoje reside no politicamente correto e na falta de senso de humor. O que mais faz falta no magister Vianna está justamente na sua imensa capacidade de provocar e de colocar, em seus escritos, a pena da ironia. Com um estilo somente comparável ao dos grandes escritores.

Um comentário:

Romero Azevêdo disse...

Grande Setaro, no livro "Introdução à teoria do cinema", o crítico americano( que você conhece pessoalmente)Robert Stam elenca mais de uma dúzia de teorias que foram sendo formuladas ao longo da história da chamada Sétima Arte( epiteto cunhado pelo crítico italiano Ricioto Canuto na década de 1910 que, aproveitando a brecha da retirada da Oratória da lista das sete artes clássicas, infiltrou a nascente forma de expressão assentada na tecnologia do momento, a foto-mecânica. Mas o papo aqui é outro), isso quer dizer que existem MUITAS FORMAS DE SE VER, E ANALISAR, O CINEMA E OS FILMES. Moniz Vianna, pelo que li dele de ontem para hoje, só conseguia enxergar( muito bem, diga-se de passagem)um ângulo, o do cinema narrativo clássico produzido em Hollywood. Então, se você considera uma lacuna o não conhecimento da fortuna crítica do homem que você, na qualidade de um dos Papas do cinema, canonizou, também deve considerar como tal o desconhecimento da obra crítica de Rocha, Sganzerla, Bernardet, Stam, Ferreira, Avellar, Stepple, Setaro, Merten, Zanin, Machado, Nazário, Salles Gomes etc etc etc.
Quando Ruy Castro, que conseguiu a façanha de escrever um livro sobre a bossa nova sem entrevistar João Gilberto( algo como fazer uma enciclopédia do futebol brasileiro e deixar Pelé de fora), disse que Moniz Vianna era " o maior crítico de cinema do mundo", esqueceu de ecrescentar " de filmes clássicos narrativos produzidos em Hollywood"
A xenofobia do velho escriba do Correio da Manhã era tão acentuada que o impediu de ver a presença de John Ford( seu ídolo maior) nos planos gerais e nas panorâmicas épicas de "Deus e o diabo na terra do sol" e no mais que fordiano tiroteio na porta da igreja de Milagres em "O dragão da maldade contra o santo guerreiro". Além disso, tem muito de Uncle Ethan em Antonio das Mortes( a solidão, que você destacou em manchete, é uma das características que une, não por acaso, os dois personagens.)
Respeito, já disse, o mito Vianna, mas não aceito essa miopia deformante( perdoe a redundancia) que, a pretexto de louvar o morto durante o velório, pretende tornar invísível os demais convidados.
Os olhos de Moniz Vianna se fecharam para sempre, os nossos( como os mil olhos do Dr. Mabuse)continuam abertos e os filmes estão aí para serem vistos e analisados.
Em tempo: ví agora, com um certo atraso involuntário, o "Eu me lembro" de Edgar Navarro e já o inclui na minha lista de melhores filmes brasileiros de todos os tempos.