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25 outubro 2007

Que seja bem-vindo Claude Lelouch!


Esnobado por uma crítica truculenta e pernóstica, como lembra brilhante artigo de Leon Cakoff na Folha de S.Paulo, (cuja leitura se faz obrigatória: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2410200723.htm, Claude Lelouch nunca foi perdoado por ter feito sucesso, ainda que tenha, em sua fimografia, filmes notáveis, a exemplo de Um homem como poucos (Le voyou), Toute une vie, Um homem e uma mulher, A dama e o gangster (La bonne année), Retratos da vida (Les uns et les autres), Ilya des jours e des lunes, etc. Espero, ainda nesta semana, se tempo tiver, fazer um levantamento da rica filmografia desse cineasta emocionante. Sempre gostei dos filmes de Claude Lelouch, que era visto sempre e sempre com reservas pela crítica dona da verdade. O ser crítico, neste particular, é um chato, que corta a emoção do sentir. E Lelouch, por ser um realizador notável no estabelecimento de uma mise-en-scène, na qual a mobilidade de câmera, féerica, aliada à particura musical, poucas vezes no cinema tão funcional, ficou sendo um realizador quase desconhecido para a nova geração. Vou continuar em outro post a falar de Lelouch. Ele se encontra em São Paulo, convidado para a mostra internacional de Cakoff. Muito pouca coisa na imprensa foi escrita sobre ele.
A crítica (por sinal assunto para um post mais aprofundado) exerce uma espécie de patrulhamento sobre muitos pobres cinéfilos, que ansiosos pelo status de críticos e entendidos da coisa, ficam a concordar com a chamada autoridade crítica dos jornais e revistas mais abalizados e considerados. Já vi muita gente, antes de ver determinado filme cultuado, dizer, ainda na bilheteria, que o filme é genial. Respeito mais a opinião de um sapateiro que conheci quando criança, e que ia todos os dias aos cinemas poeiras soteropolitanos. Por intuição, naquela época, quando ainda existia sapateiros (e era o sapateiro de minha família), sabia, este consertador de sapatos, perceber um corte específico, um travelling denunciador, uma panorâmica nostálgica e bucólica, a perceber o in crescendo da estrutura narrativa. É verdade que existem críticos sérios e bons, e confesso ter sido formado por alguns, a exemplo de Walter da Silveira e Moniz Viana (duas quantidades heterogêneas, mas que me importaram sobremaneira), mas, por outro lado, existem muitos que se dizem críticos e são pernósticos, pedantes, confundindo obscuridade com profundidade. Destes procuro me afastar. E são estes que acham Claude Lelouch um diretor sem nenhuma importância.
Após o que está escrito, verifiquei que o link somente dá acesso ao artigo de Leon Cakoff àqueles que têm assinatura do UOL. Assim, e sem pedir licença à Folha, resolvo transcrevê-lo por julgá-lo importante e oportuno. Abro as necessárias e obrigatórias aspas:
"As evidências são flagrantes. Há menos espectadores seguindo críticos, e há menos críticos empenhados na formação de platéias. Críticos e cinéfilos precisam reaprender que filmes e seus autores podem existir independentemente de suas opiniões. Críticos e cinéfilos precisam parar de querer educar os cineastas com suas opiniões ou desconsiderações excludentes. Vamos promover uma discussão sadia e necessária. Afinal, sem os críticos não haveria história do cinema. O cinema escrito e pensado é também base de nossa formação e muitas vezes ajuda a traduzir o que não vemos. Críticos devem conduzir filmes e seus pensamentos com as fragilidades requeridas. Não devem entregar produtos aos consumidores finais já destruídos na embalagem. Devem deixar a própria vida sedimentar os fragmentos de filmes que dão base a nossos conceitos e sabedorias. Os filmes devem voltar a ser vistos como materiais de construção. Não é por acaso essa discussão sobre a crise da crítica e da cinefilia. A 31ª Mostra Internacional de Cinema lança (em parceria com a editora Cosac Naify) "A Rampa", com textos exemplares do crítico Serge Daney (1944-1992), escritos entre 1970 e 1982 para os "Cahiers du Cinéma". Para embasar essa discussão, conseguimos reunir os dois elos do movimento que significou o resgate da credibilidade da mítica revista francesa com os seus leitores-cinéfilos. Os prefácios de "A Rampa" são assinados por Serge Toubiana, contemporâneo de Redação de Daney, hoje presidente da Cinemateca e do Museu de Cinema de Paris, e por Jean-Michel Frodon, atual redator-chefe dos "Cahiers". Toubiana vê em Daney o seu ponto forte pela "capacidade de inventar e unir, a partir da visão de um filme, um corpo-linguagem que permita dialogar com o autor, transcender a visão subjetiva do filme e conduzi-la a um nível de inteligência superior". O que Serge Daney fez é exemplar. Ele limpou os templos do cinema de seus profanadores, dos afetados ideológicos que nem sequer permitiam a divulgação de fotos como os talebans de hoje. Daney resgatou a vocação dos "Cahiers" com textos apaixonados por cinema ao reagir contra uma Redação afetada pelas infantilices ideológicas, precisamente do nefasto maoísmo e sua raivosa revolução cultural excludente. Graças à coragem de Daney, Frodon herdou uma revista mais livre de preconceitos. Ainda experimental, mas aberta a todos os segmentos do cinema. E é dele a observação no livro de que o "canteiro de obras teórico" de Daney recompôs a rampa que separava o palco/tela das platéias. Vítimas da críticaMas a discussão não se encerra com os bons exemplos do passado e suas heranças. Vamos ver o que acontece dentro da própria seleção da 31ª Mostra, onde temos um novo filme de Manoel de Oliveira e um novo de Claude Lelouch. Ambos fazem quase que um filme por ano, só que Oliveira não faz o sucesso que merece, e Lelouch faz (o sucesso que merece). Ambos são vítimas de uma boa parcela da crítica, inconformada com as suas existências. Só que o insucesso de Oliveira se consegue justificar, e o sucesso de Lelouch, não. É óbvio que Manoel de Oliveira não faz um filme primoroso do ponto de vista dos que têm o cinema como referência de ação. Mas ele é um pensador que se vale do cinema como instrumento de reflexão. Há críticos que fazem chacota de Oliveira e de seus defensores, como se fôssemos sustentáculos de uma mentira indefensável. Num outro segmento há críticos inconformados com sucessos que fogem de seu controle. E é obvio que Claude Lelouch, embora faça um cinema primoroso, apegado a emoções, desagrade a uma categoria de críticos inconformados pela traição das platéias à sua cartilha de verdades dogmáticas. Pode haver absurdo maior do que críticos ignorarem um autor como Claude Lelouch por ele fazer sucesso de público, contrariando todas as suas vontades? A própria Folha se recusou a pautar uma entrevista com Lelouch nesta sua passagem pela Mostra. Não existe nem "crise de cinefilia", muito menos "perda da credibilidade da crítica", contesta-me o crítico da Folha Cássio Starling Carlos no caderno Mais! de 14/10. Como prova, cita revistas e sítios na internet "com uma produção inquieta e estimulante de idéias". Sugiro que, na sua próxima resenha de um filme de Lelouch, ele dê um link a esses endereços que ousaram ouvir o que Lelouch tem a dizer sobre afeição pelo cinema. "
LEON CAKOFF é diretor da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

