Seguidores

04 fevereiro 2007

Poesia e lirismo em obra singular








Domingo é um dia melancólico por natureza. Mas a melancolia é feita pela subjetividade da pessoa. Assim há aqueles que a sentem com mais intensidade, e outros que nem a percebem, imbuídos pelo calor da praia e pela sensação de ebriedade dada pela cerveja praieira. Neste particular, devo ressaltar que há exatos 30 anos não vou à praia, apesar de morar na Bahia. Lembro-me que a última vez, em 1987, fui meio à força, a muque, estando em Mar Grande para passar um dia e, porque todos iam, tive que ficar sentado por horas a fio na areia. Mas levei comigo uma caixa de isopor cheia de latinhas de cerveja, companheiras boas e amáveis, que me fizeram esquecer do sol, do calor, da inutilidade de ali estar. Mas estou tomando um atalho, porque o que queria falar aqui era de outro assunto, e de um filme, Os guarda-chuvas do amor, que revi pela manhã, assustando a melancolia domingueira e fazendo-me possuir pelo prazer estético. Mas, antes de entrar no assunto em pauta do post, gostaria de recomendar, aqui, um blog amigo. Façam uma visita: http://jongas.blogspot.com/

O autor dessa proeza original – e única na história do cinema, o francês Jacques Demy, pertence à Nouvelle Vague mas pode ser considerado um cineasta atípico. Dá início a sua carreira com um curta, Le Sabotier de Val du Loire, em 1956, ao qual se seguem outros três em anos sucessivos, entre eles, Le Bel Indiferent (O Belo Indiferente), inspirado no texto aclamado de Jean Cocteau. Em pleno auge do movimento – do qual participa com filmes e a amizade de Truffaut, Rohmer, Chabrol..., dirige o seu primeiro longa metragem, Lola, A Flor Proibida (Lola), revelando-se um dos talentos mais sugestivos do movimento. Lola, iluminado pelo artista da luz Raoul Coutard – um dos principais diretores de fotografia da Nouvelle Vague, já anuncia, de certa forma, Os Guarda-Chuvas do Amor, pois todo ele é conduzido em ritmo de balé, com amor e humor, traduzindo com extremo lirismo as paisagens de Nantes. Georges Sadoul, historiador francês, enquadra Lola numa espécie de “neo-realismo poético”, aproximando-o de As Damas do Bois de Bologne, do jansenista Robert Bresson. Para uma introdução na poética de Les Parapluies... é bom que se veja um pouco desta Lola, cujo personagem (Anouk Aimée), dançarina de cabaré em Nantes, cortejada sempre por um amigo de infância (Marc Michel), reencontra o seu amor perdido com o qual, há alguns anos, tivera um filho, e, neste reencontro, ela se casa com ele. Uma característica de quase todos os filmes demynianos: o encontro e o desencontro permeado pelo acaso.
Catherine Deneuve em princípio de carreira – já tinha trabalhado com Roger Vadim antes de Demy – é a terna Geneviève que está noiva de Guy (Nino Castelnuovo), mas este, de repente, é convocado para a guerra da Argélia. Esperando o noivo voltar, ela se vê obrigada a confessar à mãe (Anne Vernon) que está grávida de Guy. O tempo passa. A mãe, desesperada, obriga a filha a se casar com um pretendente, Roland Cassard (Marc Michel), rico proprietário de uma loja de jóias. Ela, conformada, aceita. O tempo passa. Guy volta da guerra, ferido, procura Geneviève mas não a encontra. Sua tia Elisa está morta e, para não ficar sozinho, busca consolo em Madeleine (Ellen Farmer), uma mulher que cuidava de Elisa quando doente e que sempre o amou em silêncio.O tempo passa. Guy, já casado com Madeleine, abre um posto de gasolina na periferia de Cherbourg. Numa noite de Natal, Geneviève aparece, rica e charmosa, num reluzente carro de luxo, para colocar gasolina. Guy a vê e ambos tentam um diálogo mas nada mais têm a dizer.
Obra-prima, que reflete sobre a memória, a recordação, a nostalgia e a fugacidade do amor, Les Parapluies de Cherbourg, Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1964, derrotando, inclusive, Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, tem uma fábula que, à primeira vista e se exposta pela narrativa oral, pode parecer uma história destinada às revistas sentimentais. Jacques Demy, no entanto, com sua varinha mágica, com sua mise-en-scène original, transforma-a numa espécie de conto poético musicado que é experiência que transcende o musical cinematográfico clássico americano. Os personagens, como numa ópera – mas o filme não é uma ópera, dizem suas falas cantando ao ritmo dos arranjos belíssimos de Michel Legrand. Pode-se, no caso de Os Guarda-Chuvas do Amor, falar em co-autoria entre Demy e Legrand, tal a conjunção perfeita entre musicalidade e ação dramática. Daí se dizer que Les Parapluies de Cherbourg é uma película que se estabelece como mise-en-musique. Assim como em outra obra excepcional – e pouco vista e apreciada – que é Duas Garotas Românticas (Les Demoiselles de Rochefort, 1966), com Catherine Deneuve e Françoise Dorleac – sua irmã que seria vítima, logo após a conclusão do filme, de trágico acidente.O que torna Os Guarda-Chuvas do Amor uma obra de rara transcendência se encontra numa conjunção de fatores.Em primeiro lugar, a concepção da mise-en-scène de Demy, mas outros elementos ajudam a potencializar o encanto desse filme inesquecível: a deslumbrante fotografia de um artista que é Jean Rabier, que usa, aqui, a iluminação em função do tecido dramatúrgico; a cenografia de Bernard Evein, que utiliza fundos de papel pintado que estabelecem sutis acordes com os estados de ânimo dos personagens; e, claro, os diálogos todos cantados segundo as melodias do maestro Michel Legrand.

