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07 maio 2008

A conexão francesa de Frankenheimer



Há filmes que, porque oriundos do chamado cinemão (leia-se indústria cultural de Hollywood), são desprezados a priori pela crítica. Como se uma boa obra cinematográfica não pudesse surgir do bojo industrial. Se o cinema hollywoodiano, atualmente, é um lixo, não se pode deixar, porém, de convir que, no passado, o cinema americano produziu algumas das melhores pérolas da sétima arte em todos os tempos. Por exemplo, vi, muito recentemente, em DVD, um filme que fora massacrado pela crítica quando do seu lançamento em meados da década de 70: Operação França II (The French Connection II, 1975), de John Frankenheimer. Não confundir com o primeiro, Operação França, de William Friedklin, feito no início da década de 70, mas que recebeu elogios entusiasmados da crítica mais competente e mais limpa. Surpreendentes o domínio formal de Frankenheimer – nesse particular Friedklin também é um mestre (e, para isso, basta ver Jade) e o tratamento temático inusitado e insólito para um filme que se pensaria numa continuação amorfa do primeiro. Obra de mise-en-scène, é, também, além de um extraordinário filme de ação e emoção, uma reflexão sobre o choque cultural entre a mentalidade americana e a francesa, pois o tira interpretado por Gene Hackman, que deixou escapar o grande traficante Fernando Rey no final do primeiro, vai a Marselha para capturá-lo, e, nessa cidade, fica subordinado, por estrangeiro, aos ditames da polícia francesa, cujo chefe, interpretado por Bernard Fresson, a princípio, não oferece condições para um desempenho livre de Hackman.

Mas o que surpreende em The French Connection II é a alternância inusual, em fitas do gênero, entre os momentos fortes e os momentos fracos. Todo rodado em Marselha, The French Connection II tem também um registro documental que revela a geografia da cidade.Há uma seqüência extraordinária nesse sentido, quando Hackman, que é capturado pela gang de Fernando Rey, e passa semanas tomando heroína para se viciar, e, finalmente, é salvo e começa um tratamento de choque para a desintoxicação, fica na cela frente a frente com o policial francês. Este, para conter os ímpetos da abstinência da droga, oferece a Hackman uma garrafa de conhaque e os dois começam a conversar. Os planos são fixos e demorados e Hackman procura, na sua embriaguês, relembrar fatos passados e bem imbricados à cultura americana sob o olhar paciente, mas confuso, do policial. Nessa interlocução, inusitada, repita-se, para um thriller, está contida todo o choque existente entre duas culturas.

A narrativa de Frankenheimer parece que foi introduzida por um fio elétrico de alta tensão, pois o espectador, mesmo nos momentos em que nada acontece, fica suspenso, à espera que algo surja de repente. Mestre de obras nas quais a ação é a tônica, mas sempre procurando dar a esta um sentido de espetáculo e de mise-en-scène, Frankenheimer foi um diretor de inegáveis atributos, ainda que, no final da carreira, não tenha demonstrado o vigor de outrora. Mas fez filmes importantes como Sob o domínio do mal, Sete dias de Maio, O extraordinário marinheiro, O homem de Alcatraz, entre muitos outros, para cair, no fim da vida, em mediocridades do tipo Amazonas em chamas.

Antigamente se chegou a dizer: há ‘um frankenheimer na praça’, o que se traduz, por atestado de vigor, de profissionalismo, de bom espetáculo.Operação França II, realizado em 1975, antes que a infantilização temática tomasse conta de Hollywood, é um filme que merece ser revisto e, para isso, existe em DVD em cópia luminosa bem distribuída. A crítica, que fez vista grossa para esse filme de Frankheimer, considerando, ora vejam só, ‘medíocre continuação’, precisa, urgentemente, se ainda quiser enxergar e ver o cinema na sua essência, fazer uma revisão completa de seus postulados superados. O espetáculo reina em The French Connection II, há um sentido cinematográfico na direção de Frankenheimer que espanta e assombra.

