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18 outubro 2007

Walter da Silveira nas fronteiras do cinema


FRONTEIRAS
Se vivo fosse, Walter da Silveira estaria completando, em novembro vindouro, 92 anos, pois nasceu em 1915. Morreu ainda em pleno vigor de sua capacidade intelectual, em novembro de 1970, aos 55 anos (e, ao constatar isso, o susto inevitável, pois fiz 57 no dia das crianças passado). Advogado trabalhista, casado e com prole numerosa, escrevia sempre nos suplementos culturais dos jornais baianos, e a reunião de seus escritos, já feita há mais de dez anos, teve, afinal, um lançamento decente há poucas semanas depois de duas tentativas fracassadas pela inépcia dos responsáveis pela organização do evento. Em vida, publicou apenas dois livros: Fronteiras do cinema e Imagem e roteiro de Charles Chaplin. Um terceiro, A história do cinema vista da província, editado pela Fundação Cultural do Estado da Bahia, teve lançamento póstumo em 1979, com o trabalho de organização a cargo de José Umberto.

ENSAIOS ANTOLÓGICOS
Gostaria, porém, de registrar, aqui, os 41 anos de Fronteiras do cinema, quatro décadas que já se passaram desde a tarde de autógrafos na Livraria Civilização Brasileira da rua da Ajuda. O livro reúne ensaios publicados em jornais e revistas e alguns inéditos. Há alguns antológicos como Espaço e tempo no cinemascope, Da oralidade em Alain Resnais, Entrevisão a Ingmar Bergman, Um instrumento do humanismo, etc. Fronteiras do cinema atesta a erudição de Walter da Silveira em matéria de cinema, conhecendo profundamente os labirintos da arte cinematográfica. Além do mais, Walter da Silveira escrevia admiravelmente, tinha um estilo marcante, inconfundível.

CHAPLIN
A adoração a Chaplin se cristalizou em Imagem e roteiro de Charles Chaplin, que tive a oportunidade de comparecer ao lançamento em junho de 1970, poucos meses antes de sua morte. Aconteceu num sábado chuvoso no cinema Bahia, da rua Carlos Gomes, na sua sala de espera. No meio dos autógrafos, o ensaísta se sentiu mal e foi levado para a gerência. Em seguida, em cópia enviada especialmente para o evento, foi exibido O garoto (The kid, 1921), de Chaplin, seu primeiro longa metragem. Obra primorosa, este roteiro chapliniano, que contém talvez as mais belas páginas escritas sobre o autor de Luzes da cidade (City lights, 1930).

O MAIOR DE TODOS
Mais do que um crítico, Walter da Silveira era um brilhante ensaísta, um dos mais importantes de sua época ao lado de Paulo Emílio Salles Gomes, Francisco Luiz de Almeida Sales, Antonio Moniz Vianna, entre outros notáveis. Na distinção que se pode fazer entre aqueles que escrevem sobre cinema, há os resenhistas, os comentaristas, os críticos e os ensaístas. Nesta última categoria é que se pode colocar Walter da Silveira. Não conheço, na Bahia, outro que se lhe possa comparar. Foi o maior de todos.

IGNORADO NA CONTEMPORANEIDADE
Infelizmente a nova geração não conhece Walter da Silveira, apesar de seu nome designar uma sala de exibição alternativa nos Barris. Perguntei uma vez, a uma turma de 30 pessoas, quem foi o ensaísta e, para minha estupefação, ninguém sabia de quem se tratava. Alguns, que responderam, disseram: “Não é o nome do cinema dos Barris?” A publicação de seus escritos foi o maior acontecimento editorial do ano.
‘ESPORRO’ EM GLAUBER
Walter da Silveira, conforme conta o próprio Glauber Rocha em artigo que saiu no Jornal da Bahia dia depois de seu falecimento, ensinou ao realizador de Terra em transe a respeitar Eisenstein. Numa manhã, quando o cineasta se associara há pouco tempo ao Clube de Cinema da Bahia, que funcionava, nesta época, sábado em sessão matinal no Liceu, estava sendo exibido O encouraçado Potemkin. Glauber, na platéia, durante a exibição, conversava alto com um interlocutor. Walter da Silveira solicitou que o filme fosse suspenso e, quando as luzes se acenderam, deu um forte esporro em Glauber – é ele mesmo quem conta. E escreveu que a partir de então nunca mais conversou enquanto um filme era exibido. Pelo menos no Clube de Cinema da Bahia e sob a observação rigorosa do mestre.

CLUBE DE CINEMA
Fundador do Clube de Cinema da Bahia, em julho de 1950, Walter da Silveira, trazendo os grandes clássicos para o conhecimento dos baianos, informou e formou toda uma geração. Pela primeira vez se via em Salvador os filmes do expressionismo alemão, os da escola soviética, os do realismo poético francês, os do neo-realismo italiano, etc. Se o Clube teve uma importância indiscutível na formação de platéias, creio que atualmente, com o advento do DVD e as novas tecnologias, o Clube, como era praticado por Walter da Silveira, não teria mais razão de ser. Os tempos mudaram e o cinema não é visto apenas nas salas exibidoras, mas através de outros suportes.

