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19 novembro 2009

O controverso Anselmo Duarte


Anselmo Duarte, que faleceu recentemente, nunca foi uma unanimidade entre os cineastas brasileiros. Transcrevo aqui dois artigos publicados na imprensa. Eu sempre o respeitei, diga-se de passagem. O que vai escrito abaixo, porém, é de natureza polêmica. E, a rigor, as opiniões neles emitidas não refletem as do bloguista. Mas sempre é bom se ver a discordância, a controvérsia. Porque, como disse o grande Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra.

O homem da Palma de Ouro

Conheci Anselmo Duarte, que morreu no último fim de semana aos 89 anos, na véspera de uma das principais homenagens prestadas a ele no fim da vida, com a concessão do Prêmio Oscarito pela carreira no Festival de Gramado de 1992. Vivia-se o ocaso da era Collor, que seria afastado no final daquele ano, e o cinema brasileiro estava em frangalhos. Celebrar o único cineasta nacional vencedor da Palma de Ouro em Cannes, com “O Pagador de Promessas” em 1962, era um gesto de afirmação e resistência. Ninguém melhor do que Anselmo -reconhece-se hoje, após sua longa despedida. Naquele momento, não era tão consensual assim.
Durante tempo demais, Anselmo foi esnobado pelo colegas e menosprezado pela crítica. Era considerado um galã antes que um ator; um ator antes que um diretor; um diretor antes que um cineasta; um cineasta antes que um autor.
Anselmo foi carismático demais, independente demais, ambicioso demais. Trocou a Atlântida (Carnaval no Fogo) pela Vera Cruz (Sinhá Moça), sendo a estrela masculina maior das duas principais experiências de cinema industrial de estúdio por aqui. Passou para trás das câmeras em “Absolutamente Certo!” (1957), com uma elegante comédia de costumes em torno do impacto da TV – “um bom filme popular”, anátema para tempos crescentemente engajados.
Em plena aurora do Cinema Novo, foi à Meca do cinema de autor e superou seus pares, arrebatando a primeira e única vitória brasileira no maior festival de cinema do mundo. E o fez adaptando uma peça de um colega de viagem dos cinemanovistas (Dias Gomes) em parceria com um produtor paulista de comédias despretenciosas (Oswaldo Massaini).
Anselmo teve de conviver até a morte com a “boutade” de que Cannes tinha atribuído o prêmio certo ao país certo na hora certa mas ao filme errado. O tratamento clássico de “O Pagador de Promessas”, numa era de rupturas modernistas, jamais lhe foi perdoado.
Como escrevi em 1992, a Palma de Ouro foi a um só tempo sua maior vitória e a mais invencível maldição. Tudo parece ter se passado como se Anselmo, antes que um vitorioso, fosse um traidor: um galã que se faz diretor, um outsider que rouba a cena de um grupo mais bem articulado, um contador de histórias na época de sua desconstrução.
Seu filme seguinte marcou o grande refluxo na carreira de Anselmo. Adaptado de uma poderosa peça de Jorge Andrade sobre misticismo religioso, “Vereda da Salvação” (1964) era compreensivelmente considerada pelo próprio diretor sua obra-prima. Sua “sombria balada da selva”, na definição de um crítico alemão, foi derrotada por um voto por “Alphaville” de Godard no Festival de Berlim. Recebido sem euforia pela crítica brasileira, soçobrou também nas bilheterias. Nunca mais Anselmo se recuperou.
A raiva represada serviu-lhe para realizar talvez seu maior trabalho como ator como o tenente torturador de “O Caso dos Irmãos Naves” (1967) de Luiz Sérgio Person. Atrás das câmeras, porém, jamais voltou a brilhar. Entre 1969 e 1979 realizou ainda cinco longas (de “Quelé do Pajeu”, com o jovem Tarcisio Meira, a “Os Trombadinhas”, com o aposentado Pelé) e três episódios de comédias eróticas, sempre competentes -mas a chama se fora.
Contando 72 anos quando o entrevistei naquele Festival de Gramado, Anselmo Duarte me surprendeu pelo carisma, pela memória e pelo rancor. Lembrou-me, curiosamente, o líder comunista Luis Carlos Prestes, a quem eu ouvira alguns anos antes. Marginalizados, pareciam ambos conhecer seus lugares da História muito melhor dos que todos nós seus contemporâneos. O rancor era menor em Prestes; a empatia, maior em Anselmo. A memória para detalhes dos dois era simplesmente prodigiosa.
Anselmo jamais se considerou convidado a sentar na mesa principal do cinema brasileiro. Foi um “maverick”, um “self-made man”, com um tipo de trajetória mais comum e valorizada nos EUA do que por aqui. (Seus filmes, porém, mais que americanos, parecem-me sob a influência italiana. Frank Capra e o neorrealismo foram suas fontes, reconhecia Anselmo. E Watson Macedo, seu professor).
A dimensão de seus feitos e o peso do ressentimento são evidentes nas duas autobiografias orais escritas por Oséas Singh Jr. (Massao Ohno, 1993) e Luiz Carlos Merten (Imprensa Oficial, 2004). Agora virão retrospectivas, dvds, documentários, novos livros. Nada mais merecido. Afinal, quantos marcaram o cinema brasileiro de forma tão intensa e diversa? Mas tinham que ser póstumos? Tristes trópicos.


O Grande Anselmo Duarte

Ipojuca Pontes

Morreu o grande Anselmo Duarte, de longe a maior personalidade do cinema brasileiro moderno, mesmo considerando a presença do lendário Alberto Cavalcanti. Anselmo era ao mesmo tempo um sujeito sagaz, corajoso, inquieto, engraçado, generoso, mentalmente ágil, com grande experiência de vida real e dotado de qualidade rara para quem pretende dirigir, bem, um filme: discernimento. O diretor paulista, mesmo tendo um argumento precário em mãos, sabia distinguir com clareza e enfrentar com paciência e criatividade os obstáculos técnicos, materiais e humanos encontrados num set de filmagens, e a todos superar – coisa difícil de ver, por exemplo, em qualquer espécime do Cinema Novo - vivo ou morto.
Em setembro passado, Anselmo tinha sido internado no Incor de São Paulo, para tratamento cardiológico, comprometido por uma isquemia no miocárdio. Quando li a notícia, sabendo que o cineasta estava beirando os 90 anos, telefonei para o hospital. De lá, me informaram que o seu quadro clínico estava normalizado e que voltara a Salto, cidade onde nasceu, voltou a morar e prestou depoimento imperdível, em forma de livro, ao jornalista Oséas Singh Jr - “Adeus Cinema” (Massao Ohno, 1993, S. Paulo) – denunciando, com fatos incontestáveis, a canalhice vigente nos bastidores do cinema caboclo.

