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26 outubro 2007

Joseph Losey, "by the way"



Já publiquei este post há exatamente um ano pouco antes do insulto cardíaco que me acometeu e que me fez passar por via crucis hospitalar até que duas pontes do suspiro fossem instaladas nas minhas coronárias plenas de estenose. Limitado em meus vícios secos e molhados - nada mais prazeroso do que fumar e beber ao mesmo tempo e quando se fuma, sabem os doutos na matéria, fica-se no paraíso, principalmente quando a fumaça que invade os pulmões, os futuros pulmões cancerosos e enfisemáticos, diga-se, assim, de passagem, vem acompanhada de generosos goles de uma boa cerveja tipo Heineken ou Carlsberg naquelas garrafias verdes, as quais, carinhosamente, chamo-as de minhas queridas. Mas o fato é que o Losey abaixo já foi postado, mas creio que vale a reprise, ainda que esteja, agora, sem meu amigo, o cigarro, e me contendo para não ir à esquina para tomar uma cervejinha. Como se pode ver, o blogueiro, apesar de seus sofridos 57 anos, ainda pensa em coisas que façam mal à saúde. Gostei muito da atitude de Paulo Autran quando, pouco antes de morrer, pediu um cigarro ao médico para fumar e morreu com o semblante satisfeito. Viva o cigarro, a bebida, e o colesterol mau, aquele ruinzinho. Viva a picanha gordurosa. É interessante observar o esquecimento a que Losey está relegado. A platéia que se diz cult e que tem orgasmos com os almodovares da vida sequer sabe quem é Losey. Prometi que ia fazer uma investigação na ficha filmográfica de Lelouch, mas não tive tempo. Mas o assunto está em pauta.
Losey, apesar de sua fleugma, que o faz parecer um britânico nato, nasceu nos Estados Unidos, em Wisconsin, La Crousse, em 1909. Se estivesse vivo -morreu em 1984 - teria a provecta idade de 98 anos. Membro de uma família de ascendência holandesa, quando ingressa nos estudos superiores opta por duas carreiras bastante distintas: medicina e teatro. Logo, porém, a segunda fica no centro de suas preocupações, atuando, como intérprete, em peças alheias e, em 1930, findo seus estudos, dá-se a conhecer como um excelente crítico teatral. Da teoria, todavia, Losey passa, logo, à práxis, funcionando como diretor, metteur-en-scène, em The Living Newspaper (1936), influenciado, nesta ocasião, pelas teorias de Piscator e Bertold Brecht. Do teatro para ocinema, um pulo: em 1937 supervisiona mais de 40 documentários educativos para a Fundação Rockefeller e, realiza curtas autorais, e, trabalhando, para seu sustento, ao mesmo tempo, numa rádio, Losey desponta para a crítica como diretor teatral com a adaptação de Galileu, Galileu, de Bertold Brecht, considerada, até então, a melhor versão no proscênio da peça de Brecht. Após o triunfo de Galileu é que vem o cinema propriamente dito, o cinema ficcional, de longa metragem, com caráter profissional. Dore Schary o convida, em 1948, para dirigir The boy with green hair (O menino dos cabelos verdes), uma fábula humanista acerca do racismo latente em uma coletividade. O Fugitivo de Santa Maria (The Lawless, 49), seu filme seguinte, insiste sobre o mesmo tema, mas com uma chave realista, pois o primeiro está cheio de metáforas e símbolos na fabulação. O menino dos cabelos verdes e O fugitivo de Santa Maria revelam o cineasta Joseph Losey como um realizador original e singularmente apto para restituir a pulsação lírica de alguns estados de ânimo. Assim, The boy with grenn hair contém o que não nos é dado com freqüência observar - uma mensagem de solidariedade humana, de tolerância, de paz, e The lawless, rodado numa pequena cidade do norte da Califórnia, expõe, através de uma narrativa um tanto descontrolada, a dramática situação desta localidade, quando um dos rapazes do bairro mexicano, tomado de pânico após esmurrar um policial, rouba um carro, foge desesperadamente e é acusado de vários crimes (entre os quais o de tentar violentar uma jovem estudante) no decorrer de sua perseguição. A população mais "respeitável" da cidade, indignada com os acontecimentos, percorre as ruas agredindo a pauladas outros mexicanos e empastela o único jornal da região, cujo editor resolvera defender a causa do fugitivo.

