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09 janeiro 2011

Algumas palavras sobre Machado de Assis


Não me lembro mais onde li, mas fiquei a pensar: "Nos livros de Machado de Assis não existe paisagem". A constatação é curiosa e revela que o bruxo do Cosme Velho era um escritor avant la lettre. Nos grandes romances do século XIX, quase todos são muito detalhados em relação à descrição da paisagem. Em Honoré de Balzac, por exemplo, um capítulo de Eugenia Grandet é quase todo dedicado, com um luxo de detalhes, à descrição, a chegar ao cúmulo de descrever, numa casa, as pedrinhas, os talhes da porta e das janelas. Balzac é muito detalhista, mas a análise paisagística é uma tônica do romance do século retrasado.
Mas em Machado de Assis (1839/1908), se há descrição, esta é bem sucinta. O mestre, o maior dos escritores brasileiros em todos os tempos, principalmente a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), o seu estalo de Vieira, preocupa-se mais na reflexão das coisas que estão sendo ditas. O seu período descritivo e uma descrição light - termina em Iaiá Garcia (1878).
Acho que foi Autran Dourado quem disse que todo ano lê, religiosamente, Brás Cubas, Quincas Borba (1892), e Dom Casmurro (1900), para limpar a língua. A estilística machadiana é única e insuperável, a fazer dele um autor singular. Encontra-se entre os maiores da história da literatura, mas seu azar foi ter escrito em português, língua rica, mas pouco lida. Há décadas atrás, está a ser revisado e apreciado nas universidades americanas e européias, e o crítico Harold Bloom (aquele da Angústia da influência e O cânone ocidental) o tem em alta conta.
Verdade seja dita, e dita por um grande admirador do grande romance do século XIX, a descrição esmiuçada da paisagem é irritante. Mas naquela época, quando a fotografia ainda era muito incipiente, e o cinema só veio a existir a partir de 1895, havia a necessidade de o leitor ter a paisagem imaginada. Mas Machado de Assis não se molda a esta querência de realidade, excluindo-a de seus últimos romances. Mas se poderá argüir que o bruxo do Cosme Velho descrevia o Rio de Janeiro da Corte Imperial. Sim, mas com citações breves: "Enfiou-se pela rua dos Inválidos, mas viu que era longe para chegar à rua do Ouvidor". E pronto.
Mas relendo Helena (1876), que precede a fase maior do romancista, há rigorosa estruturação da fábula, ou da história. Os elementos da fabulação estão em perfeita sintonia com a perspectiva de expectação do leitor, que desliza seus olhos pela sintaxe machadiana com um grande interesse pelo que está por vir. Ainda na sua época romântica, o desfecho, trágico, faz parte do momento. Vê-se, aqui, um escritor rigoroso no seu pleno domínio da narrativa ou, a melhor dizer, da sintaxe da língua.
A magistral utilização do tempo em Quincas Borba, para ficar num exemplo apenas, mostra que, em sua segunda fase, Machado procura somente a reflexão. Rubião Braz acorda num dia de Ano Novo, senta-se num sofá e, com as mãos, fica a mexer nas borlas do roupão. Pensa em como chegou até aquela posição confortável e, até quase a metade do livro, a ação localiza-se nos arcanos da memória do grande personagem, a reviver como veio a conhecer Cristiano Palha e a bela, esplendorosa, magnífica Sofia (talvez a mulher mais perfeita esculpida por Machado de Assis).
Certa ocasião, vários intelectuais, encantados e extasiados com a prosa de Quincas Borba, foram a Ferreira Gullar lhe perguntar o que queria Machado de Assis realmente dizer no livro. Gullar pensou um instante e respondeu: "É um livro sobre a arte de escrever".
