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17 junho 2010

Abaixo a pipoca!!

Como é público e notório, detesto pipoca em cinema. Achei na internet um excelente texto que tomo a ousadia de publicá-lo sem pedir autorização ao autor, Guss de Lucca. O site, que recomendo, é: http://screamyell.com.br/site/2010/05/27/censura-a-pipoca-no-cinema/
"Um boato sobre a produção surge na internet. Semanas depois o estúdio confirma o projeto. Não custa muito para que divulguem os roteiristas, diretor e nomes que encabeçam o elenco. O coração palpita e a imaginação vai a mil por hora. Você pensa no ator vestindo o figurino da personagem, imagina algumas cenas e tenta até adivinhar as escolhas da direção.
Meses depois um site divulga a primeira foto. Misteriosa, ela serve para aguçar a necessidade de saber mais sobre a produção. Nos fóruns de discussão as pessoas já comentam e muito tempo depois surge o primeiro trailer. Imagem e som editados. Atores em ação. Sequências desconexas sobre uma possível grande história. “Uau! Preciso ver esse filme ontem”, você pensa enquanto assiste ao trailer pela vigésima vez.
A data de lançamento é marcada e você compra o ingresso para a pré-estreia. O dia parece que não passa. O relógio, que até então avançava vagarosamente, só começa a correr quando você deixa o trabalho e voa para a sala de cinema. Não se atrasar pode ser a garantia de um bom lugar, caso você prefira o disputado miolo da sala de projeção.
Já acomodado em sua poltrona você se distraí com a música ambiente e observa a enorme tela branca, ciente de que em poucos minutos o processo que começou meses atrás - às vezes anos! - está para se encerrar. As luzes se apagam. O projetor é ligado. Você prende a respiração. O filme começa. E nesse momento mágico um filho da puta enfia a mão no gigantesco saco de pipoca de seu colo e começa a mastigar aquele milho salgado e barulhento.
Feita a introdução, vamos ao que interessa.
Quem gosta ver filmes não come no cinema. Ponto. E não há argumento algum que me convença de que tal afirmação está errada. Assistir a um filme é uma atividade que requer atenção, concentração e conforto. Se você é uma das pessoas que não consegue ficar sem comer, beber, ir ao banheiro e conversar durante duas horas de sua vida, considere-se uma idiota.
Uma pessoa idiota, de acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa Novo Aurélio, sofre de idiotia, que nas palavras da mesma obra consiste em “atraso intelectual profundo, caracterizado por ausência de linguagem e nível mental inferior ao da idade normal de três anos”. Uma ótima definição para quem não consegue prestar atenção durante o tempo de um filme.
Pessoas inteligentes não falam no cinema. Tampouco comem. Elas se alimentam antes ou depois das sessões. Jamais durante. E sempre vão ao banheiro antes do filme começar, afinal, dentro do cinema seu objetivo é um só: assistir a uma história.
Quando compram um ingresso na bilheteria do cinema, as pessoas que gostam de filmes sabem que estão pagando por uma poltrona e pelo direito de assistir a uma projeção sossegadamente. E seria justo que as demais pagantes se portassem de acordo com a ocasião, respeitando o direito sagrado de ver um filme no mais completo silêncio. Se isso não fosse importante, para que construiriam salas com proteção acústica?
Defensores da pipoca dizem que ela tem tudo a ver com cinema. Sempre que ouço isso eu lhes pergunto: Como assim?! Pipoca é um dos alimentos mais barulhentos do mundo. E de boa, é também um dos mais sem graça - tem gosto de sal, fede a manteiga, suja os dedos de quem come e enche os vãos dos dentes de lascas. E sequer é nutritivo ou mata a fome. Comer pipoca e não comer nada só não é a mesma coisa porque o nada não faz barulho.
E até onde sei, quem come pipoca no cinema não o faz nos teatros, igrejas ou durante o sexo - bom, alguns devem comer pipoca durante o sexo, mas não vou me ater a bizarrices. Então por que diabos as pessoas precisam comer pipoca durante um filme? É tão difícil imaginar-se durante uma sessão de cinema sem comer nada, emitir opinião ou ir ao banheiro?
O cinema é o instrumento utilizado para se contar uma história, e a única maneira de entender uma história é prestar atenção em quem a conta - no caso, um diretor por meio de uma câmera. Quem não tem interesse em ouvir - ou no caso assistir - uma história, não deve ir a uma sessão de cinema. Mas a relação das pessoas com os filmes é diferente.
Com o passar dos anos, ir ao cinema tornou-se um programa qualquer, deixando de ser uma grande ocasião. E é curioso analisar que as pessoas não vão a um restaurante quando não estão com fome, ou não vão ao motel quando não querem fazer sexo - mais uma vez melhor ignorar as bizarrices. Porém, muitas vão ao cinema sem sequer saber qualquer informação sobre o filme que assistirão. Idiotas que, para infelicidade geral, só sabem atrapalhar.
Não custa imaginar o futuro, sonhar com o surgimento do “cinema dos justos”, que um dia há de ser construído e onde não serão permitidos alimentos, conversas e idas ao banheiro durante a projeção. Em suma, um cinema à prova de idiotas. Será que vai demorar muito?
*******Este texto é dedicado ao amigo e editor do site Marcelo Costa, que se divertiu com minha inflamada defesa da proibição da pipoca nos cinemas durante um almoço e me convenceu a escrever isso.
*******
Guss de Lucca é jornalista e historiador, e trabalha no iG Cultura.

16 junho 2010

Pedro Cardoso ataca o preparador de elenco

O ator Pedro Cardoso ataca o preparador de elenco. Eu não estou sozinho. Vejam:

http://canalbrasil.globo.com/index.php?idvideo=6418

Lição das coisas

1) Mais um vídeo sobre a deformação que um filme pode ser vítima quando exibido na televisão ou distribuído em DVD (é verdade que muitas distribuidoras respeitam o formato). Ontem, au hasard, deparei-me com Se meu apartamento falasse (The apartment, 1960), uma das melhores comédias de Billy Wilder, sendo mostrada em cinemascope no Telecine Cult. Qual o critério, pergunto de novo, pois alguns filmes passam deformados em fullscreen (ou foolscreen, como quer Romero Azevedo), sendo que em outros são preservados seus formatos originais.
2) Sobre preparador de elenco, um comentário de Rodrigo faz remeter a um bom artigo sobre o assunto publicado na Revista Piauí que tem como foco central a preparador-mor do cinema brasileira: a polêmica Fátima Toledo, que se diz influenciada por Stella Adler, famosa professora de arte dramática do Actor's Studio ao lado de Lee Strasberg. Vejam o indispensável link:
3) Há, isto sim, um componente de sadismo exacerbado na preparação dos elencos dos atuais filmes brasileiros. Cheguei ao radicalismo de afirmar: não vejo filmes cujos elencos tenham preparadores de elenco. Ou, então, esta chiquérrima: preparador de elenco e merda para mim são a mesma coisa.


15 junho 2010

Preparador de elenco

Creio de uma inutilidade hercúlea a existência de um preparador de elenco para a direção de atores nos filmes brasileiros (ou estrangeiros) como atualmente virou um modismo. Estou até com um certo desconfiômetro quando vou ver um filme que tem seu elenco preparado por fulano ou sicrano. Segundo leio e ouço falar, na preparação do elenco há uma verdadeira sessão de psicanálise e os atores sofrem o pão que o diabo amassou. Em alguns casos, chega-se à tortura chinesa. Um bom diretor tem que saber dirigir seus atores. É o contato diretor-ator que estabelece as nuances interpretativas, salvo se o cineasta é um incompetente. Aliás, no cinema brasileiro, são poucos os realizadores que possuem familiaridade com a dramaturgia e, por isso, contratam um preparador, que faz lembrar aqueles preparadores de lutas radicais. Aqui vai o meu protesto contra esta preparação de elenco. Mas qualquer realizador tem a sua liberdade. Se despreparado, que tenha, como muleta, o tal preparador. Mas tudo, na minha opinião, não passa de grande falácia.