Em outubro, 28, ele dera entrada no Hospital das Clínicas, em São Paulo, vítima de um acidente vascular cerebral hemorrágico, vindo a falecer na madrugada do dia 7, sábado, após dez dias de embate com a morte. Seu coração estava na tipóia, mas o grande Anselmo não queria entregar os pontos. “A morte na cama é burlesca” – gostava de repetir.
Confesso ao leitor que iniciei a atividade de crítico cinematográfico, em 1962, escrevendo sobre “O Pagador de Promessas”, único filme brasileiro a ganhar um prêmio decente num festival (até então) decente - a Palm D’or de Cannes. Meu arrebatamento com o filme de Anselmo suplantou sob todos os aspectos a boa vontade que tive com o cinegrafismo pastiche de “Os Cafajestes”, de Rui Guerra, outro filme lançado na mesma temporada.
No jornal “A Notícia”, de João Pessoa, assim concluía a resenha de estréia sobre “O Pagador”: “Em síntese, Anselmo Duarte irá morrer e levará muitas décadas até que o cinema brasileiro faça filme tão harmoniosamente estruturado, tão bem resolvido em termos dramáticos e tão exemplarmente dirigido. O realizador controla com perfeição a sensibilidade dos intérpretes, matiza a iluminação funcional à propriedade dos enquadramentos, cadencia o ritmo das cenas e das sequências com mão de mestre. O trabalho de Duarte é um desses acontecimentos raros que redime um cinema atolado na mediocridade, na mesmice e no eterno culto à esperança. Aleluia!”.
São palavras de um crítico iniciante com menos de 20 anos, as quais assinaria ainda hoje, sem pestanejar. Com efeito, a despeito do populismo ordinário de Dias Gomes (autor da peça em que o filme se inspira), a saga trágica de Zé do Burro para cumprir a todo custo sua obstinada promessa, transposta por Anselmo, proporciona ao espectador a catarse aristotélica só vivenciada ao cabo das melhores tragédias gregas. Foi por isso, seguramente, que o filme arrebatou a Palma de Ouro e deu um chega-pra-lá em cineastas como Buñuel, Antonioni, Cacoyannis, Germi, Visconti, Monnicelli, Bresson, Varda, etc. – velhos comunistas cerebrinos.
Como D.W. Griffith (1875-1948), o gênio esquecido que criou a linguagem do cinema e fundou Hollywood, Anselmo Duarte aprendeu cinema fazendo cinema – de fato, a melhor e única maneira de aprender. Nos “filmes de carnaval” da Atlântida e nas produções industrialmente elaboradas da Vera Cruz, o paulista de Salto integrou-se no cinema e dele viveu como projecionista, galã, ator, argumentista, roteirista, montador, cenógrafo e músico. Talento natural lapidado com muito suor, só depois de longo aprendizado técnico do metier, se fez diretor e produtor de filmes. Seu mestre foi Watson Macedo, o eficiente inventor das chanchadas carnavalescas. Nunca foi diletante, nem teve pai rico ou partido político atrás de si. Sua dialética não era a das teorias concentracionárias, mas, sim, a da própria vida.
Em 1981, tive a honra de receber de suas mãos prêmio de melhor direção do Festival de Cinema de São Paulo pelo filme “A Volta do Filho Pródigo”, uma leitura às avessas da parábola bíblica. Ele foi generoso comigo, em elogios. Ao agradecer, deixei o prêmio de lado e disse aos presentes que já era hora do cinema reconhecer em Anselmo Duarte a maior personalidade viva da atividade e um diretor a quem todos nós deveríamos louvar pelos sólidos caminhos que abriu para o cinema brasileiro enquanto arte e indústria. À saída, um patrulheiro do Cinema Novo, parente de diplomata, interpelou-me:
- “Você acha que Anselmo é isso tudo?”
- “Eu só digo o que acho verdade, David”.
Anselmo Duarte costumava afirmar que o ódio dos integrantes do Cinema Novo contra ele - ódio que tratou de destruir sua obra, tornou sua vida um inferno e o levou à amargura - era pura inveja. Desde cedo, quando ainda filmava “O Pagador de Promessas” nas escadarias da Igreja do Paço, em Salvador, o boquirroto Glauber Rocha o tratava como “galã boa pinta”. Posteriormente, com a premiação de Cannes e a realização de “Vereda da Salvação”, obra antológica e de raro vigor cinemático dentro do insosso panorama do cinema nacional, o “gênio baiano”, no comando da corriola amestrada, passou - pelas costas - a “assar a batata” do grande cineasta paulista.

Eis o argumento embusteiro do sectário Rocha contra o filme de Duarte: “Ele filma uma realidade de esquerda com a ideologia de direita. Zé do Burro – personagem central de “O Pagador de Promessa” - é um camponês alienado. É bom que a crítica mantenha expectativa em torno de Anselmo Duarte”. Pelo amor de Deus! Que miséria! Mas tal patacoada glauberiana, assimilada porcamente nos meandros da vulgata marxista, pegou como fogo em palha nos anos cavernosos do “tolo útil” Jango Goulart, ao tempo em que o receituário chinfrim do grupo engajado administrava o primitivo (e bárbaro) “Cinco Vezes Favela” – o mais indigente panfleto político jamais concebido na história da alienação (econômica, psiquiátrica ou marxista) cinematográfica.
Anselmo Duarte tinha razão quando dizia que o ódio da patota do Cinema Novo alimentado contra ele era pura inveja. Mas, apenas parcialmente. De fato, o processo de destruição pública do grande cineasta fazia parte de um processo bem mais objetivo, especialmente familiar aos comunistas: o da luta pelo poder – o que significa privilégios e impunidade. Num cinema levado adiante por ex-estudantes universitários incompetentes e pretensiosos, todos eles à sombra da gororoba marxista e ansiosos pela grana fácil do governo (leia-se contribuinte), a presença de um cineasta genuíno e amado pelo público representava uma grave ameaça, ainda mais quando este cineasta tinha o aval do melhor filme do Festival de Cannes e conhecia todos os meandros do ofício.
Cultores fanáticos da indústria do “prestígio” reverberada pela mídia “companheira”, infensos à verdade das bilheterias, não é em vão que os Diegues, Santos e Jabores da vida se forram hoje em milhões de dólares sugados das tetas da Petrobrás e símiles: o verdadeiro cinema, representado por realizadores como Anselmo Duarte e Luiz Sérgio Person, por exemplo, teria de ser triturado.E o foi. Sem dó nem piedade.
16.11.2009

"Cascalho" na abertura do FESTNATAL

Toca o telefone. Ainda estou dormindo, mas me levanto para atendê-lo. Alô! E, do outro lado da linha: "Velho, pela informação que tenho Cascalho foi convidado para abrir o FESNATAL, quando o ator Othon Bastos será condignamente homenageado. Achei ótimo, um verdadeiro alumbramento, a lembrança deste filme de barbas brancas, dividindo o palco com este ator que já deixou sua marca do zorro na dramaturgia nacional. O habitat de um filme é a luminosidade da tela grande, no sacrossanto escurinho do cinema. É um bom momento para esta fita que padece com a crueldade da distribuição do cinema de baixo orçamento, pero sim perder la ternura jamas, assim como sem perder o humor... Que os Anjos digam Amém!!!!"
Como se pode perceber era o Tunático, realizador baiano autor de Cascalho, que abre hoje, dia 19 de novembro, o FESTNATAL (festival de cinema de Natal, Rio Grande do Norte). O velho Tuna já dever estar por lá para prestigiar, com a sua presença, seu primeiro rebento no longametragismo.
Baseado no romance homônimo de Herberto Salles, Cascalho gira em torno de coronéis, garimpeiros e civis comuns, todos motivados pela ambição, que vão para Chapada Diamantina na busca desenfreada para enriquecerem com os minérios do local, na década de 30.
Na foto, Othon Bastos, que será devidamente festejado no evento pela sua longa filmografia, pela sua importância como ator.

18 novembro 2009

Brasília: seara do cinema baiano

Homem de mil instrumentos (jornalista, cineasta, goleiro de baba, produtor cultural), Raul Moreira, baiano e italiano, italiano e baiano (não necessariamente nesta ordem), encontra-se em Brasília para agitar o festival que ora se realiza na capital da República (que, pelo andar da carruagem, está cada vez menos atenta ao espírito republicano). Realiza uma série de vídeos a relembrar momentos pretéritos do evento em parceria com Cássio Sader. Aqui mostra como os filmes baianos tiveram presenças marcantes nas últimas décadas. Mas deixemos de conversa e vamos ver o que ele nos presenteia.


17 novembro 2009

O dia em que Glauber deu um esporro em Jean Rouch

Um clip que mostra alguns momentos da história do Festival de Brasília, que ora acontece no Planalto Central do país. Como destaque, Jean Rouch a filmar um africano e a chamá-lo de idiota. Há também a notícia de Glauber ter dado no famoso cineasta etnográfico um bruto esporro. A ver. Feito por Raul Moreira e equipe.


15 novembro 2009

Cinema sem Camarão


Os eventos cinematográficos estão a se multiplicar em Salvador. Festivais e mostras maiores, temos diversos: o Seminário Internacional de Cinema e Audiovisual (julho), o Panorama Internacional Coisa de Cinema, o Festival de Cinema Sala de Arte (outubro) e a longeva Jornada Internacional de Cinema da Bahia, cujo comandante, Guido Araújo, singra mares bravios todo mês de setembro. E há eventos menores patrocinados por universidades, como, por exemplo, agora, as palestras mensais de Cinema e Comida, e, na semana entrante, na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, o seminário Cinema sem Camarão, idealizado por Matheus Pirajá. Aqui vai o release que recebi. Abrindo aspas.
"Cinema sem Camarão remete à nossa entidade gastronômica maior: o acarajé. Uma coisa da terra, valiosa, deliciosa, mas que, quando vendida sem camarão, sempre é mais barato. A mesma lógica rege o cinema soteropolitano independente. Buscando uma vanguarda de alto custo e baixo orçamento, surge o Cinema sem Camarão, onde serão realizadas mesas de debates voltadas para a produção de cinema em Salvador.