5 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Conheço pouco da obra de Lelouch.
Não somente seus filmes são pouco divulgados no Brasil, mas todo o cinema europeu tem muito pouca exibição nos circuitos comerciais por essas bandas.
Somente o estadunidense domina os distribuidores. Somos de fato uma colônia "cultural".
Resultado: tem-se que ficar procurando em cinematecas ou circuitos alternativos. Aquilo que já falei uma vez com você. Infelizmente, hoje, a cultura neste país, resume-se a guetos.
Todavia, acho que "Um homem, uma mulher" é uma poesia - quase um hino mesmo - ao amor.
Com a bela e madura Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant nos principais papéis, é uma película dofícil de se esquecer.
Mas, a verdade e que o realizador tem uma vastíssima obra, totalizando mais de 40 realizações, estando na ativa até hoje.
Será interessante que faça uma análise mais profunda disso, como disseste, pois tenho uma curiosidade muito grande em saber do desdobramento do seu trabalho até os nossos dias.

Romeu disse...

Setaro, fiquei curioso para saber quais revistas e sítios o Cassio Sterling Carlos (que nome pomposo!) classifica como "produção inquieta e estimulante de idéias". Isso existe?

André Setaro disse...

É genérico e nada diz

Filipe disse...

O Cássio não é genérico não, ele aponta a Contracampo e a Cinética (espaços que você mesmo já destacou aqui algumas vezes).

Filipe Furtado disse...

O Cassio não é genérico não, ele menciona por nome a Conracampo e a Cinética (espaços já mencionados aqui pelo próprio blogueiro).