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30 agosto 2012

Mais Athayde

Carlos Alberto Vaz de Athayde pintava com a luz de sua câmera Paillard Bolex, que seu pai lhe trouxera da Suíça. Sempre de paletó e gravata, uma vez o acompanhei para uma filmagem na praia. Todos os membros da equipe, feitas as rodagens necessárias, tomaram banho de mar, mas Athayde, sentado numa barraca, com sua quentinha cheia de cafezinho, ainda que convidado, recusou-se a tirar o paletó. Como relatam os testemunhos de Kabá, José Umberto e Tuna Espinheira, publicados ontem, Athayde foi um grande incentivador dos cineastas baianos. Morreu pobre e esquecido em 1990. É hora de algum evento baiano de natureza cinematográfica instituir um prêmio com o seu nome. A nova geração, da qual tomei o pulso, não o conhece nem de nome. 

29 agosto 2012

Carlos Alberto Vaz de Athayde

Athayde e sua filha Mara Athayde

Poucos os cineastas idealistas como Carlos Alberto Vaz de Athayde, que, falecido há vinte e dois anos, em julho de 1990, vitimado por um fulminante enfarte, deixou imensa lacuna no meio cinematográfico baiano, embora, considerando a falta de memória típica dos soteropolitanos, a maioria não mais se lembre desse autêntico Don Quixote.  E Quixote em todos os sentidos, pois sua idéia fixa, sua vontade de fazer cinema, sua abnegação pela causa, faziam com que lutasse contra moinhos de vento. Vamos recordá-lo, portanto.

Fotógrafo, cineasta, escritor, Carlos Alberto Vaz de Athayde fora, antes de tudo, um amante do cinema, um idealista, um sonhador que acreditara nas possibilidades de o baiano poder vir a se expressar através das imagens em movimento. Humanista, de natureza tranqüila, lhano trato, caráter de retidão indiscutível, Athayde, quando comprara, no Rio de Janeiro, em 1965, durante o Festival Internacional de Cinema que ali se realizara, uma câmara Paillard Bollex, decidira colocar esta a serviço do cinema baiano. No seu retorno da temporada carioca, pensara num projeto há muito acalentado: realizar em Salvador um curso de iniciação cinematográfica. Em 1967, no seu primeiro semestre, conversando com o sociólogo Yves de Oliveira, sentira neste o entusiasmo pela idéia e, principal responsável pela Escola de Sociologia e Política, que ficava situada na Ladeira da Barra (logo no princípio), colocou esta à disposição de Athayde como um espaço disponível para a realização do curso desejado. Com sua câmara Bollex de 16mm, Athayde programara suas aulas de "Fotografia no cinema" e, para ajudá-lo em outras disciplinas, convidara Orlando Senna, que se encarregara de "História do Cinema", e Carlos Vasconcelos Domingues, que ficara responsável pela "Sociologia Cinematográfica". Vendo uma nota no jornal, este comentarista, ainda com seus dezessete anos incompletos,  resolvera se inscrever e, então, na Escola de Sociologia Política, que depois seria fechada pela ditadura, viera a conhecer o cineasta Carlos Alberto Vaz de Athayde.

O curso serviria de oportunidade para que várias pessoas interessadas em cinema se conhecessem e daí partissem para a formação de um grupo de estudos cinematográficos que, meses depois, estruturado, organizado, tomara o nome de GIC (Grupo de Iniciação Cinematográfica), núcleo que dera origem à evolução de alguns dos cineastas que hoje batalham no cinema da Bahia. Athayde fora um animador, entusiasta do grupo, fazendo extrapolar o curso para uma amizade com os demais integrantes deste, os quais, neófitos, procuravam dar seus primeiros passos na arte da contemplação da obra fílmica. Reunindo-se, a princípio, na Residência do Universitário, R2, na Vitória, o GIC não tardará a tentar uma empreitada mais arrojada: a realização de um filme em 16mm, curta-metragem, com roteiro escolhido democraticamente entre os apresentados pelos membros do grupo. E surgira ”Perambulo”, obra impregnada de realismo social, de cinema ’enragé’, influência do Cinema Novo, de Glauber e do neo-realismo. Quem seria o diretor de fotografia? Athayde, evidentemente, que emprestara sua câmera e seu trabalho, sempre disposto a animar a equipe, a indicar-lhe os caminhos dos sonhos concretizados. Antes, porém, a mesma Paillard Bollex servira a O Carroceiro, de Ney Negrão (de saudosa memória), com Athayde mirabolante, entusiasmado, fazendo as maiores estripulias para dotar o filme de ângulos inusitados. E para isso, com suas propostas de enquadramentos ‘sui generis’, Carlos Alberto Vaz de Athayde, com seu indefectível paletó e gravata, subira até em árvores na tentativa de captar um ângulo melhor para O Carroceiro.

.Outra característica de Athayde era a sua impontualidade. Nunca chegara a um encontro na hora certa. Seu tempo não conseguira se ajustar à temporalidade da rotina diária, vivendo num tempo à parte, particular. Numa filmagem de “Perambulo”, marcada para as 9 horas da manhã, Athayde, como fotógrafo, fizera a equipe lhe esperar até às 14 horas. Lembra-se este comentarista que todos os componentes da equipe foram à casa de Athayde (que, nesta época, morava na Princesa Isabel, perto o Clube Bahiano de Tênis) e o encontrara ainda em pijama mergulhado (literalmente) num prato de feijão. Poder-se-ia dizer que Athayde fora uma figura folclórica do cinema baiano, mas, inegável e indiscutível, o seu prestígio como um homem abnegado que amara o cinema sobre todas as coisas e nunca se recusara a participar e ajudar aqueles que se iniciavam no ‘métier’ cinematográfico. E fora assim que ajudara José Umberto no longa que este realizara em 1972 chamado “O Anjo Negro”, participando, ainda, como ator na figura de um padre, papel, aliás, que parecia lhe cair como uma luva, pois fora também como padre que aparecera em “Doce Amargo”, de André Luiz de Oliveira e José Umberto, curta premiado no Festival do "Jornal do Brasil" e Mesbla.

Carlos Alberto Vaz de Athayde também filmara projetos pessoais, como um filme inacabado sobre os monumentos de Salvador: “Ensaio de Perspectiva”, cujo título já dá para se ter uma idéia da tentativa de dimensionamento estético na arte de fotografar. Nos últimos anos, vivera sozinho, num apartamento na Ladeira da Barroquinha, de onde vira o poente pela última vez, por trás da imagem do poeta Castro Alves. Sozinho, meio desiludido, o cinema ficara como coisa do passado.

Carlos Alberto Gaudenzi, Kabá, cineasta baiano, depois de ter lido esta minha pequena homenagem ao grande Athayde, publicada nesta mesmo blog há três anos, enviou-me uma preciosa mensagem que faço questão de aqui registrar:

"Setaro,
Bela homenagem a Athayde. Por merecimento, o exemplar amigo foi lembrado por você. Meu quase primeiro curta O CORTIÇO (nada a ver com o livro do Azevedo), foi rodado com a velha Paillard Bolex de Athayde. Ficamos no cortiço (Pelourinho, bem perto do Hotel de mesmo nome) uns 3 dias, fazendo a pré-produção, anotando, fazendo o roteiro, tomando depoimentos etc. Rodamos numa sexta-feira num verdadeiro passeio de câmera sobre os 4 andares do casarão, cenas que serviriam de base para o filme. Ali, moravam umas 30 pessoas de 5 ou 6 diferentes nacionalidades e baianos mesmo em maioria. Lembro que no dia seguinte encontramos o Cliton Vilella no Pelourinho e conversamos sobre amenidades do meio no Rio e S.Paulo). No dia seguinte iríamos filmar 3 depoimentos (sem sync, na base de 5 palavras e corte para off, flash back e outros recursos improvisados). Athayde chegou a contactar um ex-comandante do Corpo de Bombeiros, seu conhecido, pois precisava viabilizar umas cenas que eu queria fazer de fora para dentro dos quartos, numa visão espacial e, certamente, esteticamente ricas. Para tanto estava tentando conseguir a escada Magirus que usaríamos como uma formidável grua. No domingo, lá estava a escada Magirus...tentando apagar o fogo que destruira o casarão, o cortiço e o nosso filme. Ficamos perplexos, sem acreditar no que víamos. Por muita sorte, ninguém morreu. Morreram sonhos de muitas pessoas que perderam pequenos bens e muitas referências. E também morreu ali o nosso sonho do primeiro filme, depois das aulas de padre barçote, Paulo Emílio Salles Gomes e das palestras de Walter da Silveira num breve curso, não me lembro promovido por quem, no Palácio Arquiepiscopal, na Praça da Sé. Roberto Gaguinho à época trabalhando na Tv Itapuã, resgatou um poucos dessa história, revelando os negativos 16mm P&B que também se perderam no tempo.