13 junho 2010

Dos crimes praticados contra a obra cinematográfica

Os canais televisivos que não exibem os filmes, quando originariamente realizados com lente anamórfica, em CinemaScope, estão a cometer um verdadeiro crime contra a integridade da obra cinematográfica, pois o quadro fílmico se destrói, e a tela cheia (fullscreen) é um atentado à ideia original como a obra fora concebida. O vídeo que apresento explica didaticamente o processo de degradação do filme quando se dá a aplicação do fullscreen em cima de um filme em CinemaScope, com explicações mais que pertinentes de cineastas como Martin Scorsese, Michael Mann, entre outros. Trata-se, a rigor, de uma verdadeira aula sobre o assunto.
Mas não somente os canais televisivos aplicam tal atentado. Algums distribuidoras de DVDs (a Europa, inclusive, que destruiu, entre outros, Menina de Ouro, de Clint Eastwood no lançamento do disco no mercado, apresentando-o em fullscreen) também fazem o mesmo. Mas o público, alheio e apático, apenas se interessa pela fabulação, pelo enredo, pela trama, e prefere mesmo, na sua ignorância, a tela cheia e, mesmo, para pasmo dos amantes do cinema, que os filmes venham dublados em português.
Vejam o vídeo. É uma lição. Apenas.


10 junho 2010

Programação comemorativa dos 60 anos do Clube de Cinema da Bahia


De 26/06 a 01/07 –– SESSÕES DE 16:30 e 19:00 HORAS
SALA WALTER DA SILVEIRA

Dia 26/06
6h30
Filme:
Em Busca do Ouro (The Gold Rush , EUA-1925)
Direção:Charles Chaplin
Elenco:Charles Chaplin,Mack Swain e Tom Murray.
Duração: 83 min
Sinopse: Um pobre vagabundo, seguindo os rastros de outros tantos, viaja em busca do ouro no Alasca. No meio de uma tempestade de neve, ele consegue encontrar uma cabana, mas lá tem que disputar espaço com outro homem, um bandido. Jim McKay, outro que está em busca do ouro, surge e acaba salvando a vida do vagabundo, e os dois tornam-se amigos.
19h
Filme:
Cidadão Kane (Citizen Kane, EUA, 1941)
Direção:Orson Welles
Elenco:Orson Welles,Joseph Cotten,Dorothy Comingore,Agnes Moorehead e Ruth Warrick.
Duração:119 min
Sinopse: Figura mitológica da imprensa norte-americana, o multimilionário Charles Foster Kane morre sozinho na sua extravagante mansão e dá um último sussurro: “rosebud”. Na tentativa de descobrir o significado da palavra, um repórter procura pessoas que conviveram e trabalharam com Kane. Elas relatam a vida e a ascensão dele, mas não ajudam a decifrar a charada de sua morte.
Dia 27/06
16h30
Filme:
O Encouraçado Potemkin (Bronenosets Potyomkin, URSS, 1925)Direção:Sergei Eisenstein
Elenco: Aleksandr Antonov, Vladimir Barsky e Grigori Aleksandrov.Duração:75 min.
Sinopse: Baseado em fatos reais, conta peculiaridades da Rússia czarista, que, em 1905, viu um levante anteceder a Revolução de 1917. Estamos no navio de guerra Potenkim, com marinheiros cansados de serem maltratados, comendo carne estragada pensando que ela estava perfeita. Alguns marinheiros se recusam a comer e, então, os oficiais ordenam a execução dos “desertores”. A tensão aumenta e a situação perde o controle.
19hFilme:
Rashomon (Rashômon ,JAP – 1950)
Direção:Akira Kurosawa
Elenco:Toshirô Mifune, Masayuki Mori e Machiko Kyô.
Duração:88 min.
Sinopse:No Japão do século 12, um fazendeiro e sua mulher são atacados numa floresta. Ela é violentada; ele morre. Ao longo do julgamento do caso, cada uma das quatro testemunhas, inclusive o fantasma do fazendeiro assassinado, conta o ocorrido segundo diferentes pontos de vista. Na busca da versão real, o drama questiona o próprio conceito de verdade.
Dia 28/06
16h30 e 19hFilme:
Desencanto (Brief Encounter, GB, 1945)Direção: David Lean
Elenco:Celia Johnson e Trevor Howard.
Duração:86 min.
Sinopse:Em um café numa estação de trem, a dona de casa Laura Jesson encontra o doutor Alec Harvey. Embora ambos já sejam casados, gradualmente apaixonam-se um pelo outro. Eles, então, continuam encontrando-se toda semana no mesmo local, mesmo sabendo que seu amor é impossível
Dia 29/06
16h30 Filme:
Vidas Secas (Brasil- 1963)
Direção:Nelson Pereira dos Santos
Elenco:Átila Iório,Genivaldo Lima, Gilvan Lima e Orlando Macedo.
Classificação:14 anos
Sinopse - Família de retirantes, Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais velho, o menino mais novo e a cachorra Baleia, que, pressionados pela seca, atravessam o sertão em busca de meios de sobrevivência.Inspirado na obra de Graciliano Ramos
19h Filme:
Antes da Revolução (Prima della revoluzione,Itália, 1964)Direção:Bernardo Bertolucci
Elenco:Adriana Asti e Francesco Barilli.
Duração:115min
Sinopse: Parma, 1964. Fabrizio, um jovem de 22 anos, passa por uma fase de indecisão política e afetiva. Apesar de renegar a burguesia, não se sente à vontade no movimento revolucionário, pois se considera à frente das ideologias da esquerda. Ao mesmo tempo, vive um amor conturbado com sua tia.
Dia 30/06
16h30 Filme:
Deus e o Diabo na Terra do Sol (Brasil,1964)
Direção:Glauber Rocha
Elenco:Othon Bastos,Geraldo Del Rey,Sonia dos Humildes e Yoná Magalhães.
Duração:115 min
Sinopse:O cangaceiro Manuel e sua mulher Rosa são obrigados a viajar pelo sertão, após ele ter matado o patrão. Em sua jornada, eles acabam cruzando com um Deus negro, um diabo loiro e um temível homem. Esta é considerada a obra-prima de Glauber Rocha.
Dia 1/07
16h30 Filme:
Paixão dos Fortes (My Darling Clementine, EUA - 1946)Direção:John Ford
Elenco:Walter Brennan,Victor Mature,Linda Darnell e Roy Roberts.
Duração:97 min
Sinopse: Wyatt Earp é o lendário xerife de Dodge City, mas hoje ele se limita a viajar com seus irmãos carregando gado. Em uma das viagens, ele deixa seu irmão mais novo tomando conta do rebanho enquanto vai ao saloon. Quando volta, encontra o pequeno morto e decide aceitar trabalhar no cargo de xerife da cidade, tentando trazer a justiça ao local.
19h Filme:
Bandido Giuliano (Salvatore Giuliano, Itália -1961)
Direção:Francesco Rosi
Elenco:Frank Wolff, Salvo Randone, Pietro Cammarata e Ugo Torrente. Duração:125 min.
Sinopse:O filme conta a história verídica do bandido siciliano Salvatore Giuliano, e de suas relações com a Máfia e o poder.

A composição da imagem é de autoria de Jonga Olivieri.

"A Noite", de Michelangelo Antonioni

Um dos filmes que me despertaram, no decorrer dos anos 60, para a compreensão do cinema como uma verdadeira expressão da arte, foi, sem dúvida, A Noite (1961), de Michelangelo Antonioni. Visto pela primeira vez no Clube de Cinema da Bahia, La Notte, com o domínio da anti-narrativa, promovia o êxtase diante de um cinema que procurava mostrar as difíceis relações entre as criaturas humanas, principalmente no se refere à incomunicabilidade que se manifesta na rotina de um casal. La Notte se constituiu, por assim dizer, numa introdução à cultura superior cinematográfica, formado que era, então, e apenas, pelo cinema de gênero oriundo de Hollywood. A partir de La Notte, vim a conhecer não somente os outros filmes de Antonioni, como as obras dos grandes autores no já citado Clube de Cinema da Bahia (que, neste ano de 2010, cumpre os seus 60 anos de fundação): Resnais, Godard, Truffaut, Kurosawa, Welles, Kenji Mizoguchi, Eisenstein, Fellini, Buñuel, entre tantos. Foi a minha iniciação.