Para muitos, entretanto, a obra cinematográfica está presa ao elo semântico, ao elo do conteúdo, desconhecendo, muitos que se arvoram a comentaristas cinematográficas, a importância do elo sintático, da maneira pela qual o realizador articula os elementos da linguagem cinematográfica em função da explicitação temática.Os ‘contemporâneos’, adeptos da chamada ‘contemporaneidade’, que virou jujuba em boca de pseudo-intelectual, podem ver as qualidades de um Almodóvar, Lynch, Von Trier, mas quando se trata de um Friedklin, de um Frankenheimer, a coisa fica mais difícil. Por que? Creio que a resposta está dada.

05 maio 2008

Furdunço no cinema baiano

O jornal baiano A Tarde publicou, hoje, em página inteira do seu segundo caderno, uma reportagem sobre os problemas enfrentados pelos cineastas baianos. Acontece que a Fundação Cultural do Estado da Bahia promove concursos de roteiros através de editais com o propósito de incentivar a produção de filmes. No momento está em vias de publicar novos editais, mas acontece que os roteiros premiados nos últimos concursos, cujos filmes deveriam já estar prontos e acabados, ainda estão a penar pela finalização. Há um longa, Pau Brasil, de Fernando Belens, e dois curtas, um de Lázaro Faria, outro de Joel de Almeiida, que se encontram pendentes.
Atento e vigilante, o respeitado Tuna Espinheira, diretor do longa Cascalho, baseado no romance homônimo de Herberto Salles, leu a matéria com certa indignação pelo fundurço existente. Porque, na sua opinião, tudo deve estar transparente e às claras. Não posso opinar porque não tenho dados suficientes, e se é um fundurço é coisa complicada. Mas publico, aqui, neste blog, a mensagem que Espinheira mandou para A Tarde sobre o mesmo fundurço. A fotografia que ilustra este post, antes de dar alguma luz à questão, oferece apenas uma perspectiva: a de se beber colorido diante de tal fundurço. Vejam o que o velho Tuna escreveu:
"Toda a capa do Caderno 2, deste prestigioso Jornal, com direito a fotografias em cores, (dia 5/5/2008), saiu dedicada ao cinema baiano. Noticia desacertos e tropeços na área, infelizmente com embasamento. O teor da matéria, baseada em fatos verdadeiramente acontecidos, mostra uma relação de não cumprimento de prazos contratuais, entre Editais do Governo e produtores, realizadores, prata da casa. Como um dos viventes deste meio da sétima arte, sei perfeitamente do perigo que ronda à combalida resistencia do fazer cinema nestas bandas. Conheço de perto, na carne, no coração e mente, as agruras que significa filmar por aqui. Também conheço a sanha dos "espiritos de porco", dos "pálidos coveiros", sempre prontos a brandir a pá de cal sobre este seguimento da cultura baiana. Triste Bahia!

Acho que tudo deva ser apurado, conversado, nada pra debaixo do tapete. Principalmente, tenho certeza, a questão será resolvida. Os cineastas baianos não usam cartões corporativos. Todos poderão dar conta das diculdades que atravessam."
Tuna Espinheira
tunaespinheira@terra.com.br

04 maio 2008

Introdução ao cinema (4)



