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12 janeiro 2009

O canto de cisne de Vincente Minnelli

Nunca vi, e eu que sou um minnelliano fanático, o derradeiro filme de Vincente Minnelli, Uma questão de tempo (A matter of time), realizado em 1976, quando o mestre do estilo e da sofisticação reuniu Liza Minnelli, uma de suas filhas com Judy Garland, a inexcedível, e Ingrid Bergman. Liza estava no auge de sua carreira, principalmente por causa de Cabaret, de Bob Fosse. Encontrei, porém, no excelente blog Tertúlias (http://www.tertulhas.blogspot.com/), que reúne preciosidades do passado, informações sobre o filme, que me permito transcrever. Interessante observar que os produtores boicotaram A matter of time, inutilizando-o com uma montagem completamente apócrifa e espúria (a lembrar o que fizeram com Revoada, de José Umberto). A julgar pelo dito abaixo, seria um canto de cisne à altura do gênio minnelliano, não fosse a interferência dos producers. Na época, meados dos anos 70, a indústria somente estava preocupada com filmes para o público infanto-juvenil, dando início à abominável infantilização temática que hoje domina o cinemão, conforme relato abaixo, que abro aspas para transcrevê-lo do blog citado:
"Uma questão de tempo“ (Vincente Minelli, 1976) é, para mim, um filme inacabado... Uma pena pois poderia ter sido muito brilhante... Eu o assisti na época no Cine Caruso (Copacabana, posto seis) e me lembro da crítica ter comentado irônicamente o seguinte fato, mais ou menos com as seguintes palavras: “O “velho” saiu de moda. O público nao correrá aos cinemas para assistir “Uma questão de tempo”. A América (do Norte) se preocupa com o novo, o jovem. Filmes como este são desagradáveis para os espectadores que não se fixam na juventude”. Incrí­vel como este processo, o culto pela juventude, hoje em dia, 32 anos depois, se “aprimorou”. Pensem nisso. Baseado no livro “Film of Memory” de Maurice Druon (um pequeno trabalho, sensível, as vezes até cheio de uma poesia triste), conta a estória de “Nina” (Liza Minnelli), uma mocinha do interior da Itália que vai trabalhar, em 1949, como camareira num hotel em Roma. Lá, ela conhece uma hóspede fixa do hotel: Contessa Sanziani (Ingrid Bergman), que na sua juventude foi uma das mulheres mais belas, famosas e ricas da Europa, foi retratada por todos os impressionistas (!!!), abandonou o marido (Charles Boyer) para viver seu/seus amor/amores... Hoje ela está à beira da miséria num quarto sujo deste hotel de terceira classe. Confusa...A Condessa, para quem o tempo nunca significou nada, perdeu totalmente a noção dele. As vezes não sabe que seu grande amor “Doraccio” morreu, que sua antiga criada é hoje a grande figurinista de um Ballet russo, que é pobre, que envelheceu e que foi esquecida ("Não deixamos as pessoas morrerem quando esquecemos dela" diz no filme). Ela começa a contar suas memórias à Nina, que inicialmente fica fascinada por elas. Com o passar do tempo a fascinação cresce, transforma-se quase numa obsessão e Nina começa a “viver” as memórias da Contessa como suas próprias fantasias... da conquista de Maharajahs, às mesas de jogo de Monte Carlo...Minha cena preferida, uma das poucas com um certo élan: um canal em Veneza. A Contessa (neste caso como uma memória/fantasia, interpretada por Liza) despede-se de seus convidados de uma festa de fantasias. Ela diz adeus ao “Kaiser” (“Chame-me de Wilhelm, por favor!”) e ao entrar no seu Palazzo vai deixando a roupa cair até o ponto de estar praticamente só de combinação. Ela não deixa os cinco músicos negros pararem de tocar e canta “Do it again!” de Gershwin. Nao a Contessa, nao a Nina... porém Liza. As filmagens começaram num clima entusiástico, com grandes esperanças para um sucesso. Mas vamos ser sinceros, tudo indicava: Minnelli & Minnelli (Ele, a lenda, com toda a sua técnica. Ela, apesar de ter tido alguns fracassos como por exemplo “Lucky Lady” com Burt Reynolds e Gene Hackman, ainda muita considerada por sua recente Sally Bowles de “Cabaret”, a grande Ingrid Bergman num de seus últimos filmes, Charles Boyer (este em seu último filme. Ele e Ingrid, além de serem muito amigos, já haviam trabalhado duas vezes juntos na juventude: no fabuloso “Luz de Gás” de George Cukor – veja minha postagem de 23.05.2008 – e no, quase traumatizante, “Arco do Triunfo”, baseado na novela de Erich Maria Remarque). No elenco secundário, Fernando Rey, Tina Aumont e, na sua primeira aparição no cinema, Isabella Rossellini, como a freira que cuida da Contessa antes de sua morte (Quando ela pergunta: foi isso? Isso foi a vida?) Grandes figurinos, duas novas canções de Kander & Ebb (a canção título do filme e “The me I haven’t met yet”, que se passa “na cabeça” de Nina (este nao é de nenhuma forma um musical) e filmagens “in loco”, em Roma e Veneza. Todos estes ingredientes contribuí­ram para uma grande expectativa! MAS a American International Pictures, muito consciente dos gastos, tirou o filme das mãos de Minnelli quando este ficou “over budget”. O resultado não poderia ter sido mais patético – e trágico! O filme, além de ser todo o tempo interrompido por cenas à la “cartao postal” de Roma (horríveis... com turistas que definitivamente não são de 1949), foi revelado da forma mais barata possí­vel (Mesmo assim existem, aqui e acolá, cenas de um grande poder visual, a marca registrada de Vincente). A música de fundo é uma catástrofe, assim como a forma na qual o filme foi cortado. Uma vergonha! Martin Scorcese deu vários depoimentos criticando a forma como a AIP maltratou e humilhou uma lenda cinematográfica como Minnelli. Numa conferência para a imprensa, Vincente rompeu oficialmente a sua relação com este filme, já que não mais o considerava “seu”. Triste pensar que este foi seu “canto de cisne”, já¡ que nunca mais voltaria a dirigir um filme."
Nota de AS: A lenda Minnelli morreu em 1983, 7 anos depois de A matter of time, de Mal de Alzheimer, esquecido de tudo, sem saber, inclusive, quem ele era.

3 comentários:

André Setaro disse...

Comecei a gostar de cinema vendo os filmes de Vincente Minnelli: 'A lenda dos beijos perdidos', 'Um estranho no paraíso', 'A roda da fortuna','Sinfonia em Paris', 'Gigi', 'Brotinho indócil' 'Esta loura vale um milhão', 'Papai precisa casar', 'Chá e simpatia', 'Teu nome é mulher', 'Assim estava escrito', etc. 'Deus sabe quanto amei', 'A cidade dos desiludidos', 'Adeus às ilusões', entre outros, vi-os quando já estava consciente de gostar de cinema.

Cassiano Mendes disse...

Pois é, amigo Setaro. Também sou admirador de Minnelli, mas somente vim a conhecê-lo já adulto. Se vi algum filme dele na infância ou juventude, não me lembro. Comprei 'A roda da fortuna', 'Assim estava escrito' 'A lenda dos beijos proibidos', 'Teu nome é mulher', 'Gigi'. Mas gostaria de ver 'Sede de viver', com Kirk Douglas a interpretar Van Gogh. Será que posso encontrá-lo e se aonde?

Tertúlias... disse...

Só agora vejo que me citatstes aqui - Que maravilha!