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05 maio 2010

"São uns porretas esses pernambucanos!"

O polêmico jornalista e cineasta Raul Moreira (vejam uma foto de seu Dagoberto vai ao paraíso (a primeira obra não prima do cinema baiano) publicou o texto que se segue no jornal soteropolitano A Tarde sábado, dia 1, causando sérias controvérsias. O artigo fala da superioridade do cinema pernambucano e, com isso, feriu suscetibilidades. Com a postura de magistrado, embora tenha opinião formada sobre o assunto, publico ipsis literis o escrito raulmoreiraniano.
"Afirmou um jovem cineclubista, que atende pela alcunha de Gê Carvalho, em pleno Cine PE, no Recife: “Só aqui em Pernambuco você senta numa mesa de bar e discute as dores da existência e até especula se talvez não sejamos o projeto mais equivocado de Deus”.
Do outro lado, nós, baianos, morrendo de inveja, somos obrigados a fazer coro e afirmar que realmente são uns por porretas esses pernambucanos cabras da peste. Para tripudiar, o mesmo sujeito completou: “No programa do Serginho Groisman estavam Cláudia Leite e Nação Zumbi, que foram instigados a falar de suas respectivas influências: enquanto a Nação Zumbi discorreu sobre a questão da raiz e do senso crítico de cada um dos componentes da banda, ela disse que na Bahia não tem nada disso, pois tudo é alegria”.

Sim, ainda que a comparação entre Leite e a Zumbi tenha sido covardia, os pernambucanos não levam a sério a Bahia, com toda razão. Assim, sabendo que perdemos o bonde e nos fizemos apenas sujeitos alegres, só nos resta tentar compreender as razões pelas quais os nossos “primos” se diferenciaram, para, quem sabe, aplicarmos o mesmo modelo, não?

A forma com a qual os daqui lidam com o cinema poderia muito bem fazer parte da nossa cartilha. Curioso é que até pouco tempo não havia escolas de cinema e as salas de exibição para os ditos filmes de arte eram raras. Portanto, difícil é não se perguntar: como fizeram os pernambucanos para afirmarem-se como criativos e tenazes, a ponto de possuírem, também, o festival de cinema mais frequentado do Brasil?
Há quem diga que o mundo se transforme a partir do caos e do mangue. E no Pernambuco foi assim, pois, foi paralelamente ao movimento Mangue Beat, liderado pelo saudoso Chico Science, que o cinema local floresceu, depois dos ciclos dos anos 20 e 70 do século passado. E o fez por obra de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, diretores do premiado Baile Perfumado, longa de 1996 e que de certa forma serviu de farol para que talentos como Cláudio Assis, Marcelo Gomes, João Falção e dezenas de curtametragistas se afirmassem na cena.
Mas a explosão do cinema pernambucano não é fruto apenas dos movimentos culturais e da associação do talento dos realizadores com a vontade de fazer. É comum ouvir, pelo menos entre boa parte dos pensadores daqui, que por uma série de razões maturou-se durante século um modelo de desenvolvimento diferente daquele que deu-se na Bahia, por exemplo, algo que Gilberto Freyre captou muito bem e traduziu em clássicos como Casa Grande & Senzala e Sobrados e Mocambos.
Sim, a herança holandesa, a tradicional faculdade de direito do Recife e uma certa vocação para o cosmopolitismo, talvez por influência da tradição judaica, fizeram com que o Pernambuco sempre estivesse mais para a Europa do que para o Brasil, a ponto de se falar em um “espírito aristocrático”. Mesmo sendo uma sociedade classista e repleta de desigualdade, formada com o caldo da miscigenação, a verdade é que a miséria por aqui não é tão feia como na Bahia, pois há traços de dignidade nos grandes coletivos que muitas vezes nos faz lembrar Cuba.
Talvez aí resida a diferença do Pernambuco e a qual se reflete em “orgulho da tradição miscigenada”, ainda que feita por sujeitos de classe média – ironia da sorte o cinema pernambucano é macho – que buscam afirmar o popular do grande Recife, da Zona da Mata e do semiárido, como se o sonho das ligas camponeses de Miguel Arraes e de sociedade mais justa de Dom Hélder Camera fosse possível.
De cima para baixo, os cineastas brancos pernambucanos seguem em frente, surpreendendo pela volúpia, ainda que, com a periferia residindo ao lado, a plateia do Cine PE seja formada quase que exclusivamente pelos abastados de Boa Viagem.
Raul Moreira é jornalista e cineasta.
PS: Caros e caras,
Durante o Cine PE, o Na Cena, veiculado na TVE da Bahia, da rede TV Brasil, e também na internet, esteve a retratar, em pílulas diárias de três minutos, o melhor e o pior do evento pernambucano. Sei que muitos filmes e diretores acabaram não tendo espaço, pois era impossível. No entanto, fica a mensagem: onde houver festival feito com dinheiro público, cinema brasileiro e injustiça lá estaremos com os nossos intrépidos enviados e editores, no estilo livre e sem jamais ser chapa branca.
http://www.youtube.com/user/PgmNaCena