Conto essa história para reverenciar a memória de Carlos Alberto Vaz de Athayde, ou simplesmente, Athayde, um apaixonado pelo cinema que fazia o que estivesse ao seu alcance sem nenhum interesse comercial, confirmando sempre grande apreço pelos seus amigos e pelo cinema que, para ele, era vida, era tudo".
abraços,
Kabá
* Acho que a Paillard Bolex de Athayde deveria fazer parte do museu de Roque Araujo na Dimas. Ele tinha um irmão que foi diretor do serviço de meteorologia do Estado que ficava no alto de Ondina. Talvez seja uma pista para se contactar a família.
Velho,
          Por que não fez um texto? (nota de AS: estou fazendo agora, Tuna). Athayde é uma figura do nosso cinema. Uma vez eu o encontrei no Rio, ele me disse que iria procurar, em Cataguases, o cineasta Humberto Mauro, pois estava com uma ideia de aplicar LSD numa aranha e filmar a mesma tecendo uma teia. Queria a opinião dele. Perguntou o que eu achava. retruquei apoiando, mas sugerindo que procedesse esta façanha, filmando desde a aplicação do alucinogéno (não perguntei como ele o faria), até a ação do pequeno aracnídeo na urdidura de sua teia. Tudo isto nasceu de um comentário do iluminado H. Mauro quando disse: "seria incrível se pudessemos injetar LSD nma camera" (esta fráse é verdadeira, talvez um pouco diferente, digo, com outras palavras). o saudoso Athayde achou boa a minha sugestão, assim iria com seu projeto já realizado. Esta estória acaba aqui, nunca soube do desfecho, nem se ele, de fato, chegou a abordar o cineasta, com esta ideia, digna de Aldous Huxley, levando em conta As Portas da Percepção.
            Aproveito para sugerir que você fale sobre o homem que tomava cafezinho de minuto a minuto. Há toda uma geração que jamais ouviu falar dele...
Abs
Tuna

E um texto especial de José Umberto:

Athayde recebera uma câmera Paillard Bolex, 16 mm, com o conjunto de três lentes: grande angular, normal e teleobjetiva. Seu pai trouxera da Suíça. Essa câmera fora o suporte básico para uma nova geração de cineastas baianos que procede o Cinema Novo.
Carlos Vaz de Athayde - símbolo exacerbado e caricatural da paixão pelo cinema nos trópicos sul-americanos. Estando para Macunaíma assim como Policarpo Quaresma estará para a Via Láctea. Uma questão de latitude, senão de grandezas & misérias, por colocar com ufanismo a terra do Pau Brasil na dimensão justa e precisa ao líquido amniótico da boceta de Pandora.
Doce morada. Repouso dos deuses e das deusas pagãs.
Sua figura exótica marcou a paisagem da velha cidade de Salvador na década de 60. Sempre portando paletó e gravata debaixo de um sol escaldante, não se separando jamais de um cafezinho preto, bem quente, ele estimulou muitos jovens com o seu modo livre, solto e original de experimentar a urbe.
Boêmio das madrugadas intelectuais, amante da grande literatura universal, sobretudo a libertária, mas acima de tudo um espectador inveterado que refletia tudo o que via com o sabor e o entusiasmo da mais bela juventude.
Enfim, um rato de cinema da boa cepa.
Athayde do delírio na carne e no espírito. Capaz de filmar uma seqüência inteira com inspiração... e depois descobrir que esquecera de por o filme no chassis da câmera. Não importava, para ele, a revelação física, mas sim a inspiração do instante absoluto. Do prazer em fazer, naquele momento, como numa graça ao tempo que mística... romântica.
Daí a sua entrega total. Desprendida. Uma pessoa que dá, que doa, simplesmente em troca da luz. Da fotografia, sua companheira inseparável. E foi acreditando no brilho da aurora que ele nos legou esse poema:

Novo Horizonte

Talvez carente de clara beleza
Vez que acerca-sinto/olho/vejo
Quando sôlto o pensamento
veleja ou adeja,
muito além do distante/horizonte
embora nada se veja,
há um monte/fonte
crescente/nascente
de outro novo horizonte
distante distante distante.


27 agosto 2012

Il Casanova di Federico Fellini

Casanova ( Il Casanova di Federico Fellini, 1976), obra de grande estilização de um dos mais fecundos realizadores do cinema mundial, não fez o merecido sucesso quando do seu lançamento.  Mas se trata indiscutivelmente de um grande filme. A sequência dada aqui é uma obra-prima à parte: La Bambola Meccanica. O inglês Donald Stuherland é quem faz o libertino

26 agosto 2012

Violência e Política (segunda parte)


Lista de filmes de resistência à aliança imperialista entre Hollywood e governo dos EUA (II parte)


Jorge Vital de Brito Moreira

Em 29 de julho de 2012, o blog de André Setaro  publicou a primeira parte do meu texto Violência e política: lista de filmes de resistência a aliança imperialista entre Hollywood e governo dos EUA” onde tratei de dar uma resposta à pergunta: - quais os filmes de ficção que você recomendaria para estimular uma geração de jovens a procurar uma adequada perspectiva histórica sobre a questão do poder e da dominação política no Brasil, na América Latina e em outras regiões do mundo? No texto publicado, fiz uma lista de 10 filmes que, na minha opinião, ajudariam e ajudarão os jovens a obter uma perspectiva histórica e política mais apropriada para a época que estamos  vivendo.

Também adverti que o texto não tinha o objetivo de oferecer uma valorização artística dos filmes, pois dentro da forma narrativa nos limitaríamos ao nível da história, da fábula (o que se conta), em sua relação de similitude com o real, sem entrar na análise do discurso, da trama (como se conta), ou seja, que não comentaríamos elementos da forma narrativa no cinema (ritmo, composição de cenas, técnica fotográfica, uniformidade, etc.) nem mencionaríamos noções específicas da linguagem cinematográfica (câmara/alta câmara/baixa, campo/contracampo, etc).

Meu objetivo central tem sido mostrar que, no nível da fábula, os filmes selecionados estão intercompenetrados por uma visão de mundo e uma visão política (em oposição à acostumada visão de mundo autoritária da classe dirigente) dos eventos sociais que favorecem uma leitura (ou interpretação) da história social desde o ponto de vista dos setores subalternos e dominados, com um alto grau de veracidade cognitiva, e que decanta-se a favor da luta na defesa dos interesses dos indivíduos e dos povos oprimidos.

Também informei que os filmes selecionados, na sua grande maioria (com poucas exceções) se limitam, na minha opinião, a discutir ou denunciar os problemas da sociedade capitalista dentro de uma perspectiva liberal-reformista, ou seja, que eles duplicam o ideologema bastante difundido de que ainda é possível resolver as contradições do capitalismo dentro do próprio capitalismo, através de reformas do sistema que  as produziu.

Ao revisar a lista dos selecionados, me dei conta de que era necessário incluir mais um filme intitulado The Insider que expõe e denuncia com notável contundência as novas formas (ilegais e fraudulentas) de manipulação das corporações capitalistas, para assegurar o consumo cativo e a adição infindável dos seus produtos pelos consumidores.  Por essa razão, de agora em diante, a lista contará com 11 filmes em vez de 10. Abaixo o leitor poderá observar as alterações na nova lista.

