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12 outubro 2010

60 anos de idade e 54 de estrada cinematográfica


Considerando ter ido pela primeira vez ao cinema em 1956, e por estar, no dia de hoje, dedicado às crianças, fazendo 60 anos, tenho, a rigor, de estrada cinematográfica, 60 de idade e 54 de cinema, mais de meio século, portanto, na carga horária existencial das imagens em movimento nos arcanos de minha memória.

O primeiro filme que vi, O Meninão (You're Never Too Young, 1955), de Norman Taurog, tinha a dupla Jerry Lewis e Dean Martin como a maior atração. Levado por uma prima, vi O Meninão no cinema que ficava incrustado no fabuloso Edifício Oceania, que ainda fica no turístico Farol da Barra. Esta edificação se constituiu num acontecimento para a velha província de Salvador, cidade com pouco mais de quinhentos mil habitantes.

Na planta, já se contemplava o espaço de um cinema, assim como um bar e um golden room - um avanço para a época. O cine Oceania, porém, com o passar do tempo, e o progressivo fechamento dos cinemas de bairros, não levou muito tempo em atividade (pelo menos a partir do momento em que o conheci).

Antes de You're Never Too Young, porém, já tinha avistado algumas e fugazes imagens em movimento no Convento do Desterro, quando, indo visitar uma tia, que era freira, passei por uma porta onde, dentro da sala, estava sendo exibido um filme preto e branco num projetor de 16mm (muito usado pelos clubes sociais e instituições naquele período, inclusive por algumas famílias). Mas a sensação foi rápida e logo fui chamado para ir embora.

Dentro da sala escura do Oceania, porque o cinema cheio, e tendo ficado na lateral bem próximo à tela, achei as imagens distorcidas (e o filme não era em Cinemascope), e tive aquele sensação do escritor Gogol, quando viu pela primeira vez as imagens em movimento: cabeças cortadas, os planos de detalhe de mãos, rostos, como se fossem decepados. Antes do filme propriamente dito, o cinejornal, além das notícias, apresentou um jogo de futebol, que pensei  ingenuamente ser o que estava acontecendo naquela mesmo hora (era pela tarde) no estádio da Fonte Nova.

A partir de You’re Never Too Young, passei a ir semanalmente aos cinemas, e o segundo filme que vi foi Tom & Jerry, desenho animado que passava todos os domingos, pela manhã, no Guarany toda primeira semana de cada mês. Consultando aqui um velho caderno escolar, no qual já anotava, com minha letra infantil, os filmes que via, dando, a eles, uma cotação, e registrando os principais atores, preço do ingresso, cinemas onde eram exibidos, vejo que os primeiros filmes foram, além dos citados, Um estranho no paraíso (Kismet, 1955), de Vincent Minnelli, Casei-me com um xavante, de Alfredo Palácios, De pernas pro ar, de Vitor Lima, com Ankito e Grande Otelo, É de chuá, também de Lima, e com a mesma dupla, Meus amores no Rio, de Carlos Hugo Christensen, com Suzanna Freire, Um pijama para dois (Pajama game), de Stanley Donen e G. Abbott, O sonho que eu vivi (Bernardine), de Henry Levin, com Pat Boone, Virtude selvagem (The yearling), de Clarence Brown, com Gregory Peck, Férias em Paris (Paris Holiday), de Gerd Oswald, com Fernandel, A volta ao mundo em 80 dias (Around the world in 80 days), de Michael Anderson, Primavera de amor (April Love), com Pat Boone, As lavadeiras de Portugal (Les lavandières de Portugal), de Pierre Gaspard-Huit, O rebelde orgulhoso (The proud Rebel), de Michael Curtiz, com Alan Ladd, Viva o palhaço (Merry Andrew), de Michael Kidd, com Danny Kay e Píer Angeli, Rio Zona Norte, de Nelson Pereira dos Santos, Meu tio (Mon oncle), de Jacques Tati, Saeta, o canto do rouxinol, com Joselito, Marcelino Pão e Vinho, com Pablito Calvo, Férias no paraíso, de Mario Camerini, com Vittorio De Sica, A delícia de m dilema (Rally, round the flag, boys!), de Leo McCarey, com Paul Newman e Joanne Woodward, Sissi, de Ernest Marischka, entre muitos outros. E muitas, muitas chanchadas (Tem boi na linha, O camelô da rua Larga, O batedor de carteiras, O massagista de madame, Pé na tábua, Uma certa Lucrecia, Mulheres à vista, Pega ladrão [um filme de Alberto Pieralisi que não pode ser considerado uma chanchada tout court], Titio não é sopa [com Procópio Ferreira] etc.

