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07 setembro 2009

"Dona Flor" e Ernesto Geisel


Publiquei este texto há algumas semanas no Terra Magazine.
1) Luiz Carlos Barreto, numa longa entrevista à TV Senado, que passou recentemente, conta a sua trajetória de homem de cinema e, lá pelas tantas, fala de Dona Flor e seus dois maridos, o maior sucesso de bilheteria de todos os tempos baseado em romance homônimo de Jorge Amado e dirigido por seu filho, Bruno Barreto. O ano, 1976, a ditadura militar exercia poderosa censura sobre todos os filmes. E implicou com Dona Flor. Queria proibi-lo. Barreto foi à Brasília tentar convencer os censores, mas tudo em vão.
2) De repente, ao sair de um ministério, encontra, por acaso, Amália Lucy, filha de Ernesto Geisel, o general de plantão, a quem se atribui o dito de Chico Buarque de Holanda ("você não gosta de mim, mas sua filha gosta¿). Barreto já conhecia Amália, e ela, surpresa, perguntou o que ele estava a fazer em Brasília. O produtor disse a ela que Dona Flor e seus dois maridos tinha sido proibido pela censura. Mas por quê? indagou a filha do general, que manifestou desejo de ver o filme.
3) Barreto marcou um encontro numa sala de exibição brasiliense e projetou Dona Flor para Amália Lucy. No final, ela revelou a ele ter gostado muito do filme e não via razão para ser proibido. E disse a Barreto: "Quem gostaria muito de ver seria meu pai, pois ele gosta dos romances de Jorge Amado" O célebre produtor, surpreso, ia dizer alguma coisa, quando ela o interrompeu: "Você não conhece meu pai. Vamos marcar uma sessão no Palácio do Planalto. Marcada a exibição, Barreto entrou meio constrangido para projetá-lo para Geisel e encontrou uma sala toda equipada para a sessão especial, com farta distribuição de 'scotch¿ e salgadinhos.
4) Barreto conta que Ernesto Geisel, durante o transcorrer da projeção, riu muito e, no final, congratulou-o por ter feito um filme ágil e engraçado. Disse que entraria imediatamente em contato com o Ministério da Justiça para a liberação de Dona Flor.
5) Dona Flor e seus dois maridos foi filmado em Salvador em 1975 e me lembro de ter acompanhado a filmagem de uma cena no Largo da Palma. Terceiro filme do jovem Bruno Barreto, que tinha em torno de 20 anos (o primeiro, Tati, a garota, baseado em Anibal Machado, o segundo, A estrela sobe, segundo Marques Rabelo), Dona Flor foi lançado no Brasil inteiro e na Bahia em mais de seis salas simultaneamente. Sucesso imenso, filas quilométricas. Mas aconteceu um fato peculiar.
6) Programado para ser exibido em seis salas, na segunda (dia em que os lançamentos entravam em cartaz), o distribuidor da Embrafilme somente tinha recebido em seu escritório apenas cinco cópias e não haveria tempo hábil para mandar buscar a que faltava. Mas, de repente, surgiu uma idéia. A cópia do cinema Bahia poderia ser exibida também no Tamoio, sala perto daquela. Para funcionar, no entanto, era preciso que os horários fossem diferentes. Naquela época, um filme de longa-metragem tinha, a depender de sua duração, cinco, seis latas, contendo, cada uma, um rolo ou carretel. Exibido o primeiro rolo no Bahia, um funcionário da Embrafilme corria para levá-lo ao Tamoio. E assim sucessivamente.
7) Apesar de Barreto ter contado que Geisel tinha ordenado a liberação do filme, o que, realmente, aconteceu, a minha memória me diz que houve o corte de uma cena, quando há um coito anal entre José Wilker e Sonia Braga. Mais de 20 anos depois, quando o filme foi relançado em cópias novas, a cena cortada foi reposta. Se, em 1976, Dona Flor e seus dois maridos foi um êxito sem precedentes, quando do seu relançamento, duas décadas passadas, revelou-se um fracasso retumbante no mercado exibidor.
8) Sonia Braga tinha feito uma Gabriela maravilhosa para uma novela da Globo e o seu aproveitamento como outra personagem amadiana, a Dona Flor, deu muito certo, a ponto do próprio escritor ficar encantado com ela. Poucos anos depois, 1982/83, Barreto a dirige numa produção internacional no papel de Gabriela, mas o filme não soube captar, com a desenvoltura necessária, a crônica de uma cidade de interior que é Gabriela, cravo e canela. No elenco, Marcello Mastroianni. Mas nem mesmo assim conseguiu as graças do público.
9) Em Dona Flor e seus dois maridos, além da de Wilker e Braga, destaca-se a primorosa interpretação de Mauro Mendonça, como o segundo marido de Flor. O primeiro, Vadinho/Wilker, farrista, boêmio, morre de repente num domingo de Carnaval, mas o seu espírito reaparece a tentar a bela Dona Flor. Um triângulo amoroso com acentos espíritas, um ménage-a-trois atípico, portanto.
10) A trilha musical é funcional e eficiente a cargo de Francis Hime. E há, ainda, a letra e música de Chico Buarque de Holanda na interpretação de Simone (O que será, o que será...). Murilo Salles, antes de se tornar realizador, é o diretor de fotografia e, no elenco, vários atores baianos como Nilda Spencer, Mário Gusmão, Dinorah Brillanti, Haydil Linhares, João Gama, Wilson Mello, entre outros. Nesta época, meados dos anos 70, a Bahia virou décor de alguns filmes, entre os quais Tenda dos milagres, de Nelson Pereira dos Santos, também baseado em romance homônimo de Jorge Amado. Nelson, porém, o grão-duque do cinema brasileiro, se tem resultados excelentes quando faz adaptação de Graciliano Ramos (Vidas secas, Memórias do cárcere) não consegue transferir os romances do escritor baiano para um resultado cinematográfico convincente (Tenda dos milagres é melhor, mas Jubiabá decepcionante, ainda que com a ajuda de capital internacional).