Por uma questão de espaço e de tempo, dos filmes selecionados, somente The Mission pode ser comentado no texto anterior. Neste, vamos continuar e concluir o comentário dos 10 filmes restantes da lista que esperamos poderá ajudar a despertar no leitor o interesse para conseguir os DVDs e assisti-los.


1)     The Mission (A Missão,1986) de Roland Joffé com Roberto de Niro, Jeremy Irons e outros.
2)     Burn (Queimada, 1969) de Gillo Pontecorvo com Marlon Brando, Renato Salvatori e outros.
3)     Ziemia obiecana (Terra prometida, 1974) de Andrzej Wajda com Daniel Olbrychski, Wojciech Pszoniak,
4)     Deus e o diabo na terra do sol (1964) de Glauber Rocha com Geraldo del Rey e Yoná Magalhães
5)     La battaglia di Algeri (A Batalha de Argel, 1966) de Gillo Pontecorvo com Brahim Haggiag, Jean Martin, Saadi Yacef.
6)     Terra em Transe (1967) de Glauber Rocha com Jardel Filho, Paulo Autran.
7)     Missing (O desaparecido, 1982) de Costa Gavras com Jack Lemmon e Sissy Spacek
8)     The Quit American (O americano tranqüilo, 2002) de Phillip Noyce com Michael Caine e Brendan Fraser.
9)     Thirteen Days (Trezes Dias Que Abalaram o mundo, 2000) de Roger Donaldson com Kevin Costner, Bruce Greenwood e otros.
10) The Insider(O informante, 1999) de  Michael Mann com Russell Crowe, Al Pacino.
11) Syriana (Syriana, A Indústria do Petróleo, 2005) de Stephen Gaghan com George Clooney, Matt Damon.

Queimada!
O segundo filme da lista é o italiano Queimada! (Burn!) que está baseado no processo de mudança do Modo de Produção Colonial (fundado na exploração da força de trabalho dos escravos), dirigido por Portugal e Espanha, para o Modo de Produção Capitalista (fundado na exploração do trabalho assalariado), dirigido pela Inglaterra.  O processo sucedeu na realidade histórica do Brasil e em países da América Latina.
No plano cinematográfico a ação do filme se desenvolve numa ilha fictícia do Mar Caribe que pertencia ao domínio de Portugal e que gerará o conflito e a luta entre este país e Inglaterra. Como muitos poderão intuir o roteiro está baseado também na realidade da rebelião dos negros e da “Revolução Haitiana” (1791-1804).
A narrativa cinematográfica evolui através das ações entre o protagonista, o agente e mercenário inglês, William Walker (Marlon Brando) e José Dolores (Evaristo Marquez) o líder da rebelião dos escravos negros.
O nome do protagonista branco William Walker foi copiado no nome real do soldado e mercenário estadunidense chamado William Walker que, financiado pelo magnata imperialista Cornelius Vanderbilt, se tornou  presidente e ditador de Nicarágua em 1856.
No filme, o mercenário inglês é enviado ao “Novo Mundo” para pregar a revolução nas colônias de Portugal e Espanha oferecendo aos escravos negros o apoio financeiro do capitalismo inglês para subverter o domínio português. Assim, Walker vai para a Ilha de Queimada, uma importante colônia produtora de cana de açúcar, planejando encontrar o primeiro líder da rebelião negra e oferecer a “ajuda” inglesa. Porém Walker chega tarde demais na ilha, quando o referido líder já havia sido preso e executado pelas forças armadas portuguesas.
Decidido a não voltar derrotado para Inglaterra, Walker conhece o escravo José Dolores e fica convencido de que este escravo pode substituir o falecido líder. Por isso, resolve ficar na ilha para expor as idéias libertárias ao destemido escravo, até que juntos, conseguem organizar uma grande rebelião vitoriosa, colocando os títeres do governo inglês no poder.  Então Walker viaja para Inglaterra mas retorna dez anos depois para depor quem ele colocou no poder, pois o momento histórico exigia um nova configuração política para a ex-colônia. Mas desta vez, Walker terá que enfrentar a luta e a guerra de independência de José Dolores e dos escravos negros.
Terra Prometida
Baseado em acontecimentos sucedidos na Polônia na virada do século XIX para o XX, o filme Terra Prometida expõe e discute com grande lucidez o desenvolvimento da competência brutal entre os próprios capitalistas (luta intra classe) durante um período de crise econômica. A intensificação da luta pelo reparto do lucro (pela plusvalia) conduz a uma luta feroz entre os proprietários  que resulta na proliferação das falências, dos incêndios das fabricas e dos suicídios dos prejudicados pela destruição massiva de capital  no  interior da própria classe capitalista.
Embora sem a amplitude e profundidade dado à luta intraclasses, o filme também discute a luta de classe entre capitalistas e trabalhadores (luta entre classes) expondo a dominação, a exploração, a superexploração e o abuso sexual dos últimos pelos primeiros.
O filme narra a história de Karol Borowiecki (Daniel Olbrychski), um nobre polonês que é engenheiro-gerente da fábrica têxtil alemã da família Bucholz. Ele pretende montar sua própria fábrica, com a ajuda de seus amigos Max Baum (Andrzej Seweryn), um alemão herdeiro de uma fábrica antiga de teares manuais, e Welt Moritz (Wojciech Pszoniak), um empresário judeu independente.
Borowiecki mantém uma relação sexual com Lucy Zucker (Kalina Jędrusik), a esposa do magnata têxtil judeu Zucker. Através da relação, Borowiecki consegue a informação secreta e privilegiada sobre a futura mudança nas tarifas de algodão. Desse modo, ele e seus amigos Max e Welt, conseguem reunir o  dinheiro para comprar antecipadamente uma gigantesca quantidade de algodão por baixos preços para revender no mercado futuro. Esta operação criminal, lhes proporcionam a maior parte de capital que necessitavam para abrir sua fábrica.
Enquanto isso, Zucker suspeita da relação entre sua mulher e Borowiecki, e contrata um espia para vigiá-los.  Ao receber a notícia confirmando o engano e a traição, Zucker, decide vingar-se do amante, mandando queimar a nova fábrica, que ainda não tinha sido assegurada. Borowiecki e seus amigos perdem no incendio tudo o que tinham conquistado.
No entanto, durante a evolução da crise econômica, a competência entre capitalistas e a superexploração da força de trabalho, forçam os trabalhadores a se organizar para defender seus interesses, utilizando da greve geral como meio para melhorar as  miseravéis condições de existência de suas famílias.
Por seu lado,  Borowiecki, para evitar a derrota e a  falência total, vê-se obrigado a casar com a Senhora Muller, uma mulher boba, mas rica herdeira, e desta forma, Borowiecki vem a possuir sua própria fábrica. Mas a nova fábrica está ameaçada por uma greve dos seus trabalhadores. Devido a esta, Borowiecki é forçado a decidir se deve ou não abrir fogo contra os trabalhadores em greve.
Deus e o Diabo na Terra do Sol
Baseado em fatos, processos e personagens concretos da realidade histórica do Brasil, Deus e o Diabo na Terra do Sol (obra prima do cinema nacional) expõe e discute os mais importantes fenômenos sociais do nordeste tais como a dominação religiosa da igreja católica e o mandonismo dos coronéis; a oposição do cangaço e a reação do beatismo milenarista; a divinização de Antônio Conselheiro (santo dos beatos) e o heroísmo de Lampião e Corisco (chefes dos cangaceiros); a legenda de Antônio Pernambucano (jagunço, assassino a serviço dos coronéis); a representação da história através da  literatura popular do cordel e da literatura culta de Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, da música dos cegos violeiros do nordeste á musica erudita de Villa-Lobos.
O filme narra a história e a travessia do vaqueiro Manoel (Geraldo del Rey) e sua esposa Rosa (Yoná Magalhães) através das veredas do grande sertão brasileiro. Um dia, Manoel se revolta contra a exploração do seu patrão, o coronel Morais (Milton Roda) e mata-o durante uma briga. Manoel foge com Rosa da perseguição dos jagunços e se submete à tutela e proteção do “Santo” Sebastião (Lídio Silva), o chefe dos beatos em Monte Santo. Sebastião promete  conquistar a prosperidade e o fim dos sofrimentos (“O sertão vai virar mar e o mar virar sertão”) através da obediência e da fé nos sacrifícios rituais do  misticismo milenarista. Mas ao presenciar o sacrifício de uma criança, Rosa já não suporta e mata o beato. Ao mesmo tempo, o jagunço Antônio das Mortes (Maurício do Valle), a serviço dos coronéis latifundiários e dos padres da Igreja Católica, extermina os seguidores do beato. Manoel e Rosa voltam a fugir e se juntam a Corisco (Othon Bastos), o diabo loiro, companheiro de Lampião que sobreviveu ao massacre do bando. A perseguição de Antônio das Mortes termina com a morte e a degola de Corisco, provocando a nova fuga de Manoel e Rosa, desta vez em direção ao mar.
O filme tematiza a exploração, a fome, a ignorância, a miséria e a violência no nordeste que na realidade são fatores da história social brasileira que alimentam tanto a loucura do “santo” Sebastião (que justifica os sacrifícios humanos) quanto a violência dos cangaceiros como Lampião e Corisco.