A primeira edição do evento será realizada nos dias 19 e 20/11, no auditório da Faculdade de Comunicação da UFBA, das 14 às 17 horas. Participarão André Setaro, Umbelino Brasil, Davi Lopes, Gabriel Teixeira, Rafael Raña, Caio Araújo, Expinho, Marceleza de Castilho e Sophia Mídian".

As inscrições são gratuitas e poderão ser feitas através do blog do evento:
http://cinemasemcamarao.wordpress.com/

O quê? Cinema sem Camarão
Quando? 19 e 20/11, das 14 às 17 horas
Onde? Auditório da Faculdade de Comunicação da UFBA
Quanto? Gratuito
Maiores informações:
cscamarao@gmail.com
Matheus Pirajá – (71) 8858-9804 / teubla@gmail.com

12 novembro 2009

Tuna Espinheira paga a sua promessa

O pagador de promessas (vemos na imagem o personagem Zé do Burro a carregar a sua cruz interpretado pelo ator paulista Leonardo Villar), de Anselmo Duarte, tão maltratado pela tchurma do Cinema Novo, quer queiram ou não seu detratores, foi o único filme brasileiro a conquistar a Palma de Ouro no Festival de Cannes. O velho cineasta baiano Tuna Espinheira (cujo Cascalho não chegou a ir a Cannes por injunções burocráticas e da falta de oportunidade do cinema baiano ter seu lugar ao sol), num artigo que escreveu quando do lançamento dos quatro volumes do pensamento cinematográfico de Walter da Silveira, faz observações interessantes deste ensaísta em relação ao filme de Anselmo, pois Walter estava em Cannes quando da premiação de O pagador de promessas.

O próprio Tuna também acha um absurdo a exclusão desta obra singular do cinema brasileiro. A seguir um trecho do artigo. Vamos abrir aspas para evitar constrangimentos desnecessários.

"Dr. Walter da Silveira, muito respeitado aqui e além mar, recebia convites para os mais importantes festivais Internacionais. Deu-se que, em 1962, ele foi o único crítico brasileiro oficialmente convidado pelos Festival de Cannes, exatamente no ano em que o Brasil arrebatou a Palma de Ouro. Em seus escritos, ele relata a alegria de ver o filme brasileiro, O Pagador de Promessas, ser tão bem recebido pelo público, com aplausos estonteantes e elogios da crítica. Viu François Triffault, alí como membro do Juri, gritando: Bravo!!! Bravo!!! (Dirigidos ao Pagador...) Conversou com críticos e outras personalidades do cinema. As opiniões eram todas favoráveis. Mas havia muitos concorrentes, entre eles alguns "Monstros Sagrados", tais como: Luis Buñuel, Robert Bresson, Antonioni, etc.

Diante da empatia do filme brasileiro dava para acreditar que, de lá não sairia "pagão", algum prêmio significativo haveria de ser dado. Mesmo com o grito de GOOOLLLL!!! Travado na garganta. Nosso crítico desabafa com o Anselmo e faz esta incrível declaração: "Como brasileiro toda minha torcida é pelo Pagador de Promessas, como crítico minha escolha seria outra". Ele poderia muito bem ter se poupado desta declaração. É claro que o Anselmo não iria achar um pingo de graça! Mas, por estas e outras, mais uma vez, confirma-se a honestidade intelectual do crítico Dr. Walter da Silveira.

Pinçamos um pequeno trecho de um escrito do dr. W. da Silveira: O pagador de promessas alcançou uma vitória mundial. Mas esta não poderia advir de relativos acertos de técnica e de estilo do filme. Foi o caráter brasileiro do drama que malgrado várias imperfeições, lhe deu a Palma de Ouro. Aquele retrato de um povo, na sua tipicidade de costumes e sentimentos. A medida da nossa autenticidade. Uma originalidde nacional, a surpreender, encantar e comover outras nações".
Enfim, não se faz mais Dr Walter da Silveira como antigamente e Viva Anselmo Duarte!!!


Mais Tuna:
"O DNA do dito Cinema Novo, é o Neo Realismo do Roberto Rosselinni, isto não é novidade pra ninguém. Mas, não tenho dúvida que foi um divisor de águas. Produziu filmes emblemáticos. Pra mim, nunca foi uma marca de linguagem, como a Nouvelle Vague e outros tantos ditos movimentos. Nunca entendi, por exemplo, a razão da exclusão do Pagador de Promessas, filme que trouxe a única Palma de Ouro, prêmio dos mais emblemáticos, do rol das realizações do chamado Cinema Novo. Teria sido a síndrome do Clube do Bolinha? Acho que, a grande façanha do CN foi a redescoberta, para a imagem em movimento, do Brasil. Dentro daqueles inspirados versos de Noel Rosa: “São nossas coisas, são coisas nossas”. O Pagador não seria isto aí? Enfim, Marketing é Marketing... Quem contrariar o dito pelo dito, comete heresia..."

Falou, caro Tuna, e disse!

10 novembro 2009

Mestre Fritz Lang dá uma tragada

Mestre do expressionismo alemão, Fritz Lang (1890/1976) realizou, para esta escola, alguns de seus filmes mais representativos, a exemplo de A morte cansada (Der müde tod, 1921), Dr. Mabuse (Dr. Mabuse, der spieler -Ein Bild der Zeit, 1922), Metrópolis, Die Nibelungen, 1924), e o insuperável M ( M - Eine Stadt sucht einen Mörder, 1931, com Peter Lorre), entre outros. Quando Hitler assumiu o poder, convidado por Goebbels para dirigir o cinema nazista oficial, Lang deu o fora, partindo para Paris, onde fez um filme, mas, logo depois, viajou para os Estados Unidos. Há, portanto, em Fritz Lang, duas fases na sua trajetória de realizador cinematográfico: a fase alemã, do expressionismo (fala-se, inclusive, que muitas idéias de O gabinete do Dr. Caligari, clássico de Robert Wiene, 1919, são de sua autoria), e a fase americana constituída de obras do quilate de Fúria (Fury, 1936), Vive-se só uma vez (You only live once, 1937), A volta de Frank James (The return of Frank James, 1940), O homem que queria matar Hitler (Man hunt, 1941), Um retrato de mulher (The woman in the window, 1944), Almas perversas (Scarlet Street, 1945), O diabo feito mulher (Rancho Notorius, 1951), Os corruptos (The big heat, 1953), Desejo humano (Human desire, 1954), Suplício de uma alma (Beyond a reasonable double, 1956), entre outras.

No final da carreira realizou, fora dos Estados Unidos, um díptico: O tigre da Índia e Sepulcro indiano. No seu último filme, volta as origens mabusianas no impressionante e premonitório Os mil olhos do Dr. Mabuse (Die 1000 Augen des Dr. Mabuse, 1960).

Na imagem, roubada do site de Carlos Reichenbach, Lang está a fumar seu cigarrinho num intervalo das filmagens de O desprezo (Le mépris, 1963), de Jean-Luc Godard, no qual participa como ator convidado como ele mesmo.

08 novembro 2009

Entrevista ao pé da fogueira


Transcrevo aqui, neste domingo, uma entrevista feita comigo pelo site Bahia Notícias (http://www.bahianoticias.com.br/) do jornalista e analista político Samuel Celestino.

"André Setaro é um amante do cinema. Dizer isso é mais importante e verdadeiro que dizer que ele é um dos maiores críticos de cinema do país. Mas ele também é isso. Sempre emoldurado por indefectíveis óculos de sol, Setaro, que também é professor de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, deixa entrever nos reflexos de sua fala uma certa nostalgia. Entretanto, não quer ver a humanidade andando para trás e apóia o uso de novas ferramentas para a construção do cinema. “Tudo é válido. Desde que haja talento”, diz. Neste papo, André Setaro fala sobre o início da sua relação com as imagens em movimento, de estética, pipoca, Hollywood, Globo Filmes, e, entre outras coisas, confecciona uma lista pessoal para quem pretende entender a cinematografia brasileira.