10 comentários:

Pedro Caribé disse...

Caro Setaro, concordo com o artigo sobre o momento no qual o cinema, a política e muitas outras coisas estão em grau de dignidade superior em PE do que na Bahia.
Porém me enoja um determinismo cultural, baseado em origens holandesas e aristocráticas para justificar esse momento. Podemos minimizar com isso o potencial da forte herança portuguesa e africana baiana. Saindo de origens, creio que o momento de PE é apenas mais digno, mas não fantástico, eles têm deficiências em todos os setores tão gritantes quanto as nossas, em especial na distribuição de cinema (o Cine PE é dominado pela Globo Filmes) e música nas rádios fms dos jabás do forró eletrônico.
Ainda creio que a supremacia do carlismo a partir da ditadura militar tenha sido a síntese de nossa decadência.
Mas já tivemos outros lideranças políticas como Ruy Barbosa e o própria Magabeira, que de forma cíclica podem retornar, assim como novos Galuber´s e Gil´s.
Também não se pode colocar de forma alguma na mesma comparação Claudia Leite com Nação Zumbi.
Fico por aqui...

Letícia Ribeiro disse...

A rixa entre Pernambucanos e Baianos não é novidade para ninguém. Quantas comparações existem por exemplo, quanto ao Rock produzido aqui e acolá. E falo, com pouca experiência de uma estudante de Cinema da BAHIA de uma Universidade Federal, que o que difere principalmente são os grupos e os propósitos que são formados. Penso que aqui na Bahia, se não existem panelinhas, existem picuinhas entre determinados grupos, digo principalmente na cena musical alternativa; o rock baiano perde força principalmente por isso. Falta união entre as partes que tenham pelo menos uma ideia convergente : fortalecer/desenvolver a cena. Os grupos aqui brigam entre si, disputam críticas, falam mal um do outro. Enquanto isso não mudar, nunca vamos ter capacidade de criar e/ou mudar o esteriótipo baiano que só produz axé music. Quanto ao cinema, a mesma coisa, se fecham nas suas produtoras, as equipes na mesma panelinha de sempre, e quando surge o Bahia Film Commission vendendo nossa terra, explorando 20% da mão – de – obra local, porque claro, o resto (80%)vem do eixo Rio-São Paulo. Interessante, é que essas comparações nunca, pelo menos eu, ouvi falar quanto ao teatro baiano. E já ia esquecendo, um exemplo recente de união que deu certo, o cenário baiano de dança.

André Setaro disse...

Concordo em parte com você, Caribé, mas o que você leu é de autoria de Raul Moreira. Nada disse sobre o assunto, ainda que esteja a fim de fazer um artigo sobre isso.

Há lucidez nas suas palavras, Letícia.

Léo disse...

Gostei.. concordei em partes também, apesar de não manjar muito do assunto.
Parabéns pelo rtigo!
www.vimdomangue.com

Anônimo disse...

Tá que a história do determinismo caiu mal porém, não dá mais para fecharmos os olhos à farsa que é o cinema baiano. Todos sabem que este coleciona miudezas, o culto à pessoas mortas têm sido o objeto preferencial e o compadrio levou nosso cinema ao apequenamento e a perda. Acredite: cinema baiano s´ existirá quando for ocupado por pessoas e filmes inovadores e polêmicos.