A Batalha de Argel
A Batalha de Argel trata de reconstruir os acontecimentos que ocorreram na capital da Argélia Francesa, entre Novembro de 1954 e Dezembro de 1957, durante a Guerra de Independência da Argélia. A narrativa começa com a organização das células revolucionárias da Frente Nacional de Libertação (FNL) em Casbah (Cidadela). Inicia-se então a guerra civil entre os argelinos nativos e colonos europeus, em que os dois lados trocam atos de crescente violência. Os colonizadores, temendo perder a guerra, utilizam os pára-quedistas franceses do exército para caçar os militantes do FLN. Através da tortura e o sistemático assassinato, os pára-quedistas parecem ter vencido a batalha pela neutralização de toda a liderança do FLN. No entanto, o filme termina com um adendo onde se mostram as manifestações e os tumultos populares que conduziram à independência dos argelinos. O filme conclui evidenciando que, embora a França colonialista tenha vencido a Batalha de Argel, perdeu definitivamente a guerra pela independência da Argélia.
O filme não poupa o expectador: as táticas da insurgência guerrilheira FLN contra a repressão e a tortura implantadas pelo colonizador francês (alem  dos incidentes da guerra), são mostrados sem contemplação.

Na guerra, colonizador e colonizado cometem atrocidades contra a população civil. A FLN ordena em Casbah a execução sumária dos franceses e dos nativos argelinos considerados traidores. Os colonialistas franceses recorrem ao grupo de linchadores Alem da violência racista dos colonizadores contra os nativos do país, os pára-quedistas torturavam, intimidavam e assassinavam sem piedade os membros insurgentes da FLN.


Terra em Transe
Baseado nos acontecimentos que antecederam o golpe militar de 1964 e a implantação da ditadura dos generais no Brasil (por mais de 20 anos), o filme Terra em Transe (outra obra prima de Glauber Rocha), expõe, discute e denuncia, por um lado, a aliança entre a política populista, as forças de esquerda e o movimento popular; por outro lado, a aliança oposta e contraria da direita e da burguesia nacional com o imperialismo internacional na luta pelo poder.

No plano da representação cinematográfica, o filme narra a história do poeta, jornalista e jovem político Paulo Martins (Jardel Filho), em Eldorado, um país imaginário na América Latina.  Paulo se encontra  politicamente dividido entre o senador Porfírio Diaz (Paulo Autran), o político colonialista-imperialista, vendido à multinacional EXPLINT, e o governador Vieira (José Lewgoy), um político demagogo e populista.

Depois de abandonar a amante Silvia (Danusa Leão) e o amigo Porfírio Diaz, Paulo Martins deixa a capital do Eldorado e viaja para a província de Alecrim. Lá, ele começa a acreditar no discurso reformista de Vieira e com a colaboração de Sara (Glauce Rocha), uma militante do Partido Comunista, decide trabalhar para conduzir Vieira ao governo provincial, na esperança de que, como governador, usaria o poder para defender os interesses do povo oprimido do país. Paulo começa a agir contra os interesses fascistas do amigo Porfírio Diaz (e a EXPLINT), apoiando o populismo do Governador Vieira. Após a vitória de Vieira, Paulo é atraído pelas políticas populistas (1) do governo, porém, mais tarde, perde a esperança quando percebe que a demagogia e a corrupção são políticas sistemáticas do governo populista de Vieira e seus amigos.

Para modificar a correlação de forças, Paulo Martins faz uma aliança com Julio Fuentes (Paulo Gracindo), um industrial supostamente nacionalista, mas Fuentes permanece politicamente vacilante entre apoiar o governador Vieira (e as forcas de esquerda) ou apoiar o senador Porfírio Diaz e a EXPLINT.

Apesar de sua retórica nacionalista, Julio Fuentes termina traindo as forças políticas ligadas a Paulo Martins, e se associa definitivamente com o capital estrangeiro, apoiando o golpe de estado liderado por Porfírio Diaz e a EXPLINT. Paulo Martins, ainda tenta convencer o governador para armar a resistência e lutar contra o golpe militar, mas o Vieira se recusa covardemente a usar seu poder para tomar a decisão em benefício do movimento popular progressista.

Traído e derrotado, Paulo (com a solidariedade de Sara), entra num carro com a metralhadora na mão, com o objetivo de romper o cerco militar e se juntar à guerrilha.

O Desaparecido
O filme se baseia no livro The Execution of Charles Horman: An American Sacrifice que conta os acontecimentos da vida real de Charlie Horman, um jovem jornalista estadunidense que desaparece no Chile durante o Golpe Militar (setembro de 1976) e a ditadura militar de Augusto Pinochet.
O filme narra a história de Ed Horman (Jack Lemmon), o pai do jornalista Charlie (John Shea) e Beth (Sissy Spacek) a esposa de Charles. Ed é um individuo politicamente conservador que viaja contrariado para o país sulamericano para procurar seu filho desaparecido. No Chile, Ed Horman se junta com a sua nora Beth (que tem, como o marido, uma posição política oposta à do sogro), para tentar encontrar Charles através da burocracia militar e da Embaixada dos EUA. No processo toma consciência de que está no meio de uma intriga política perigosa para eles. Pouco a pouco, o pai compreende, aterrorizado, que seu próprio governo, o dos EUA não está dizendo a verdade e é cúmplice do golpe, da ditadura militar no Chile e do assassinato do seu filho.

O americano tranquilo
Baseada no livro The Quiet American de Graham Greene (Premio Nobel de Literatura), o romance e o filme contam uma profética história de amor, de traição e de assassinatos que revelam a origem histórica da guerra americana no Vietnã.
Durante o ano de 1952, Saigon, uma cidade bonita, exótica e misteriosa está no centro da guerra vietnamita de libertação do colonialismo frances. O filme narra a história de um correspondente inglês do London Times, Thomas Fowler (Michael Caine) e a sua amizade com o jovem estadunidense Alden Pyle (Brendan Fraser), um funcionário “idealista” americano que chega no Vietnã para ajudar (aparentemente) a amenizar os efeitos da guerra colonial entre franceses e vietnamitas. Quando Fowler introduz o amigo Pyle a sua bonita e jovem amante, a vietnamita Phuong (Do Thi Hai Yen), os três ficam envolvidos num triângulo amoroso que conduz a uma série de revelações surpreendentes que finalmente mostram a Pyle o que realmente é: um agente secreto da CIA responsável pelo assassinato massivo de vietnamitas e por jogar a culpa dos assassinatos nos comunistas. Na narrativa e no filme, nada, nem ninguém, é o que parece: a aparência dos acontecimentos é completamente diferente da sua essência real.