JM – Uma pergunta para se fazer a um crítico antigo: ainda existe crítica de cinema no Brasil?

AS – A grande crítica de cinema já morreu! Aquela que existia nos suplementos literários dos jornais, até mesmo aqui da Bahia, que escrevia textos grandes, reflexões, verdadeiros ensaios sobre o cinema, esta crítica já não existe mais. Inclusive pela própria transformação do jornalismo, que cada vez mais apequena os textos. Veja que agora mesmo tivemos o fim do Suplemento Cultural de A Tarde, que bem ou mal, dava um espaço... era bom.

JM – Nelson Rodrigues dizia que ‘os idiotas da objetividade’ inventaram o copy-desk e mesmo que o mundo se acabasse isso teria de ser noticiado de maneira direta, curta e impassível. Você acha que esse mundo moderno e veloz tem impedido a reflexão mais profunda?

AS – É claro que sim, a comunicação hoje se faz através de monossílabos, vide o MSN. Pelo que eu tenho observado, não há uma enunciação de um pensamento, uma interlocução. O sujeito só fala ‘Ah!’, ‘Tá Bom’, ‘É’... Não se debate idéias.

JM – Mas você tem uma coluna no Terra, de cinema. Você se preocupa com o tamanho dos textos que saem ali, ou escreve tudo o que considera necessário?

AS – Geralmente duas laudas. Duas laudas e meia, se for o caso. Mas também a morte da crítica, por assim dizer, vem acompanhada da morte do cinema. Porque o cinema decaiu muito. A indústria cultural hollywoodiana , com as honrosas exceções de praxe, produz um lixo cultural imenso, não é? Um cinema de ação ininterrupta, etc. Evidentemente que existem ainda bons filmes, Entre os Muros da Escola, Grand Torino...
JM – Aproveitando que você falou em bons filmes, quero saber como e quando começou a sua relação com o cinema e porque fazer crítica e não filmes?
AS – Bem, a minha relação com o cinema começa quando eu comecei a ir ao cinema, aos sete anos de idade.

JM – (interrompendo) Já existia cinema (risos)?
AS – (mais risos) O cinema existia! E existia de uma maneira mágica! E eu me atraí. Então eu tenho 59 [anos], veja bem, há mais de cinqüenta anos que eu vou ao cinema. É muito não é? Uma estrada já longuíssima. Eu comecei freqüentar o cinema e depois, adolescente, passei a freqüentar o Clube de Cinema da Bahia, ficava ouvindo Walter da Silveira falar sobre os filmes... aí eu comecei a entender que o cinema, além de uma grande diversão, era também uma expressão artística, e passei a ver aqueles filmes de Michelangelo Antonioni, a Nouvelle Vague, Jean Luc Godard, François Truffaut, Federico Fellini, cinema japonês, Akira Kurosawa, Alain Resnais, Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Aí comecei a rabiscar, até que em 1974 eu ingressei na Tribuna da Bahia e comecei a fazer críticas diárias. Eu tinha uma coluna diária, na Tribuna, grande, um tijolo [simula um tamanho com as mãos], por 20 anos! Eu ía ao cinema todos os dias e tinha que elaborar um texto diariamente... foi assim que começou.
JM - E por que não fazer filmes?

AS – Eu já participei de filmes como assistente de direção, fiz pontas como ator... mas eu sou um sujeito muito preguiçoso, a verdade é essa. E o cinema dá muito trabalho. Para fazer um filme você tem que se jogar mesmo, de corpo e alma, e como eu sou preguiçoso... Eu já tive idéias, já comecei, fiz o roteiro, mas não ía até o fim.

JM – Melhor fazer crítica que é mais fácil (risos).

AS – [rindo] Mas não tem esse negócio de que crítico é cineasta frustrado. Isso é balela. Eu sou um apreciador do bom cinema.
JM – E afinal de contas existe mesmo um cinema baiano ou isso é narcisismo local?

AS – Não. O cinema baiano não existe porque para a existência de uma cinematografia é necessário que haja uma produção continuada. Existem sim, filmes baianos. Mas não existe uma cinematografia baiana estabelecida. Falta principalmente infra-estrutura para se ter uma continuidade de produção.

JM – Claro, mas e a restauração de Redenção, do Roberto Pires, você considera isso importante?

AS – Importantíssimo! Por que foi o primeiro filme baiano de longa-metragem e um trabalho artesanal que denota um rigor... uma procura de uma expressão pelas imagens em movimento numa época em que não existia possibilidade nenhuma na Bahia, tudo tinha que ser feito no Rio [de Janeiro], revelação, a compra de filme virgem era difícil... Então foi um trabalho de Hércules se fazer Redenção. Embora o filme seja um ‘policial’ meio amadorístico. Mas é muito importante essa restauração. É a memória não é? Além do mais é a memória não só do cinema mas de uma Bahia daquela época.

JM - E o cinema tem essa ligação com a memória muito grande, não é? Ele é um instrumento para armazenar imagens de uma época. Ele tem esse poder.

AS – Claro, ele tem esse poder. Por exemplo, os filmes dos anos 40, 50, você vê como era a sociedade daquela época, como as pessoas se vestiam, os costumes, os gestos. Um dia desses eu estava reparando como o tom gestual era diferente do de hoje, que é uam coisa mais largada. Era mais formal, existia uma convenção das normas comportamentais.

JM – Em entrevista recente, o poeta Décio Pignatari comentou que a poesia concreta foi o fim do verso tanto quanto a televisão foi o fim do cinema. E soltou a piada: “o Brasil nem chegou a fazer grande cinema e o cinema já acabou”. Quero que você comente essa declaração.

AS – É uma declaração um pouco frase de efeito e radical. Por que o surgimento da televisão abalou muito a indústria cinematográfica, mas não matou o cinema.

JM – Mas eu acho que o que o Décio disse também vai por este caminho, já que a poesia concreta abalou e modificou, resignificou o verso, mas não acabou o verso. Neste sentido você acha que o surgimento da televisão obrigou o cinema a se reestruturar, se adequar a novas linguagens, a novos mecanismos de captação e edição de imagens? Como você vê essa relação cinema-televisão? Hoje em dia se reclama muito que, por exemplo, os filmes produzidos pela Globo Filmes ficam parecendo produções televisivas.
AS - Quando a televisão surgiu e os americanos começaram a fazer muitos seriados, o cinema precisou se reciclar, no sentido de dar mais agilidade aos filmes, para concorrer. Até mesmo Psicose, de Hitchcock, é um filme feito com orçamento de televisão. Um filme barato, como se fosse um filme de televisão, e se tornou uma obra-prima. Basta dizer que, quando a televisão surgiu nos Estados Unidos, metade dos cinemas fechou as suas portas. Então a indústria ficou muito tocada... e colocou o ‘cinemascope’, que já existia mas não estava implantado, em 1953. Isso tudo conseqüência da entrada da televisão. Inventaram também o cinerama, a bitola de 70mm, para dar a grandiosidade que você não poderia ter na televisão. E o som stereo.
JM – Agora, como você vê esses novos complexos de exibição, tipo Multiplex ou o Glauber Unibanco -onde antes era o Cine Guarany- com diversas salas, muita pipoca, guloseimas e etc.?

AS – Isso é decorrência da sociedade de consumo e do capitalismo cada vez mais selvagem. Quando eu gostava de ir ao cinema, cada um tinha suas características, seus estilos arquitetônicos, então eu associava muito: vi tal filme em determinado cinema; vi Spartacus no Tupi, vi Rastros de Ódio no PAX, e hoje a coisa é tudo uniforme. Você não vai mais ao cinema, você vai ao shopping e depois, como uma das fases do ‘shoppear’, vai ao cinema. O que eu vejo na platéia de hoje é uma apatia doentia, quase esquizóide em relação ao filme. O sujeito vai ao cinema pra telefonar com o celular, para comer [ressaltando] baldes de pipoca, não é mais o coitado do saquinho antigo, são baldes de pipoca, estabelece-se uma comilança... E as conversas fora de hora. Há uma deseducação que acompanha essa velocidade do consumo do capitalismo, que incentiva muito isso não é? E também os filmes com os cortes cada vez mais rápidos, que, inclusive você não tem nem tempo de contemplar a tomada porque já foi. E a contemplação é muito importante na penetração do conhecimento.
JM – Então é verdade que você freqüenta as sessões da madrugada?
AS – Não. È o seguinte, eu estou com um problema cardíaco e de pressão, e eu tenho que assistir ao filme com absoluto silêncio senão fico perturbado, minha tensão arterial sobe. Então não posso ir ao Multiplex sábado de tarde, então eu tenho que ir na última sessão, que geralmente é mais vazia. JM – E o cinema, afinal, é um instrumento para contar histórias ou ele tem obrigação de ir além disso?
AS – O cinema é um instrumento de contar história e também de não contá-la. O cineasta pode se expressar fazendo filmes-ensaios, como Jean Luc Godard, onde não há uma história contada linearmente. Tudo é válido. Desde que haja talento.