Com a mega-retrospectiva de John Ford, que fico privado dela por morar na Bahia – e no momento sem condições de dar um salto ao Rio, devo dizer que vi os filmes desse genial cineasta com o passar do tempo. Desde menino acompanho os filmes de Ford e sempre havia, naquela época, as constantes reprises. Um filme podia ser visto várias vezes, porque lançado, primeiramente, em circuito de primeira linha, depois circulava nos cinemas de bairro e os mais populares, e ficava sendo reprisado até esgotar o seu certificado de censura (validade de cinco anos). Vi, por exemplo, Crepúsculo de uma raça (Cheyenne Autumm), no esplendor de seu Cinemacope no cinema situado na Praça da Sé, e que se chamava Excelsior.

O tempo, sempre implacável e cruel, passou. Mas retive na memória os grandes momentos passados dentro da sala escura do cinema.  Uma vez, depois de ter terminado com uma namorada, que a levava muito ao cinema, ela contou a um amigo meu: “Quando namorei com André, fiquei com mais horas de cinema do que urubu de voo”. Eu a perdoo.

12 comentários:

Mirdad disse...

Um salve aos 60 anos de André Setaro, especialmente por se manter sólido como um monólito referencial de credibilidade!

Parabéns, meu amigo mestre!

Carlos disse...

Feliz Aniversário, André. Muitas Felicidades! Continue a nos elucidar sobre o cinema. Tem aqui um fiel seguidor de Portugal. Abraço.

Lidi disse...

Parabéns, pelo aniversário e pelos anos de estrada cinematográfica. Abraço.

Allex Rocha disse...

Professor,
Desejo tudo de bom e muitos filmes em sua vida. O cinema fica mais alegre e sábio com as vossas colocações!
Grande abraço e estima! Muitos anos de vida!
Alex Rocha

Luiz Mario disse...

Caro André,
parabéns pelos 60 anos e pelo amor ao Cinema.
Longa vida para continuar escrevendo tão bem sobre a sétima arte.
abs

Romero Azevêdo disse...

Ave Setaro ! Por 60 séculos ainda vamos contemplar seus escritos sobre a arte que amamos tanto.
Mais que um arguto cinéfilo, você é um personagem cinematográfico digno de um Ford, um Wilder, um Hitch, um Godard, um Welles, um Hawks...
Feliz aniversário e muito obrigado pelos presentes que nos regala através do Setaros Blog.

André Setaro disse...

Obrigado a todos pelas palavras gentis e natalícias.

Sergio Andrade disse...

Prezado Setaro, parabéns pelos 60 anos de idade e 54 de intensa atividade cinéfila.
Que continue por mais 10, 20, 30 anos nos presenteando com seu incrível conhecimento cinematográfico.

Grande abraço!

Álvaro Andrade disse...

Parabéns, mestre!

Apesar de não frequentar mais as aulas, venho sempre estudar por aqui.
Acho que o primeiro filme é como o primeiro beijo, a gente não esquece. O meu foi um da Xuxa, Lua de Cristal, veja só.

Que o cinema ganhe de presente mais longos anos de sua cinefilia e paixão por essa arte.
Vocês se dão tão bem porque serão eternamente jovens.

Grande abraço.

Dimas Oliveira disse...

Belas lembranças, André Setaro! Uma verdadeira viagem ao passado.

André Setaro disse...

Obrigado, amigos, mas o fato é que 60 anos só se faz uma vez na vida, ainda que 'a estrada cinematográfica' continue. Devo atestar (e com firma reconhecida no cartório da Vitória) que Dimas e Romero possuem um repertório assombroso.

Jonga Olivieri disse...

Na verdade você tem é 54 anos. A descoberta do cinema no velho cinema do edifício Oceania o fez nascer para o seu mundo real.
Aliás, a repassagem por cinemas que não existem mais (e que eu tambem conheci) foi um passeio pela mina memória nos meus 65 anos.
Parabens por tudo isso!