Seguidores

22 fevereiro 2009

O rei da comédia

Sérgio Augusto, discípulo de Antonio Moniz Vianna, o maior crítico de cinema que o Brasil já teve (Walter da Silveira foi um ensaísta, bem entendido), famoso jornalista carioca, exerceu também a crítica cinematográfica nas décadas de 60 e 70, considerado um dos mais perspicazes analistas da arte do filme. No momento em que Jerry Lewis fez 80 anos, ele, o mais competente exegeta do comediante, escreveu, no Estadão (25.03.2006), um excelente artigo, cujos principais textos vou transcrevê-los aqui nesta coluna, tomando, porém, o cuidado de apor, neles, as devidas aspas.

Quando o conheceu pessoalmente, em carne e osso:

Hollywood, sábado, 2 de novembro de 1963, por volta das 18 horas. A alguns metros de mim, Jerry Lewis em carne, osso, volteios e caretas. Dos jornalistas convidados para a estréia mundial do filme Deu a Louca no Mundo, eu era o mais jovem, quase uma criança, e, certamente, o mais ardoroso fã de Lewis na platéia de seu show de TV, naquela noite dedicado à multiestelar comédia de Stanley Kramer. O que significa que ao show compareceu quase todo o elenco do filme: de Milton Berle e Sid Caesar a Mickey Rooney e Jimmy Durante, passando por Ethel Merman, que nos brindou com um pot-pourri de Cole Porter. Não obstante, o infante aqui só tinha olhos para o mestre-de-cerimônias. Que não me decepcionou, roubando a cena com os pés nas costas - ou quase isso literalmente. Agitado, sarcástico, inteligente (145 de Q.I., a mesma marca de Benjamin Franklin e Galileu), cheio de cacoetes, inteligente, fumando sem parar. Nenhuma decepção: era esse mesmo o Jerry Lewis que eu imaginara encontrar - o meninão espasmódico, o bagunceiro arrumadinho, o biruta absurdista. Podem ficar com Jim Carrey. Não aceito imitações.”

E mais: “Como explicar, sem a psicanálise, as freqüentes posições fetais de seus personagens, o gosto pelas calças curtas e meias soquetes, as carências afetivas, os constantes conflitos familiares, os pesadelos, as fobias, as transferências, a fixação em heróis dos quadrinhos? Seu incontrolável narcisismo seria o único responsável por sua volúpia transformista? Lewis se desdobrava em dois em Mensageiro Trapalhão, O Professor Aloprado e O Fofoqueiro, e em sete em Uma Família Fulera. Ok, Alec Guinness encarou oito papéis em As Oito Vítimas, mas nunca encarnou, de lambujem, a própria mãe, como Lewis fez em O Terror das Mulheres.”

Descoberto pelos franceses: “Desprezado pelos críticos americanos, inclusive por aqueles mais afinados com o gosto da crítica francesa, como Andrew Sarris, Lewis transformou-se na segunda maior idiossincrasia francesa aos olhos dos francófobos da direita americana. A primeira continua sendo o escargot, que talvez já tivesse perdido a supremacia se Lewis ainda fosse o que era na década de 60. O governo francês lhe deu a Légion d'Honneur, a Cinemateca Francesa dedicou-lhe uma retrospectiva em 1964 e o Festival de Cannes o convidou para jurado e para receber um prêmio especial em 1979. Saiu na França, em 1970, o primeiro ensaio monográfico a seu respeito: o volume 59 da coleção Cinéma d'Aujourd'hui, da Seghers, escrito por Gérard Recasens.”

Ainda mais: “Por estas bandas, as mais simpáticas acolhidas às comédias de Lewis traziam a assinatura de Moniz Vianna, que aprendera a gostar do comediante nasmelhores patuscadas (Artistas e Modelos e Ou Vai ou Racha) da dupla JerryLewis-Dean Martin dirigidas por Frank Tashlin, e José Lino Grünewald, para quem Lewis cineasta, discípulo assumido, porém mais ousado, de Tashlin, até porque mais metalingüístico, "fez o cinema absorver o moderno com uma precisão avassaladora" - notadamente a partir de O Terror das Mulheres, atingindo o ápice com a mais inventiva e perturbadora adaptação de O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson: O Professor Aloprado. Claro que não foi da refilmagem de The Nutty Professor, com Eddie Murphy, que tiraram o professor John Frink da série Os Simpsons.

