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16 março 2008

A vida íntima de Sherlock Holmes




Pena que o Telecine Cult esteja a passar um dos melhores e mais desconhecidos filmes de Billy Wilder, A vida íntima de Sherlock Holmes, originariamente filmado no formato cinemascope, em tela espichada, cheia (full screen), a resultar, com isso, a deformação da imagem, a desfiguração do enquadramento do filme. Pouco apreciado, porque, quando lançado em sua época, e retirado de cartaz, numa mais exibido, A vida íntima de Sherlock Holmes é um Wilder em plena sensibilidade de seu humor e de seu cinema com um acento hitchcockiano que o faz ainda mais saboroso. Trata-se também do primeiro filme que Wilder(vienense radicado no cinema americano) realiza na Inglaterra (os interiores nos estúdios Pinewood) e Escócia (exteriores em Inverness). Produzido em 1970, com roteiro do inseparável I. A. L. Diamond, baseado nos personagensde Sir Arthur Doyle, A vida íntima de Sherlock Holmes, sobre ser um espetáculo de grande finura, humor, e observação de comportamentos, é uma obra que se incorpora a uma filmografia quase única da história do cinema como mais uma variante de sua verve versátil e amplitude temática. A influência de Hitchcock se faz notável, mas influência benéfica, mais que soma do que diminui, como acentua Paulo Perdigão, o grande crítico, em comentário que posto abaixo.

Inativo, ocioso, Sherlock Holmes (interpretado por Robert Stephens) passa o tempo a tomar cocaína, apesar dos reclamos de seu biógrafo e amigo Dr. Watson (Colin Brakely). Aceitando o convite para assistir ao balé russo, Holmes é levado à presença da primeira-bailarina, Petrova (Tamara Toumanova), que, a desejar um filho genial, escolhe Holmes como o pai ideal. Polidamente, como é do seu feitio, o detetive recusa, a alegar ser um homossexual (é audacioso, para a época, a insinuação desta condição), declaração que deixa atônito o Dr. Watson totalmente desconfiado de sua misoginia. Dias depois, uma jovem, Gabrielle (a insinuante Geneviève Page), que tentara o suicídio no Tâmisa, é levada à residência de Holmes (rua Baker, 221-B). Ela viera da Bélgica para descobrir o paradeiro do marido, um engenheiro. O fleugmático private eye segue uma pista, apesar das advertências em sentido contrário de seu irmão, Mycroff (interpretado pelo emblemático Christopher Lee).

Em Inverness, na Escócia, descobre Holmes a existência de um estranho submersível testado pelo governo, e que tem a forma do lendário monstro marinho Long Ness. Mycroff, que trabalha no projeto, revela a Holmes que Gabrielle é, na verdade, uma espiã alemã. Frustrado, o detetive volta à sua Londres enquanto Gabrielle é presa. Mais tarde, Holmes vem a saber, transtornado, que a moça fora executada. A solução, e solução wilderiana, diga-se de passagem, será voltar à cocaína.

Conto o filme porque não o recomendo ver no Telecine Cult, porque em tela cheia, e se encontra, como disse, totalmente desfigurado. Monstruosamente modificado em seu enquadramento, em seu formato original. The private life of Sherlock Holmes é vigéssimo-segundo filme da carreira do diretor e o nono em parceria com o roteirista Diamond (trabalham juntos desde Amor na tarde/Love in the afternoon, 1956). Produzido com sete milhões de dólares (uma micharia em relação aos tempos faraônicos da Hollywood atual), é o centéssimo vigéssimo sete filme a apresentar a figura do detetive criado por Conan Doyle e aqui abordado livremente.