UM GRANDE ANIMADOR
Um animador, portanto, Walter da Silveira. Antes das projeções cineclubistas, fazia uma palestra, com sua oratória de advogado, procurando mostrar o específico cinematográfico, a estética condicionada pela linguagem do realizador de determinado filme exibido. Eisenstein, principalmente em Potemkin e Outubro, assustou o jovem Glauber Rocha. E é do assombro que se dá o início a qualquer processo cognitivo.

MUDANDO DE UNHA PARA DENTE
Transcrevo aqui comentário do excelente critico Inácio Araújo que saiu hoje na Folha de São Paulo. Assino embaixo. "É muito difícil recusar a oferta da TNT, que propõe uma tarde-noite dedicada inteiramente ao cinema de Clint Eastwood. Por ordem de entrada: "Um Mundo Perfeito" (16h15), "Cowboys do Espaço" (19h15), "Sobre Meninos e Lobos" (22h), "Dívida de Sangue" (1h) e "Crime Verdadeiro" (3h15).Se observarmos bem, um mundo de mortos-vivos, começando pelo menino-fantasminha de "Um Mundo Perfeito", passando pelos astronautas falhados de "Cowboys...", pelo trauma da violência de "Sobre Meninos...", pelo transplante de coração que dá a um homem uma segunda vida, em "Dívida...", e pela quase ressurreição de um condenado à morte, em "Crime Verdadeiro".Pode-se gostar mais ou menos de tal ou tal outro filme de Clint (eu gosto de todos esses). Mas não se pode negar a tremenda coerência de um sujeito que só filma o que quer filmar e não cede ao comercialismo vigente. O resultado é um artista e sua obra. Não é de todos que se pode dizer isso."

3 comentários:

Jonga Olivieri disse...

É uma pena que Walter da Silveira tenha nos deixado tão cedo.
Foi dessas perdas irreparáveis. Antonioni, Bergman, recentemente Paulo Autran foram-se em idade mais aceitável. Muito embora, e de qualquer forma, também lamentável.
Lembro-me de Walter fazendo as palestras pré-exibição de filmes. Como aquela do Norman McLaren. Como aprendi. Como aprendemos com ele em sua didática e clareza, apesar da sua forma engraçada de falar (apenas uma observação, nada que o desabone).
Aliás, quem lançou este recente livro/compêndio de seus ensaios ou críticas? Qual o seu título? Ele está à venda nas livrarias aqui no Rio? Tenho o maior interesse por se tratar de uma obra fundamental para pesquisa e consultas.
Creio que Walter da Silveira seja um nome respeitado por críticos ou experts em cinema aqui no sudeste também. É uma injustiça se não for. Compete a vocês (na Bahia) distribuir este livro em todas as Universidades do país. Uma forma de perdurar o seu conhecimento e fixa-lo como um grande conhecedor e amante do cinema. Que o foi.

Stela Almeida disse...

Parabéns Porfessor Setaro, bem que achava que seu irônico-humor nas aulas da Oficina de Cinema eram resultantes da criança que fala o Eisenstein (...) en sua infancia no mutila las muñecas, no rompe la vajilla ni atormenta a los niños ...pero en cuanto cresce se sente irresistiblemente atarídos por semejantes distracciones...

Os livros citados do Walter da Silveira, principalmente o de 1979, vou querer localizar.

Romero Azevêdo disse...

Grande Walter da Silveira ! Grande Setaro ! Ainda guardo, novinho em folha, a edição de Fronteiras do Cinema(capa amarela) que ganhei em 1967 respondendo a um teste cinematográfico sobre o filme A Moça com a Valise de Zurlini.
Seu blog é inteligente e tem uma "mis-en-scène" muito boa( aquela capa do gibi de Oscarito e Grande Otelo é uma viagem, fora os posters incríveis).
Ainda lhe mando um e-mail com flash-backs das nossas noitadas no Avalanche nos idos de 1976. Com direito a um take onde você aparece equilibrando uma vassoura, no melhor estilo de Groucho Marx, num corredor do ICBA( para espanto e perplexidade do montador alemão dos filmes de Wenders que acabara de chegar de Munique ou era Berlim ?).
Os posts sobre os cinemas soteropolitanos são deliciosos. Lembro do Bristol com aquele odor permanente de óleo de peroba(ou era sinteco ?); o Gurani onde ví a Lenda de Ubirajara; o Bahia de Dona Flor e Apocalypse Now ; o Liceu onde vi Donald Sutherland esmagar uma taça de cristal na mão, dilacerando os dedos....
Por enquanto é só.