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10 março 2008

O "pum" da cultura



Bom este artigo do escritor Moacyr Scliar publicado ontem, domingo, dia 9, no Mais! da Folha de S.Paulo. Não resisto em transcrevê-lo. Aqui vai:
"A notícia, na Folha do último dia 28, era pequena, mas chamativa: uma funcionária, demitida por "exceder-se em flatulência" no local de trabalho, venceu demanda judicial interposta na 4ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo. Os magistrados decidiram pela readmissão da empregada e pelo pagamento de R$ 10 mil por danos morais.
Atrás desse curioso episódio está longa história, que se baseia numa função fisiológica absolutamente normal, mas nem por isso menos perturbadora. Flatulência é a emissão de gases intestinais, uma coisa que poderia passar despercebida, como é a expiração.
Mas essa, em geral, não é ruidosa -a não ser quando a pessoa ronca, o que não raro é fonte de conflito entre marido e mulher- e é sem odor, a não ser quando há mau hálito, o que sempre resulta em constrangimento. Já no flato, existe uma complexa mistura de gases, alguns dos quais, os compostos sulfurosos, principalmente, produzem aquele característico odor, que há milênios ofende narinas.
Ah, sim, e o ruído. A última linha de "O Inferno", de Dante, parte da "Divina Comédia" [editora 34], diz "Ed elli avea del cul fatto trombetta"/ "E ele usou o traseiro como trombeta", o que pode parecer um exagero, mas traduz a indignação das pessoas.
Não só Dante se entregou ao exercício dessa forma de escatologia literária. Na clássica comédia "As Nuvens" [ed. 34], de Aristófanes [comediógrafo grego do século 5º a.C. que se celebrizou pela irreverência], há um diálogo no qual Sócrates sustenta que, quando as nuvens colidem, se produz um forte ruído, ou seja, o trovão.Para explicar o fenômeno, compara-as com o homem que, tendo comido muito, produz gases. E pergunta: "Se o ventre humano, que é relativamente pequeno, faz tanto barulho, como não o farão as nuvens, que são muito maiores?"
Nas "Mil e uma Noites" [ed. Globo], lemos a história de um homem que, tendo soltado gases durante a cerimônia de seu próprio casamento, não vê outra solução senão fugir para o exterior. Em "Gargântua e Pantagruel" [ed. Itatiaia], Rabelais assim descreve a ressurreição de Epistémon: "De repente Epistémon começou a respirar, depois abriu os olhos, depois bocejou, depois espirrou, depois soltou um grande peido. Ao que disse Panurge: "Agora está certamente curado'".
Em "Contos de Cantuária" [T.A. Queiroz], de Geoffrey Chaucer, autor inglês do século 14, o flato é usado como agressão. O conquistador Absolom está tentando roubar um beijo da trêfega Alison, mulher do carpinteiro Nicholas. Na escura noite, sem quase nada enxergar, aproxima-se da janela da casa e, sussurrando, pede que a mulher diga onde está. Mas é Nicholas que responde -soltando, pela janela, um agressivo flato.Em "Molloy" [ed. Globo], de Samuel Backett, há uma certa condescendência para com os gases: "Trezentos e quinze peidos em 19 horas, uma média de 16 peidos por hora. Não é demais. Quatro peidos a cada 15 minutos. É nada". A mesma tolerância mostrou o imperador romano Claudius, que assinou lei permitindo a emissão de gases em banquetes, mas fê-lo movido por supostas razões de saúde: acreditava-se à época que reter os gases era prejudicial para o organismo.
De maneira geral, soltar um flato era falta grave. Edward de Vere, duque de Oxford, teve o azar de fazê-lo (coisa que Freud explicaria) no exato momento em que prestava juramento de lealdade à depois cinematográfica rainha Elizabeth 1ª.
Tão envergonhado ficou que se impôs um exílio de sete anos. Quando de seu retorno à corte, Elizabeth teria dito, para consolá-lo: "Meu senhor, para dizer a verdade, já esqueci aquele flato".Aliás, em termos da associação nobreza-flatulência, o duque não ficaria sozinho. Segundo nos conta Jô Soares, em "O Xangô de Baker Street" [Cia. das Letras], dom Pedro 2º soltava gases em pleno palácio, o que, aliás, no julgamento mencionado, foi usado como argumento pelo juiz Ricardo Artur Costa e Trigueiros.
A pessoa pode reter os gases, mas será que consegue emiti-los voluntariamente?Em "A Terra", de Émile Zola, há um personagem que consegue fazê-lo e ganha apostas com sua habilidade. Houve um contemporâneo do escritor que conseguia fazê-lo e se tornou famoso por isso: Joseph Pujol (1857-1945), autodenominado Le Pétomane (O Peidômano).
O marselhês Pujol tinha um extraordinário controle de seus músculos abdominais e do esfíncter anal, o que lhe permitia façanhas assombrosas. Exibindo-se no célebre Moulin Rouge, para audiências que incluíam Edward, príncipe de Gales, e Sigmund Freud, conseguia tocar flauta por meio de um tubo de borracha inserido em seu ânus, emitindo também os sons do hino nacional e de melodias por ele compostas.
A história de Pujol inspirou pelo menos dois filmes -o britânico "Le Petomane", de 1979, com Leonard Rossiter, e o italiano "Il Petomane", de 1983, com Ugo Tognazzi-, o musical "The Fartiste" -premiado como melhor do ano em 2006, no festival internacional Fringe, em Nova York-, vários artigos e livros, incluindo o best-seller "Quem Comeu meu Queijo?", de Jim Dawson, uma abrangente história da flatulência.Uma história que, como se constata, mostra aspectos curiosos e surpreendentes da relação humana com o corpo, particularmente no que se refere ao componente gasoso deste."