Treze Dias Que Abalaram o Mundo
Baseado no livro The Kennedy Tapes: Inside the White House During the Cuban Missile Crisis de Ernest May e Philip Zelikovo, o filme narra a luta da administração do presidente Kennedy para conter os chefes militares estadunidenses (ligados à Secretaria da Defesa e do Pentágono) na crise dos mísseis cubanos e evitar a terceira guerra mundial.

Em outubro de 1962, aviões espiões estadunidenses sobrevoam ilegalmente a ilha de Cuba e tiram fotos dos U-2 que revelam que a União Soviética está em processo de colocação de armas nucleares em Cuba. Estas armas, supostamente, têm a capacidade de destruir a maior parte do leste e sul dos Estados Unidos em questões de minutos, caso as armas se tornem operacionais. O Presidente John F. Kennedy (Bruce Greenwood) seus assessores Robert Kennedy (Steven Culp) e Kenneth O’Donnell (Kevin Costner) devem elaborar um plano de ação contra os soviéticos. Kennedy está determinado a mostrar que seu governo é bastante forte para enfrentar a ameaça, porem, tem que lutar contra o plano dos generais  que o aconselham a realizar ataques militares contra a ilha de Cuba, caminho que conduziria a uma nova invasão de Cuba pelos EUA. Mesmo relutante, Kennedy resiste aos conselheiros militares, pois sabe que uma invasão dos EUA poderia fazer com que os soviéticos retaliassem a Europa aliada. Um confronto nuclear entre EUA e URSS, parece ser quase inevitável.

Insider
Baseado  na realidade dos acontecimentos revelados no programa "60 Minutes" da TV CBS, o filme conta a história de Jeff Wigand (Russell Crowe) um químico pesquisador, que é vitima do sistemático ataque pessoal (e profissional) e ameaças de morte quando ele decide aparecer no programa "60 Minutes" para expor as mentiras e os enganos de Brown & Williamson, a companhia de tabaco onde trabalhava. Na entrevista para a CBS, Wigand denunciou as  manipulações que a companhia fazia com a mistura do tabaco com o objetivo de aumentar a nicotina, a adição e a dependência dos fumantes de cigarros.  Inicialmente, o filme concentra-se no desenvolvimento da luta do produtor Lowell Bergman (Al Pacino) para convencer a Wigand de que deveria parar de honrar o acordo de confidencialidade que assinou com a Brown & Williamson, e conceder uma entrevista revelando o comportamento criminal das companhias de tabaco dos EUA.
Apesar das ameaças e da probabilidade de que seu casamento fracassara, ele vai enfrentar as câmeras de TV para ser entrevistado por Mike Wallace (Christopher Plummer), mesmo correndo o risco de ser preso, acusado por desrespeito ao tribunal de Justiça.
Depois da entrevista, “60 minutos” engaveta a edição do programa, pois a CBS estava sendo comprada pela companhia Westinghouse e os seus advogados aconselharam a emissora a evitar uma ação judicial contra ela. Embora a aliança entre a Westinghouse  e a CBS seja estabelecida para evitar o processo judicial de perjúrio contra os CEOs das companhias de tabaco (The Big Tabaco), o incorruptível produtor Lowell Bergman luta por todos os meios para evitar a destruição de Jeff Wigand e da sua entrevista.


Syriana
Baseado no livro de memória See No Evil de Bob Barnes (um ex agente da CIA), o filme narra múltiplas historias paralelas onde articula geopoliticamente a relação marital entre o governo imperialista dos EUA e os interesses da indústria de petróleo (dos proprietários das corporações) no médio oriente. O filme concentra-se na política petroleira, na influência internacional das corporações petrolíferas e nos efeitos políticos, econômicos, legais, e sociais da política sobre o ministro de relações exteriores do emirado, o príncipe Nasir (Alexander Sede), um agente operacional (George Clooney) da CIA, Agência Central de Inteligência dos EUA), um analista do mercado de energia (Matt Damon), um advogado de uma firma corrupta de advocacia de Washington (Jeffrey Wright), e sobre um jovem trabalhador imigrante Pakistani (Mazhar Munir) no emirado árabe.

As múltiplas histórias poderiam ser descritas como: - a história do príncipe herdeiro, que  narra a relação de Nasir com um analista do mercado de energia que o príncipe  converte em  conselheiro do emirado; a história do assassinato do príncipe pela Agência Central de Inteligência (CIA) que narra a elaboração do plano secreto para eliminar Nasir e como a CIA seleciona o agente operacional de inteligência para assassinar o príncipe; a história do jovem trabalhador migrante Wasim que desempregado pela Connex é convocado por um clérigo islâmico fundamentalista (Amir Waked) para executar um ataque suicida contra um tanque da gás natural da ConnexKillen.

Todas essas histórias estão articuladas e integradas pela história da fusão das companhias Connex e Killen para explorar os poços de petróleo do Tengiz no Cazaquistão. Esta historia ficcional da fusão das duas companhias está baseada na historia da fusão real em 2003 das corporações  Exxon e Mobil quando oficializaram  o acordo  para explorar os campos de petróleo de Tengiz.
A história ficional da fusão entre a Connex e Killen pode ser resumida da seguinte maneira: A Connex, a gigantesca corporação de energia, está perdendo o controle de importantes jazidas de petróleo no reino (emirado) do Oriente Médio. O ministro de relações exteriores (o príncipe herdeiro do emirado) deu os direitos de exploração do gás natural a uma companhia da China, enfurecendo profundamente os proprietários bilionários da indústria do petróleo e o governo dos EUA.
Assim, para compensar a perda dos direitos no emirado, Connex despede seus trabalhadores imigrantes, iniciando um processo corrupto e criminoso para fundir-se com a companhia Killen, uma pequena empresa petroleira que conseguiu recentemente  o contrato bilionário para explorar os poços do Cazaquistão.
Devo parar por aqui. Para concluir, gostaria de dizer que espero que os 11 filmes selecionados tenham respondido adequadamente à pergunta inicial: quais os filmes de ficção que você recomendaria para estimular uma geração de jovens a procurar uma adequada perspectiva histórica sobre a questão do poder e da dominação política no Brasil, na America Latina e em outras regiões do mundo?
Também desejo que os jovens leitores tenham encontrado (como eu encontrei) nos 11 filmes selecionados, um roteiro pedagógico e divertido que funcione para destacar  alguns elementos teórico-metodologicos que preparem para melhor compreender as relações entre a questão  política, a questão econômica e a sócio-cultural no mundo atual da  gigantesca crise do sistema capitalista neo liberal.
Assim, gostaria de precisar que os temas da religião e da política, da luta de classes e do anti-colonialismo foram revelados a partir da identificação dos conflitos formados pelas oposições entre diferentes religiões (catolicismo x candomblé, etc.) entre diferentes classes (capitalistas x trabalhadores), entre diferentes raças (índio x preto e branco), entre distintos gêneros (heterossexual x homossexual) e distintas nacionalidades (nações imperiais x nações colonizadas; nações do primeiro mundo x terceiro mundo).
Finalmente também gostaria que os resumos por mim realizados  não tenham carregado o leitor com excesso de informações e que sejam capazes de motivá-los (o que é mais importante) para assistir os filmes selecionados.

NOTAS
1) No meu texto Populismo, colonialismo e imperialismo en dos películas de Glauber Rocha: “Terra em Transe” y “Der Leone Have Sept Cabeças” tratei de analisar uma sequência de cenas no filme Terra em Transe para  mostrar didaticamente o modo característico da manipulação  política do populismo. O leitor terá acesso al texto no link”: http://rebelion.org/noticia.php?id=133231

2) Convém esclarecer que atualmente o Secretário Henry Kissinger, responsável pela elaboração e execução da política exterior imperialista do governo de Richard Nixon, não pode viajar para fora de EUA porque existe uma ordem internacional para sua captura pois tem sido acusado de criminoso de guerra em muitos países do mundo civilizado  por suas ações criminosas contra o povo do Vietnã, do Chile e de outros países do terceiro mundo.