Falar de A Noite, de Michelangelo Antonioni, é falar de uma obra-prima, de um filme emblemático da história do cinema. Responsável pela sublimação da linguagem no ser fílmico, Antonioni praticou um corte longetudinal na evolução da narrativa cinematográfica, com a desdramatização, ou seja, a recusa do espetáculo, a desteatralização, que pode também ser vista em Roberto Rossellini em seu fundamental Viagem à Itália (Viaggio in Itália, 1953), que, a bem da verdade, precedeu o realizador de La Notte. Segundo Marcel Martin, a partir dos anos 50, assiste-se a um progressivo ultrapassar da linguagem, àquilo que se poderia chamar de rejeição das regras tradicionais - da gramática de ferro - para fazer da narrativa fílmica não mais um meio, um veículo de sentimentos e idéias, mas um fim em si: a própria narrativa tornando-se o objeto primeiro da criação. Assim, ficou mais difícil aplicar aos filmes que se colocaram na vanguarda da pesquisa estilística - como a famosa trilogia de Antonioni constituída de A Aventura/L'Avventura, 1960, A Noite, e O Eclipse/L'Eclisse, 1962 - os velhos esquemas da "explicação de textos" habitual, ou seja, a distinção escolástica entre a forma e o conteúdo se tornou impossível e absurda. Antonioni, pode-se dizer, instaurou a estética do filme.

Giovanni Pontano (Marcello Mastroianni), um escritor de sucesso, encontra-se prisioneiro em um universo fictício, incapaz de escrever algo sério, verdadeiro. Sua mulher, Lídia, (Jeanne Moreau) se sente excluída do mundo do marido. A morte de um amigo de ambos (interpretado pelo diretor alemão Bernhard Wicki) faz ainda mais patente o abismo aberto entre eles. Gherardini, o poderoso industrial, tenta comprar o escritor, apesar de seu elevado nível de vida e o orgulho que sente por seu poderio capitalista. Sua filha Valentina (Mônica Vitti), afogada no vazio de seu próprio ambiente burguês, sente uma urgente necessidade de se libertar. Cada um desses personagens de Michelangelo Antonioni permanece preso num beco sem saída. Está exposta a equação existencial tão ao gosto do cineasta de "A Aventura".Antonioni, que rodou o filme em Milão, fixou sua atenção sobre os meios industriais e intelectuais da populosa cidade italiana. A mesma Milão que serviu de cenário a outra obra-prima do cinema italiano: Rocco e seus Irmãos(Rocco i suoi Fratelli, 1960), de Luchino Visconti, tragédia exemplar que estabelece a cinematografia italiana como a mais poderosa do momento cinematográfico nos sessenta, agrupando verdadeiros gênios como Antonioni, Visconti, Fellini, entre tantos outros como Valério Zurlini. Assim, a fixação da inação em Milão não é aleatória, mas tem um objetivo e um propósito. Antonioni quando elege a profissão de seus personagens sabe perfeitamente o que está a fazer: "Exijo sobretudo intelectuais, porque são os que têm a consciência mais exata da realidade, além de uma sensibilidade, uma intuição, mais sutil, através da qual posso filtrar a realidade que desejo expressar. A expressão dessa realidade nos seus filmes se faz pelo exterior ou pelo interior.Antonioni em A Noite aprofunda a linha estabelecida em A Aventura. O esquema dramático maneja uma série de abstrações até então inéditas no cinema de Antonioni. Que, pela primeira vez, reúne Jeanne Moreau e Mônica Vitti, as duas atrizes que melhor souberam expressar as facetas da mulher moderna - a mulher contemporânea dos anos 60, quando a libertação se fazia urgente e o cinema um conduto que muito bem expressava o profundo estado de crise da sociedade burguesa. Um estilo que se caracteriza pelas tomadas longas, estabelecendo, com isso, uma espécie de anti-narrativa cuja exasperação chegou em O Eclipse.
Em A Noite, o industrial Gherardi e sua esposa são realmente figuras da alta burguesia milanesa, assim como em sua maioria os convivas são sócios do Barlassina Golf Club (perto do lago Como), transformado em residência daqueles. Antonioni não incide no jogo duplo em relação a esses atores voluntários. Sua serenidade de artista permite-lhe colocar, ao lado da análise implacável nos diálogos e nos planos, o orgulho do capitalismo que escreve ou roteiriza segmentos da História com personagens verdadeiros, casas verdadeiras, cidades verdadeiras.

Walter da Silveira, ensaísta baiano, após a primeira visão de La Notte, entusiasmado, escreveu um ensaio sobre Antonioni do qual destaco aqui esta parte - que se encontra no livro Fronteiras do Cinema: "Ao contrário do que se tem dito, Antonioni seria, por um paradoxo, o cineasta que mais acredita na sensibilidade e na inteligência do público, dispensando-se de ser evidente para ser claro. E se constrói seu relato fílmico sem excluir o elemento não visual do cinema, dando-lhe a importância de um fator de interpretação ou acentuação da imagem, no final de cada filme transmite-nos uma longa cena silenciosa em que só o gesto define e comunica toda a sua essência vital, ética. Em A Aventura, a mão de Claudia desce, hesita, volta a descer sobre o ombro de Sandro, numa indecisa porém insistente vontade de existência a dois, numa dolorosa porém aguda intuição de que, malgrado todas as demissões, resta ainda ao homem uma tênue possibilidade de libertar-se. Em A Noite, o par cujo casamento já no décimo ano foi tomado pelo tédio, a lassidão conduzindo à incerteza, abraça-se sobre a relva numa cópula de desespero, inseguro da permanência além da madrugada. E em O Eclipse já nem se vêem os recantos em que se encontravam - documentação e também metáfora de uma vida comum abandonada."

A iluminação dessa obra-prima é de um artista: Gianni Di Venanzo.
Publicado no Terra Magazine em 08.06.2010

07 junho 2010

"Rear Window" empata com "Vertigo"

A enquete sobre qual o melhor filme de Hitchcock levou mais de quinze dias em votação. No meio dela, Janela indiscreta (Rear window) passou à frente de Um corpo que cai (Vertigo) e se pensou fosse a obra vencedora, mas, nos últimos dias, houve um aumento nos votos para este último. Resultado: a janela empatou com a vertigem. Assim, ambos com 35 votantes (29%) cada um são os vencedores da pesquisa. James Stewart, nunca ocasião que veio ao Rio de Janeiro (1984), declarou à imprensa que Rear window é o seu preferido de Hitchcock. No total, 120 leitores do blog exerceram o direito de opinar, votando na enquete, o que agradeço. Janela indiscreta é uma verdadeira teoria do cinema, um filme sobre a representação do cinema, a tela que se dá ao olhar, e não se pode deixar de considerá-lo uma obra fundamental não apenas para a filmografia do mestre, mas para a história do cinema. Assim como Um corpo que cai, que numa enquete da Folha de S.Paulo, entre críticos de todo o mundo, para comemorar o centenário da sétima arte, tirou segundo lugar, ficando atrás apenas de Cidadão Kane, de Orson Welles.
Em terceiro lugar, Psicose (Psycho) com 15 votantes (12%), obra de impacto. E, em quarto, Intriga internacional, que considero, particularmente, um dos melhores filmes de Hitch. O quinto ficou com Pacto sinistro (Strangers on the train). Sombra de uma dúvida (Shadow of the doubt), que Hitchcock, em diversas entrevistas, disse ser o seu melhor filme, não recebeu boa votação (3, 2%). Será que os leitores deste blog não o conhecem?

06 junho 2010

Meteorango Kid, o herói intergalático

Na segunda metade dos anos 60, dá-se, na Bahia, o surto underground, cujos filmes podem ser considerados a antítese do chamado Ciclo Baiano de Cinema da primeira metade (Barravento, de Glauber Rocha, A grande feira e Tocaia no asfalto, ambos de Roberto Pires, O caipora, de Oscar Santana, Sol sobre a lama, de Palma Neto e Alex Viany, O grito da terra, de Olney São Paulo, entre outros). Se o Cinema Marginal brasileiro se situa como uma reação ao Cinema Novo e seus postulados, o surto que se verifica na Bahia vem influenciado pelo espírito da época e, principalmente, pelo carro-chefe, que é, indiscutivelmente, O bandido da luz vermelha (1968), de Rogério Sganzerla.