Ainda em torno do segundo elemento determinante da especificidade da linguagem cinematográfica: os movimentos de câmera. Ficamos na panorâmica semana passada. Existem, porém, outros exemplos desse movimento específico e de fundamental importância. Vejamos.
Há também uma panorâmica chamada circular, que, sobre ser mais complexa na sua execução, não é menos eficiente do ponto de vista da significação. Neste caso, a câmera observa à sua volta num ângulo de 360 graus, normalmente com motivos mais do que válidos. A panorâmica circular é utilizada pelos cineastas para captar os diferentes estados de espírito de uma personagem sem interromper a continuidade espacial, deixando-a alegre para voltar a vê-la triste depois de ter percorrido integralmente a sala onde se encontra. Este é o procedimento que a câmera segue de bom grado nas obras de índole "comportamentista", nas quais os protagonistas nunca são perdidos de vista em todas as suas evoluções físicas e psíquicas (Acossado/A Bout de Souffle, de Jean-Luc Godard, 1959, é, nesse particular, um exemplo notável).
Ou, então, a panorâmica circular é usada para fazer denotar uma situação labiríntica em que o protagonista vive, a despeito das aparências tranqüilizantes. Assim, os repetidos movimentos circulares da câmera em Mundo ao Telefone(Welt am Drht, de Rainer Fassbinder, 1973), não tem outra função que não seja a de denunciar a insuspeita condição de robots manipulados por outrem que aflige todas as personagens do filme. Passemos, finalmente, ao travelling, outro movimento de câmera importante que constitui fator dramático muito poderoso e pode ser feito para a frente (passagem de um plano geral para um close) ou para trás (passagem de um close para um plano geral).
Também, existe o travelling lateral, quando a câmera acompanha o andar de um ator, sem haver, propriamente, uma mudança de plano. A rigor, o travelling se dá através de uma plataforma de quatro rodas, que anda me trilhos ou sobre tábuas, na qual é colocada a câmera para as tomadas me movimento. Há o travelling para a frente, o travelling para trás (ou a ré) e o travelling lateral. Por extensão, compreende-se travelling qualquer movimento de câmera colocada sobre um carro ou veículo (trem, automóvel etc). Os movimentos também podem ser obtidos dispensando-se a base móvel e o tripé de apoio: é o caso da câmera na mão, recurso estilístico e ao mesmo tempo econômico. A câmera na mão é umas das características estilísticas do Cinema Novo brasileiro a partir mesmo do slogan glauberiano: Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça". Diversas combinações desses movimentos são possíveis e determinadas pela necessidade de acompanhar o movimento do objeto filmado ou pela intenção de abarcar um maior campo visual.
É de se ressaltar, no entanto, que a mesma tomada pode constar de vários planos interligados, não se podendo confundir, portanto, unidade de tomada com unidade de plano. Para melhor exemplificar os movimentos de câmera, e sua funcionalidade na expressão cinematográfica, que se tome, aqui, um exemplo magnífico de um filme de Claude Chabrol: O Açougueiro (Le Boucher, 1969) no qual há uma cena primorosa no que concerne ao uso, pelo cineasta, da possibilidade locomotiva da câmera. Le Boucher é um filme sobre um açougueiro torturado pela mania homicida. Um belo dia, ele confessa o seu afeto à ignara professora da aldeia, declaração que tem lugar num bosque onde os dois se deslocaram para colher legumes. A atmosfera, portanto, seria das mais tranqüilizantes não fora passar-se - durante o colóquio entre ambos -algo que não pode deixar de alarmar o espectador atento. E esse algo não se refere ao comportamento dos personagens - que continuam a dialogar num cenário idílico -mas, e precisamente, ao comportamento da câmera, da máquina de filmar, que, quase inadvertidamente, começa a deslocar-se lateralmente até o primeiro plano de um tronco de árvore se interpor entre ela - a câmera - e o par, escondendo o homem cujas palavras, no entanto, continua-se a ouvir. A vista é desimpedida com a saída do tronco do campo de visão, mas pouco depois desaparece novamente quando o movimento se repete me sentido contrário, conduzindo a câmera à posição inicial.
Eis um caso me que um simples travelling se encarrega de denunciar ao espectador a atitude reticente da personagem, encobrindo-a da vista no momento em que se revela ao ouvido. Esta denúncia, e aqui, neste travelling, se encontra uma das chaves para a compreensão do cinema, considerando a distinção entre narrativa e fábula (que se verá depois me outra oportunidade). Pois bem! A denúncia é dirigida ao público e não,infelizmente, à desventurada professora, que se manterá por um bom tempo na ignorância das verdadeiras intenções do carniceiro degolador. Um movimento inesperado, repentino, da câmera de filmar, é suficiente para colocar o espectador de sobreaviso e o deixar em melhores condições que a vítima inconsciente - como é o caso de Le Boucher.
Semelhantes advertências - ou avisos - feitos pela narrativa e não pela história - não se limitam aos filmes ditos policiais, mas se encontram disseminadas, em medida diversa, por todos os textos fílmicos que pretendem seguir a trajetória que conduz da aparência à essência, isto é, que pretendem desmascarar uma realidade falsa.
Antes que me esqueça: a foto é de Eva Marie Saint em um dos melhores filmes de Hitchcock: Intriga internacional (North by northwest, 1959).

