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16 abril 2007

A miséria cultural baiana


Este artigo, publiquei-o sexta passada, dia 13 de abril, no jornal soteropolitano A Tarde, que se diz o maior do Norte e Nordeste do país.


Viveu-se na Bahia um Século de Péricles na década de 50, principalmente, e até meados dos anos 60, época considerada por alguns estudiosos do período como uma efervescência artística com pinceladas de avant-garde . Vivia-se num clima de permanente renovação dos espíritos, contrastando com o ar provinciano da cidade.


As artes eram sacudidas e apoiadas pela Universidade Federal da Bahia através de seu reitor Edgard Santos. A Escola de Teatro, para a qual veio dirigir Martim Gonçalves, referência nacional e até internacional. O Seminário de Música congregava vanguardistas, dando um toque atonal ao barroquismo baiano. Lina Bo Bardi, num ato de rebeldia, lança os fundamentos do Museu de Arte Moderna, enquanto os literatos, reunidos na porta da Livraria Civilização Brasileira da Rua Chile, pensavam o momento histórico e literário.


Os jornalistas, findos os expedientes, fechadas as páginas, bebiam cervejas no Cacique a las cinco de la tarde, ao pé da estátua do Poeta. De noite, na estreita Rua do Cabeça, a boite Anjo Azul era point obrigatório, dançante e etílico.


Mas que diferença se se for pensar que tudo isso aconteceu na Bahia! Atualmente impera, assombrosa, uma miséria cultural que é conseqüência de uma forte regressão em termos culturais sofrida nos últimos 30 anos. O teatro, antes tão rigoroso, se esfacelou num amontoado besteirol cuja tônica se encontra nas bofetadas promovidas por noviças inconformadas e rebeldes. O espectador de teatro baiano, aquele que ainda tenha a coragem de adentrar seus espaços, pode esperar de tudo: de pulos desvairados pelos palcos, gritos alucinantes, mas nada de literatura dramática posta em cena. Para não se dizer que se está aqui falando para o vento que se veja, então, Vixe Maria, Deus e o Diabo na Bahia.


Na época de Martim Gonçalves, um aluno da Escola de Teatro, que viesse a trabalhar numa peça, sorria, com os dentes engolindo as orelhas, quando era convidado, no final do curso, para trabalhar numa montagem como mordomo mudo ou de poucas falas. Somente ter o seu nome no programa da peça já era um prêmio, uma alegria, um consolo. No curso de preparação de ator, o estudante levava alguns anos para poder participar de uma montagem teatral. Com o passar do tempo, tudo foi facilitado em nome da democracia da expressão. Qualquer “analfa” está a dirigir uma peça ou a dela fazer parte. Vixe Maria! E aqueles debates da Galeria Bazarte no Politeama? O clima da Escola de Belas Artes? Tudo parece ter acabado na Bahia. Reinam o Carnaval despersonalizado e descaracterizado, as músicas gritadas e apelativas, a ausência de classe. A miséria toma conta da cultura baiana de forma avassaladora.
A Bahia regrediu culturalmente a uma estado, poder-se-ia dizer, pré-histórico, e o homo sapiens do pretérito se transformou no pithecantropus erectus do presente

.
E o cinema baiano? Bem, o espaço acabou.
Graças a Deus!

5 comentários:

Ana Claudia disse...

Caro Prof. Setaro, que covardia! Mas va lá, fica para a proxima, qdo houver.

Jonga Olivieri disse...

O que acontece na Bahia, infelizmente, também acontece me todo o país.
Chegamos a um ponto de regressão cultural em que não se lançam mais cantores, compositores, autores, seja de cinema, teatro ou literatura que se possam comparar ao que havia há coisa de anos atrás.
Mesmo durante a ditadura militar, premidos pela repressão (talvez) houve inúmeras manifestações culturais as mais expressivas.
Infelizmente, e talvez até culpa dela mesma, encontra-se o país amarrado, prisioneiro da estupidez global, dos BBB's, das novelas e da subcultura televisiva como um todo.
Infelizmente...

Bernardo Almeida disse...

Bravo, bravo!
Estamos minguando. Passamos da era da arte pela arte. Vivemos hoje a era da degeneração. A arte pela cormercialização da arte. Quem vende muito é bom! Simples, prático e malcheiroso.

Grande abraço

Kléssius Leão disse...

A culpa é, principalmente, de quem apóia e financia essas produções, que só servem para duas coisas: engordar a conta bancária de algum(a) imbecil ou irritar espectadores inteligentes.

Anônimo disse...

Nobre Setaro,

Realmente, como sugeriram alguns dos comentários, a resposta para sua insatisfação reside em uma diversidade de fatores.
Entretanto uma coisa que não foi comentada.
A cultura está sendo direcionada, e em certo sentido usurpada, para servir aos novos burgueses da Bahia: os gays ou GLBBBTTFRREESRFGGG (et coetera).
Todos os artistas estão dando a entender ou dizer claramente que gostam ou simpatizam com a viadagem para vender mais ou ter seus shows lotados.
O viados estão em todos os setores de cultura da Bahia, fazendo e consumindo a mesma arte que você julga como sendo um excrescência.
Quem é que teria coragem de levantar a voz contra isto?