Ainda que André Luiz Oliveira, com seu Meteorango Kid, o herói intergalático (1969) seja o mais consagrado cineasta do surto, há, porém, outros filmes que merecem ser citados, a exemplo de Caveira, my friend (1968), de Álvaro Guimarães, A construção da morte (1968), de Orlando Senna (o produtor Braga Neto, apavorado com o Ato Institucional número 5, distribui aleatoriamente as latas com os negativos que se perdem), e o média Voo interrompido (1969), de José Umberto. Obras radicais nas suas estruturas narrativas, a rigor, nada propõem, mas são extremamente reveladoras da angústia de uma geração e da tentativa de instaurar um cinema mais voltado para a expressão pessoal e desvinculado dos padrões convencionais do espetáculo cinematográfico.

André Luis Oliveira, baiano de Salvador (1948), começa a se interessar pelas imagens em movimento, quando toma um curso livre de um ano (1968) da Universidade Federal da Bahia ministrado por Walter da Silveira e Guido Araújo. Neste curso, vem a conhecer pessoas idealistas que também têm como sonho a realização cinematográfica. Neste mesmo ano, realiza, em parceria com José Umberto, o curta Doce amargo, que, inscrito no Festival Amador Jornal do Brasil/Mesbla, é premiado em segundo lugar. Doce amargo é uma tentativa poética de registrar a vida atormentada de um vendedor de pirulitos que passa por várias situações amargas. Já há, aqui, o uso da alegoria, de figuras de linguagem e uma fragmentação narrativa que iria se acentuar mais em Meteorango Kid, o herói intergalático.

Intitulado a princípio O mais cruel dos dias, e produzido por seu pai, Meteorango é a estréia de André Luiz Oliveira no longa, que, apresentado no Festival de Brasília, obteve o Prêmio do Público e a Margarida de Prata da Central Católica de Cinema. Em 1969, com o reinado do Ato 5, a censura está atenta a todos os filmes da mostra competitiva e disposta a proibir Meteorango. No ano seguinte, em 1970, um outro filme underground baiano, Caveira, my friend, de Álvaro Guimarães, mostrado no mesmo festival num clima asfixiante, tem suas cópias queimadas em plena Praça dos 3 poderes - Caveira, my friend leva quase 20 anos sem ser visto até que consegue ser encontrado.

Estruturado em fragmentos, sem um fio condutor resistente dentro dos cânones da lei de progressão dramática griffithiana, e a utilizar, na sua construção narrativa, materiais de procedências diversas (cartazes, gráficos, letreiros...), Meteorango Kid, o herói intergalático é uma manifestação de rebeldia e desalento bem ao estilo da época em que é realizado: os turbulentos anos do final da década de 60.

A imagem inicial do filme mostra o personagem Lula Bom Cabelo a sair da cruz em filmagem invertida e em câmera lenta. No dia de seu natalício, Lula passa por experiências reais e fantásticas - aqui se pode perceber a justaposição de tempos diferentes: um tempo real que dá conta das andanças de Lula, e um tempo fantástico (a luta dos pseudos-piratas na Baía de Todos os Santos, a estréia de gala de seu filme imaginário, etc). Pela manhã, transforma-se em Batmãe e surra os pais; na escola, assiste a uma assembléia estudantil que não o convence; e decide realizar um filme que o tem como personagem de Tarzã; comparece ao enterro de um homossexual e se recorda dele em vida; participa de uma sessão de maconha em um apartamento com mais dois amigos (uma das sequências mais perturbadoras do filme); e, além do mais, é atacado, no Pelourinho, por um vampiro. Mas, apesar de todo o itinerário agitado, chega, finalmente, em casa, onde aguardam-no seus pais para a festa de aniversário. No final, a repetição da imagem inicial, com Lula a permanecer crucificado no meio das palmeiras.

André Luis Oliveira passa mais de 5 anos sem fazer outro longa até que, em 1975, resolve realizar A lenda de Ubirajara, adaptação de um romance de José de Alencar, que se caracteriza por uma visão romântica e nostálgica do universo primitivo dos índios brasileiros. O longa seguinte somente aparece 20 anos depois: Louco por cinema, em 1995. Cineasta bem bissexto, portanto, que também realiza, neste tempo curtas (Ladeiras de Salvador, por exemplo).

Em Meteorango Kid, o herói intergalático, vale ressaltar a iluminação primorosa de Vito Diniz (em película preta e branca), um dos mais capacitados fotógrafos do cinema brasileiro pouco conhecido porque nunca quis sair da velha província, mas responsável pela direção de fotografia de toda uma geração de cineastas baianos. No elenco, a figura de destaque é Antonio Luis Martins, que faz Lula. Também estão presentes: Nilda Spencer, Milton Gaúcho, Carlos Bastos, Manoel Costa Junior (Caveirinha), Antonio Vianna, Aidil Linhares, Sonia Dias, Ana Lúcia Oliveira, João Di Sordi.

Pode ser encontrado em DVD na coleção dedicada por Eugênio Puppo ao Cinema Marginal

05 junho 2010

Resposta de Cláudio Marques a Raul Moreira

O texto do jornalista e cineasta Raul Moreira, publicado em A Tarde, e republicado aqui neste blog, polêmico por natureza, recebe a resposta de Cláudio Marques, principal organizador e idealizador do Panorama Internacional Coisa de Cinema, que se encerrou há poucos dias:
Cinema em Expansão
"Em texto publicado na última quinta em A Tarde, Raul Moreira constrói uma imagem negativa dos últimos acontecimentos cinematográficos na cidade a partir da reação adversa a um único filme, dentre mais de 60 exibidos.
Raul nos induz a pensar que os cineastas Edgard Navarro e Lázaro Farias teriam sido intolerantes a um novo cinema que desponta com muita potência.
A verdade é que na história do cinema brasileiro, poucas vezes experimentamos período tão duradouro de incentivo à produção como o que atravessamos hoje. Essa continuidade permite que a nossa cinematografia ganhe em força e maturidade.
Após acompanhar os curtas e longas no VI Panorama Internacional Coisa de Cinema, percebe-se que os cineastas brasileiros arriscam-se cada vez mais.
Viajo porque preciso, volto porque te amo, de Marcelo Gomes e Karin Aïnouz, por exemplo, é afetivo e conduz facilmente o espectador sem que o protagonista apareça em cena, fisicamente, em momento algum. Emocionado, Edgard Navarro revelou a Marcelo Gomes, presente à sessão, que se sentia contagiado por aquela maneira tão criativa de tratar o cinema.
Já Lázaro Farias não economizou elogios à sensibilidade de Maya Da-Rin no debate que se seguiu à projeção do longa Terras.
Os debates foram intensos nesses dias, dada a oportunidade de diálogo com cineastas e atores. A maioria deles, dotados de pensamentos articulados e esclarecedores, escapando assim da idéia do autor meramente intuitivo.
É importante ressaltar a notável safra do curta-metragem no Brasil. Os filmes exibidos nos desafiam a olhar para o cinema de uma forma nova. A maior parte destes curtas está conquistando os principais festivais de cinema do mundo todo.
Num cinema diverso como esse, as opiniões a cerca dos filmes apresentados são divergentes. Alguns espectadores gostam mais de uma obra, outros não se identificam com determinada proposta... E assim se faz o debate, o aprendizado!
Vale lembrar que o cinema ainda é uma arte jovem, está engatinhando, e deve ser tão livre quanto diferente.
Comparar a produção atual com a dos grandes mestres é um exercício infrutífero.
O que se pode afirmar com convicção é que o cinema é uma arte potente em plena expansão."
Cláudio Marques

60 anos do Clube de Cinema da Bahia

O Clube de Cinema da Bahia foi fundado meses antes de meu nascimento. É, portanto, de minha idade, e idade provecta: 60 anos. Não o frequentei durante os anos 50, porque ainda menino, mas tive a oportunidade de assistir a quase todas as suas sessões a partir de meados da década de 60, quando Walter da Silveira (aqui em cima, na imagem, à esquerda, de terno branco e óculos ao lado de Nelson Pereira dos Santos) programava os filmes no saudoso cinema Guarany. Na época, estudante do Central, filava as aulas para ver as obras-primas selecionadas pelo também saudoso ensaísta. Walter distribuia folhetos sobre o filme em exibição. A sala ficava lotada, com gente saindo pelo ladrão. Transcrevo abaixo um texto que me foi enviado de autoria de Nélia Belchote, a secretária vitalícia das jornadas baianas.
"Fundado em 30 de maio de 1950, o Clube de Cinema da Bahia teve a sua exibição inaugural e posse da primeira diretoria na noite do dia 26 de junho no auditório da Secretaria de Educação e Saúde, no Corredor da Vitória, hoje Museu de Arte da Bahia, contando na ocasião com a presença do Titular da pasta, o Secretário Anísio Teixeira.

