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04 janeiro 2011

"Wall Street" onde Oliver Stone dorme


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O Professor Jorge Vital de Brito Moreira, baiano que atualmente mora nos Estados Unidos, e ministra aulas em universidades americanas, analista dos fatos contemporâneos, também é um eficiente exegeta de filmes. Quando morou na Bahia, no século passado, chegou inclusive a participar dos primeiros filmes em Super 8 de Edgar Navarro. Ele me mandou, especialmente para o Setaro's Blog, uma crítica a Wall Street: o dinheiro nunca dorme, de Oliver Stone. Abrindo as devidas e necessárias aspas, ei-la abaixo:

"Depois de assistir “Wall Street: o dinheiro nunca dorme”, do diretor Oliver Stone e ficar insatisfeito com o que vi, comecei a fazer perguntas sobre o sentido, o valor e a relevância de realizar mais um filme  melodramático sobre Wall Street em 2010.

Ainda que reconheça a importância artístico/cultural de filmes como Platoon (1986), Wall Street (1987) e JFK (1991), não posso deixar de perceber que os filmes Nixon (1995), Alexandre (2004) e Wall Street: o dinheiro nunca dorme, não apresentam a mesma importância que os três primeiros do diretor.

Não faz muito sentido ir ao cinema  (ou alugar um DVD)  para  assistir  aos mais recentes filmes de ficção de Stone e logo perceber que ele não parece ter avançado no entendimento da função ideológica do cinema estadunidense no marco da crise nacional e internacional da globalização capitalista; ao contrário, parece que está regredindo com o decorrer dos anos.
Custa acreditar que Stone (que é considerado um cineasta da esquerda política), continue tratando de representar a história social do império norte-americano (ou do império grego) em crise, através da forma melodrama e das características psicológicas do sujeito individual (presidente ou imperador), quando sabemos que esta fórmula ficcional foi produzida por uma visão de mundo decorrente da mitologia e da doutrina do individualismo liberal.

O novo  “Wall Street: o dinheiro nunca dorme” é um bom exemplo para ilustrar o que eu quero dizer: o filme trata de representar a crise geral do capitalismo imperial mas o resultado concreto decepciona. Depois de assistir aos documentários de Michael Moore e observar os avanços cinematográficos e ideológicos que ele fez para denunciar a dinâmica destrutiva do sistema capitalista, resulta supérfluo seguir assistindo às narrativas ficcionais do tipo “Wall Street: o dinheiro nunca dorme”.
Aqui, Stone procura, mais uma vez, repetir a fórmula individualista com que Orson Wells realizou brilhantemente o “Cidadão Kane”, mas as inovações na estrutura narrativa, na música e na cinematografia do filme, não puderam anular as limitações ideológicas do cidadão Wells. Elas se originam (como observou Glauber Rocha no livro O século do cinema) no querer representar a história social de USA concentrando-se na psicologia individual de C. F. Kane, ignorando a participação dos  trabalhadores na dinâmica da luta de classes do país. O mesmo erro histórico e conceitual domina (sem a genialidade criativa de Wells) o novo filme de Oliver Stone.

Para aqueles que não tiveram a oportunidade de assistir ao filme de Stone, darei em seguida umas informações básicas (além de um resumo do  argumento)  para o leitor deste texto.

 “Wall Street: o dinheiro nunca dorme”(2010) é um drama (escrito e dirigido por Oliver Stone) que pretende dar continuidade a história do primeiro “Wall Street” (1987). No segundo, também podemos assistir a  Michael Douglas repetindo o papel do protagonista Gordon Gekko “greed is good” e a Charlie Sheen repetindo o personagem Bud Fox. O filme também conta com a participação de novos atores: Shia LaBeouf, no papel Jacob “Jack” Moore,(um jovem especulador financeiro que é noivo da filha de Gekko) e Carrey Mulligan que representa o papel de  Winnie,  a única filha do especulador Gekko. Ainda podemos assistir ao ator Josh Brolin no papel do o diretor executivo (Chief executive officer, CEO) Bretton James que é o oponente e competidor (alem de ser o principal vilão do filme) de Louis Zabel (Frank Langella), de Jacob e  de Gordon Gekko.
 
Vamos ao argumento do filme: alguns anos depois de estar na cadeia, Gordon Gekko é colocado em liberdade mas se encontra por fora do mundo das grandes finanças (e dos grandes especuladores financeiros) que ele dominou no passado.

Procurando reconquistar sua fortuna e sua posição em Wall Street (alem de tratar de refazer a arruinada relação com a filha Winnie), Gordon Gekko estabelece uma aliança de poder com Jacob Moore.