23 agosto 2012

Poesia em tempos de boemia literária

Glauber Rocha e Florisvaldo Mattos fizeram parte da Geração Mapa na Bahia de outrora

ASSUNTO: Redação de conferência pronunciada por Florisvaldo Mattos, durante o seminário “Memórias Cruzadas da Cidade do Salvador”, promovido pela Fundação Pedro Calmon, sendo moderador seu presidente, o historiador Ubiratan Castro, em 18 de julho de 2012, no auditório da Biblioteca Pública do Estado da Bahia, nos Barris, na parte circunscrita ao tema A Cidade da Boemia, tendo como foco “a boemia literária e o entrelaçamento da vida intelectual, mundana e universitária, que incubaram intensamente gerações de intelectuais transformadores e movimentos de vanguarda, na Salvador dos anos 50”.
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Houve um tempo nesta Cidade do Salvador em que, mais que uma forma de convívio entre amigos, as tertúlias eram um refúgio de que frequentemente se valia a boemia literária, para fruir o intercâmbio cordial das ideias, que muitas vezes, desaguava em desafio, em torneios de emulação, quando não em contenda rude, açulando a curiosidade de uma audiência, que as acompanhava avidamente, de perto ou à distância. E nelas muito de criação literária e artística se divulgava, para depois ganhar o mundo. Essa distração intelectual com o tempo se esvaneceu, perdeu a antiga feição de urbanidade, para quase completamente sumir das práticas culturais, passando a compor um vasto anedotário. Em 1958, já não mais se falava dessa espécie de concurso civilizado, mas ocorreu que, em um bar da Rua da Ajuda, no curso de uma tertúlia boêmia, que reunia poetas, literatos e jornalistas, dois sonetos deixariam de ser remotos estados de ânimo e sutileza mental, para cumprir um trajeto que pertence a todos os que viajam pelo terreno dos símbolos.

A partir dos anos 1940, quando profundas alterações ocorrem na ordem social e econômica, com fortes reflexos na cultura, a Bahia, que era a terra do “já foi”, toma outra configuração demográfica e urbana, impulsionada pela descoberta do petróleo no Recôncavo e a conseqüente deflagração de um processo de industrialização modernizador, livrando-se da dependência do comércio agroexportador, que tinha sua robustez centrada no cacau; nova dinâmica advinda das transformações no sistema de transportes rodoviário e aeroviário torna mais rápida a relação entre o Sul rico e o Nordeste pobre, aproximando centros de consumo e fornecimento de bens e mercadorias; por fim, ocorrem mudanças no panorama cultural, desde a gestão liberal de Anísio Teixeira na Secretaria da Educação e Cultura, no Governo Mangabeira (1947-1951), acentuadas pela revolução que o reitorado de Edgar Santos imprimirá na Universidade da Bahia, nos anos 1950, criando novas escolas de arte e institutos especializados, além de reformular unidades já existentes. Todos, quase em uníssono, querendo elevar o bem-estar dos baianos.

Tais sucessos vão se refletir diretamente no desenvolvimento da Cidade do Salvador, que, cansada e envergonhada do velho perfil provinciano, começa então a sonhar-se cosmopolita. Num primeiro momento, as letras e as artes entram em agitação, na ânsia de se libertar das amarras do conservadorismo imperante, com a presença e a ação de jovens artistas plásticos (Mário Cravo Júnior, Carlos Bastos, Carybé, Genaro, Jenner Augusto, Rubem Valentim), ficcionistas e poetas (Vasconcelos Maia, José Pedreira, Wilson Rocha, Jair Gramacho), espraiando-se para outros campos (arquitetura e mundanismo, de incursão até na política), ao sopro dos ventos liberalizantes da Constituição de 1946. O entrelaçamento entre a vida intelectual mundana e universitária faz surgir, então, com tinturas existencialistas, o primeiro pouso aconchegante da boemia literária na cidade, o Bar Anjo Azul, na Rua do Cabeça, que se tornaria doravante um emblema local, um marco no gênero. Era a vibrante interseção na cidade da Geração Caderno da Bahia, empenhada em fazer vingar o ideário estético do modernismo, cuja adoção plena o academicismo rotundo e insensível travara por dois decênios.

Neste momento, uma coceira mental me traz à lembrança um poema evocativo que escrevi muitos anos depois, repercutindo as emoções e o ambiente urbano, com que me defrontei, a partir da noite em que pisava pela primeira vez o asfalto da cidade. Sob o título de “Tempos de Arlequim”, composto de versos cadenciados, mas sem rimas, integra o livro Mares anoitecidos, que publiquei no ano 2000, como parte de coletânea alusiva aos 500 anos do Descobrimento. Não me envergonha reproduzi-lo.

Salvador é Carnaval. Quando cheguei, / Em noite de Segunda-Feira Gorda, / As cores da cidade feiticeira / E os meus olhos na praça fumegavam. // Havia corso e blocos veteranos / (Nomes claros que hoje fazem sonhar). / Sobem os Inocentes em Progresso, / Descem os Mercadores de Bagdad. // No Bob’s Bar, que depois será Cacique, / Param o som travesso e a peraltice / Da guitarra elétrica na Fobica; / Uma estrela desponta e, com a luz dela, // A multidão que pula e agita ramos / (A prévia tosca da mamãe- sacode) / Canta, dança, grita, bebe cerveja. / Eu ali que faço? Acompanho o passo. // Batalhas de confete e serpentina, / Pierrôs, lança-perfume, colombinas, / Estrelejando o chão da Rua Chile, / Onde desfilam afoxés. (A brisa // É mais um concorrente da folia, / E eu, olhos postos em longínqua trama / De sonhos dando voltas num salão / E numa rua, espelho do infinito). // Avança por meu tempo de incertezas / A máscara sedutora do passado, / Blocos de rancho fecundando auroras / E o entardecer de etéreas batucadas. // Súbito são morenas de um cordão; / Arlequim invasor da madrugada / Agarra-se à cintura de uma delas / E sobe a praça rumo à Sé que ferve.
É nessa atmosfera de sonho e esperanças que desembarco em Salvador, em fevereiro de 1952, numa noite de Segunda-Feira Gorda de Carnaval, vindo de Itabuna, para estudar no paradigmático Colégio da Bahia e depois cursar universidade. E é a partir da Faculdade de Direito, já publicando poesia na revista Ângulos, então prestigiosa publicação do Centro Acadêmico Ruy Barbosa, da Faculdade de Direito (CARB) que venho integrar o grupo nuclear de jovens, adiante dito Geração Mapa, que borbulhava entre o sucesso e o escândalo, com as apresentações de seus espetáculos de poesia dramatizada no auditório do Colégio da Bahia, rotulados de Jogralescas, por volta de 1956/57. Glauber Rocha à frente, e já se insinuando líder, por lá transitava uma irrequieta malta de declamadores composta de poetas, artistas plásticos, teatrólogos, cineastas, atores e futuros jornalistas (Fernando da Rocha Peres, João Carlos Teixeira Gomes, Paulo Gil Soares, Calasans Neto, Sante Scaldaferri, Ângelo Roberto, Fernando Rocha, Carlos Anísio Melhor, Fred Souza Castro, Antônio Guerra Lima, Anecy Rocha, cito alguns), protegidos da sanha proibitiva e coercitiva da pressionada direção do colégio pelo professor Ruy Simões, um fervoroso apoiador e defensor desses anseios juvenis.

Recordo o encontro que me lançaria nessa caudal de sonhos, com moldura exótica, senão cômica. Em fins de 1956, o Nº 11 da revista Ângulos publicava o meu poema “Composição de ferrovia”, quase um hino telúrico à State of Bahia South Western Railway Company, antigo nome da depois mítica E. F. I. C. (Estrada de Ferro de Ilhéus a Conquista), que civilizou e desenvolveu a Região do Cacau, permitindo o surgimento de vilas, que logo seriam cidades e municípios, e o conseqüente desenvolvimento da produção, gerando riqueza. Foi quando certa manhã, eu sentado num dos bancos do hall da faculdade, vêm me avisar que indagavam por mim na portaria. Saio para o umbral e me deparo com cinco rostos quase imberbes. Logo, um deles me saúda e, dizendo falar em nome dos outros, exclama, enfático: “Viemos aqui para conhecer o autor do poema “Composição de ferrovia”, para nós o melhor poeta modernista da Bahia”. Ouvi desconfiado, mas, entre assustado e incrédulo, agradeci o hilário gesto. Nome do excêntrico porta-voz: Glauber Rocha, que, em seguida, me convida a ir à sua casa, na Rua General Labatut, Nº 13, 1º andar, onde, dizia-me, costumava se reunir com os companheiros, para discutir uma quase infinita pauta de inquietações, aspirações e planos modernistas.