A título de esclarecimento

Recebi um comentário de Sérgio Palma, filho de Palma Netto, o produtor de Sol sobre a lama. Ele postou em comentários mas, pela sua importância, como esclarecimento histórico, deixo-o, aqui, como post. E já estou a providenciar a correção do nome de seu pai com o acréscimo de mais um "t" no seu nome.
"Em relação ao cinema, posso confessar que todo o meu conhecimento se restringe ao prazer de apreciar um bom filme.Com apenas quatro anos, não fui espectador da epopéia que foi Sol Sobre a Lama, más presenciei, juntamente com meus irmãos, Palma Netto (com dois t, por favor) transbordar satisfação por ter realizado este filme.
É fato notório, que meu Pai ficou aborrecido com o filme A Grande Feira, de Roberto Pires e Rex Schindler, pois achava que “a coisa não tinha sido contada como foi”. O objetivo era, em suas palavras, “fazer um filme que daria uma resposta às inverdades de A Grande Feira.”
O Alex Viany, apaixonado na época por filmes japoneses, quis imprimir ao drama o mesmo estilo, o que contrariou profundamente Palma Netto. Em suas palavras, “o filme estava lento com tomadas longas e monótonas”.
Em entrevista concedida a Guido Guerra, reproduzida em seu livro A Noite dos Coronéis, diz Palma Netto: Esse filme tinha tudo para dar certo se eu não tivesse cometido a ingenuidade de contratar o Alex Viany para dirigi-lo. Eu o conhecia do congresso de escritores, tinha admiração por ele enquanto crítico, teórico de cinema. Ele sabia tudo de cinema na teoria, conhecia a história do cinema, sabia analisar um filme, só não sabia fazer cinema. Me esculhambou o filme.”
Manda quem pode, obedece quem tem juízo. Como diz o André Setaro, o Alex Viany era muito temperamental e não levava desaforo para casa. Quem conheceu e conviveu com meu Pai, sabe que ele podia ser muito mais temperamental, e desaforo para casa, que eu saiba, nunca levou. O resultado é do conhecimento de todos. Palma Netto judicialmente autorizado remontou o filme, o qual se encontra preservado na cinemateca de São Paulo.
No aniversario de quatro anos do projeto “Quartas Baianas” da sala Walter da Silveira, tivemos o prazer de rever o filme com a presença de Álvaro Queiroz e Gessy Gesse. Palma Netto compareceu espiritualmente, essa, acredito eu, ele não perderia.Quero deixar claro que não faço nenhum juízo de valor quanto ao trabalho do Alex Viany, até porque não conheço sua obra e nem tenho conhecimento cinematográfico para tal. Tive apenas a intenção de passar aos interessados no tema o que se passou na intimidade da cozinha de Palma Netto (com dois t, por favor).

03 maio 2008

Hospitais mais matam do que curam

Passei, ano retrasado (novembro e dezembro de 2006), quase dois meses hospítalizado. Tive um cinematográfico enfarte agudo do miocárdio e penei até que fossem implantadas duas majestosas pontes de safena. A bem da verdade, fui muito bem tratado pelos médicos e enfermeiras, ainda que algumas destas, principalmente quando no inferno do centro de tratamento intensivo - as famigeradas UTIs, gostassem de exibir autoridade porque, frustradas, precisam, nestas oportunidades, exercer poder. E nada melhor para o exercício do poder do que em cima de um paciente, de um ser temporariamente inválido. Mas de um modo geral, feita a ressalva, sou muito crítico em relação a médicos, que, na sua grande maioria, tirante as sumidades de praxe, são arrogantes e ignorantes. Lembrei-me deste artigo ao ler a notícia de que a Faculdade de Medicina da UFBa foi considerada uma das piores do Brasil pelo MEC. A bem da verdade, esta faculdade era considerada um centro de excelência há algumas décadas atrás, com sumidades da área como Estácio de Lima, Fernando Carvalho Luz, Fernando São Paulo, entre muitos outros. O que está a acontecer? Estamos rolando ladeira abaixo? O texto que vai abaixo foi tirado da internet e quem o escreveu foi Sérgio Gwercman.
Dr. Vernon Coleman, tem 57 anos, gosta de escrever livros de ficção e já publicou 12 romances. Divide seu tempo entre o interior da Inglaterra e uma cobertura no centro de Paris. Sofre de "cotovelo de tenista" nos dois braços por causa da má postura ao digitar. Diz que os hospitais mais matam do que curam e que é preciso ser muito saudável para sobreviver a um deles.

