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23 abril 2008

Há ainda espaço para a invenção no cinema?


Estou colunista do Terra Magazine há cinco meses às terças. Publico aqui a minha coluna de ontem que pode ser acessada diretamente no link http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI2764588-EI11347,00-Ainda+ha+espaco+para+a+invencao.html O Terra Magazine, ainda que me tenha como colunista, é uma revista informativa e muito bem editado por Bob Fernandes. Mas vamos ao texto:


Nascido oficialmente em 28 de dezembro de 1895, o cinema tem apenas 117 anos e meio. Para uma arte, em comparação com as outras, uma curta existência. Ainda que vários indivíduos procurassem quase simultaneamente projetar numa tela imagens em movimento, as honras da invenção do cinema couberam aos irmãos franceses Louis e Auguste Lumière, considerados aqueles que melhor desenvolveram o movimento das imagens num espaço plano. Há, no entanto, controvérsias. Nos Estados Unidos, o inventor da chamada sétima arte é Thomas Alva Edison, assim como os pioneiros da aviação são os Irmãos Wright e não nosso Santos Dumont.


O fato é que, descoberto o cinema em 1895, este passou muito tempo sem ter uma linguagem formada, específica. Os elementos determinantes desta (planificação, movimentos de câmera, angulação, montagem) foram sendo descobertos isoladamente, e sistematizados, com eficiência dramática, numa narrativa desenvolvida pelo americano David Wark Griffith em dois filmes fundamentais: "O nascimento de uma nação" ("The birth of a nation", 1914) e "Intolerância" ("Intolerância", 1916). Assim, entre 1895 e 1914, quase 20 anos, portanto, a linguagem cinematográfica foi sendo "formatada" aos poucos.
Mas, estabelecida com Griffith, a linguagem ainda precisaria de aprimoramentos, de invenções que pudessem enriquecê-la. Considerado o pai da narrativa cinematográfica, Griffith é também, por conseqüência, o pai de sua linguagem do ponto de vista da montagem narrativa dotada de uma "lei" de progressão dramática "in crescendo" (apresentação, desenvolvimento do conflito, clímax e desenlace).


Ainda estava por vir Sergei Mikhalkovich Eisenstein para subvertê-la com a sua montagem de atrações baseada no choque das imagens, cujos exemplos mais eloqüentes estão em "Outubro" (1927), principalmente, "O encouraçado Potemkin" (1925), entre outros. Mas se Griffith e Eisenstein provocaram uma descoberta e uma evolução na linguagem e na estética do cinema, ainda se precisaria de algumas décadas para esta se consolidar.
A estética da arte muda, quando atingiu a sua perfeição, veio a ser destroçada pelo advento do cinema falado em 1927, ainda que alguns cineastas (a exemplo de Charles Chaplin e René Clair, dissidentes da aplicação sonora, tenham resistido até onde puderam).


A linguagem cinematográfica foi sendo "inventada" durante as seis primeiras décadas do século XX até se cristalizar com o ponto de partida do cinema moderno, que foi "Cidadão Kane" (1941), de Orson Welles, e as experiências da "desdramatização" propostas por Roberto Rossellini ("Viagem à Itália", 1953) e por Michelangelo Antonioni (neste, o domínio da antinarrativa na sua famosa trilogia constituída por "A aventura" ("L'avventura", 1959), "A noite" ("La notte", 1960), e "O eclipse" ("L'eclisse", 1962). O cinema, ainda recebeu contribuições valiosas de Alain Resnais ("Hiroshima, mon amour", 1959, "O ano passado em Marienbad", 1961) e Jean-Luc Godard ("Acossado", 1959), Federico Fellini ("Oito e meio", 1963), entre outros, para não se encher a coluna de citações.
O cinema, então, tem sua linguagem consolidada por volta de meados da década prodigiosa dos 60. Isto quer dizer: nesta época, terminou a era dos "inventores de fórmulas" e o que se pode verificar é que a linguagem, "criada", passou a servir como um instrumento da "escrita" cinematográfica, mais como um instrumento de estilo do que, propriamente, de linguagem. O repertório "gramatical", por assim dizer, evoluído, põe-se a serviço da explicitação temática, e a maneira de articular seus elementos é que vem a se constituir no estilo do cineasta. Mas, antes, os realizadores também não se exercitavam dessa maneira? Sim, mas havia uma brecha para se "inventar fórmulas".


Assim como a linguagem escrita. O escritor aproveita-se de seu repertório lingüístico e, através deste, a depender de sua maneira de estabelecer a "escrita" pela manipulação sintática, é que extrai de seus textos, pela maneira de escrever, pelo seu estilo, uma "poética". Ou não.


Os realizadores atuais constroem seus filmes buscando suas fontes num repertório já consolidado. E se este já se cristalizou em torno de 1965, há, portanto, 43 anos, o cinema não mais veio a apresentar uma obra que se situasse como ruptura, uma obra, como se diz, "divisora de águas".


Daí que o cinema entrou numa fase de citações e alusões a si próprio. Os filmes "falam" geralmente de si próprios, o que não ocorria em tempos pretéritos, antes da consolidação lingüística citada. O que se verifica no cinema contemporâneo mais inteligente é este "olhar" para o passado da linguagem. Brian DePalma, utilizando-se de inspiração hitchcockiana, não o copia, como muitos pensam, mas se apóia nela para refletir sobre a natureza da própria arte do filme. Os irmãos Coen também fazem a mesma coisa, assim como muitos outros. Os "fratelli", premiados com o Oscar deste ano por "Onde os fracos não têm vez" ("No country for old men") gostam de revisitar gêneros e proceder, com o instrumental que a linguagem hoje oferece, a uma nova leitura deles, a exemplo de "O homem que não estava lá", releitura do "film noir", "Na roda da fortuna", uma mistura da comédia de Frank Capra com ingredientes tirados de Billy Wilder, "O amor custa caro", a comédia de Howard Hawks e de outros comediógrafos passada a limpo sob o prisma contemporâneo, mas com o aproveitamento de todos os seus códigos essenciais, "E aí, meu irmão, cadê você?", a Odisséia de Homero sob as vistas satíricas dos irmãos, etc.