JM - Para quem quer entender a evolução da cinematografia brasileira, quais são os filmes fundamentais que você indica?

AS - O melhores filmes do cinema brasileiro, para mim: Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe, de Glauber Rocha; Vidas Secas de Nelson Pereira dos Santos; São Paulo Sociedade Anônima, de Luís Sérgio Person; O Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla; Noite Vazia, de Walter Hugo Khouri; Ganga Bruta, Umberto Mauro; Limite, de Mário Peixoto; O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade; entre outros.
JM – Fale um pouco sobre o cineasta Edgard Navarro. AS – Olha o Edgard Navarro é um talento. Eu acredito que seja o mais talentoso cineasta baiano de sua geração. Ele está muito acima dos outros, na minha opinião. Haja vista o SuperOutro, que é um filme muito bom. Eu Me Lembro é um filme, apesar de alguns defeitos estruturais, também muito bom. Agora ele está fazendo O Homem Que Não Dormia, já tá pronto, só falta a montagem. Edgard é um sujeito até cultuado no Sul do país.
JM – Este ano o Seminário Internacional realizou uma retrospectiva Godard, o diretor que revolucionou a linguagem do cinema com, entre outras coisas, o uso de equipamentos mais leves. Você tem acompanhado essa nova moçada que vem fazendo filmes com celular, câmera digital e outras mini-ferramentas?

AS – Olhe, houve uma revolução com a informática, com as novas tecnologias. Antigamente, na minha época, o sujeito para fazer um curta metragem era muito difícil, por que demandava um fotógrafo profissional, câmeras pesadas... e hoje o sujeito faz filme até no celular. Houve uma espécie assim de democratização da expressão cinematográfica, da expressão pelas imagens em movimento. Agora como hoje é muito fácil se fazer um filme, você pega o celular e faz uma história, então todo mundo tá fazendo filme, mas 90% do que se faz o tempo vai jogar no lixo, no seu devido lugar, porque de talento aí tem muito pouca coisa. Tem muito é lixo. Mas é importante. Eu sou a favor da liberdade de expressão. Que se faça milhões e milhões de filmes, o tempo, senhor da razão, o grande crítico, vai jogar tudo no lixo (risos).

JM – Agora, cinema é ou não é uma abreviatura de cinemamericano?

AS – É. O cinema americano instituiu um padrão de linguagem cinematográfica, a língua narrativa, montagem narrativa, que as pessoas associam o cinema com o espetáculo americano. O grande público acha que cinema é aquele filme estruturado no modelo narrativo americano. O grande público reage mal a um filme de Bergman, de Antonioni, mesmo a filme de Godard, isso fica para um mercado muito restrito.

JM – Mas é possível fazer cinema fora desse padrão?

AS – Claro. E nós vemos aí Lars Von Trier, dinamarquês, e vários filmes que estão completamente distantes do modelo narrativo de Hollywood.

JM - O cinema sempre esteve, até por suas dificuldades de feitura -que demandam muitos recursos- próximo ao Estado, inclusive como arma de propaganda de diversas ideologias. Essa proximidade atrapalha o artista?
AS – Você veja, o cinema baiano do ano 2000 pra cá, todos os longas (ou uase todos) foram patrocinados pelo Estado, através do concurso de roteiros. Então, se não fosse o Estado, o cineasta baiano não teria condições de fazer longa-metragem, por que o empresário baiano é muito ignorante em relação a se dispor a investir em cinema. Já no Sul é melhor. Aqui eles são muito tacanhos. Então o cineasta baiano depende do Estado. Se você vai fazer um filme e quer concorrer e ganhar você não pode tocar em certos temas. Aí já existe a auto-censura e a restrição à liberdade. Você não pode fazer um filme, tê-lo aprovado, vamos dizer, falando sobre o mensalão do PT, porque o governo é de Wagner do PT e a comissão julgadora é indicada lá por pessoas que se afinam não é? Então é um cerceamento à liberdade.
JM – E a sua relação com os óculos? É verdade que você não tira nem pra tomar banho?
AS – Eu durmo de óculos (risos).
JM – Você falou dos filmes fundamentais. E desses novos, do novo boom do cinema nacional: Cidade de Deus, O Homem Que Copiava e etc. Algum chama a sua atenção?

AS – É, começou com Central do Brasil...

JM – Ou Talvez com O Quatrilho. Teve também Carlota Joaquina, de Carla Camurati, filmes que foram, de certa forma, ressuscitando o cinema nacional...

AS – Tem os filmes de Beto Brant: O Invasor; Matadores. Tem os filmes de Eduardo Coutinho, grande documentarista: Edifício Máster; entre outros. Agora o que tá existindo é a Globo, que entrou na produção cinematográfica e tá fazendo filmes que parecem séries de TV. Principalmente os dirigidos por Daniel Filho: Se Eu Fosse Você 2 (que é o grande sucesso não é?); Primo Basílio; são filmes televisivos e pouco cinematográficos.
JM – E para terminar, uma mensagem para um aspirante a cinéfilo.
AS – O cinéfilo hoje, se ele é sério e vê o cinema com seriedade, sofre o diabo, porque tem que agüentar os vândalos que vão ao cinema, então tem que fazer como eu: ir na calada da noite, o que é chato. Mas eu diria o seguinte: procure ver as grandes obras do cinema, através do DVD. Porque tem muita gente que pensa que o cinema nasceu em 1980. Procurem ver os grandes clássicos do passado. Isso é importante.

07 novembro 2009

Trailer de "Absolutamente certo"

Trailer de Absolutamente certo (1958), o primeiro longa metragem de Anselmo Duarte, com Odete Lara, Anselmo, Dercy Gonçalves, Aurélio Teixeira, entre outros. Ótima comédia.


E lá se foi Anselmo Duarte


Morreu, nesta madrugada de sábado, vítima de um AVC (Acidente Vascular Cerebral), aos 89 anos, o diretor e ator Anselmo Duarte, único cineasta brasileiro a receber a cobiçada Palma de Ouro do Festival de Cannes (1962) com O pagador de promessas. Invejado por seus colegas, teve carreira tumultuada. O blog presta, aqui, uma homenagem a Anselmo Duarte.

04 novembro 2009

Vincente Minnelli: sofisticação e estesia


Em 1903, nasce em Chicago (Illinois) Vincente Minnelli, que vem a morrer em 1986, aos 83 anos de idade, considerado um dos maiores diretores do cinema americano de todos os tempos. Ainda pequeno, apenas a iniciar o seu conhecimento do mundo, aos 3 anos, atua na companhia paterna Minnelli Brothers Dramatic Tent Shows, especializada em espetáculos de vaudeville. Adolescente, o jovem Minnelli estuda decoração e trabalha como fotógrafo em um estúdio de Chicago, revelando, desde já, o gosto pela coreografia e pela composição. O circuito Balaban & Kats lhe contrata como decorador e figurinista, trabalho que desempenha até ser nomeado diretor artístico do Paramount Theatre de New York e do imponente Radio City Music Hall. Distante de sua terra natal, e com residência permanente em New York, dá início ao trabalho de direção de balés e espetáculos musicais na Broadway (At home abroad, Ziegfeld Follies, The show is on, etc). Em 1937, contratado pela Paramount, muda-se para Hollywood e, três anos depois, a MGM, o estúdio de maior envergadura na época, tira-o da empresa onde trabalha para ficar full time a seu serviço. Louis B. Mayer, acompanhando seus projetos na Paramount, vê em Minnelli um futuro promissor em seu estúdio, considerando que este é o que mais investe em musicais. Na MGM, Minnelli leva a cabo um profundo aprendizado em todos os departamentos de produção. Para assumir a direção, basta, apenas, uma oportunidade, que lhe é chegada com o convite de Arthur Freed (famoso produtor de musicais, entre eles Cantando na chuva) para dirigir, em 1942, Uma cabine no céu (Cabin in the sky), fantasia musical sobre as comunidades negras do sul.