O Clube de Cinema da Bahia deu início a sua atividade cinematográfica com o clássico do cinema francês “Os Visitantes da Noite”, de Marcel Carné.

Para comemorar o acontecimento histórico de 60 anos passados o Clube de Cinema da Bahia em colaboração com a DIMAS está trazendo de volta o filme “Os Visitantes da Noite”, para exibição às 19 horas no próximo dia 19 de junho na Sala Walter da Silveira.

No mesmo espaço Walter da Silveira, que personifica a própria história do Clube, haverá a partir de 25 de junho, durante 10 dias sempre às 19 horas, exibição de uma retrospectiva de clássicos que marcaram duas fases do Clube de Cinema da Bahia.
SESSENTA ANOS DO CLUBE DE CINEMA DA BAHIA

Fundado em 1950, por ocasião do primeiro grande surto do movimento cineclubista no Brasil, o Clube de Cinema da Bahia realizou a sua primeira exibição às 20h no dia 26 de junho no auditório da antiga Secretaria de Educação e Saúde (hoje Museu de Arte da Bahia), gestão de Anísio Teixeira, no Corredor da Vitória, com o filme “Os Visitantes da Noite”, de Marcel Carné, contando com a presença de profissionais liberais, estudantes e publico em geral. Na ocasião houve a posse da primeira diretoria do Clube.

O Clube de Cinema da Bahia, que teve como figuras maiores o brilhante advogado, crítico e ensaísta Walter da Silveira e o Juiz e músico Carlos Coqueijo, desde os seus primórdios desempenhou um importante papel na vida cultural da capital baiana. Centro aglutinador de todos os baianos amantes da sétima arte, o Clube de Cinema da Bahia foi, ao lado da Universidade Federal da Bahia, uma fonte inspiradora que moldou os talentos artisticos, dando à Bahia na segunda metade dos anos 50 uma inusitada fermentação cultural.

Quase todos os cineastas baianos da época fizeram a sua iniciação cinematográfica nas sessões do Clube de Cinema, que pela primeira vez revelava ao público local as obras primas dos grandes mestres da cinematografia mundial.

Também nos anos do chamado ciclo de cinema baiano, iniciado em 1959 com “Redenção”, de Roberto Pires (primeiro longa-metragem baiano), coube ao Clube de Cinema da Bahia uma destacada atuação, como centelha de estímulo e fórum de debates para os jovens cineastas da terra.

Após o golpe de 1964 o movimento cineclubista brasileiro começa a enfrentar uma série de dificuldades, o que leva o Clube de Cinema a processar algumas modificações na sua estrutura de programação, surgindo então as primeiras experiências de Cinema de Arte na Bahia.

O recrudescimento da ditadura militar, com a implantação do AI-5 em dezembro de 1968, provoca por muitos anos um verdadeiro esmagamento do movimento cineclubista brasileiro. A conjuntura desfavorável e a doença e falecimento de Walter da Silveira impõem ao Clube de Cinema da Bahia a paralisação temporária.

Estimulado por amigos e vários componentes da sua derradeira diretoria, o Clube renasce em 1971, já agora sob a liderança de Guido Araújo. Acompanhando as transformações urbanísticas da capital baiana, o Clube de Cinema da Bahia que sempre teve seus momentos de glória no centro da cidade, passa a ter um novo apogeu em pleno bairro do Rio Vermelho.

Em 1974, com a Jornada Nacional de Cineclube no Paraná, que praticamente ressuscita o movimento paralisado desde a Jornada de 1969 em Brasília são lançadas as bases de uma nova política cineclubista no Brasil com a historica Carta de Curitiba. A partir daí, começa também a se processar uma grande transformação estrutural no Clube de Cinema da Bahia.

Na realidade, já em 1972, com o surgimento da Jornada Baiana de Curta Metragem, passa a existir uma maior aproximação e prioridade do Clube de Cinema da Bahia pela produção cinematográfica brasileira. Sem deixar de valorizar as grandes obras da cinematografia mundial, o Clube, contando então com o apoio logístico do ICBA, resolve dar um maior destaque ao cinema brasileiro.

Nesta fase, que corresponde ainda ao período obscurantista do Governo Médici, o Clube de Cinema da Bahia aproveita-se de uma relativa imunidade diplomática de que gozava o Instituto Goethe, para trazer à luz algumas obras relevantes das cinematografias nacional e internacional, desconhecidas do público baiano, pelos rigores da censura ou autocensura. Também nessa fase processa-se uma grande modificação no público, que se torna predominantemente jovem e universitário.

As dificuldades impostas pelo regime para o funcionamento normal dos cineclubes, obrigam estes a se munirem de todos os requisitos legais da burocracia estatal, para garantia de sua existência. Deste modo, o Clube de Cinema da Bahia, que até então tinha apenas o seu registro civil, se vê envolvido numa verdadeira batalha burocrática para se munir de CGC, ISS, registro na censura federal, registro no INC, depois CONCINE, etc.

Com o processo de abertura iniciado na segunda metade dos anos 70, a atividade cineclubista pouco a pouco deixa de ser vista como uma prática subversiva, permitindo assim o surgimento de um novo surto no movimento cineclubista brasileiro. Também na Bahia se manifesta esta transformação, possibilitando uma maior democratização do cineclubismo.

Neste contexto, o Clube de Cinema da Bahia exerce um papel orientador e de núcleo de apoio para os cineclubes emergentes. Isto levou o Clube a uma nova mudança estrutural, ou seja, em vez de ter um público cativo num lugar fixo para as suas programações regulares, o Clube passa a dar prioridade ao trabalho comunitário e junto com outras entidades leva o cinema até o povo, numa tentativa de formar novas platéias, particularmente para o filme brasileiro.

Em 1980 aproveitando as comemorações dos 30 anos da existência da entidade, o Clube de Cinema da Bahia apresenta uma programação mais rica e diversificada e além de receber o público nas suas tradicionais sessões em 16mm e 35mm, consolida a prática de ir ao encontro do público através de programações especiais em sindicatos, sociedades de bairros, comunidades de base, grêmios, clubes carnavalescos, diretórios acadêmicos, penitenciárias, etc.

Também ao completar o seu trigésimo aniversário o Clube de Cinema da Bahia teve oficialmente reconhecido o seu relevante trabalho cultural em prol da comunidade baiana, através da Lei Municipal nº 3095 de 19 de junho de 1980 e da Lei Estadual n° 3,813 de 1 de julho de 1980, caracterizando-o como órgão de utilidade pública.

Desde então, o principal objetivo almejado pelo Clube de Cinema da Bahia era possuir a sua sede própria com uma pequena sala de projeção para melhor servir como centro de apoio para os vários cineclubes baianos. O sonho do espaço próprio quase se torna realidade quando a Embrafilme, nos anos 80, contemplou o Clube no projeto de desmembramento e restauração do Cine Glauber Rocha. Contudo, ao se retirar da área de exibição, entregando de volta o Cine Glauber Rocha(antigo Guarani) à Bahiatursa, que por sua vez o entregou de mão beijada para exploração a Art Filmes, o Clube de Cinema da Bahia viu morrer as suas esperanças de uma sede permanente.

Nos anos 90, na época do triste governo Collor, o Clube de Cinema da Bahia voltou a hibernar, só saindo da letargia, vez por outra, em virtude da Jornada Internacional de Cinema da Bahia.