Em 1950, O cúmplice das sombras (The prowler), que significa um passo importante na sua carreira ao transcender um tema melodramático - um policial que seduz a uma mulher depois de assassinar o marido - para realizar um profundo estudo psicológico da condição humana de um personagem, a evidenciar Losey, neste filme, como um seguro realizador no controle da técnica naturalista e uma exatidão extraordinária na apresentação psicológica dos personagens. A seguir, no mesmo ano, M, o maldito, nova versão do célebre filme de Fritz Lang, que lhe permite descobrir outra de suas facetas: a faculdade de uma fusão expressiva entre o cenário e o seu protagonista. A maior parte da história e muitos dos arranjos de câmara são conservados e, quase cena por cena, o filme americano segue o alemão. As modificações principais se referem à época e ao local, com a transferência da ação de 1929 para 1950, e de Dusseldorf para uma cidade não identificada dos Estados Unidos. Em ambos, porém, o cenário é o mesmo: uma cidade agredida e aterrorizada por um psicopata cuja especialidade é matar meninas, após captar-lhes a confiança, sem uma pista a seguir, sem um delator, e que invade diariamente o bas-fond. Depois de M, Losey faz The big night, onde Robert Aldrich aparece como figurante: um dos espectadores da luta de boxe.

Em O homem que o mundo esqueceu (Stranger on prowl), filme que se segue a The big night na filmografia de Joseph Losey, a ação está situada em um porto não identificado, que apenas se sabe, pela insistente focalização de suas ruínas, ter sido duramente atingido pela guerra, num passado próximo. Um estranho percorre as ruas faminto e sem esperanças e, mais tarde, se vê perseguido e encurralado como se fora um animal por ter morto acidentalmente a dona do armazém que ameaçava entregá-lo à polícia ao surpreendê-lo com umpedaço de queijo na mão. Dois anos depois, 1954, O monstro de Londres (The sleeping tiger), com Dirk Bogarde (que mais tarde seria um ator constante do cineasta), com Losey a amargar o exílio forçado (é vítima do estupidez maccartista e taxado de 'comunista', deslocando-se para a Europa), assinando a fita como Victor Hanbury. Um homem em desespero (The intimate stranger, 56), assinado, também com pseudônimo, parece refletir a angústia do exílio. E a partir de A sombra da forca (Time without pity, 57), cuja fotografia é de Freddie Francis (o mesmo de Cabo do medo), o realizador já se sente mais livre para assinar seu próprio nome. Thriller policial britânico, apesar de realizado por um norte-americano, tem a britanicidade necessária para que se não lhe perceba a origem direcional: atmosfera sufocante, rictus narrativo, imagens rápidas, cheias de emoção visual e personagens enfocados oniricamente. Após o que, Losey realiza Por amor também se mata (The gypsy and the gentleman), de 1957, com Melina Mercouri e Patrick MacGoohan. Em 1959, um filme muito acima de sua média, e que muitos críticos consideram um de seus momentos altos: Entrevista com a morte (Blind date), com Hardy Kruger, Stanley Baker. Jovem pintor holandês em Londres leva à sua amante um ramalhete de violetas, mas não a encontra em casa e, de repente, chega a polícia. Há impressão de kafkanismo na narrativa com a tensão se fazendo à custa de um equívoco produzido pela usurpação de identidade da vítima. A direção de Losey se mostra menos preocupada com a trama policial do que com o exame psicológico de dois de seus três personagens centrais. Um filme que marca a presença de um autêntico cineasta.The damned, de 1962, nunca foi exibido nos cinemas brasileiros, restringindo-se a uma histórica exibição na TV Tupi do Rio de Janeiro em março de 1973, com o título de O mundo os condenou. Losey, entretanto, já se encontra, dois anos antes, com alta cotação entre os críticos, principalmente porque The criminal revela um realizador inusitado, estilista admirável. Mas é com Eva que a admiração total a Losey se estabelece de maneira definitiva, e seu nome se inclui, definitivamente, na galeria dos grandes cineastas. Com Jeanne Moreau, Stanley Baker, Virna Lisi, Eva é o ponto mais grave de uma acidentada carreira, pois a fita mais ambiciosa, concebida sem preconceitos e realizada num regime de absoluta liberdade de criação. Talvez seja Eva ainda a resultante dos estímulos recebidos por Losey de um grupo compacto da crítica francesa, que o elegeu um dos seus ídolos, para o seu espanto e estupefação, com o elogio descontrolado de suas obras menores. Um ano antes de O criado, que é de 1963, Eva tem uma narrativa pictoricamente sufocante por causa da poderosa beleza da iluminação de Gianni di Venanzo, um artista da luz.

