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27 setembro 2008

Perdemos Paul Newman

O grande Paul Newman, que alegrou toda uma geração de cinéfilos, morreu ontem, sexta, aos 83 anos. A perda, vale o clichê, é irreparável. O blog decreta luto de três dias, ainda que continue a publicar as postagens. Na foto ao lado, com o amor de sua vida inteira: Joanne Woodward.
O primeiro filme que vi, ainda menino, com Paul Newman, foi A delícia de um dilema (Rally 'Round the Flag, Boys!, 1958), comédia do genial LeoMcCarey que tinha também no elenco Joanne Woodward, Joan Collins, e a deliciosa Tuesday Weld pela qual vim a me apaixonar na adolescência, mas outra história. A seguir, Exodus (1960), de Otto Preminger, uma superprodução que marcou época e cuja partitura, de Ernest Gold, ficou nos meus ouvidos durante anos. E o impacto de Desafio à corrupção (The hustler, 1961), de Robert Rossen, com Newman na pele de um jogador de sinuca, Eddie Felson, que tinha como idéia fixa se tornar o maior de todos - papel que seria retomado em A cor do dinheiro, de Martin Scorsese. The hustler contou com um elenco de notáveis: Jackie Gleason, Piper Laurie, George C. Scott, e Jack LaMotta (sim, ele mesmo, no papel do bartender, o famoso lutador de boxe que inspiraria Scorsese para o seu Touro indomável). Paris vive à noite (Paris blues, 1961), com Sidney Poitier, Woodward, vi há alguns anos no Telecine quando este era classic. De Martin Ritt, cineasta com o qual Newman fez vários filmes e que tem ainda no seu cast Louis Armstrong e Barbara Laage (que trabalhou em O corpo ardente, de Walter Hugo Khoury).
Mas não é intenção do post rever a filmografia do grande ator morto. Lembro-me, apenas, e com saudades, dos meus primeiros newmans. E não dá para esquecer de Doce pássaro da juventude (Sweet Bird of Youth, 1962), adaptação de uma peça de Tennessee Williams e dirigida com rara competência pelo maiúsculo Richard Brooks, com Geraldine Page. E quem pode esquecer sua performance em O indomado (Hud, 1963), de Martin Ritt, que muitos consideram a sua melhor atuação no cinema?
Com roteiro de Ernest Lehman (Intriga internacional), e dirigido por Mark Robson, Crimonosos não merecem prêmios (The prize, 1963) é um filme esquecido e menosprezado de Newman, mas um suspense de primeira linha que envolve o espectador do princípio ao fim. O argumento, extraído de Irving Wallace, é muito bem bolado e a pré-visualização do genial roteirista Lehman deu o prato feito para Robson, excelente artesão (um dos montadores de Cidadão Kane) trabalhar a emoção.
E vieram muitos outros, mas penso agora em Rebeldia indomável (Cool Hand Luke, 1967), de Stuart Rosenberg, no qual Newman, prisioneiro, aposta que come 40 ovos duros numa cena inesquecível para estupefação de seu colegas de cela.
Vou parar por aqui porque o trabalho de garimpagem seria longo. Mas, dos últimos, O veredicto, de Lumet, é brilhante. Descanse em paz, Paul Newman, e obrigado por tantos filmes bons.

5 comentários:

Romero Azevêdo disse...

Me associo ao luto extra-oficial do blog e lembro Paul Newman com a bela Elke Sommer, ambos metidos dentro de um carro fugindo dos perseguidores em "Criminosos não merecem prêmio" (The Prize). Foi essa a imagem que me veio na cabeça quando li o post fúnebre.

Jonga Olivieri disse...

Morreu mais um pedacinho de nossa grande ilusão nesta fábrica de ilusões que é o cinema.
Como bem o disseste, a "bruxa está solta", meu caro Professor Setaro...

André Setaro disse...

Romero e Jonga,

Tinha grande admiração por Paul Newman pela sua maneira de ser, de atuar, seu jeito irônico. Desaparece mais um dos grandes astros de Hollywood. Creio não existir, se for mais rigoroso, um astro do quilate de Paul Newman no cinema contemporâneo. Há uma singularidade nele que o torna único. Posso dizer que fui seu contemporâneo, pois vi, em ordem de lançamento, todos os seus filmes, exceção se faça aqueles dos anos 50, que revi depois. Mas de 60 em diante, um filme que fosse com Newman tinha minha presença obrigatória. Não daria para ficar citando, aqui, os filmes dele que gostei (a maioria), mas "Desafio à corrupção" ("The hustler", 1961), de Robert Rossen, foi um dos mais marcantes. Trabalhou com o mestre dos mestres, Hitchcock, em "Cortina rasgada" ("Torn courtain, 1966), e há um caso que entrou para o folclore, contado, se não me engano, pelo próprio Hitchcock a Truffaut. Hitch, que adorava cozinhar e comer bem, quando das filmagens de "Cortina rasgada", num dia de descanso, passou a tarde a preparar um prato com a sua companheira Alma Reville e levou horas dentro de sua adega a escolher o vinho que mais se adequava ao prato. Quando Newman chegou, e Hitch lhe ofereceu o vinho tão pesquisado, ele recusou e perguntou se tinha uma latinha de Budweiser (que ele tomava várias o dia inteiro e em quase todos os seus filmes há um rápido plano de detalhe dela), Hitch levou um choque e ficou vários dias magoado. Era Newman um homem ético e íntegro, probo, difícil de encontrar nos dias que correm.

Jonga Olivieri disse...

Grande o caso dele com o Hitch. Digno do registro de duas personalidades marcantes e ímpares.
Digo mais: Paul Newman participou na criação um estilo -- em conjunto de Marlon Brando e James Dean -- que marcou a moderna cinematografia (enquanto séria) no Actor's Studio.
Pergunto-me, no limiar desta nova era, o que virá por aí?
Morreu o doce pássaro da juventude, mas, pode crer, fica o mito... E que ele dê frutos.

André Setaro disse...

No limiar de uma nova era que não oferece mais perspectivas. A selvageria da platéia, que se pode observar nos complexos (e nas salas alternativas também), é sintomática de uma degradação cultural imensa. Você, Jonga, é de uma era mais ingênua, assim como eu também, mas que tinha uma certa ética, apesar de toda a hipocrisia e preconceito reinantes. Vou hoje ao cinema para ver filmes, mas, sempre, minha tensão arterial sobe, quando ouço vozes 'celuláricas', as conversas fora do lugar - e em cinema deve reinar, sempre, o silêncio, que é de ouro. Há um bruto consumismo nos complexos de salas, as pessoas se enchem de guloseimas, de pipocas, de cheerburgueres, a manteiga da pipoca fica nas mãos sujas, existindo, mesmo, não uma geléia geral, mas uma meleira geral. O espectador, honradas as exceções, que frequenta os Multiplexes e os Cinemarks, em tudo se assemelha a um débil mental, portador da 'demetia precox'