Se, na fase romântica, anterior à explosão brascubasiana, e, com ela, a desconstrução do romance tradicional, Machado procura estabelecer a estrutura narrativa numa forma "in progress", a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas tudo se reduz ao estudo de caracteres, muito embora, já no seu primeiro livro, "Ressurreição", pretenda, justamente, antes de tudo, a observação de comportamentos.
Escreveu Machado na advertência da primeira edição de Ressurreição (1872): "Não quis fazer romance de costumes; tentei o esboço de uma situação e o contraste de dous caracteres; com estes simples elementos busquei o interesse do livro. A crítica decidirá se a obra corresponde ao intuito, e, sobretudo, se o operário tem jeito para ela. É o que lhe peço com o coração nas mãos".
Para buscar o interesse do leitor, apóia-se em dois simples elementos: o esboço de uma situação e o contraste entre caracteres. O propósito do primeiro livro se alarga a partir de então até atingir a metalinguagem, a meta-literatura a partir de Brás Cubas, quando, em determinado momento, para desfazer a ânsia das leitoras da biblioteque rosé, dá-lhes o conselho de pular o capítulo, caso queira saber logo os detalhes de determinado assunto. Um escritor na melhor tradição de Cervantes e Xavier de Maistre.
As adaptações cinematográficas dos livros de Machado de Assis sempre foram desagradáveis àqueles que conhecem o estilo do grande mestre. Dom Casmurro, por exemplo, que se chamou Capitu na versão cinematográfica, é um verdadeiro assassinato à obra literária perpetrada por várias mãos: as de Paulo César Saraceni (diretor), e, por incrível que pareça, pelas mãos de duas reconhecidas e talentosas pessoas das letras: o crítico cinematográfico e autor literário Paulo Emílio Salles Gomes e sua esposa, na época, Lygia Fagundes Telles. Sem falar na eleita para o papel título tão delicado: a desajeitada Isabella, escolhida porque era, então, mulher de Saraceni.
Quincas Borba, do ilustre realizador paulista Roberto Santos, nem chegou a ser lançado, mas o que se diz é que é um filme abaixo de qualquer crítica. Vários contos de Machado foram adaptados para a tela, mas com resultados pífios, a exemplo de Um homem célebre, com Walmor Chagas. E se chegou ao cúmulo de querer modernizar o bruxo do Cosme Velho com outra versão de Dom Casmurro cuja ação se passa na época atual: "Dom", de Moacyr Góes, com Maria Fernanda Cândido e Marcos Palmeira. O resultado? Melhor não dizê-lo.
O fato é que o romance filmado é uma utopia, porque duas práticas narrativas que se baseiam num diferente noção de espaço e de tempo. A menos que se queira ficar-se pela "ilustração" de histórias contadas pelo romance, o filme deve converter para o seu espaço-tempo a ação que pediu de empréstimo ao primeiro. Não deve haver, portanto, qualquer preocupação de fidelidade à letra do texto original mas, pelo contrário, a mais ampla liberdade na procura de soluções dramáticas e de figuras estilísticas capazes de produzir, na tela, o mesmíssimo efeito poético confiado na página a outros tantos recursos ao dispor da linguagem escrito-verbal. Hitchcock já disse, na sua proverbial sabedoria, que nunca gostou de adaptar obras literárias consagradas. E cita um exemplo: caso alguém queira filmar Crime e castigo, de Dostoievsky, o filme teria de ter um tempo (para manter fidelidade) de duração excessivo: mas de duzentas horas de projeção. Mas, mesmo assim, a estilística dostoievskyana desapareceria em função da narrativa do realizador cinematográfica. E, perdido o estilo, tudo se perde, porque, como dizia Buffon, "o estilo é o homem".