Todos os historiadores do filmusical americano não têm dúvida ao afirmar que o gênero se transforma radicalmente com a chegada de Minnelli à Hollywood, pois o seu gênio faz integrar os elementos ficcionais da história com a música e as canções. Estas se tornam o próprio assunto do filme. Grande especialista em espetáculos musicais, Vincente Minnelli, após conceber Agora seremos felizes (Meet me in St. Louis, 1944), O ponteiro da saudade (The clock, 1944), Yolanda e o ladrão (Yolanda and the thief, 1946), e O pirata (The pirate, 1947) - que exerce influência poderosa em Gene Kelly, que, aqui, trabalha ao lado de Judy Garland, a qual se casa com o realizador, encantado que fica Minnelli pelo extraordinário talento dessa cantora e atriz única, revoluciona o gênero, inaugurando, com eles, uma nova escola do musical cinematográfico, que logra seus títulos oficiais de nobreza com Sinfonia de Paris (A american in Paris, 1951), filme pelo qual recebe o Oscar de melhor direção, que voltaria a ganhar em 1958 por Gigi.

Martin Scorsese, em sua aula sobre o cinema americano, que saiu completa em três vídeos, destaca, entre as suas sequências preferidas, a de Meet me in St. Louis, quando a menina, numa noite de Natal, ao saber que vai sair de sua cidade, quebra todos os bonecos de neve que ela constrói no quintal. Há, nesta seqüência admirável, uma conjunção musical e dramática poucas vezes superada. Em Sinfonia de Paris, que tem roteiro assinado por Alan Jay Lerner (My fair lady), com a partitura recheada de George Gershwin, um pintor americano (Gene Kelly), que vive em Paris, é cortejado por bilionária (Nina Foch), mas gosta de uma linda moça (Leslie Caron), que, no entanto, é noiva de seu amigo francês (Georges Guétary).

Segundo o historiador francês Georges Sadoul, este cine-balé não é uma revista em estilo de teatro de revista, mas uma ópera cujas danças e músicas fazem parte de uma ação dramática. A coreografia, criada por Gene Kelly, é esplendorosa, principalmente nos 17 minutos finais, quando presta uma homenagem aos grandes mestres franceses: Toulouse-Lautrec, Raoul Dufy, Utrillo, Renoir, etc. Minnelli, porém, não se consolida apenas como um brilhante diretor de filmes musicais. Em sua extensa filmografia, podem ser distinguidas três vertentes: a do musical, que tem em A roda da fortuna (The band wagon, 1953) sua obra mais perfeita, a que se deve aplicar o termo obra-prima do gênero, a dos dramas ásperos e desesperados, cujos exemplares mais notórios são Assim estava escrito (The bad and the beautiful, 1953), Deus sabe quanto amei (Some came running, 1959), A cidade dos desiludidos (Two weeks in another town, 1962), entre outros, e a da comédia agridoce, que se inaugura com O papai da noiva (Father of the bridge, 1950), passando por Chá e simpatia (Tea and sympathy, 1956), Brotinho indócil (The reluctant debutante, 1958) entre outras, até atingir a sua culminância absoluta em Papai precisa casar (The courtship of Eddie's father, 1963) - considerada por muitos minnellianos talvez a sua obra maior no gênero, comédias que constituem um dos testemunhos mais lúcidos e agudos da burguesia americana. Para o colunista, os melhores filmes de Minnelli são: Deus sabe quanto amei, Assim estava escrito, Papai precisa casar, A cidade dos desiludidos, e A roda da fortuna.

No primeiro, obra-prima absoluta, lancinante radiografia do american way of life em que Minnelli, num drama áspero, tenso, utiliza elementos do filmusical, resultando, com isso, uma mise-en-scène deslumbrante, de pura estesia, principalmente perto do final, quando da perseguição num parque de diversões. Neste momento supremo do cinema minnelliano, que reflete a trágica invasão da realidade num mundo ideal onde os personagens pensam em se refugiar, as cores, os objetos, as pessoas e o espaço são praticamente coreografados; e quase nunca se vê, na estética da arte fílmica, um testemunho tão intenso da eficácia de um autor que se utiliza dos elementos componentes da linguagem cinematográfica de maneira tão marcante. Neste filme, cujo título em português nada acrescenta a sua excelência, antes ridicularizando-o (o original Some came running quer dizer como uma torrente), um romancista volta à sua cidadezinha natal para reencontrar o irmão rico, Mas, a seu lado, viaja uma prostituta que se apaixona por ele. Com Frank Sinatra, Dean Martin e Shirley McLaine, todos inexcedíveis.

Se Billy Wilder, no expressionista Crepúsculo dos deuses (Sunset boulevard, 1950), oferece um retrato crítico de Hollywood, Minnelli, em Assim estava escrito, o consegue superar não somente pelo elo semântico - a força do tema - como pelo elo sintático - a mise-en-scène que, sobre ser a de Wilder impecável, atinge aquilo que alguns estetas chamam de maravilhoso. Não dá, aqui, neste espaço, para falar de The bad and the beautiful, tal a sua riqueza, tal a sua imensa beleza. Em poucas palavras: um escritor (Dick Powell), uma atriz (Lana Turner), e um diretor(Barry Sullivan), recordam em flash-backs como um famoso produtor (Kirk Douglas) os traiu. Partitura de alto nível de David Raksin. Papai precisa casar é um primor de comédia, a maior, sem dúvida, do autor, no gênero. Encontra-se aqui toda a maturidade de um mestre do cinema, que sabe equilibrar, com uma fluência assustadora, os elementos da linguagem, a utilizar, com engenho e arte, o espaço e o tempo cinematográficos.

Realizado em 1963, Papai precisa casar, no apogeu da desconstrução, quando a crítica mais enragé exige dos filmes uma rigorosa falta de linearidade, Minnelli, desprezando as circunstâncias, e, com isso, fazendo valer o seu modo de fazer cinema, recusa-se à abdicação do linear. O resultado é mais que perfeito, ainda que, o filme, alta voltagem como cinema, como arte, como testemunho, como comédia que sabe deliciar o espectador, passe despercebido pelas autoridades que carimbam o atestado de valor. Glenn Ford é um viúvo que se vê às voltas com três lindas mulheres que o cercam. Seu filho, um garoto de 10 anos (o futuro diretor Ron Howard), o ajuda na escolha, O trio é esplendoroso: Shirley Jones, Dina Merrill e Stella Stevens, que vem a trabalhar nesse mesmo ano em O professor aloprado, de Jerry Lewis.

No magistral A roda da fortuna, Tony Hunter (Fred Astaire), no ocaso de sua carreira, regressa a New York, onde é recebido por seus velhos amigos. Minnelli sinaliza, aqui, já em 1953, no ocaso do personagem interpretado por Astaire, num rasgo premonitório, a decadência do filmusical. A roda da fortuna tem alusões e citações, e o autor, avant la lettre, introduz, no cinema, a referência. Os antigos colegas do dançarino projetam montar um grande espetáculo na Broadway, com uma bailarina clássica, Cyd Charisse. A princípio desconfiado, Astaire, no entanto, com o desenrolar das situações, acaba por se apaixonar por ela. Um famoso diretor, Jeffrey Cordova (interpretado por Jack Buchanan) transforma o espetáculo numa pomposa versão musical de Fausto, expressionista e pedante, que redunda em estrondoso fracasso. Astaire, porém, tenta reformula-lo com a ajuda de Charisse e consegue, na remontagem, um êxito surpreendente. Apogeu admirável da primeira etapa das experiências de Minnelli, filme-síntese, portanto, A roda da fortuna oferece uma imagem da vida pública e privada dos artistas que fazem o espetáculo. A sua atração, porém, reside nos pequenos, mas significativos, detalhes do cotidiano dos bastidores, em notações autobiográficas e satíricas. Mas onde o filme alcança sua dimensão mais específica está na singular identificação entre Fred Astaire e seu personagem, talvez a expressão mais acabada do mito pessoal do grande bailarino em números admiráveis como, logo no início, com o engraxate, e a dança de amor no parque - com uma Cyd Charisse na plenitude de suas faculdades. A culminação espetacular do filme se encontra no balé Girl Hunt - brilhante e violenta sátira dos filmes de detetive e do chamado cinema noir, que, sem nenhuma dúvida, é um dos mais completos e inteligentes números musicais da história do cinema.