Obra de mestre, obra-prima, O criado (The servant), com Dirk Bogarde e JamesFox, traduz bem a relação hegeliana do senhor e escravo. É o melhor filme de Losey, um trabalho exemplar, que se encontra, de repente e para surpresa de todos, em DVD. Vi o filme nos bons tempos do Cinema 1 em Copacabana. O criado é representativo desse enfoque de personagens cuja transparência de status social só tem igual na opacidade psicológica. Tony (James Fox), um jovem e sedutor aristocrata britânico, contrata um camareiro, Barrett (Bogarde). Como observou o ensaísta francês Claude Beylie, "A fábula é límpida: herdeiros de um mundo condenado, o escravo torna-se amo e vice-versa. Losey deleita-se com o espetáculo desse processo inexorável de degradação. Aí encontramos aquela 'exigência em perpétuua tensão' de que falava Michel Mourlet a propósito de À sombra da forca."
A seguir, um inédito em território brasileiro: King and country. Depois uma brincadeira satírica em tom descontraído: Modesty Blaise, com Monica Vitti, Terence Stamp, 1966, uma sátira ao bondianismo, desta vez colocando, como a heroína, uma mulher, e movido por chave irônica em linguagem de história em quadrinhos. E posteriormente uma quase obra-prima: Estranho acidente (Accident, 67), análise de comportamentos e de idiossincrasias, pintura ácida (como de hábito) de um meio corrompido (desta vez o acadêmico), com, novamente, Bogarde e o Stanley Baker de tantos filmes. O casal Burton reviveria Tennessee Williams em Boom (O homem que veio de longe), que se passa nos interiores do elizabetano palazzo onde tudo é ostentação. Vieram a seguir: Cerimônia secreta (Secret cerimony, 1968). No limiar da liberdade (Figures in a landscape, 1970), O mensageiro (The gobetween, 71, Palma de Ouro em Cannes), O assassinato de Trotsky, 1973), Casa de bonecas (A doll's house), com Jane Fonda, baseado em Henrik Ibsen, Galileo (74), A inglesa romântica (The romantic englishwoman, 74), Cidadão Klein (76), Don Giovanni. Em Cerimônia secreta, uma mulher (Mia Farrow, recém chegada de Rosemary's baby) adota uma prostituta (Elizabeth Taylor) como sua mãe. Segundo Losey, Secret cerimony é um filme sobre a terrível necessidade que os seres humanos têm uns dos outros e a incapacidade que todos temos de nos satisfazer." Moral da história: dois ratos caem num balde de leite. Um morre afogado. O outro debate-se a noite inteira e acorda na coalhada.

10 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Primeiro, concordo plenamente com a primeira parte de sua postagem. As boas coisas da vida fazem falta. Que o diga o Fausto Wolff, que conhecí, sempre com um copo de cerveja à beira da piscina num prédio em que morei e ele também, em Botafogo.
Quanto a Joseph Losey, sua matéria é muito completa, só tendo que fazer elogios ao seu conteúdo e volume de informações.
Acrescentaria, fato que aliás já falaste, que ele sofreu muitas humilhações no decorrer de sua vida. Foi expulso do seu país, jamais tendo aberto mão dos seus princípios e certamente deixou o seu nome na galeria dos artistas notáveis do século. Ao lado de Brecht e Eisenstein os quais também conheceu, e, como ele foram vítimas de perseguições.
Aliás, e a propósito, vale a pena ler a coluna do Argemiro Ferreira de hoje na Tribuna da Imprensa, que toca justamente neste assunto assunto do macartismo.