O desconhecimento dos filmes essenciais do passado faz com que muitas vezes venha a se confundir alhos com bugalhos. E superestimar realizadores. Martin Scorsese é um bom cineasta, apesar de alguns atropelos. Mas não é nenhum gênio do cinema, muito pelo contrário. O que é Scorsese diante de um Robert Aldrich, para ficar num só exemplo? Clint Eastwood é excelente, mas longe se encontra de um John Ford ou um Howard Hawks. Paul Thomas Anderson é surpreendente e cheio de talento. Mas se pode compará-lo a um Robert Altman?
Bem, por estas e por outras é que se diz que o cinema morreu. O grande cinema, aquele do grande segredo do qual falava François Truffaut, o cinema dos inventores de fórmulas. Este, sim, está morto e enterrado

9 comentários:

Anônimo disse...

"O filme é um veículo simplificador.
É essa a sua natureza;
é melhor aceitar isso.
Funciona com pinceladas largas."

Fala de um personagem de J.M. Coetzee

Anônimo disse...

a vida é mesmo tão ruim.






lamentemos.

Jonga Olivieri disse...

A mais nova das expressões artísticas, porém a que mais alcançou em função da cultura de massas.
Estávamos outro dia a comentar sobre a construção do “heroísmo” na conquista do oeste, que na verdade foi o oposto. Mas o cinema, como parte ativa de uma era da “mass mídia” transformou a carnificina em uma “epopéia” de proporções gigantescas com o gênero ‘western’, uma de suas maiores expressões.
E tenho acompanhado o seu trabalho no “Terra Magazine”. Parabéns.

Raul Campana disse...

Olha Professor, não concordo com tudo o que diz, mas respeito sua opinião a ponto frequentar sempre este blog.
Pela primeira vez, entretanto, me manifesto aqui para lhe fazer uma pergunta.
Entendo que você pense que o grande cinema morreu, e coisa e tal. A gente já ouviu e entendeu isso, mas acho que temos o direito de discordar.
A pergunta é: essa última enquete aí, "O grande cinema morreu?", não está unilateral demais? A mais positiva das opções já começa com "Em crise", e as outras são basicamente a mesma coisa. Não faltaria uma alternativa do tipo "Foi mal Setaro, mas acho que ele está vivo e passa bem" (não que eu concorde com isso também, nem estou expondo a minha opinião para não alongar demais o assunto e fugir do tema).

Jonga Olivieri disse...

Votei segura e firmememte pela segunda opção. Ou seja, crise existe, principalmente na linguagem do cinema (a sua tese do filme-clipe é excelente), mas ainda há grandes realizações e/ou realizadores.
Estão aí os irmãos Cohen e outros a tentar dar continuidade a 7ª arte no melhor que ela tem.
Lamentamos, nós que vivemos um período excepcionalmente rico desta arte o desaparecimento de toda uma geração de verdadeiros gênios.
Mas, tenho certeza, surgem e continuarão a surgir novos talentos.
Ademais, o DVD, o fenômeno "salas de shopping" e o seu execrável 'efeito pipoca' são questões que realmente preocupam.
O que morreu foi isso: o cinema como conhecemos em sua fase poético-telúrica onde as massas podiam assistir filmes a preços accessíveis.
Mas o mundo mudou muito. O capitalismo pós-moderno em plena barbárie do sistema nos empurrou para dentro de nós mesmos no auge de uma manifestação individualista. O fenômeno de massas incomoda muito às classes dominantes. O único que resta é o futebol. Mas, este, ao lado da religião (e eu diria que hoje até mais do que ela) é o ópio do povo.
Vamos, portanto continuar a acreditar que o cinema continuará sua tragetória. E nos ambientar às mudanças que a dialética do tempo nos impõe.
Afinal, a história é uma devoradora de homens e CARACTERES.

Anônimo disse...

a autoria é atributo de
autoridade
no âmbito autoritário/
solitário
de política de autor

ex.cinéfilo

Jonga Olivieri disse...

Por isso sou um anti-ianque muito, mas muito radical. Mesmo!
Os caras querem ter inventado tudo, serem os únicos a descobrir as coisas. Absurdo...
Cinema foi invenção dos Lumiere e os Wright tentaram voar, mas caíram numa poça logo à frente num dos maiores vexames da história da aviação.
Esquecem que se não fossem os europeus que migraram a "fazer a América", título (e nacionalidade)da qual também se apoderaram indevidamente, pois eu me considero e sou tão americano quanto eles.

Jonga Olivieri disse...

Acabei esquecendo de continuar: ...Esquecem que se não fossem os europeus que migraram a "fazer a América", o próprio cinema deles não seria o que foi, pois muitos dos seus melhores diretores não nasceram em terras do novo mundo...

Pâmela disse...

Como sou recém leitora e admiradora do blog, gostaria de parabenizar o bloguista (ou blogueiro).

Quanto ao que foi colocado, concordo plenamente com a atual CRISE pela qual passa o cinema, produzem-se filmes cada dia mais caros, no entanto, cada dia mais pobres.

E quanto à data citada, acho que houve um equívoco: 1895, 117 anos?...