Como homenagem a este filme pouco apreciado de Billy Wilder e, também, como homenagem ao grande crítico que foi Paulo Perdigão, publico aqui uma crítica de sua lavra publicada no antigo Guia de Filmes do INC (Instituto Nacional de Cinema, que também publicava a revista Filme/Cultura. Nos bons tempos da crítica cinematográfica. Perdigão morreu em janeiro de 2007, o que se constituiu numa perda enorme para os escritos sobre a arte do filme. Tinha Perdigão como o seu melhor filme Os brutos também amam (Shane, 1953), de George Stevens. Chegou a ir, sob os auspícios da Filme/Cultura, entrevistar Stevens, que, a princípio arredio, com o desenrolar da conversa, assombrou-se com o conhecimento de Perdigão sobre Shane. No final da entrevista, disse que Perdigão conhecia mais o filme do que ele, seu diretor. Mas vamos logo à crítica de Perdigão a respeito de The private life of Sherlock Holmes:

"Elementar, meu caro Wilder. É o que o roteirista Diamond deve ter comentado com o diretor Billy Wilder quando ambos resolveram decifrar – sem consulta à fonte Conan Doyle – um mistério chamado A vida íntima de Sherlock Holmes. As pistas deixadas pelo fiel Dr. Watson dentro de uma caixa top secret eram dignas da imaginação, do faro e da irreverência do mais célebre detetive de todas as épocas; além da clássica indumentária sherlockiana (o boné de camurça, o cachimbo, a écharpe, a lente de aumento), já estavam os relatos que Watson não teve coragem de publicar em The Strand Magazine por serem indiscretos demais. Quatro episódios reveladores da personalidade de Sherlock e que, como diz Wilder com seu conhecido cinismo, “também refletem a imagem de uma certa Inglaterra”.

Antes da atual aventura, Sherlock esteve 127 vezes na tela – numa delas (alemã de 1963) interpretado por Christopher Lee, que aqui faz o irmão de Holmes, Mycroft. Mas só agora, sob os traços do shakespeariano Robert Stephens, ele foi examinado por um cineasta à altura de sua sofisticação diabólica. Wilder identifica-se com Holmes e evidentemente o admira: “Ele é um dos maiores personagens da literatura, comparável a Hamlet e Cyrano de Bergerac”. Por isso, as inconfidências sobre a intimidade do herói não atingem o plano da sátira devastadora.; contém-se respeitosamente na fina ironia, numa reconstituição muito fleumática e astuciosa do mundo em que viveu Holmes, a velha Inglaterra vitoriana com seus personagens nobres, céticos e calculistas. Na carreira de Wilder, dominado por tantas provocações indômitas (A montagem dos sete abutres, Quanto mais quente melhor, Beija-me idiota), este filme ocupa posição mais discreta, porém, em quase tudo refletindo a sofisticação que o diretor guardou de suas antigas ligações com o mestre Lubitsch, como roteirista de A oitava esposa do Barba Azul e Ninotchka. (Nota de André Setaro: A montanha dos sete abutres está na grade do Cult e pode ser visto porque em formato padrão, isto que dizer: não foi filmado em lente anamórfica. É um grande filme, um ataque feroz sobre o sensacionalismo da imprensa, com Kirk Douglas no papel principal).

The private life of Sherlock Holmes é também como uma inesperada homenagem que o cinema presta a Hitchcock. O estilo e o tom da narrativa têm o mesmo sabor de velhos thrillers ingleses de Hitch e muitas imagens – a velha paralítica na loja deserta, os monges misteriosos do trem, os anões do cemitério – chegam a ser acintosamente hitchcockianas. Há, inclusive, na cena das ovelhas, uma citação de Os 39 degraus e, na seqüência do balé russo, a repetição de uma passagem idêntica de Cortina rasgada, com a mesma e sinistra Tâmara Toumanova. Até quando se diverte com a velha Inglaterra (a Rainha Vitória, de metro e meio de altura, protesta contra a falta de cortesia na guerra e manda destruir o submarino porque “não se pode atacar o inimigo sem aviso prévio”). Billy Wilder parece estar querendo fazer de A vida íntima de Sherlock Holmes o filme mais hichcokiano que o Hitchcock da fase inglesa não dirigiu.”

5 comentários:

André Setaro disse...