Uma curiosidade: Alguém razoavelmente equilibrado pode explicar para que serve A Jornada?

Maria

Romero Azevêdo disse...

No "movie-beat" pernambucano a LAMA é a ALMA.

Filipe disse...

Uma indústria cinematográfica se baseia no processo mercadológico, no lucro, como qualquer outra vertente da indústria cultural. O cinema baiano não se sustenta, não há retorno financeiro para futuras produções. Como causa disso, grosso modo, está, entre outras coisas, a carência de salas que exibam as produções locais, para fomentar a criação de um público. E, se não há salas, também não há filmes, pois, para estes serem produzidos, dependem de uma ou outra lei de incentivo do Estado, que, tem pouca verba, é burrocrático, e atrasa no pagamento aos vencedores dos editais.

A consequência dessa "não indústria cinematográfica" baiana é a falta de uma mão de obra especializada e capaz, desde técnicos, passando por atores (estes talvez não) e diretores. Por isso a necessidade de "importar" trabalhadores do eixo Rio-São Paulo, quando ocorre uma isolada produção baiana, se é que esse título da localidade é merecido.

Não sei como se configura o cinema em Pernambuco, então não irei discorrer sobre isso. Porém, penso que o texto de Raul Moreira, publicado por Setaro, tem pontos pertinentes na comparação entre os dois cenários, onde o autor favorece a cena cultural pernambucana. Estes não elegeram a barbie pré-fabricada com pilhas nas costas da Cláudia Leite como uma referência musical, mas o baiano sim. Isso traduz, ainda que não se deva cair em um argumento reducionista e genérico, a falta de exigência mínima do público baiano em relação às manifestações culturais que surgem por aqui.
Obviamente, em PE também devem existir similares pasteurizados, como Leite é aqui, pois creio que este problema não é exclusivo da Bahia. As rádios, como frisou Caribé, devem ser permeadas por bandas do tal do forró eletrônico, como aqui ocorre com o axé de meia duzia de gatos pingados de classe média, que sufocam as demais manifestações musicais, seja o rock and roll, o samba duro, de recôncavo, o afoxé, entre outros.

Ademais, particularmente não me agrada uma super valorização das cenas alheias. Isso se configura em um perigo para a crítica local, tão importante para a reflexão cultural, já que a linha entre essa super valorização às coisas dos outros, e um argumento rabugento e cego para com o próprio umbigo, é tênue.

Um abraço,
Filipe Dunham

André Setaro disse...

Gosto de textos assim, que jogam vatapá no ventilador. O de Raul Moreira vai nesse sentido, respingando pedaços azêdos de vatapá aos baianos, "que não nascem, estreiam"

Matheus Trunk disse...

Prezado Setaro: sou um forasteiro neste post, afinal sou paulista rsrs. Tenho um amigo pernambucano e torcedor do Náutico, que já havia me alertado dessa "rixa" entre Bahia e Pernambuco. Também existe uma grande entre Rio e São Paulo. A comparação entre Nação Zumbi e Cláudia Leite dói. Porém, é preciso lembrar que a Bahia produziu sambistas de excelente qualidade (Batatinha, Tião Motorista, Riachão). Acho que muitas vezes a mídia e o jornalismo cultural (isso existe no Brasil? Existe na Bahia? Porque em São Paulo eu garanto que não existe) esquece os artistas autênticos e privilegia estilos de péssima qualidade como o axé. Infelizmente. Todo Brasil acaba tendo uma visão obtusa da Bahia.

Matheus Trunk
www.violaosardinhaepao.blogspot.com

Jonga Olivieri disse...

Concordo com o que Filipe diz no que refere à "não indústria cinematográfica" baiana.
Mas confesso que pouco conhecia (e conheço) do cinema pernambucano... Creio que falta-lhe uma estratégia mercadológica, como sempre teve o cinema da Bahia, desde "priscas" eras --como costuma dizer o Professor Setaro-- ao se promover fora de suas fronteiras.
E neste sentido podemos até concluir que o cinema baiano pós ditadura é que esmoreceu ou perdeu-se em emaranhados gerados pela burocracia das entidades que "dizem" estimular o cinema nacional.