8 comentários:

Marcos Teixeira disse...

Demy, Setaro, é um dos maiores poetas do cinema. Sei de sua admiração por este cineasta, pois leitor assíduo de sua coluna na Tribuna da Bahia. Mas gostaria de saber: existe em DVD Les demoiselles de Rochefort ou, se for o caso, mesmo em VHS?

André Setaro disse...

Infelizmente não existe em DVD a obra-prima que é 'Les demoiselles de Rochefort'. Revi-a, há alguns anos, e gravei-a em VHS, no antigo (e saudoso) Telecine Classic, antes que se transformasse no híbrido Cult. A cópia exibida, quando ainda o Telecine respeitava a integridade do anamórfico, foi a recuperada por Agnès Varda, esposa de Demy (que morreu de leucemia, deixando órfãos seus admiradores), que comandou um trabalho de recuperação fotograma por fotograma. Mas as salas de exibição não passam uma obra de tal magnitude. O mercado está entregue ao pior lixo consumista que se possa pensar. De vez em quando, altera-se, como agora, quando entrou em cartaz 'A conquista da honra' ('Flags of the fathers'), de Clint Eastwood, filme que já se encontra na minha agenda para vê-lo incontinenti.

Arlette Donatti Pires disse...

Nunca consegui ver um filme de Jacques Demy, apesar de sempre ler sobre ele, de ouvir falar.Onde posso achar alguma coisa? Sua leitora constante.

Saymon Nascimento disse...

Essa história de Cannes é engraçada. Quem diria, quem outorgou a Palma ao filme foi Fritz Lang, mestre da dureza e do amargor. Talvez haja aí uma informação importante. Por baixo desse desbunde de fotografia, figurinos e direção de arte, um filme violento sobre amor perdido, e sobre a guerra, grande vilã.
Já li alguém citando um crítico falando sobre como Vincente Minnelli se esbanjava no excesso cênico e artificial por descontentamento. Ele queria construir o mundo. Faz sentido, mas faz mais sentido ainda em relação a Demy.

jonga disse...

André,

Primeiro, obrigado pela indicação do blog.

Em seguida, devo concordar com você, pois "Os guarda-chuvas do amor" é uma obra-prima do bom gosto.

Gosto, principalmente do lado estético. Tudo em cores se equilibra, combina. É fantástico.

E a forma como a música é conduzida é fora-de-série.

Um filme ímpar em suas qualidades.

Roberto Queiroz disse...

Outro dia desses eu estava conversando com um amigo sobre a melancolia dos domingos e me lembrei de um filme que tem cara de domingo (quando queremos algo para eliminar as pasmaçeira). O filme em questão é Ladrões de Bicicleta, de Victorio de Sica. É impressionante como certos cineastas conseguem fazer obras-primas justamente para preencher esses momentos de vazio e solidão.

(http://claque-te.blogspot.com): Vôo United 93, de Paul Greengrass.

Rosana Jatobá disse...

Caro Setaro, a quanto tempo! Revi recentemente "Le Boucher" de Chabrol, um verdadeiro thriller do cinema Francês. Ah, o cinema Francês, com sua diferente noção de passagem do tempo.

André Setaro disse...

Por falar em 'Le boucher' ('O açougueiro' em seu título em português), cara Rosana', devo dizer que se trata de um dos melhores filmes de Claude Chabrol, quando estabelece uma 'mise-en-scène' surpreendente, evidenciando que é a narrativa que determina o andamento da 'fábula' em obras de grandes diretores. Os medíocres fazem 'tábua rasa' da maneira de contar a história, privilegiando esta em detrimento da narrativa.