Por Sérgio Gwercman
Um selo colado na testa advertindo sobre os perigos que podem causar à saúde. Se dependesse do inglês Vernon Coleman, esse seria o uniforme ideal dos médicos. Dono de um diploma em medicina e um doutorado em ciências, Coleman abandonou a carreira após dez anos de trabalho para ganhar a vida escrevendo livros com títulos sugestivos do tipo : "Como Impedir o seu Médico de o Matar" Autor de 95 livros, o inglês é um auto-intitulado defensor dos direitos dos pacientes. Em seus textos, publicados nos principais jornais do Reino Unido, costuma atacar a indústria farmacêutica - para ele, a grande financiadora da decadência - e, principalmente, os médicos que recusam tratamentos que excluam a utilização de remédios e cirurgias. Dono de opiniões polêmicas, Coleman ainda afirma que 90% das doenças poderiam ser curadas sem a ajuda de qualquer droga e que quanto mais a tecnologia se desenvolve, pior fica a qualidade dos diagnósticos.

Como um médico deve se comportar para oferecer o melhor tratamento possível a seu paciente?

Os médicos deveriam ver seus pacientes como membros da família. Infelizmente, isso não acontece. Eles olham os pacientes e pensam o quão rápido podem se livrar deles, ou como fazer mais dinheiro com aquele caso. Prescrevem remédios desnecessários e fazem cirurgias dispensáveis. Ao lado do câncer e dos problemas de coração, os médicos estão entre os três maiores causadores de mortes atualmente. Os pacientes deveriam aprender a ser céticos com essa profissão. E os governos, obrigá-los a usar um selo na testa dizendo "Atenção: este médico pode fazer mal para sua saúde".

Qual a instrução que pacientes recebem sobre os riscos dos tratamentos?

A maior parte das pessoas desconhece a existência de efeitos colaterais. E grande parte dos médicos não conhece os problemas que os remédios podem causar. Desde os anos 70 eu venho defendendo a introdução de um sistema internacional de monitoramento de medicamentos, para que os médicos sejam informados quando seus companheiros de outros países detectarem problemas. Espantosamente, esse sistema não existe. Se você imagina que, quando uma droga é retirada do mercado em um país, outros tomam ações parecidas, está errado. Um remédio que foi proibido nos Estados Unidos e na França demorou mais de cinco anos para sair de circulação no Reino Unido. Somente quando os pacientes souberem do lado ruim dos remédios é que poderão tomar decisões racionais sobre utilizá-los ou não em seus tratamentos.

Você considera que os médicos são bem informados a respeito dos remédios que receitam a seus pacientes?

A maior parte das informações que eles recebem vem da companhia que vende o produto, que obviamente está interessada em promover virtudes e esconder defeitos. Como resultado dessa ignorância, quatro de cada dez pacientes que recebem uma receita sofrem efeitos colaterais sensíveis, severos ou até letais. Creio que uma das principais razões para a epidemia internacional de doenças induzidas por remédios é a ganância das grandes empresas farmacêuticas. Elas fazem fortunas fabricando e vendendo remédios, com margens de lucro que deixam a indústria bélica internacional parecendo caridade de igreja. Acompanhando didaticamente alunos do 6º ano (prestes a entrar na vida profissional) constatei que apenas 5% conhecia a farmacocinética dos produtos que propunham aos pacientes. Entre profissionais experientes não consigo estimar, no entanto suponho ser porcentagem menor, pois a prática usual em vários empregos com períodos extensos e irregulares diminuem a possibilidade de aprender, especialmente bioquímica e farmacologia. Para aumentar este problema, temos alterações periódicas na composição dos produtos comerciais com vistas a aumentarem o preço, por serem considerados medicamentos novos. O que dificulta mais ainda o escasso tempo médico dedicado à atualização.