A entrada de Glauber Rocha no cenário sugere novo parêntese para evocar episódio de conotação ainda mais cômica, produto de uma viagem que fez ao Nordeste, em 1960, acompanhado de João Carlos Teixeira Gomes, durante a qual este sofreu um acidente, ao descer de um ônibus, forçando-o a passar o restante do trajeto com o pé enfaixado.
Com a cabeça atulhada de projetos, buscava Glauber, nesta viagem, colher subsídios e inspiração que iriam compor os roteiros de duas de suas obras primas cinematográficas, Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. A certa altura da excursão, pararam em Recife e, nas andanças por lá, se encantaram com o poeta Ascenso Ferreira, um dos ícones do primeiro modernismo, ao lado de Manuel Bandeira, outro pernambucano. Impressionados com a histriônica figura, resolveram convidá-lo a visitar a Bahia. Pouco depois, com seus dois metros de altura, 120 quilos de peso, chapéu panamá de aba larga, terno branco e gravata, o poeta de Catimbó e Cana Caiana, desembarca em Salvador, onde o cercam de homenagens e rapapés, faz conferências, assiste a peças teatrais, passeia e, principalmente percorre e freqüenta bares e restaurantes, comendo e bebendo, com as honrarias que se devem a visitantes ilustres ou boêmios consagrados, demorando-se em Salvador por cerca de um mês.
Na véspera de voltar ao Recife, Glauber e os mais assíduos nas estripulias resolveram fazer uma despedida, convocando a imprensa para uma entrevista com o pernambucano. Em clima de festa, conversa regada a cerveja e acepipes já chegando ao fim, um jornalista pergunta ao poeta: “Ascenso, durante todos esses dias que por aqui passou, o que mais o impressionou e agradou na Bahia? Ascenso parou, franziu a testa, olhou sorridente e bonachão para o jovem e, lembrando talvez o que fazia naturalmente nas ruas, quando pouco sóbrio, disparou: “A liberdade de mijar”.  

Associei-me ao grupo e me engajei na saga de suas aventuras editoriais e artísticas, refletida numa vasta gama de ações, envolvendo literatura, teatro, cinema, artes plásticas e jornalismo. E logo começariam a surgir, em torrente, livros com o selo das Edições Macunaíma; projetos cinematográficos pela nascente Iemanjá Filmes; pinturas, esculturas e gravuras, em galerias de arte, que se montavam então; variadas peças levadas no espaço da jovem Escola de Teatro, dirigida pelo pernambucano Martim Gonçalves; logo também, uma revista, a Mapa, e o inesquecível SDN, o suplemento literário dominical editado pelo Diário de Notícias, de Assis Chateaubriand, rematavam um vertiginoso leque de aspirações inovadoras. Aos nomes citados, vale lembrar outros aderentes, como eu: Myriam Fraga, João Ubaldo Ribeiro, Sônia Coutinho, David Salles, Valdeloir Rego, além do então apenas dentista, depois professor e autoridade em antropologia cultural, Vivaldo da Costa Lima. Neste contexto, não se deve esquecer a singular, solidária e entusiástica presença de um antes experiente livreiro, Zitelmann de Oliva, ora à frente da empresa Artes Gráficas, então operando na Rua do Saldanha, cujo apoio permitiu não apenas a realização dos projetos editoriais do grupo, com o lançamento dos primeiros livros de poesia e ficção, como ainda a edição de álbuns de gravura e dos três únicos números da revista Mapa, entre 1957 e 1958.

Como então os tempos de franca liberdade se casavam com a vida boêmia, febris cogitações e intensos debates exigiam que a geografia da cordialidade se estendesse por diversos pontos, onde as tertúlias se tornariam habituais. Eram então os mais freqüentados: a Sorveteria Cubana, ainda hoje lá na parte alta do Elevador Lacerda; o Bar e Restaurante Cacique, na Praça Castro Alves, mas ainda à época chamada de Largo do Teatro; o Bar Anjo Azul e o Restaurante Porto do Moreira; o Bar Brasil e o Chez Bernard, novidade que se instalara no terraço inaugural do Edifício Themis, ambos na Praça da Sé; e, às vezes, o Colón, na Piedade. E, nos fins de noite, com tudo fechado, o romântico Zé do Esquife, um variado e iluminado tabuleiro de iguarias caseiras, que se abria à voracidade boêmia, a uns dez metros da estátua de Castro Alves, junto à balaustrada.
Desse hoje para muitos um urbano paraíso perdido, repositório de sensações e conquistas inauditas, todos teriam histórias prazerosas a contar, mas, de todos esses lugares, talvez seja o Porto do Moreira o que, pela qualificação e variedade da clientela, mais guarde a memória de casos dignos de registro. Fundado em 1938 pelo português José Moreira (o Sêo Moreira), e facultando a seus clientes um assíduo quanto vasto cardápio de pratos caseiros de inspiração lusa e baiana, tornou-se desde cedo uma casa de pasto cujas mesas reuniam diariamente a nata da inteligência e da burocracia, representada por escritores, poetas, artistas plásticos, professores, jornalistas, profissionais liberais, membros da magistratura, além de políticos, funcionários públicos e comerciários, que lhe davam cor local, como até hoje ocorre neste ameno quase octogenário recanto. Além da cordialidade e simpatia do dono, virtudes saudavelmente transferidas aos filhos, Antônio e Francisco, que, na condição de herdeiros, ainda hoje mantêm o famoso lugar como um ícone de prazeres gustativos na geografia da cidade.

Muito de histórias passadas lá permanece no imaginário dos remanescentes de uma fiel clientela. Evoquemos uma delas quase ao acaso, narrada por Carlos Coqueijo Costa, conceituado dublê de jurista do Trabalho, cronista, compositor musical e animador cultural. Com o restaurante funcionando já no atual endereço, no Largo do Mucambinho, mais conhecido como Largo das Flores, na Rua Carlos Gomes, entre os garçons do serviço, havia um mulato magro, calmo, atencioso e simpático, apelidado de Popó. Atendido por ele, certo dia, na hora do almoço, com preguiça de ler o cardápio escrito à mão, um freguês lhe pergunta: “Popó, que temos de bom hoje, aqui na casa, para comer?”. Solícito, lhe responde Popó, suavemente: “Tem galinha de molho pardo, galinha de ensopado, fígado acebolado, ensopado de carneiro, porco assado, salada de bacalhau, filé a cavalo, moqueca de miolo e moqueca de carne”. Fez uma pequena pausa e concluiu: “E, de sobremesa, goiabada com queijo e banana pessoalmente”. Coqueijo contou este curioso diálogo numa das crônicas que então escrevia, às segundas-feiras, no jornal “A Tarde”, cujo recorte ainda hoje, emoldurado, está afixado na parede do restaurante, à vista dos fregueses.

A noite era realmente criança e aconselhava outros pousos e outros desempenhos, que ninguém é de ferro, a começar pelas casas de mulherio, como o “Meia-três”, na Ladeira da Montanha, a casa de “China”, na Rua da Gameleira, a de “Maria da Vovó” e a de “Cymara”, ambas em transversais da Ladeira da Praça; gafieiras (Churrascaria Ide, Metrô, Rumba Dancing, Belvedere, Marajó); inaugurais boates (Carijó, XK Bar, Manhattan, Pigalle) e, para os mais abonados, o Cassino Tabaris, de cujas noites perdulárias restaram histórias memoráveis, não só as antigas de coronéis do cacau. E aqui nova urticária mental me induz a outro parêntese, para lembrar episódio tão cômico quanto surrealista, protagonizado por alguns de nossa turma numa dessas noites de boemia peralta. Em meados de outubro de 1958, um mês depois de fundado, o Jornal da Bahia fazia o primeiro pagamento dos que compunham a sua primeira equipe de Redação, e lá fomos receber no guichê da gerência o que nos cabia, como atores dessa façanha - eu, Paulo Gil Soares, Joca (João Carlos Teixeira Gomes) e Fernando Rocha (Bananeira), na reportagem geral, Calasans Neto, na programação visual, e Glauber Rocha, editor da seção de Polícia.