Saymon Nascimento disse...

Losey é excelente. Setaro, voce conhece "Mr. Klein"? Aluguei uma copia e não me arrependi. Adoro a restrição que Losey se auto-impoe. Um diretor realmente diferenciado.

Stela Almeida disse...

Setaro, ainda estou lendo o post do Claude Lelouch. É que a leitura, instiga em direção à filmografia ou mesmo, se não tiver tempo, rever os apontamentos que foram feitos há um momento e redescobrir aspectos que passaram despercebidos. Nesse processo a obra cinematográfica readquire novo significado. Claude Lelouch não está contemplado na documentação de Claude Beylie, um ingrato esquecimento?
Bem, ainda vou precisar de mais tempo para Lucrecia Martel e Joseph Losey, mas quero reafirmar o valor destas postagens. E sobre saúde... somos livres ou pelo menos queremos ser.

Saymon Nascimento disse...

Dos que vi, O Criado é o mais redondo, perfeito, mas a crueldade de Eva talvez seja mais impactante. Antes de Visconti e Roeg, a Veneza de Losey já era macabra e assustadora.

André Setaro disse...

'Cidadão Klein', quando o vi, em 1977, você ainda não sonhava em nascer, Saymon. Há exatos 30 anos, no extinto Iguatemi 1, antes da era 'multiplexana', e em outubro justamente, foi que tive contato pela primeira vez com este filme extraordinário, contido, sóbrio, inteligente, meio kafkiniano, com Alain Delon na pele do personagem título. Mas o revi, neste terceiro milênio, no saudoso Telecine Classic, que foi substituído pelo híbrido Cult. Cheguei, inclusive, a gravá-lo em fita magnética, mas, como de hábito, surgiu outro filme importante, que não me lembro agora, e como não achei fita virgem, fiz a bobagem de desgravá-lo para gravar outro em cima.
Em relação ao marcarthismo, J.Olivieri, Losey foi perseguido e se exilou na Europa onde fez suas obras-primas, a exemplo de 'Eva', 'O criado', entre tantas. Fiquei fascinado com a sua versão cinematográfica de 'Don Giovanni', que vi no Rio num cinema (acho que o também extinto Cinema 2) na rua Raul Pompéia, logo depois do túnel. Lembro-me que foi preparada uma 'avant-première' para 'Don Giovanni' e Losey foi convidado. Veio. Pegou o avião e, para nossa vergonha, ficou detido no aeroporto, passou 24 horas numa sala. Creio que aborrecido comprou a passagem de volta.
J. Olivieri, você não é tão jovem como Saymon. Penso, inclusive, que poderia ser seu avô, ainda que um jovem de 60 anos. Deve ter visto vários filmes de Losey, que precisa, urgentemente, ser resgatado com a distribuição de seus filmes no disquinho mágico, qual seja o DVD. Saymon já conhece muitos porque um aplicado cinéfilo e crítico pesquisador, que está a baixar toda a história do cinema pela internet. Já não se o encontra pelos lugares, pois o seu tempo é dedicado a ver filmes e filmes.

André Setaro disse...

ffff

Saymon Nascimento disse...

Setaro, o primeiro Saymon não sou eu! Tem um engraçadinho que fica postando com meu nome em vários lugares! Note a diferença, o meu perfil de verdade tem foto! Que coisa mais inconveniente.

Saymon Nascimento disse...

Aliás, ou o clone é burro ou eu sou desinformado. Cidadão Klein não existe em dvd. Nem em Vhs, acho.

André Setaro disse...

Realmente é terrível e pode, inclusive, comprometer alguém. Vou, d'agora em diante, prestar atenção. Com foto, o velho Saymon de guerra, sem foto, o engraçadinho de comédia pastelão.

jornalista_sp disse...

Olá Setaro,
há muito tempo tento encontrar o filme The Go-Between, seja em VHS, DVD, VHS passado para DVD, enfim... mas sem sucesso. Vc tem esse filme? Lembro-me de tê-lo assistido ainda adolescente, na Cultura Inglesa, depois de ter lido a obra. Trata-se de uma história belíssima, mas que infelizmente nunca mais vi sequer em TV.
Abs.
Marcos