E o que os pacientes deveriam fazer?

Enfrentar doenças sem tomar remédios?É perfeitamente possível vencer problemas de saúde sem utilizar remédios. Cerca de 90% das doenças melhoram sem tratamento, apenas por meio do processo natural de autocura do corpo. Problemas no coração podem ser tratados (não apenas prevenidos) com uma combinação de dieta, exercícios e controle do estresse. São técnicas que precisam do acompanhamento de um médico. Mas não de remédios.
Receber remédios não é o que os pacientes querem quando vão ao médico?É verdade que muitos pacientes esperam receber medicamentos. Isso acontece porque eles têm falsas idéias sobre a eficiência e a segurança das drogas. É muito mais fácil terminar uma consulta entregando uma receita, mas isso não quer dizer que é a coisa certa a ser feita. Os médicos deveriam educar os pacientes e prescrever medicamentos apenas quando eles são essenciais, úteis e capazes de fazer mais bem do que mal.

Que problemas os remédios causam?

Sonolência, enjôos, dores de cabeça, problemas de pele, indigestão, confusão, alucinações, tremores, desmaios, depressão, chiados no ouvido e disfunções sexuais como frigidez e impotência.
Em um artigo, você cita três greves de médicos (em Israel, em 1973, e na Colômbia e em Los Angeles, em 1976) e diz que elas causaram redução na taxa de mortalidade. Como a ausência de médicos pode diminuir o risco à vida?
Hospitais não são bons lugares para os pacientes. É preciso estar muito saudável para sobreviver a um deles. Se os médicos não matarem o doente com remédios e cirurgias desnecessárias, uma infecção o fará. Sempre que os médicos entram em greve as taxas de mortalidade caem. Isso diz tudo. Aqui no Brasil pudemos constatar o mesmo durante greve prolongada de médicos no Rio de Janeiro


Muitas pessoas optam por terapias alternativas. Esse é um bom caminho?

Em diversas partes do mundo, cada vez mais gente procura práticas alternativas em vez de médicos ortodoxos. De certa maneira, isso quer dizer que a medicina alternativa está se tornando a nova ortodoxia. O problema é que, por causa da recusa das autoridades em cooperar com essas técnicas, muitas vezes é possível trabalhar como terapeuta complementar sem ter o treinamento adequado. Medicina alternativa não é necessariamente melhor ou pior que a medicina ortodoxa. O melhor remédio é aquele que funciona para o paciente.

Em um de seus livros, você afirma que a tecnologia piorou a qualidade dos diagnósticos. A lógica não diz que deveria ter acontecido o contrário?
Testes são freqüentemente incorretos, mas os médicos aprenderam a acreditar nas máquinas. Quando eu era um jovem doutor, na década de 70, os médicos mais velhos apostavam na própria intuição. Conheci alguns que não sabiam nada sobre exames laboratoriais ou aparelhos de raios-X e mesmo assim faziam diagnósticos perfeitos. Hoje, os médicos se baseiam em máquinas e testes sofisticados e cometem muito mais erros que antigamente. Infelizmente tenho constatado mais agravantes neste aspecto de exames:

1- 70% dos resultados de exames onde os pacientes referem que estão normais (ditos pelos médicos que solicitaram) tenho encontrado alterações documentadas no próprio exame (constado nos valores de referência). Isto reflete dupla negligência; do médico que não valorizou a alteração e do paciente que não se dignou a comparar seus resultados com os valores de referência fornecidos.

2- Alguns exames esclarecedores muitas vezes não são solicitados ou valorizados, entre eles cito dois que são pungentes: marcadores tumorais e pesquisa de sangue oculto nas fezes.

3- Realizam exames que já não têm nexo em nosso contexto, como, por exemplo, a mamografia (o ultrassom de mamas é muito mais sensível nos processos iniciais, como tem noticiado fartamente nossa imprensa popular há 3 anos e as publicações técnicas há 7 anos).