6 comentários:

Romero Azevêdo disse...

Setaro, sobre o explosivo tema também tem uma comédia recente que vez em quando passa no Telecine Pipoca. Para quem quiser dar uma cheirad...(êpa), digo, olhada a dica vai abaixo:

Pum: Emissão Impossível

Título Original: Thunderpants

Gênero: Comédia

Origem/Ano: EUA-ING-FRA-ITA-ALE-HOL/2002

Duração: 88 min

Direção: Peter Hewitt

Elenco:

Simon Callow...
Stephen Fry...
Celia Imrie...
Paul Giamatti...
Ned Beatty...
Bruce Cook...
Rupert Grint...
Bronagh Gallagher...
Victor McGuire...
Adam Godley...
Leslie Phillips...
Robert Hardy...
John Higgins...
Sir John Osgood
Sir Anthony Silk
Miss Rapier
Johnson J. Johnson
Gen. Ed Sheppard
Patrick Smash
Alan A. Allen
Mrs. Smash
Mr. Smash
Placido P. Placeedo
Judge
Doctor
Paediatrician

Sinopse: Patrick é um garoto muito legal com um pequeno probleminha: solta puns o tempo todo. A única pessoa que agüenta ficar perto dele é o seu melhor amigo Alan, que não consegue sentir nenhum cheiro. Sorte a dele! Alan também é um gênio que tenta resolver o problema do amigo com mil fórmulas. Até que um dia ele constrói a Thunderpants, uma calça para segurar os puns de Patrick que faz tanto sucesso que a NASA acaba convocando a dupla para uma emissão impossível. Vai ser um estouro...

Distribuição em Vídeo e DVD: LK-Tel Vídeo

Sergio Andrade disse...

Ótimo artigo do Scliar, como sempre. E que tal lembrar dos grandes flatos do cinema? Começo lembrando de dois: o tio de "Fanny e Alexander", capaz de apagar uma vela com um poderoso peido; e os cowboys comedores de feijão e peidorreiros de "Banzé no Oeste" de Mel Brooks hehehe!

Romero Azevêdo disse...

Tem o tio de Amarcord que toda vez que soltava um, gritava: "pernachio !"

Jonga Olivieri disse...

Não tem nada a ver, mas tenho um amigo que é uma das pessoas mais escatológicas que conheço.
Pois bem, uma vez, a namorada dele vinha em direção ao carro. Ele fez sinal para chegar mais rápido.
Quando ela entrou no carro e perguntou o que era, ele respondeu: "Nada... era só pra dar tempo de você sentir o cheiro do peido!".
O pior é que são casados e felizes até hoje!

André Setaro disse...

Ha, ha, ha, ha. Esta foi boa, Jonga. Me lembrei que Salvador Dali tinha um disco todo de peidos, que, com cuidado, nominava-os: peido triangular, bufa onomatopéica, etc.

Romero Azevêdo disse...

Ainda bem que a tecnologia do cinema ainda não alcançou o olfato...