Jacob (que necessitava de um pai substituto para preencher o lugar vazio deixado por Louis Zabel, o presidente da companhia  que tinha se suicidado), começa a confiar em Gekko como se este fosse um verdadeiro pai (assim como fez Budd Fox no Wall Street,1987) mas Gekko, como todo especulador financeiro, engana e manipula a Jacob (e a filha) para poder reaver os milhões de dólares que se encontravam depositados secretamente num banco da Suíça...Vou parar por aqui. Deixo o leitor livre para decidir se deve (ou não)  assistir e julgar o filme  com seus próprios critérios.
Quanto ao meus critérios, creio que Oliver Stone tinha quase tudo para fazer um filme capacitado para denunciar as abomináveis manipulações dos representantes do capital financeiro, assim como para ilustrar a responsabilidade deles na produção da crise econômica/social a nível nacional e mundial.

As primeiras cenas, prometem uma representação da especulação financeira ainda mais contundente, acurada e veraz, que a que foi realizada no primeiro Wall Street. Existem, no segundo, duas seqüências de cenas (provavelmente as melhores do filme) que mostram duas reuniões no Banco da Reserva Federal (USA Federal Reserve System, FED) com o presidente do Tesouro americano (chairmen of the US Treasury).
Na primeira reunião, Zabel luta para conseguir um resgate financeiro (bailout) do presidente do Tesouro americano para salvar a sua companhia, mas é bloqueado pelo Bretton James (o especulador rival) e por seus competidores. Esta seqüência, revela também como a máfia financeira que consegue arruinar a companhia do chefe de Jacob (o paralelismo com a falência e a ruína real do banco Lehman Brothers é bastante acentuado), permanece impune para continuar produzindo e reproduzindo os malefícios da crise global do sistema.

 Na segunda reunião, Bretton James e os representantes das maiores instituições financeiras de USA, amedrontam ao Presidente do Tesouro americano, manipulando-lhe para que lhes entreguem os bilhões de dólares (de dinheiro público) para tapar o gigantesco rombo/roubo ocasionado pela especulação deles com as hipotecas podres (subprimes).

A partir deste ponto o roteiro do filme começa a mudar de direção: em vez do filme continuar denunciando o sistema que engendrou a máfia de Wall Street para roubar a classe media e classe trabalhadora de USA, Stone desvia o foco narrativo para se concentrar nas elucubrações de um melodrama familiar banal onde uma radiografia do feto da filha Winnie será capaz (pasmem!) de  produzir a regeneração e a definitiva redenção de Gordon Gekko, um dos maiores  especuladores  financeiros da historia de Wall Street.

Não é necessário seguir comentando a narrativa de Stone para entender que seu filme conclui sugerindo (de forma ridícula e patética) que  o capital financeiro de USA pode ser reformado; que o capital  pode ser resgatado do seu modo destrutivo de existência.
Para lograr este desconcertante final feliz, o filme de Stone trata de nos convencer que o monstruoso especulador de Wall Street, poderá renunciar ao poder da sua ganância, para contribuir à redenção de seres humanos, porem sem ter de mudar ou destruir o sistema capitalista.

Assim, o filme (como num oxímoro) é capaz de contradizer a si mesmo produzindo o absurdo de procurar salvar o capital financeiro do próprio sistema capitalista.

Como não poderia deixar de acontecer, sai do cinema irritado, com aquela sensação de que tinha sido enganado; de que o novo Wall Street de Oliver Stone (tal como tem feito Barak Obama e seu partido democrata) promete mas não é capaz de cumprir.

Desta forma, o filme resulta completamente incapaz para produzir algum conhecimento útil para ajudar o espectador a compreender algumas das características do capital financeiro; nem para ajudar a entender o papel que jogou Wall Street na produção e reprodução da crise do sistema capitalista na sua totalidade.

Em vez de ajudar na luta contra a hegemonia burguesa numa sociedade dividida em classes sociais, o filme (consciente o inconscientemente) termina funcionando ideologicamente como uma  falsa consciência a serviço da ignorância e da mistificação política; termina funcionando como mais um instrumento para legitimar a dominação e a exploração social dos oprimidos e excluídos pelo sistema."

2 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Sem dúvida o Professor Jorge Vital de Brito Moreira faz uma análise completa com base no pensamento materialista histórico, que muitos chama de marxismo, termo que o próprio Marx não gostava, e, por questão de respeito procuro evitar.
Nada mais apropriado em se tratando de um filme cujo centro é a bolsa de valores de Nova Iorque, o centro da especulação financeira do capital.
Sua visão crítica em relação ao desempenho de Oliver Stone como diretor e sua obra é perfeita na medida em que coloca a sua fragilidade temática.
Parabens, e, se possível transmita a ele o brilhantismo de seu texto.

murillo disse...

Ola meu tio
Gostei muito da sua abordagem e das criticas sobre um filme desestimuladorcomo foi este wall street.
Valeu e boa sorte nas suas criticas
um grande abraço e feliz 2011