4- Solicitam exames caros e arriscados sem indicação clínica adequada (o exemplo aqui é do cateterismo cardíaco - embora eu sempre insista neste assunto, aconteceu com minha família dois acidentes com o contraste durante cateterismo, um por indicação monetária e não clínica e o outro com indicação clínica que resultou em óbito durante o exame)

5- Aonde é importante os exames laboratoriais ao invés de exame físico, a maioria insiste no exame físico. Aqui o exemplo mais pungente é o toque retal para avaliar próstata, pois o ultrassom pode mostrar dezenas de vezes melhor do que a palpação, indicando nodulações (ou outras alterações) internas ou na face anterior onde não é possível palpar. Semelhante perspectiva podemos assumir perante o toque vaginal para avaliar útero e ovários.

6- Solicitam exames complexos e/ou arriscados sem terem realizados os exames mais simples e inócuos previamente. Aqui podemos utilizar o exemplo do ecocardiograma (ultrassom cardíaco) sem Eletrocardiograma ou Rx de tórax prévios. Aqueles que quiserem entender melhor sobre exames, sugiro o link indicado nos meus link favoritos: Guide to Clinical Preventive Services, of Columbia University Medical Center

Você faz ferrenha oposição aos testes médicos realizados com animais em laboratórios. De que outra maneira novas drogas poderiam ser desenvolvidas?

Faz muito mais sentido testar novas drogas em pedaços de tecidos humanos que num rato. Os resultados são mais confiáveis. Mas a indústria não gosta desses testes porque muitos medicamentos potencialmente perigosos para o homem seriam jogados fora e nunca poderiam ser comercializados. Qual o sentido de testar em animais? Existe uma lista de produtos que causam câncer nos bichos, mas são vendidos normalmente para o uso humano. Só as empresas farmacêuticas ganham com um sistema como esse.

O que você faz para cuidar da saúde?

Eu raramente tomo remédios. Para me manter saudável, evito comer carne, não fumo, tento não ficar acima do peso e faço exercícios físicos leves. Para proteger minha pressão, desligo a televisão quando médicos aparecem na tela apresentando uma nova e maravilhosa droga contra depressão, câncer ou artrite que tem cura garantida, é absolutamente segura e não tem efeitos colaterais

01 maio 2008

Entre umas e outras, aquelas



Sou de uma época em que se falava muito em Almiro Fialho, que Jonga lembrou ser o nome verdadeiro daquele que ficou conhecido como Alex Viany. Nunca um ensaísta, como Walter da Silveira ou Paulo Emílio Salles Gomes, mas um grande historiador e pesquisador. Memória prodigiosa, sabia, de cor, algumas filmografias de diretores pouco importantes. Esteve em Salvador algumas vezes, sem contar a sua vinda para fazer Sol sobre a lama. Que me lembre veio para participar das jornadas baianas organizadas por Guido Araújo. Lembro-me dele na de 1973, ainda muito bem disposto, e na de 1981, também muito bem, mas já um pouco neurastênico. Foi a época do lançamento de A noiva da cidade, seu último filme, com Elke Maravilha, no qual quis, com toda a sinceridade, homenagear Humberto Mauro e, para isso, filmou um roteiro deste. O resultado é um desastre colossal, um filme sem ritmo, destituído de timing, pleno de defeitos estruturais. A crítica da época se calou, pois amiga de Viany. Poucos aqueles que tiveram coragem de mostrar que o rei estava nu.