Vi este filme de Wilder no saudoso cinema Bahia, que ficava na rua Carlos Gomes. Atualmente é uma igreja evangélica, dessas do reino de Deus. O cine Rio Vermelho também teve o mesmo triste destino, o de se transformar num local de culto. Mas "A vida íntima de Sherlock Holmes" acho que o assisti em torno de 1970 pela primeira vez. E, ano depois, o Clube de Cinema da Bahia, que passava filmes toda sexta neste Rio Vermelho hoje tão evangélico, exibiu "Holmes". E depois desapareceu de circulação. A dificuldade de revê-lo, devo confessar aqui, fez-me tapar o nariz diante do Telecine Cult, e aguentar a imagem deformada em 'full screen', para revê-lo. Outro filme de Wilder, que não é muito citado, mas que gosto muito, é "Amor na tarde", com Gary Cooper, Audrey Hepburn, Maurice Chevalier, principalmente pela sua seqüência final, quando Cooper agarra e suspende Hepburn para tê-la na cabine do trem. O filme de "Holmes" é muito bom mesmo e, como disse Perdigão em sua crítica, é severamente hitchcockiano. Com a aposentadoria de Wilder o cinema parece que perdeu a inteligência. Não se vê mais obras irônicas, espirituosas, engenhosas, como os filmes de Billy Wilder. Antes da "baixaria" internética e do DVD, esperava-se, com a ansiedade natural a um cinéfilo bem pensante, o próximo Wilder. Atualmente, como bem podem entender Jonga e Romero, cinéfilos, amantes do bom cinema, a espera acabou. Não se espera mais os filmes. Estes entram de supetão, às vezes, até, assustando-nos tal a rapidez com que vêm e vão embora. Uma espera ritualística que fazia bem à percepção agora dilacerada pela velocidade. Assim como o chegar mais cedo para se ficar a ver os cartazes de 'a seguir', 'breve'. Se a sessão ia começar às 14 horas, chegava meia hora mais cedo pelo gosto de ficar na sala de espera a ver as fotografias, os cartazes. E em lugar de tantos baldes de pipoca, do comportamento débil mental dos aborrecentes da nova geração, dos malditos celulares, as pessoas ficavam quietas, e a comilança não existia - nem o filme com o mesmo nome de Marco Ferreri. No máximo, uma 'bombonière' com as guloseimas bem arrumadas, os drops suaves, as tábuas de chocolate, os chicletes, etc. A elegância de "Holmes" reflete também a elegância de um cinema que existia e não existe mais. É muito diferente ter visto este filme no cinemascope do cine Bahia e vê-lo, novamente, 'baixado' da internet.

Stela Almeida disse...

Estou com vontade de ir até a sessão do Curso de Cinema. Do que tenho assistido, lido e apreciado, nada igual aos comentários que acabo de ler. Aliás, no meu percurso de iniciação inclui a exposição, mesas redondas e filmes de Glauber Rocha. Com descobertas.
Mas, Professor, posso aparecer na próxima aula?

Jonga Olivieri disse...

Lembro-me muito deste filme. A história acontece a partir de "supostos escritos póstumos" do (caro) Dr. Watson. Mas não consigo ter a sua memória para situar exatamente o cinema em que o assisti. Mas, se não foi no "velho" São Luis, certemente foi no (também saudoso) Rian, aquele que ficava na praia de Copacabana. Lembra-se?
Quanto a comentários sobre o filme, você já disse tudo. Tudinho mesmo...

Baker Street. Tenho uma foto tirada com meu pai na estação do 'underground' em Londres, justamente com a palca indicativa do local atrás. Vou ver se a encontro e mando procê.

Alessandra disse...

Setaro
Este filme tem em DVD? Será que o encontro na Casa de Roberto Midlej?

Laura disse...

Agora o filme está sendo lançado em DVD e aqui no Brasil!!! Agora podemos ter esse filme em nossas casas. Eu o vi numa tarde em que eu estava zapiando e acabei caindo no TeleCine Cult. Sou fãzassa do Sherlock Holmes, e fiquei feliz em ver um filme do Sherlock na TV, ainda mais um que até então eu não tinha visto. Foi engraçado ver Holmes tendo uma queda pela sua cliente (isso me faz lembrar de um pasticho lançado a uns 3 anos, "Um Pequeno Truque da Mente" em que tb Holmes tem uma apaixonite pela mulher de um cliente, ou seja, apaixonite pela mulher em que ele tinha que seguir). Gostei do filme, a ponto de caçar (que nem um detetive) a trilha sonora do filme, que eu tb achei ótima.