Em 2008 a iniciativa do Conselho Nacional de Cineclubes de comemorar os 80 anos da presença do movimento cineclubista no Brasil e a concessão do prêmio Paulo Emílio Salles Gomes a Guido Araújo, como reconhecimento de uma vida dedicada à causa cineclubista, cinéfilos interessados no renascimento da entidade, onde pontificam novos e antigos participantes, foram fatores decisivos para que o Clube de Cinema da Bahia retomasse a sua plena atividade como elemento propulsor da cultura cinematográfica em território baiano. Foi realizada Assembléia para a reforma do antigo estatuto, adaptando-o ao código civil de 2002, adotou-se um novo perfil da entidade, transformando-a em associação e foi eleita a nova diretoria, sendo hoje o principal suporte legal para a realização da Jornada Internacional de Cinema da Bahia."

Nélia Belchote

03 junho 2010

O Panorama e a dessacralização da imagem

O texto não é de minha autoria, que fique bem entendido, mas do jornalista e cineasta Raul Moreira, que saiu, hoje, quinta, no jornal soteropolitano A Tarde. Se um evento causa polêmica, e isto quem está a dizer sou eu, o evento é bom, pois nada pior do que a apatia e a indiferença. A indiferença, aliás, disse Hamlet na famosa pela de Shakeaspere, "também é crime".
"A cena se fez emblemática. Já passava das 22h de domingo quando o cineasta e fotógrafo Lázaro Faria, autor, entre outros, de Cidade das Mulheres, sem falar que fez a câmera do media Superoutro, de Edgard Navarro, rasga a sua credencial na porta do Espaço Unibanco, ato acompanhado por muitos, inclusive pelo vira-lata Glauber Rocha, guardião das paragens e justamente apelidado com o nome do patriarca do Cinema Novo.
O gesto de desagravo se deu por irritação ao filme que tentara assistir, o longa digital A Fuga da Mulher Gorila, obra de Felipe Bragança e Marina Meliande, um dos sete escolhidos para disputar o prêmio nacional do Panorama Internacional Coisa de Cinema, evento que se encerra hoje. O mesmo o fez tantos outros, como o cineasta Edgard Navarro, que abandonou a sessão com um sorriso irônico no rosto, como que dizendo “se isso é o novo cinema brasileiro vou para casa dormir”.
Curioso, foi que A Fuga da Mulher Gorila ganhou o prêmio de Melhor Filme da Mostra de Tiradentes, em 2009, dado pelo júri oficial. Assim, os fatos apontam para dois caminhos: ou a velha-guarda é por demais intransigente e perdeu o olhar para avaliar o “novo cinema brasileiro” ou estamos diante de uma total revolução na abordagem dos cânones cinematográficos.
A resposta, talvez só possa a vir nos próximos anos, pois ainda é cedo para se afirmar categoricamente um juízo de valor, até porque antes de tudo é preciso que tal cinematografia confirme-se duradoura.
No entanto, é impossível não fazer uma constatação: por conta do advento do digital, com todas as suas facilidades, as quais permitem que muitos possam aventurar-se como cineastas, o cinema tornou-se um imenso laboratório no qual a ordem é fazer, independentemente das fragilidades narrativas e de linguagem.
Quando se passa o olho em muitos filmes do Panorama, percebe-se claramente que o “cinema de intenção” venceu, pois, importante é dar vazão a ideia, estruturá-la, transformá-la em roteiro, filmá-la e montá-la, para depois defendê-la de forma politicamente correta, algo, aliás, que está transformando as conversas com os diretores em algo monótono e pouco criativo para as plateias que a acompanham.
Como é impossível negar que as atividades artísticas refletem o seu tempo, não resta, até para escapar do caminho da intransigência, observar tal tendência e, quem sabe, vez por outra surpreender-se, até, com leituras pertinentes a respeito da ditadura das imagens. O pernambucano Marcelo Pedroso, por exemplo, com o seu longa digital Pacific, foi feliz ao abordar a relação da pequena burguesia brasileira com as suas filmadoras portáteis em um cruzeiro do Recife à Fernando de Noronha.
Ainda que seja difícil aturar os 71 minutos comprobatórios do que o consumismo é capaz de gerar, o documentário retrata de forma objetiva a relação dos grandes coletivos para com o fetiche das imagens em movimento e de como apropriaram-se de um “fazer cinematográfico”, queira ou não.
O diabo é que ao oferecer um leque de bons filmes contemporâneos e projetar algumas películas dos mestres Eric Rohmer e Akira Kurosawa, além de delícias como o documentário Godard, Truffaut e a Nouvele Vague, de Emmanuel Laurent, o Panorama expôs a fratura que separa o atual “cinema de intenção” daquele que realmente conseguiu catalizar o desejo de seus realizadores.
Em outras palavras: durante uma semana, os muitos títulos exibidos no Panorama foram importantes para se perceber o quanto o cinema é uma atividade volátil e, talvez por isso mesmo, não seja justo confrontá-lo nas suas diversas épocas. No entanto, quando assim se faz, vem o saudosismo e a vontade de gritar “eu quero o meu cinema de volta!”.

Assinado: Raul Moreira em A Tarde de 03.06.2010

02 junho 2010

Oscar Santana e o Cinema Baiano

No momento em que Redenção, de Roberto Pires, o primeiro longa realizado na Bahia, é exibido em noite festiva e com sua cópia restaurada, vale lembrar que um dos parceiros de Pires, que muito contribuiram para o êxito da empreitada, foi Oscar Santana, fundador da Sani Filmes com a qual produziu dezenas e dezenas de documentários e cine-jornais. Realizou também dois longas genuinamente baianos: O caipora (1963) e O pistoleiro (1975). Com o primeiro, veio a fazer parte do importante Ciclo Baiano de Cinema juntamente com A grande feira, Barravento, Tocaia no asfalto, Sol sobre a lama, entre outros. Oscar Santana, aqui, no texto que vai abaixo, conta a história de meio século de cinema na Bahia. O escrito é de sua autoria e devo abrir as necessárias aspas. Na imagem (clique nela para vê-la maior), da esquerda para a direita, Elson Rosário, Narceval Rubens, Pola Ribeiro e Oscar Santana (de camisa vermelha) durante uma visita que este último fez ao set de filmagens de O jardim das folhas sagradas, de Pola, o próximo filme baiano a vir à tona.
"BAHIA- 50 ANOS DE CINEMA

“Se queres ser universal... Canta a tua aldeia.”
Assim o grande escritor russo Leon Tolstoi projetou no tempo, o desejo permanente do ser humano, de se tornar reconhecido como um importante fragmento da humanidade.

Se você projeta a sua terra, o lugar onde vive e convive, se festeja com sabedoria e devoção seus hábitos e costumes, por certo, estará derramando mundo a fora, uma porção da verdade de sua gente e de si mesmo.
Muitas vezes me ponho a pensar na maxitude da sabedoria divina, em nos fazer finitos. Quanto tédio, quanto egoísmo, quanta involução, quanto sofrimento, devem ter sido evitados! Mesmo assim, apesar de toda pré-visão celestial, quanto aos rumos do comportamento humano, reflito ainda hoje:
De que vale o canto,
Se o grito angustiado,
Ainda explode,
Na garganta do mundo?

De que vale o espaço,
Se o tempo é dono de tudo?

De que vale a sombra,
Se a árvore não está de pé?

De que vale o verde,
Se “Verdi” se esconde monocórdio
No silêncio da manhã cinzenta,
Ou na solidão do quarto sem azul?

De que vale a fumaça
Se não é, ela,
Um filete esguio, já depurado,
De transparências mortas,
Expulsas pela chaminé?

De que vale a humanidade,
Sem o humanismo,
Nas suas formas mais sensatas, de ser praticado?

De que vale o gigante,
Se não houver pigmeus que lhe aparem a grama?

De que vale o homem,
Sem humano... ser?

A genialidade, essa capacidade do ser humano de falar para o futuro, não está no ato de criar, mas no ato de recriar com sabedoria e zelo o que seus olhos e ouvidos atentos, puderam perceber, nos arredores da vida.