“A dupla Martin-Lewis (sim, por incrível que pareça, era nessa ordem) encheu de alegria a minha infância. Revistas com olhar adulto, só as duas citadas comédias de Tashlin, marcadamente influenciadas pelo desenho animado, talvez se salvem sem arranhões. Não eram sucedâneos de Laurel & Hardy (o Gordo e o Magro), admirados com igual intensidade. Nem de Abbott-Costello, embora também fosse de origem italiana o sem graça da dupla, Lou Costello. Mas um abismo separava os talentos de Bud Abbott e Lewis. Martin e Lewis trabalharam juntos dez anos. Em clubes noturnos, no rádio, na TV, nos estúdios da Paramount (onde rodaram 16 filmes) e em Las Vegas. Arrasaram na bilheteria entre 1950 e 1956, façanha que Lewis esticou, sozinho, até 1964.”

Jerry na velhice: “Como está? Fora de forma, gordo e safenado, vivendo de rendas, pequenas aparições em filmes alheios (negocia uma aparição relâmpago no paródico Horrorween, a ser rodado no ano que vem), homenagens e publicidade (enfiou um copo na boca para anunciar a vodca Absolut). Por pouco não morreu antes de Martin, vitimado por uma droga (Percodan, substituto da morfina, que tomava contra as seqüelas de uma queda de mau jeito no programa de Andy Williams), por um enfarte, após as filmagens de O Rei da Comédia, de Martin Scorsese, em 1982, e por um câncer da próstata, extirpado com êxito em 1992. Hoje luta contra o diabete e uma fibrose pulmonar. Nunca ter perdido o senso de humor é a melhor prova de sua saúde psíquica.”

5 comentários:

anjobaldio disse...

Olá Professor, virei aqui mais vezes. Grande abraço.

Carlos Siqueira Campos disse...

Será preciso esperar a morte de Jerry Lewis para que ele possa ser considerado um gênio do cinema? Suas obras-primas e autorais já se encontram distante, na década de 60, e muitos cinéfilos de hoje não mais puderam conhecê-las na sua explosividade e genialidade, quando foram exibidas nos cinemas. A impressão que possam ter deste gênio é a do 'clown' das sessões da tarde globais, quando muitos de seus filmes foram reprisados nos anos 80, principalmente.

Jerry contribui muito para a evolução da linguagem cinematográfica, como você, caro Setaro, gosta de dizer. Mas Godard, Truffaut, Rohmer, Chabrol, e os críticos europeus consideram-no um Deus.

Stela B. de Almeida disse...

Sobre o velho e o novo e suas comparações. Ainda tenho muito que aprender e este é um tema que atravessa a historiografia cinematográfica, da qual me aproximei com mais empenho nos últimos anos, posso até não ter percebido a dimensão que o texto sobre Jerry Lewis povoca. Prefiro não comparar.

Houve um Oscar humanitário em 2009 para o ator ou estou ouvindo demais? qual o significado deste gesto? o que representa um Oscar humanitário? Tenho a impressão que os dois textos publicados neste Blog tem um propósito, se entendi, o rei continua vivo na memória e não perdeu sua saúde psíquica. E isso é bom lembrar.

Jonga Olivieri disse...

Como bom "rei da comédia", a vida de Jerry Lewis tem se desenrolado em pequenos (ou seriam grandes?) dramas.
Afinal, a velha lágrima de um palhaço no camarim é uma 'máxima' que de fato existe...

Romero Azevêdo disse...

Setaro, dizem que quando perguntado sobre quais eram os três maiores comediantes do cinema, Jerry respondia rápido: Jerry Lewis, Jerry Lewis e Charles Chaplin. É um exagero, mas os gênios têm direito a exageros.
O vi na noite do Oscar visivelmente contrariado ao receber a ridícula homenagem da academia (um Oscar "humanitário" pela criação do programa de TV Teletom que ajuda as crianças portadoras de deficiências motoras). A contrariedade de Lewis não foi falta de gratidão, ele mesmo disse que quando criou esse programa (no Brasil o SBT produz uma versão anual) não foi pensando em receber elogios ou homenagens, foi puramente por amor ao próximo.
O que ele fez, uma flmografia extraordinária, que merecia mais que um punhado de oscars, a academia (burra e insensível) nunca reconhece.