Na vertente dos dramas ásperos, além de Assim estava escrito, um outro, que lhe parece uma espécie de continuação, e de impacto extraordinário, é A cidade dos desiludidos, de 1962. A história gira em torno de Jack Andrus (interpretado por Kirk Douglas), que, após temporada de descanso numa clínica, é chamado por Kruger (Edward G. Robinson), que está, em Roma, dirigindo um filme. Jack toma o avião e vai se encontrar com o amigo, ainda que amargurado e deprimido pela vida. O contato, no entanto, com a doce beleza de Dahlia Lavi, e a volta à atividade profissional, oferece-lhe a possibilidade de recomeçar de novo, ofertando-lhe um novo ânimo, de libertar-se de suas obsessões e das amargas lembranças de sua mulher (Cyd Charisse). Mas há um acidente de percurso com o ataque cardíaco de Kruger, que fica impossibilitado de trabalhar e Jack se vê obrigado a assumir a direção do filme. A chegada da ex-esposa, no entanto, e o stress do trabalho, levam Jack a uma crise. Contornada, e definitivamente curado, Jack retorna aos Estados Unidos para recomeçar sua carreira de diretor. O título original do filme, traduzido, é Duas semanas em outra cidade, tempo que Jack passa em Roma. Um ator (Douglas) e um diretor (Robinson) vivem encerrados em um mundo de sonhos para escaparem da realidade de seus fracassos. Mas somente o primeiro consegue se libertar, sendo que sua penosa experiência constitui a trama de A cidade dos desiludidos. Continuação espiritual de Assim estava escrito - uma das cenas desse filme serve para precisar a evolução psicológica de Jack, o filme oferece uma visão ácida do mundo cinematográfico de Roma. Pleno de observações incisivas e justas, como o tumulto da Via Veneto - o filme é realizado dois anos depois de La dolce vita - em torno da estrela italiana (Rosanna Schiaffino), as relações entre o produtor e o diretor, o ambiente das filmagens, etc. Minnelli, no entanto, não se limita somente a este aspecto, mas, superando as limitações melodramáticas da intriga, leva a cabo uma reflexão moral sobre a condição do cineasta, que vem a sintetizar o eterno conflito do homem entre a ilusão e a realidade, tema básico de sua obra.

Clique no cartaz, que é de A roda da fortuna, um dos maiores musicais de todos os tempos.

01 novembro 2009

"Lola Montès", de Max Ophuls, é uma obra-prima!

Filme maldito, rechaçado pela crítica em sua época, retalhado na montagem pelos produtores que não viam nele viabilidade comercial, e repudiado pelo público, Lola Montès (1955), de Max Ophuls, é considerado, hoje, uma das mais importantes obras da história do cinema e cultuada pelas cinematecas de todo o mundo.

Avant la lettre (avançada para o seu tempo), esta obra-prima de Ophuls ainda permanece, no entanto, desconhecida por boa parte daqueles que se dizem conhecedores da arte do filme. É preciso, portanto, ressaltar a sua excelência e a urgência de ser vista e apreciada em sua exata dimensão de obra excepcional, de grande magnitude.

O Telecine, há alguns anos, ainda no Classic, apresentou-a em seu formato original (cinemascope), quando ainda não deturpava as imagens dos filmes mostrados em sua grade programativa. Extinto o Classic, surgiu o híbrido Cult, e quem perdeu enormemente foi o cinéfilo assinante, porque este canal, com raras exceções, verdade seja dita, costuma passar os filmes originariamente feitos em cinemascope "espichados" no horrível e deformado full screen (tela cheia) para gáudio daqueles debilóides que confundem alhos com bugalhos e pensam, ainda, que existe um "cinema de arte". Mas que não se perca mais tempo com isso. O que importa, aqui, é Lola Montès.

Realizado simultaneamente em três versões (alemã, francesa e inglesa), Lola Montès é um afresco deslumbrante da decadência de uma cortesã que acaba na "fogueira" de um circo. Ophuls é um esteta, e seus movimentos de câmera permitiram que dessem origem a uma estética da mobilidade pela assombrosa agilidade de seu manejo, que faz malabarismos com os cenários, os acessórios, os personagens e os sentimentos.

A ação se passa no século XIX e o centro é um circo em Nova Orleans onde o apresentador (Peter Ustinov) anuncia uma atração insólita: uma dançarina, a Lola Montès do título, cuja conduta dissoluta entreteve a crônica internacional durante meio século. E ela é Martine Carol, atriz famosa do cinema francês nos anos 50. A partir dela como centro de um espetáculo circense, na arena de um circo, rodeada de palhaços, trapezistas, acrobatas, anões e um público ávido, sedento, Ophuls faz desfilar a sua vida, que é vista, no filme, através de flash-backs.

Max Ophuls (1902/1957), realizador globetrotter, e de raro brilhantismo e singularidade na história da chamada sétima arte, começa a fazer filmes na Alemanha na década de 30 e depois na Itália, Estados Unidos (onde fez uma obra-prima do intimismo cinematográfico de todos os tempos: Carta de uma desconhecida/Letter from an Unknown Woman, 1948, com Louis Jordan e Joan Fontaine), e França, quando, nos anos 50 realiza três preciosidades de sutileza, de finesse, de delicadeza no trato da alma feminina e na análise do meio social circundante com um apuro estético inexcedível: Conflitos de amor (La ronde, 1950), com Anton Walbrook, Simone Signoret, O prazer (Le plaisir, 1952), com Jean Gabin, Jean Servais, Daniel Gélin (que foi amante de Danusa Leão nesta época), Danielle Derrieux, Desejos proibidos (Madame de..., 1953), com Danielle Derrieux, Charles Boyer, e Vittorio De Sica.

Tomo emprestadas as palavras de Claude Beylie, ilustre ensaísta cinematográfico francês para situar melhor a importância de Lola Montès. Antes, porém, lembrar que François Truffaut, uma vez, escreveu o seguinte: "Quem nunca viu Lola Montès não pode entender de cinema". Mas vamos às palavras de Beylie: "Hoje, que as paixões se aplacaram, devemos reter Lola Montès. Antes de mais nada, uma rigorosa denúncia do sensacionalismo espetacular e da promoção da mídia. Ophuls que, a este respeito, estava vários passos à frente de sua época, ocultava suas intenções: "As perguntas que o público do circo faz a Lola me foram inspiradas pelos jogos radiofônicos de programas publicitários tremendamente impudicos. Acho apavorante esse vício de tudo saber, essa falta de respeito diante do mistério." No entanto, ao mesmo tempo e paradoxalmente, ele realiza o desejo wagneriano de um espetáculo total: o tratamento original da cor (na tradição de Jean Renoir e Vincente Minnelli), o uso de caches, que permitem modificar à vontade o formato da imagem em cinemascope (o que cria a impressão de uma tela variável, submetida a sutis mudanças de cenário na mesma tomada..."Além da já citada assombrosa agilidade da câmera. Os travellings e as panorâmicas de Ophuls são, por assim dizer, coisa do outro mundo. É bem de ver o que disse Beylie: a cor é trabalhada com tal intensidade que se ajusta como uma luva ao tecido dramático, tornando-se um elemento de composição importante da mise-en-scène.

E na melhor tradição de um Renoir (vejam A carruagem de ouro, French Can Can) e de Minnelli (sim, o grande Minnelli, um dos mais sofisticados e estilizados diretores que o cinema já teve em sua história - basta reparar no sentido cromático que tem O pirata (1948), musical revolucionário, esteticamente falando, bem entendido, com a encantadora Judy Garland a sonhar com o seu príncipe encantado que aparece na pele de um "pirata", Gene Kelly, ou o colorido marcante de Agora seremos felizes (Meet me in StLouis, 1944).