10 comentários:

Tucha disse...

Concordo com vc. poucas transposições de Jorge Amado para o cinema foram felizes. D. Flor conseguiu ter uma leveza e bom humor que agradou ao grande público.

Jonga Olivieri disse...

Geisel foi um dos generais-presidentes de plantão menos radicais. Fazia parte da "Sorbonne", a corrente que se opunha à "Linha dura", de seu antecessor Ernesto Garrastazú Médici (sem sombra de dúvida o pior deles).
Mas saindo do sério tem duas coisas que me lembraram situações engraçadas nesta postagem.
A primeira é a do Chico Buarque com a frase: "você não gosta de mim, mas sua filha gosta", que depois ele veio a sentir na própria pele...
E a segunda é a de Amália Lucy que era feia, mas feia pra dedéu e tinha o apelido de "alface de filé", porque ia e voltava no prato e ninguém comia. hehehe!

André Setaro disse...

A ditadura brasileira foi nefasta, mas Geisel peitou os Estados Unidos com o acordo nuclear estabelecido com a Alemanha. Quando Jack Valenti esteve no Brasil, supremo representante da indústria cinematográfica americana, foi ao Palácio do Planalto falar com Geisel, que não o recebeu, mandando que ele fosse conversar com Roberto Farias, então diretor-executivo da Embrafilme.

O 'alface de filé', feia, não é, lógico, nenhum Lolló, mas salvou 'Dona Flor', esta que é a verdade. E, 'malgré tout', gostava de Chico, o Buarque de Holanda.

Romero Azevêdo disse...

Salvo engano foi o Jean-Claude Bernardet que certa vez disse que "Dona Flor" era uma metáfora sobre o bi-partidarismo que alimentava a fachada "democrática" da ditadura. De um lado a oposição( MDB) , representada por Vadinho, ousada mas invisível para a sociedade. Do outro, a situação(ARENA),conservadora, representada por Teodoro e com ampla visibilidade na sociedade( manipulações eleitorais à parte). Dona Flor,óbvio, é o poder que manipula os dois maridos,quer dizer, Dona Flor naquele ano do lançamento do filme era o próprio Geisel. Isso talvez explique as sonoras gargalhadas que ele deu na sessão privê no Planalto. Faz sentido.

André Setaro disse...

A exegese romeroniana também faz sentido. Mas Bernardet, apesar de sua inegável competência, muitas vezes tenta achar cabelo em ovo ou tirar água de pedra.

Romero Azevêdo disse...

Setaro, não quero alongar esse papo mas preciso fazer um esclarecimento: o que Jean-Claude teria dito(repito, não tenho certeza se foi ele)foi, na verdade, em relação ao livro de Jorge Amado, inclusive o termo empregado foi "alegoria". A atualização em relação ao filme de Barreto, a troca por "metáfora" são de minha responsabilidade. Quanto a sua afirmação, respeitarei até a morte o seu direito de dizer, mas os fatos me obrigam a discordar. Nas obras que li de Bernardet, entre elas "Brasil em tempo de cinema", "Cineastas e imagens do povo", "O voo dos anjos", " O autor no cinema" e "Caminhos de Kiorastami", não vi nenhum cabelo em ovo. Quanto a tirar água de pedra, até concordo pois não é fácil (e você sabe muito bem) exercer a crítica cinematográfica nesse País de filmes e cineastas mais que "geniais".
Por mim, o assunto está encerrado.

Caique Gonçalves disse...

Obrigado por compartilhar conosco. É, de certa forma, vergonhoso mas eu ainda não assisti a esse filme!

abs

Rui Luís Lima disse...

Caro André Setaro
Esta película teve um enorme sucesso em Portugal, muito por causa dos seus intérpretes: Sonia Braga e José Wilker na época ocupavam os serões dos portugueses graças à novela "Gabriela Cravo e Canela". Hoje em dia o cinema brasileiro já não chega a este Portugal.
Abraço cinéfilo
Rui luís Lima

André Setaro disse...

Obrigado Rui e Caique pelos comentários.

André Setaro disse...

Caro Romero,

Quando disse que Jean-Claude Bernardet gosta de tirar água de pedra ou buscar cabelo em ovo, fi-lo como ironia sem querer questionar a competência do ensaísta. Comprei e li quase todos os seus livros. "Brasil em tempo de cinema" desde que foi lançado pela primeira vez na segunda metade dos anos 60 (veja bem: dos anos 60, creio 1967).

Com uma visão sociologizante a princípio, passou pela fase semiótica e, nos últimos tempos, faz uma exegese bem particular dos filmes.

Lembro-me daquele curso que tomei no Icba com ele e, no qual, você também se inscreveu, vindo de Campina Grande para tal. Magro, fumava um cigarro atrás do outro, acendendo um no outro. Incrível, fantástico e extraordinário!!