De qualquer mandeira, a contribuição de Alex Viany é muito importante, principalmente para o cinema brasileiro. Sua obra-prima é a Introdução ao cinema brasileiro, editada em 1959 pelo INL (Instituto Nacional do Livro). Teve mais duas edições. Quando o Jornal do Brasil tinha um conselho de críticos, Alex Viany fazia parte dele ao lado de Alberto Shatovsky, Ely Azeredo, José Carlos Avellar, José Wolff, Valério Andrade, Sérgio Augusto, Ronald F. Monteiro, entre outros que posso estar a esquecer. Mas que luxo!! Um jornal ter um conselho de críticos para toda sexta, página inteira, letra miúda, um filme ser analisado por todos os seus integrantes. Era muito interessante quando acontecia as polêmcias. Recordo-me de que quando O dragão da maldade contra o santo guerreiro, de Glauber Rocha, foi lançado, Ely Azeredo (poucos os críticos que sabiam escrever tão bem como ele) deu bola preta, enquanto a maioria cinco estrelas, provocando, com isso, um contraste bem forte. Ely disse sobre o filme e a propósito de sua premiação em Cannes (Palma de Ouro de melhor diretor): "Queremos ver a premiação do cinema e não a sua aniquilação" (mais ou menos assim, pois cito de memória). E, para não deixar em dúvida aquele que me lê, gosto muito desse filme de Glauber filmado em Milagres, que agora foi restaurado e está sendo exibido em mostras e festivais em cópias luminosas (seu colorido é fora de série).

O Correio da Manhã, na boa época em que existia uma crítica de cinema no jornalismo impresso (raros aqueles que escrevem bem sobre cinema hoje na imprensa e, entre eles, podendo aqui omitir algum valor, Inácio Araújo, Luiz Carlos Merten) tinha também, no seu Quarto Caderno, uma conselho de críticos. Forçando a memória, Ironildes Rodrigues, Paulo Perdigão, Salvyano Cavalcanti de Paiva, Fernando Ferreira, Carlos Fonseca, Van Jaffa, Antonio Moniz Viana, José Lino Gruenwald, etc. A crítica de cinema, hoje, ativa apenas nos grandes jornais do sul, transferiu-se para os sites do espaço virtual onde se podem ver exegetas da sétima arte (concorde-se ou não com eles) que são sérios e preparados como aqueles que fazem parte das revista Contracampo, Cinética, Moviola, etc.

Quando se escreve sobre Domingos de Oliveira (agora tirou o "de"), nunca há referência a um filme dele feito em 1969, É Simonal!, um documentário sobre o cantor que, na segunda metade da década de 60, virou um fenômeno a ponto de ser capaz de entusiasmar um maracanãzinho inteiro a repetir, com ele, um determinado refrão. Acontece que Wilson Simonal foi acusado, logo na descida dos 70, de ser agente da ditadura. Isto o destruiu. Mas nada tem a ver com o fato de Oliveira ter realizado um documentário sobre ele. Questão de memória? Lembro-me que o filme foi, inclusive, lançado comercialmente.

Revi, no Cult, Julia, de Fred Zinnemann, cuja última visão foi em 1978, portanto há trinta anos. Jane Fonda faz o papel da escritora Lillian Hellman, e Vanessa Redgrave é a personagem título. Hellman era casada com o famoso escritor policial Dashiell Hammett (interpretado por Jason Robards). Quando vi Julia não conhecia ainda Meryl Streep, que trabalha aqui bem jovem no papel de Anne Marie. O filme tem ótimo elenco. Além dos citados, Maximilian Schell (o ator alemão que deu um show em Julgamento em Nuremberg, de Stanley Kramer), Hal Holbrook, Rosemary Murphy (fazendo Dorothy Parker), Cathleen Nesbitt (a vovozinha de Tarde demais para esquecer/An affair to remember, obra-prima de refinamento, atriz bem característica e longeva), entre outros. Zinnemann ficou na história por Matar ou morrer (High noon), mas nunca foi bem visto pela crítica, apesar de seus inegáveis méritos como carpinteiro da narrativa. Julia, por exemplo, é um filme muito bem narrado, muito agradável de se ver, muito bem interpretado. E o que deixa de se ver quando o iluminador é um mestre como Douglas Slocombe e a música de George Delerue? Não creditada a participação de Lambert Wilson, que trabalhou recentemente em Medos privados e lugares públicos (Coeurs), de Alain Resnais. O Cult tem Julia em sua grade mas o está exibindo sem nenhum alarde, em silêncio. A imagem que ilustra este post é uma homenagem a Jane Fonda, atriz que me foi contemporânea e à qual devo boas recordações fílmicas.