9 comentários:

Jonga Olivieri disse...

Na verdade a descrição excessiva de ambientes e paisagena sempre foi para mim algo enfadonho. Eu disse "excessiva", porque quando nos dá um plano geral atá nos ajuda a situar onde se passa a cena.
O posicionamento dos sentimentos e das relações humanas, para mim sobrepuja este cenário que nós podemos imaginar sem grandes perdas. Quando se diz "havia um campo em frente à casa" você o imagina perfeitamente. O "cinema", o visual fica na cabeça de cada um. E isto é a magia fa literatura ao podemos afirmar que, num caso deste, soltamos a nossa imaginação.
É como peças sem cenário. Elas nos fazem interagir muito mais com os personagens.
Mas tudo isto depende da temática de um livro e da sua finalidade.
Prefiro uma análise maior dos seres que ali estão, saber o que pensam, como agem, etc.
Machado continua a ser o grande escritor do Brasil e da língua portuguesa... Orgulho de nós. Um escritor convincente. Magnífico.

André Setaro disse...

Machado é um dos meus escritos favoritos. Tenho sua obra completa em três volumes pela Aguillar.

César Rasec disse...

Nesta postagem, o amigo-mestre André Setaro foi preciso, brilhante e o que é mais importante, disse o que tinha para dizer sobre Machado de Assis sem ser cansativo.
As obras completas de Machado, pela Nova Aguilar, é um primor. Vale comprar. Tenho-a também. Fico de cá, quando dá na telha, lendo-a e imaginando: como um cara foi capaz de escrever tudo isso naquele tempo?
O bom é que ele é brasileiro. O chato é que a língua portuguesa não domina o mundo. Se dominasse Machado de Assis seria o bruxo de Paris, ou de Londres, ou de Nova Iorque, ou de Moscou, ou de...
Valeu Setaro pelo domindo de literatura com toque de cinema.

Luiz Mario disse...

Setaro,
você se esqueceu de citar o filme de André Klotzel, Memórias Póstumas, uma adaptação agradável da obra do mestre, pra mim a única adaptação cinematográfica bem sucedida.

Aurora disse...

Grande texto André.
LI quase todos os livros de Machado de Assis quando era adolescente. Lembro-me que ficava revoltada quando o final não era feliz. Detestei Capitu (a personagem traidora)e não li todas as cronicas nem as histórias da meia noite por achar que não eram romanticas.
A verdade é que tenho uma enorme curiosidade pela pessoa de Machado de Assis, suas dores, seus sonhos...O casamento com d.Carolina e o porque da decisão de não ter filhos...Apesar do seu realismo, não sei porque motivo tenho a impressão que ele sofreu muito.

Darlan O. Reis Jr. disse...

Gostei. Interessante análise. Parabéns.

Lidi disse...

Sou absolutamente fã de Machado de Assis. E por ele não ser dado a tantas descrições é que gosto mais ainda. Quanto às adaptações das suas obras, gostei do filme de André Klotzel e da minissérie Capitu, de Luiz Fernando Carvalho. Um grande abraço.

Anônimo disse...