Se formos para além do pragmatismo, poderíamos até, com a devida licença poética, afirmar: a criação não existe. Afirmar por exemplo, que depois de Deus, o supremo artífice de todas as coisas, e da vida, só nos restam, humildemente, atos permanentes de recriação.

Na Bahia dos anos 50 e 60, o exercício da recriação foi exercitado de uma forma semi-consciente, mas construtiva, principalmente pelos jovens artistas baianos: fosse nas artes plásticas, na literatura, na música, no teatro ou no cinema.
Neste universo conflituoso de esperanças vivas, quando pensamos fazer cinema, sem perceber, estávamos iniciando um ciclo: O Ciclo do Cinema Baiano.

Na Bahia daqueles tempos, antes de nós - Oscar Santana e Roberto Pires, que pensávamos alto, com a produção de um longa-metragem feita por baianos, outros cantadores de nossa aldeia, como Alexandre Robato, para exemplo, produziram em vôos mais curtos, documentários importantes como: “Puxada de Rede” e “Entre o Mar e o Tendal”.


Mas, a nossa inquietação, principalmente a minha e do Roberto, a nossa ansiedade em reinventar, conscientemente, coisas e processos já inventados, eram desculpas reais, para a nossa incapacidade material de comprar prontas, as nossas ferramentas de trabalho.

Foi desse jeito, teimoso, desacreditado de fazer o impossível, que produzimos o ingênuo “O Calcanhar de Aquiles”, com certeza, o primeiro trabalho ficcional do cinema baiano. Um policial silencioso, com algumas legendas postas sobre a imagem, diretamente na hora da filmagem. Neste filme, por absoluta falta de crença em nosso trabalho, de alguns improvisados atores, tive que interpretar um dos papéis do filme, sendo eu, também o câmera. Disparava a câmera KEYSTONE ainda de corda, e corria para frente dela, para interpretar o meu personagem, sob a direção ainda vacilante de Roberto Pires.

Depois desta experiência ficcional e sob mais uma forte influência tecnológica do cinema americano, produzimos o documentário, A Bahia - em Visão Natural, que era na verdade, o primeiro teste de mais uma recriação nossa, agora no campo da tecnologia, o embrionário Igluscope.

Fazer o nosso projeto ficcional Redenção em tela plana, quando os americanos já haviam produzido O Manto Sagrado, uma super-produção em Cinemascope, a última invenção do cinema mundial daquela época, seria começar com enorme retardo. E isto não seria um grande feito da nossa aldeia!

Alguns fotogramas, retirados clandestinamente pelo operador do antigo cinema Guarany, depois Glauber Rocha e hoje Espaço Unibanco, foi a única informação que obtivemos para perceber como fabricar, ainda que de forma artesanal, a nossa lente anamórfica, designação oficial para o recém criado processo de registro de imagens.
Diante dos cinco fotogramas que obtivemos da película O Manto Sagrado, notamos que as imagens eram comprimidas no sentido longitudinal, dentro do mesmo espaço do fotograma convencional de 35 milímetros, dos filmes de tela plana.

Depois de oito meses de trabalho, muitas experiências testadas sem resultado satisfatório, no auditório da Associação dos Empregados no Comércio da Bahia na Rua Chile, telas retangulares gigantes, feitas de madeira e pano branco, assustavam o velho Tourinho, administrador da Associação. Ele nos permitia tais experiências, mas ressaltava sempre, a sua preocupação com nossa geringonça, a tela gigante, que um dia poderia fazer ruir o teto do salão nobre do velho sobradão, onde fixávamos a tela. E mesmo sob a expectativa dessa possibilidade real, continuávamos testando ansiosamente o novo processo.

Certo dia, depois de testados 22 pares de lentes, nas oficinas da antiga ótima Mozart, do pai de Roberto, com o teto do salão nobre da Associação, ainda no lugar, obtivemos o resultado desejado.
Assim, foi recriado pelo cinema baiano, brasileiro, sul americano, o cinemascope tupiniquim, ou melhor, o Igluscope. Assim, nos igualamos orgulhosamente ao cinema tecnologicamente mais moderno do mundo de então.
Com as novas lentes rodamos Redenção, o primeiro filme baiano de longa-metragem, com a participação financeira de Elio Moreno Lima, filho de um cacauicultor. Muitos anos antes,, é claro, da contamiz é claro, da contaminação da lavoura, pela Vassoura de bruxa!
Com aquele filme decantamos a nossa aldeia, com nossa ousadia, nos pensamos universais.
Sempre que falamos sobre o cinema baiano, nos fazem a natural pergunta: por que a nossa primeira produtora chamava-se Iglu Filmes? A resposta é uma história curiosa, de ordem sentimental.

Quando ainda na fase embrionária de nossa pesquisa de imagem e som, porque também recriamos um sistema de som magnético próprio, o MAGNISOM, varávamos noites no prédio onde morava o Roberto, no bairro do Garcia, fazendo experiências. fazendo experiirro do Garcia. bruxa!
Quando, interrompíamos as nossas incursões cinematográficas, quase sempre às duas da madrugada, somente se encontrava aberta para um lanche, a Lanchonete Iglu, na Praça da Sé, onde nos reuníamos antes e depois das experiências.

Eu morava no bairro de Roma, na Cidade Baixa e estudava na Faculdade de Ciências Econômicas na Piedade. Roberto morava no bairro do Garcia. A Praça da Sé era um meio de caminho onde os papos continuavam, depois que eu saía da Faculdade e das experiências.

Como a produção de cinema na Bahia era uma grande novidade na época, essa novidade e a nossa obstinação, cativaram o dono da lanchonete e percebemos que, muitas vezes, ele mantinha a casa aberta até a nossa chegada, depois dos trabalhos noturnos de pesquisa. E ainda “dependurava” as nossas contas até termos condições de pagá-las no final de cada mês. Desse gesto de tolerância, boa vontade e incentivo, vindos de um simples comerciante da Praça da Sé dos anos 50, decidimos dar o nome da sua lanchonete, à jovem e pioneira empresa de cinema. Assim nasceu a Iglu Filmes.
O visionário exibidor Francisco Pithon, emprestando o cinema Guarany para exibirmos os nossos copiões, nos permitia avaliar o resultado de nossas experiências cinematográficas, principalmente as que se seguiram depois, já contando com os parceiros Rex Schindler e Braga Neto, como co-produtores.
Desde os tempos da minha dupla com Roberto, eram visíveis os diferentes conceitos que tínhamos, para uma mesma paixão, o Cinema. Roberto era um cineasta artesão, intuitivo, inventivo, muito preocupado com a forma, o jeito de filmar.

Eu me articulava dentro da mesma arte, com um sentimento mais voltado para o conteúdo, do que filmávamos. As discussões sobre forma e conteúdo eram constantes, e por isto mesmo, ferramentas importantes na composição dos trabalhos da Iglu Filmes.

Talvez por isto, a nossa parceria tenha se completado tão bem, principalmente no início de nossas carreiras.
Durante todo esse tempo, tivemos a contribuição de um personagem curioso e experiente de um Diretor de Produção que nos ajudava a todo instante, resolvendo questões aparentemente insolúveis de produção. Neste particular, Walter Webb era um mágico.

De lá para cá estas sementes deixaram frutos maturados, nos caminhos sinuosos que haveria de percorrer o cinema da Bahia.

Nós cineastas da época, no conjunto, conseguimos produzir durante o ciclo iniciado em 1959, um legado de 18 filmes de longa-metragem, como Redenção, Barravento, A Grande Feira, Tocaia no Asfalto, Sol sobre a lama, Bahia – Por exemplo, O Caipora, Deus e o Diabo na Terra do Sol, O Grito da Terra, Akipalô, Meteorango Kid, Caveira my friend, Boi Aruá, O Anjo Negro, O Pistoleiro, Abrigo Nuclear, Yawar Mayu e o O Mágico e o Delegado, por mim produzido em 1984, quando se interrompeu por absoluta falta de recursos e não de talentos, o ciclo de produção cinematográfica na Bahia.
Foi com a nova empresa, a Sani Filmes, já em 1961, depois que deixei a Iglu Filmes, que pude exercitar com mais desenvoltura as minhas propostas de conteúdo social no cinema.