A estrutura narrativa original de Lola Montès se pulveriza entre flash-backs, mas não havia um sentido cronológico na cópia desejada pelo autor, cronologia imposta pelos produtores, que cortaram e "resumiram" esta obra-prima (a mesma coisa seria se arrancar páginas e páginas de um livro para fazê-lo menor). Mas o tempo se encarregou, e o tempo sempre é o melhor juiz da obra de arte, de resgatar a integridade de Lola Montès. Quem vê Lola Montès deve ficar algum tempo de quarentena sem assistir a outro filme.

Baseado num argumento de Cecil Saint-Laurent. A fotografia é de um esteta: Christian Matras, que "pinta" com a luz. E a partitura, de Georges Auric. Além de Martine Carol, a mulher de conduta dissoluta, e de deslumbramento indiscutível, e Peter Ustinov, estão presentes no elenco: Anton Walbrook (como o rei Luís I da Baviera), Ivan Desny (o tenente James), Lise Dalamare (Craigie), Oscar Werner (o estudante que pega carona), Will Quadflieg (o compositor Liszt), Henri Guisol (o cocheiro), Paulette Dubost (a camareira), e a trupe do circo Kröne.

A imagem apresenta Peter Ustinov e Martine Carol. Clique nela!!

28 outubro 2009

O brilhantismo da simplicidade

Marcelo Miranda, um dos melhores críticos de cinema de sua geração, publicou um artigo bem interessante sobre a recusa em se conferir valor a filmes simples e destituídos de firulas de linguagem. Vou transcrevê-lo uma parte e a outra deve ser lida no próprio blog do Polvo.
"Numa aula recente sobre crítica de cinema, fui interpelado por um aluno após a exibição de O Inventor da Mocidade (1952), de Howard Hawks. Ele queria que eu explicasse o porquê daquele cineasta ser tão reverenciado e considerado genial e brilhante (a base da aula era também o ensaio de Jacques Rivette sobre Hawks). Na visão do aluno, o filme ao qual ele assistira era “muito simples: atores num cenário conversando e câmera filmando”. Ele não achara o filme ruim. Apenas não conseguia entender (ou mesmo aceitar) que um negócio tão “comum” e “fácil” pudesse ser chamado de genial e brilhante.

A discussão me fez pensar. É fato que exista uma geração de cinéfilos e espectadores eventuais viciados num certo tipo de cinema maneirista e cheio de firulas visuais e narrativas (cito de imediato Darren Aronofsky pré-
O Lutador, David Fincher pré-Zodíaco, as espertezas de Charlie Kaufman e as estripulias de Danny Boyle) ou de efeitos visuais dos mais sofisticados e delirantes (Transformers 2 é a bola da vez) – basta ver quais filmes enchem mais as salas de exibição. Ser simples e direto parece algo fora de moda sob esse viés. Mas quando a percepção de que tal vício também pode estar contaminando o universo de quem estuda cinema (além: de quem estuda para ser cineasta), algo tão ou mais preocupante começa a brotar.

Porque é de salas de aulas que tem saído boa parte dos realizadores brasileiros nos últimos anos – ao menos desde que as escolas de cinema se tornaram, de fato, um nicho à formação de profissionais capacitados. O aluno aqui citado, inclusive, tem pretensões de ser diretor, algo muito legítimo e salutar. Porém, é visível que essa mesma geração talvez esteja deixando de lado um certo senso crítico e buscado se inspirar em elementos facilitadores do que seja fazer um filme. O fetiche pelo plano-sequência, a vontade de uma câmera presente a todo custo (closes, panorâmicas, tremeliques, ou seu inverso: o equipamento no tripé a filmar qualquer objeto, parado ou em movimento) e a obsessão em parecer um diretor de cinema são indícios facilmente perceptíveis em determinados trabalhos recentes de curta-metragem (e mesmo de alguns longas) e que mostram o quanto a simplicidade, por vezes, tornou-se um pecado.

Um filme jamais vai ser bom por ser apenas simples, e nem um filme simples é, por consequência, bom. Um elemento não legitima o outro. Mas, se a simplicidade não garante um filme brilhante, é absolutamente possível – e, em certas ocasiões e níveis, louvável – que um filme simples consiga ser brilhante. Que o digam Hawks, Otto Preminger, Nicholas Ray, Don Siegel, John Ford. São todos cineastas que, em determinadas fases de suas carreiras, realizaram obras de feitura quase artesanal, de narrativa marcada pela limpidez e coesão e de profunda crença na soma entre a encenação (mise en scène) e a história que move essa encenação."
Na imagem (que deve ser clicada para se vê-la aumentada), o grande diretor Howard Hawks dirige Angie Dickinson em um momento de Onde começa o inferno (Rio Bravo, 1959), um western magnífico.

27 outubro 2009

Oficina adia seu início para 4 de novembro

A nova Oficina Elementos de Apreciação Cinematográfica, por circunstâncias alheias à vontade de seu organizador (o autor deste blog), tem seu início adiado para 4 de novembro. Com isso, o seu término fica marcado para 16 de dezembro, mas, para não entrar nas festas de fim de ano, a última aula, a oitava, fica para o dia seguinte, 17. Excetuando-se esta, todas as aulas devem ser realizadas às quartas, das 20 às 22 horas, na EngenhArt, molduraria que fica localizada na rua da Paciência, perto do Largo de Santana, bairro do Rio Vermelho. Para a efetivação das inscrições, os interessados devem fazer um depósito de 250,00 (duzentos e cinquenta reais) na conta 648.427-1, agência 3457-6, Banco do Brasil, em nome de ANDRÉ OLIVIERI SETARO.

25 outubro 2009

"Imitação da vida", de Douglas Sirk, já está em DVD


Douglas Sirk (1900/1987) foi um diretor alemão que trabalhou como realizador cinematográfico em diversos países (França, Holanda) mas que veio a se revelar em Hollywood nos anos 50 com uma série de extraordinários melodramas, que retratam, com primorosa mise-en-scène, a sociedade americana. Rainer Werner Fassbinder, o rebelde diretor de Querelle, um dia declarou: "Os filmes de Douglas Sirk me causam estesia".

Reabilitou o melodrama com uma classe extraordinária. Há, inclusive, entre os bem pensantes, um certo preconceito em relação ao melodrama, como se fosse um gênero menor. Ledo e ivo engano. O melodrama, quando bem executado, estilizado, pode se revelar um objeto de arte, de fascinação, de estesia mesmo. Muita gente confunde melodrama com dramalhão (este, sim, um sub-melodrama, sempre apelativo e sensacionalista. E o que é Luzes da ribalta (Limelight, 1953), de Charles Chaplin, do que um belíssimo melodrama? O que é Marnie, confissões de uma ladra (1964), de Alfred Hitchcock, do que um senhor melodrama? E Assim estava escrito (The bad and the beautiful, 1953), de Vincente Minnelli, entre tantos outros? Particularmente, adoro melodramas quando realizados com classe centrado na tônica do estudo exaustivo das relações passionais.

Mas o que queria dizer nesta mensagem é que Imitação da vida (Imitation of life, 1959), último filme de Douglas Sirk, que largou o cinema quase 30 anos antes de sua morte e se retirou do cenário artístico, indo morar na sua Europa de origem, saiu recentemente em DVD. Filme difícil de ver (passou no Telecine Cult), aclamadíssimo pela crítica, é uma obra indispensável.

Entre os grandes filmes de Sirk, destaco, além de Imitation of life, que é o meu preferido, e sem ordem de importância: Desejo atroz (All I desire, 1953), com Barbara Stanwick, Tudo que o céu permite (All that heaven allows, 1956), com Rock Hudson como o jardineiro pelo qual Jane Wyman, mulher de classe alta, apaixona-se, Chamas que não se apagam (There's always tomorrow, 1956), também com Barbara Stanwick, Palavras ao vento (Written on the wind, 1956), com Rock Hudson, Dorothy Malone, Robert Stack, Lauren Bacall, Almas maculadas (The tornished angels, 1958), também com Rock Hudson e Dorothy Malone, Amar e morrer (A time for love and a time for dead, 1958), com John Gavin.

Em Imitation of life, duas mães, uma atriz famosa ( (Lana Turner) e sua empregada doméstica negra (Juliana Moore), com o crescimento de suas filhas (uma delas branca, apesar da mãe negra), começam a ter problemas com elas. Em questão, o racismo na sociedade americana da época. A sequência final é digna de um mestre de cinema. E a interpretação de Juliana Moore é magistral.