Pegamos o dinheiro curto no caixa e, à noite, com a aderência de mais alguns, alegres e felizes, marchamos todos para o Tabaris, onde na ocasião se apresentava um balé argentino, composto de dançarinas loiras e morenas, de corpo torneado e maiô, dançando o repertório musical da moda, bolero, mambo, rumba, conga e tango, ao som de uma afinada e buliçosa orquestra de sopro. Era comum nos intervalos, como parte da atração, elas, as bailarinas, virem às mesas, conversar, beber e até dançar com freqüentadores. Nesta para nós noite inaugural, mulheres na mesa, e bebendo, saímos alguns a dançar, inclusive com as moças do balé. É quando, por volta da meia-noite, Glauber, um protestante de devoção arredia, abstêmio total, subitamente inquieto mais que o normal, passa a censurar os protagonistas da cena e a protestar contra aqueles excessos. Cenho fechado, mais que de repente, sobe na mesa e, em pé, põe-se lá de cima a bradar, possesso: “Isto é um absurdo! Tirem daqui essas mulheres de Babilônia!” E, em tom de execração bíblica, repete mais de uma vez a última frase -”Tirem daqui essas mulheres de Babilônia!”-, aturdindo as moças e companheiros em volta, para então, entre o sério e o farsante, atendendo aos clamores e ostentando no rosto um sorriso frajola, descer da mesa, sob estrondosa gargalhada.

Fora desses lugares que menciono e das cantinas de faculdade, davam-se ainda os encontros nas sessões dominicais do Clube de Cinema da Bahia, capitaneadas pelo misto de advogado trabalhista e crítico de cinema Walter da Silveira, em salas de espera dos cinemas, portas de livraria e “hall” de faculdades. A cidade tranqüila era assim intensa e ludicamente vivida, dia e noite, em transações que varavam as madrugadas.
          
Volto ao começo, à história dos dois sonetos nascidos de uma remota tertúlia literária, no lusco-fusco de um bar, em anos de boemia e jornalismo romântico. Narro a excentricidade. Noite de primavera, dias depois do surgimento do Jornal da Bahia, na Rua Virgílio Damásio, nº 3, uma transversal da Rua Chile, numa das mesas de tampo de mármore do Bar Nogueira, então um dos mais concorridos da Rua da Ajuda, vizinho ao famoso Café das Meninas, amigos estão sentados, dois deles poetas e dois tarimbados jornalistas. Poetas, eu, um mero iniciante, na poesia e na imprensa, e Jair Gramacho, já um dos mais prestigiados membros da Geração Caderno da Bahia, na qual disputava píncaros com o poeta Wilson Rocha, ambos ícones locais do modernismo. Os dois jornalistas eram Ariovaldo Matos, romancista e autor de Corta Braço, ficção pioneira inspirada numa invasão de terras ocorrida no bairro da Liberdade, e o contista e cronista Flávio Costa, este subsecretário de Redação, que acabara de lançar Além das torres do Kremlin, relatos de viagem a Moscou, aquele experiente Chefe de Reportagem do novo jornal, que antes exercera com afã militante o mesmo cargo em O Momento, aguerrido jornal que funcionou na Ladeira de São Bento (1945-1957), pertencente ao Partido Comunista do Brasil, o Partidão, fundado e mantido por Aristeu Nogueira e João Falcão, este depois fundador do próprio Jornal da Bahia.

Falava-se de literatura e política, como sempre, quando de repente, coisa de boêmios, surge um desafio, para saber-se quem dos dois poetas ali melhor escreveria um soneto. Não lembro o autor do repentino alvitre, tampouco o grau do efeito etílico, que, indulgente, o Ângelus da Igreja da Ajuda ali perto acalentava. Surpresos, os dois poetas se entreolharam, mediram o tamanho do repto, mas, feito o ajuste, bebericaram um pouco mais e se foram. Dois dias após, tal como combinado, voltamos os quatro ao mesmo bar, cada um dos poetas empunhando a sua Excalibur verbal: eu, com o soneto intitulado "A cabra", de cândida inspiração rural, composto no clássico formato petrarquiano, com os catorze versos dispostos em dois quartetos e dois tercetos; ele, Jair Gramacho, com suntuosa joia lavrada no modelo shakespereano, de três quartetos integrados e um dístico, amplo de alusões panteístas e referências mitológicas, invocando lenda campestre em torno de Meleagro, herói de Calidônia; mas, tanto um quanto o outro, construídos em decassílabos de rimas emparelhadas ou entrelaçadas.

Cumprindo o ritual e com a devida entonação, cada autor leu o seu soneto. Na postura de juízes, depois de ouvi-los e cotejá-los, em silêncio, os dois jornalistas concluíram sorridentes que os dois poemas mereciam publicação mais ampla, na edição dominical do Jornal da Bahia. Dito e feito. Dias depois, com verniz gráfico de prestígio, ambos os sonetos ocupavam as duas colunas ao lado direito da página literária, editada sob a batuta do historiador e cronista Luís Henrique Dias Tavares, mas sem uma linha sequer alusiva ao embate travado no bar da Ajuda. Publicados, cada soneto seria alvo de corporativista acolhida: o meu, com recitação e elogios da presunçosa grei a que eu pertencia, enquanto o de Jair bem mais efusivamente louvado não apenas por nomes consagrados de sua geração.

Em 1960, os dois poemas seriam ainda publicados na revista Ângulos (Nº 16), então comandada por Noênio Spínola (diretor) e Antônio Guerra Lima (Guerrinha), de redator-chefe, com João Ubaldo Ribeiro diretor de Cultura do CARB, mas cada uma das criações poéticas doravante com sorte diversa: “A cabra” iria compor o conjunto do meu primeiro livro, Reverdor (Edições Macunaíma, 1965), enquanto o primoroso soneto de Jair Gramacho, ao que sei, permanece até hoje inédito em livro. São eles que agora abaixo reproduzo, vindo em primeiro lugar, por direito inalienável, o do meu saudoso e insigne êmulo.


SONETO OITAVO DE ATALANTA EM CALIDÔNIA

                                                                       JAIR GRAMACHO
Nesta tarde o terreiro está vazio.
Distante o laranjal se estende; a manga,
A serra, o azul depois; tênue miçanga
De açafrão tinge as fímbrias, o do estio
Único resto. Esta tristeza é mais
Que a da paisagem pobre e adormecente;
Talvez por não ter rosas, não ter gente,
E a solidão vagueie pelos currais.
Mas, certo é que nesta hora, ressurrecto,
O mito abandonado busca o luxo
Antigo de existir; dispõe espectros
Que em volta cirandeiam do repuxo...
         Ah! Mais que basta para o instante magro
         Galinhas ver – irmãs de Meleagro!

A CABRA

                        FLORISVALDO MATTOS


Talvez um lírio. Máquina de alvura
Sonora ao sopro neutro dos olvidos.
Perco-te. Cabra que és já me tortura
Guardar-te, olhos pascendo-me vencidos.

Máquina e jarro. Luar contraditório
Sobre lajedo o casco azul polindo,
Dominas suave clima em promontório;
Cabra: o capim ao sonho preferindo.

Sulca-me perdurando nos ouvidos,
Laborado em marfim – luz e presença
De reinos pastoris antes servidos –

Teu pelo, residência da ternura,
Onde fulguras na manhã suspensa:
Flor animal, sonora arquitetura.

Florisvaldo Mattos é poeta e jornalista; membro da Academia de Letras da Bahia; autor de livros de poesia e ensaios.