Que belíssima surpresa tornar ao blog depois de certo tempo e me deparar com este excelente post sobre nosso pendão máximo da Literatura.
Faz-se redundante me estender no aspecto admiração, então eu pulo este capítulo rs.
Quincas Borba é para mim a obra prima machadiana. Eu costumo dizer que é de certo modo o ‘enjeitado’ filho do meio. Filho que pendula sempre muito discretamente entre os estudados amiúde, debatidos a fio : Dom Casmurro e Memórias Póstumas.Foi de longe o livro que mais me deu a certeza do sabido potencial de escritor de Machado.E pela discrição do tema, frente as polêmicas da traição e do defunto autor,foi o que mais me reteve.Exatamente pela complexidade, sofisticação e excelência estrutural (apesar de anteceder o Casmurro,ainda acho este o ápice da maturidade discursiva dele) que o Bruxo do Cosme Velho atingira.
Serei sempre uma apaixonada pela forma.A forma é o esplendor retumbante e deveras perene da Arte.Mais que as idéias (mutáveis),que os embates humanos propostos em,mais que apresentação,mas até que o próprio desenvolvimento.Mais que a própria divinização posterior que uma apreciação desta causará.Digo isto,claro de um modo geral.Porque Machado era mestre sabedor ,de uma capacidade de mesura infinita,portanto fora brilhante em todos estes percalços realizadores de uma obra.E na forma sempre residiu o seu diferencial,o seu inimitável potencial.
Sobre a adaptação do Saraceni: Fora sem dúvida fracassada, caro Setaro. Agora, no entanto me vejo obrigada a discordar de você no tocante ao roteiro.Que digo era sim um bom roteiro (aliás,não que isto o abalize em definitivo,mas fora mesmo premiado).
O grande problema da película é toda a sorte de discrepâncias de olhares e por fim uma total irrealização de uma idéia de roteiro até certo ponto atrevido numa direção temerosa,pudica,ascética.Digo roteiro (sem dúvida) atrevido, porque trazia á tona,exposta em primeiro plano a ‘secular’ imagem da Capitu,ora, sempre escusa nas sombras do rancor do Casmurro.Teoricamente seria ver a relação sob o prisma dela.E no feminismo sempre arguto no olhar de Lygia, seria resgatar a imagem feminina daquele silêncio machista imposto pelo Casmurro.E ia (até) mais longe, ao julgar a escolha amorosa sobre o prisma do interesse material.O que por sinal neste aspecto fora muito feliz ao aproximar claramente á obra machadiana da ‘Madame Bovary ‘de Flaubert.
Perigosas e desafiadoras escolhas de abordagem, que por certo falharam em tudo. Nos receios e pudores da abordagem do Paulo ao tratar de tão genial escritor e tão comentada obra.Na enfim falta de liberdade estética que a percepção do diretor se permitiu tão modestamente (sendo o diretor tão inteligente e audacioso costumeiramente), isto justaposto precisamente a um roteiro que era ousado,ácido,incisivo.
A fotografia do Mario Carneiro merece destaque (como sempre), aqui pela beleza polida, cuidadosa. O que por sinal, conseguiu imprecar ao cinema de Saraceni uma suntuosidade (até) insólita;aliás o filme causou polemica.Até hoje faço-me esta inocente pergunta: O que deveras queria Saraceni, ao mergulhar suas barbatanas criadoras no perigoso mar (‘ressaquiado’) machadiano,ainda no auge do Cinema Novo?Até para fins práticos levando em conta que um filme deste tipo exigiria uma despendiosa quantia orçamentária?
É certo que o roteiro queria, pleiteara trazer á baila uma Capitu esmagada num infinito de preceitos burgueses. E expondo a escala ascendente social da moçoila,realçada na sua pobreza material,com isso Saraceni teria o enredo certo pra fazer criticas ácidas a uma sociedade decadente, em corrosão.E para até mais esfregar todo um infinito de hipocrisias acomodado na conveniência de um lar,doce lar.
Mas, enfim não foi isso que se deu,ou por outra,isto se deu tão sutilmente,tão minimalista,tão pouco incisivo.
Cont.

Anônimo disse...

Cont.
No mais fecho contigo sobre a Isabella.Ela que me perdoe,mas nunca lhe vi deveras graça alguma como atriz.E a Capitu é mulher icônica demais para ser sustentada por uma iniciante.Outra coisa que achei até risível,foi escolher um Raul Cortez ,com todo respeito ao tremendo ator,mas enfim um Raul já maduro,calvo (de peruca?) para interpretar um Ezequiel vigoroso,no auge.Mesmo levando em conta que a escolha do Saraceni fora ás pressas para substituir os impossibilitados escolhidos originalmente.
Do Othon nem opino,porque sou admiradora em demasia do trabalho dele para poder falar com o distanciamento necessário.E de mais a mais este trabalho foi o que lhe resgatou do hiato das sistemáticas propostas de cangaceiros e vilões,todas recusadas pós o seu insuperável,inexaurível Corisco.Mas, digo que é apenas por ele que se consegue o momento mais empolgante do filme:na encenação de Otelo.

‘Ana Luiza’