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20 maio 2007

Cinema e a magia perdida


Texto escrito para o jornal 'Tribuna da Bahia' e publicado em 17 de maio de 2007.

Atualmente os anos se passam e cada vez fica mais difícil que um filme consiga empolgar o comentarista, este que aqui apõe a sua firma. Quando jovem, talvez pela descoberta do cinema como uma expressão da arte e, também, um divertimento sem precedentes, a emoção pudesse aflorar com mais facilidade. A cada nova descoberta, uma nova emoção. Mas também, e se convenha, o cinema, mesmo o mais comercial, tinha outra envergadura, um nível de produção muito melhor. Atualmente a indústria cultural de Hollywood está entregue a executivos de multinacionais que nada entendem de cinema. No passado, com os grandes estúdios (Metro, Columbia, Warner, tantos!), seus chefes eram pessoas que amavam o cinema, ainda que produtores ansiosos pelos lucros, pois se o filme é uma arte, como costumava dizer o historiador George Sadoul, o cinema é uma indústria (ou seria o contrário?)

O cinema entrou numa grande crise. Para se ter uma idéia, na década de 60, por exemplo, para se fazer a seleção dos dez melhores do ano era uma dificuldade para escolher os filmes, pois se tinha em torno de vinte, trinta para escolher. Atualmente ocorre exatamente o contrário: para se selecionar dez, encontra-se quatro, cinco, que realmente são merecedores. E, muitas vezes, se preenche a lista com filmes bons, mas não obras exponenciais. Mas também há algumas décadas, tinham-se cineastas de verdade fazendo filmes. Basta o exemplo da Itália: monstros sagrados, gênios irrefutáveis como Federico Fellini, Luchino Visconti, Michelangelo Antonioni, Píer Paolo Pasolini, Vittorio De Sica, Valério Zurlini, entre outros. Quase todos mortos, algum que reste já se aposentou. Inexistem substituídos.

Gustavo Dahl conta, no programa Tarja Preta, de Selton Mello, que, em 1960, quando chegou a Roma para estudar cinema no Centro Sperimentale di Cinematografia, estavam em cartaz simultaneamente A aventura (L'avventura), de Antonioni, A doce vida (La dolce vitta), de Fellini, e Rocco e seus irmãos (Rocco i suoi fratelli), de Luchino Visconti, três marcos da história do cinema, obras de referência para o estudo da arte do filme. Atualmente, o que se pode ver em cartaz senão filmes descartáveis, que serão esquecidos com grande velocidade? No mundo contemporâneo, a velocidade das coisas é impressionante. Lançado um filme hoje, mês seguinte já saiu de cartaz, ninguém fala mais dele. Não acontecia isso em época pretérita. Um filme ficava na mente de seus admiradores por anos e anos. Durante toda a infância desse comentarista E o vento levou sempre foi uma referência, uma presença, ainda que somente viesse a contempla-lo aos 17, quando relançado em cópia 70mm no saudoso Tupy.

O cinema se encontra em profunda decadência. Claro, existem ainda bons cineastas e bons filmes, mas não se tem mais a qualidade que se tinha e não se pode cobrir o sol com a peneira. Para a nova geração, há uma impressão de que o cinema continua o mesmo. Mas não é verdade. A própria recepção do espetáculo cinematográfico mudou, é completamente diferente, e está hoje centrada num consumismo desenfreando, associando ver um filme ao consumo de guloseimas, pipocas, etc. Não existe mais a contemplação desinteressada, e o filme visto é um complemento, não o que se busca primeiro, pois o ‘ir ao cinema’ é uma das fases do processo de ‘shoppear’ (passear no shopping center). Vai-se ao cinema, hoje, como se vai a um shopping, como se olha uma vitrine, como se come um big mac. O que está a se ver na tela é algo sem importância que deve apenas impulsionar a descontração e distrair, sem, contudo, dar nenhuma emoção estética, ou qualquer contribuição ao engrandecimento do homem. O humanismo, por exemplo, parece que sumiu e atualmente um ensaio como Cinema: Um instrumento do humanismo, do grande Walter da Silveira, parece algo, infelizmente, anacrônico, de tempos idos, quando o cinema era, realmente, um instrumento do humanismo e tinha singular status político.

O imaginário do homem do século passado, o XX, foi povoado pelas imagens em movimento, pelas imagens cinematográficas. Estudar o comportamento humano na sociedade dessa época exige que se estude seus filmes, pois são reflexos da sua personalidade. Se, antigamente, o cinema era apenas um divertissement, impossível de ser levado a sério por pessoas ditas cultas, atualmente o que se vê é o estudo do cinema incluso nos currículos das universidades de todo o mundo, pois para se estudar o homem é necessário também estudar o cinema que ele produziu.

A magia, no entanto, das imagens em movimento foi se perdendo por causa da ‘vulgarização’ da própria imagem, que, antes restrita à sala escura de uma casa de espetáculos, hoje está ao alcance de qualquer um graças ao progresso tecnológico. O homem que nasce nos dias de hoje nasce vendo imagens: o DVD, a internet, etc. Reina, portanto, absoluto, o império do audiovisual, mas a magia da imagem foi se deixando acabar com a sua proliferação e conseqüente ‘presentificação’ na vida moderna.

4 comentários:

Kléssius Leão disse...

Setaro,

O que acontece hoje com o cinema, infelizmente, estende-se a todas as artes, cada vez mais esvaziadas. Mas quem tem coragem de falar mal das novas tecnologias? Logo é excluído da conversa. Não deixa de ser uma ditadura subliminar da superficialidade, da sexualidade/sensualidade barata e do mau gosto.

Jonga Olivieri disse...

A década de 60, em particular, citada por você foi uma das mais ricas da cinematografia em todos os tempos.
E, importante, tínhamos acesso ao cinema europeu, japonês, e outros com grande facilidade.
Lembro-me dos festivais e mostras dos cinemas polonês, indiano... acrescentavam ao nosso conhecimento da linguagem em todo o mundo.
Hoje em dia, apenas a indústria (de videoclips, como você bem definiu) domina as telas. Numa profusão de obras medíocres, sem conteúdo, barulhentas, repetitivas.
E, com o desaprecimento dos grandes nomes, não houve mesmo uma substir=tuição à altura.
A "magia" do cinema perdeu-se entre um saco de pipoca e um refrigerante no desreipeito de uma platéia cujo vandalismo faz-se sentir ao entrar numa sala qualquer.

Anônimo disse...

O cinema é bebado

Anônimo disse...

Sera k alguem me pode indicar um site onde eu possa fazer o download de filmes europeus?! mt obrigado

preto_feio_bonito@hotmail.com