Quando fiz O Caipora, compus um roteiro que evidenciasse a importância de se libertar o homem brasileiro, principalmente o nordestino, das amarras conceituais do destino traçado. Aquela seqüência de atos e fatos que serão religiosamente cumpridos pelo ser humano, durante a sua vida, à luz de uma determinação divina, em conjunção com as forças da natureza.

Defendi no filme, a importância de se colocar o destino no seu devido lugar, ou seja, atrás de cada ato do ser humano. Na verdade, como uma resultante de suas ações circunstanciadas pela sua própria vontade e pelo ambiente social em que habita e não, como pura e simples determinação dos céus. Enfim, o destino é rastro ou caminho?
Em O Pistoleiro, outro roteiro que escrevi e dirigi, mais uma vez preocupado com as questões sociais do momento, procurei salientar que, a inteligência circunstanciada pela ignorância talvez seja a maior fonte de degradação do caráter humano.
Se as oportunidades culturais não chegam ao indivíduo, provavelmente a sua inteligência insatisfeita, será aproveitada pelos agentes da deformação de caráter e depois utilizada de forma desastrosa, para desalento do próprio cidadão e da sociedade em que vive. Em resumo: A bolsa educação não pode ser menor que a bolsa estômago, principalmente porque, a educação no Brasil, é um direito do cidadão, mas não tem sido um dever cumprido pelo Estado.
Ligando-se a temática de O Caipora à temática de O Pistoleiro, encontramos um ponto comum, onde o homem, na circunstância da maior ou menor sabedoria, escreve o seu próprio destino.

Vale salientar que a identificação cultural entre as diversas artes na Bahia dos anos 50 e 60, era tão intensa, que a maioria dos filmes daquela época, além de atores como Geraldo Del Rey, Helena Inês, Antonio Pitanga, Milton Gaúcho, Braga Neto, Fred Jr., Carlos Petrovich, Maria da Conceição, Maria Adélia, tinha a participação de artistas plásticos como Santi Scaldaferri e Calazans Neto; escritores como Jorge Amado e Luiz Henrique Dias Tavares e críticos de cinema como Walter da Silveira, que atuavam em nossos filmes, às vezes como personagens importantes, outras vezes como simples figurantes. Já no Rio, Roberto fez algum tempo depois: “O crime no Sacopã”, “Máscara da Traição” e “Em busca do Sussexo”.

Novamente na Bahia e comigo como parceiro, fez “Abrigo Nuclear”. Depois em Goiânia, fez “Césio 137”, que em minha opinião lhe custou a vida, pela via da contaminação.
Glauber Rocha, nosso embaixador maior, pode semear mundo a fora, a sua genialidade comprovada, em Barravento, Deus e o Diabo na Terra do Sol, O Dragão da Maldade e Terra em Transe, entre outros filmes, no que observara e sentira, nos campos férteis plantados pelos chamados “meninos da Iglu”.
Somados, os filmes realizados na Bahia, durante este ciclo, representam um investimento privado, na sua maioria, dos próprios cineastas e produtores locais, da ordem de 54 milhões de reais, se considerarmos a média modesta, apenas atualizada, de três milhões de reais por filme.

Mais recentemente, foram realizados alguns filmes, já com a ajuda displicente do Estado, que disponibiliza anualmente, e já faz muito tempo isto, apenas, um milhão e duzentos mil reais, disputados a tapas e beijos, por todos os cineastas baianos entre si.

Enquanto isto, o Município de Paulínia no Estado de São Paulo, ao criar, mais que de repente, um núcleo de produção de filmes de longa-metragem, deixou de ser um símbolo de poluição para ser a Hollywood brasileira, sem qualquer tradição de cinema como a Salvador da Bahia tem. Disponibilizou só em 2008, vinte milhões de reais, dois e meio por cento do orçamento municipal para 20 filmes que lá foram rodados naquele ano. Em 2009 muitos dos sucessos do cinema nacional foram ali rodados. Em 2010 outros longas continuam a serem rodados lá.

Para os filmes que são rodados no município, o percentual de contribuição, depende apenas do percentual de cenas rodadas no local e vai até 100% do orçamento de cada filme.
Brasilianas que tem 100% de suas cenas a serem rodadas em Salvador, mais exatamente no Largo do Carmo, ainda não conta com um centavo sequer, nem do Estado nem do Município.
Mesmo assim, filmes de longa-metragem de boa qualidade, mas não competitivos, pela pobreza orçamentária, como: Três Histórias da Bahia, com produção de Moisés Augusto e direção de Edyala Yglesias, Sérgio Machado e José Araripe, foram produzidos.

Da nova safra temos os longas-metragens Eu me lembro de Edgard Navarro, Esses moços de José Araripe, Cascalho de Tuna Espinheira e o recente Pau Brasil de Fernando Belens. Outros estão sendo concluídos com a ajuda de recursos externos, como O Jardim das Folhas Sagradas, de Pola Ribeiro.
Dentre estes trabalhos salientamos também os pontuais médias-metragens O Superoutro de Edgard Navarro, A Lenda do Pai Inácio de Póla Ribeiro, Anil de Fernando Belens e mais recentemente, No Coração de Shirley, produzido e dirigido por Edyala Yglesias, todos produzidos com apoio da Sani Filmes.

Eu estou voltando ao longa-metragem depois de mais de 800 documentários realizados, com o filme Brasilianas, uma comédia de costumes ambientada nos dias atuais, mas com sentimentos de 50 anos atrás, onde no espaço mágico de 24 horas, pode-se notar o quanto perdemos de honestidade, sinceridade e solidariedade, ao longo desses anos.

Brasilianas, são fragmentos “divertidos” da vida brasileira. Transita pelas verdades do comportamento humano no Brasil e fora dele, sem distanciar-se da realidade nordestina, onde o Brasil tem cara de mais Brasil, mesmo sem o recurso do sotaque autenticador.

E nós cineastas baianos, que um dia ajudamos a reformular, usando recursos próprios, a cara e a coragem do cinema brasileiro, temos certeza de que dias melhores virão para o cinema daqui, para os nossos cineastas e para o próprio orgulho do povo da Bahia. Essa gente miscigenada, alegre e sábia, que por isto mesmo, tem idéias universais.

E é falando em idéias universais, que defendo para as circunstâncias atuais um cinema brasileiro, com mais otimismo temático nos nossos roteiros. Um cinema menos explorador das nossas mazelas sociais, como obrigação única, como se somente nós, brasileiros, a alimentássemos. Afinal o Brasil precisa sorrir ...o mundo precisa sorrir, para respirar melhor. Afinal, repito, não são os pessimistas que constroem um mundo melhor. Parece que, para o cineasta brasileiro, o otimismo temático é um pecado mortal.

O cinema nasceu entretenimento e precisa continuar sendo também entretenimento. O cinema brasileiro, precisa do cinema brasileiro, para sobreviver e o otimismo temático pode ser um eficiente caminho.

E, para não apenas chorar os insucessos de nosso cinema empobrecido pela indiferença oficial de muito anos,vale recordar, que na Rússia gelada de sempre, depois de lutar na Guerra da Criméia, Leon Tolstoi iniciou sua carreira literária inspirando-se nas experiências do que vira e sentira durante sua vida militar e nas andanças pela Europa do após guerra.

Em 1910, aos 82 anos, abandonou a sua casa no campo, em companhia de sua médica e de sua filha mais nova, em busca da paz, em um lugar onde pudesse sentir-se mais perto de Deus.
Em novembro do mesmo ano, morre de pneumonia na Estação Ferroviária de Astapovo, na Província de Riazam.
Enquanto isto, nos trópicos baianos do quase ontem, no continente sul-americano, Glauber Rocha, Roberto Pires, Agnaldo Siri Azevedo, Olney São Paulo, José Teles de Magalhães, Vitor Diniz, Fernando Coni Campos, laureados cineastas baianos, não tiveram a mesma sorte. Não chegaram como Tolstoi, aos 82 anos, morreram ainda jovens.
Todos, com o mesmo sonho cinematográfico, de cantarem ao máximo a sua aldeia.

E eu, Oscar Santana, um dos remanescentes desse punhado de jovens obstinados, crentes, de que sua terra é o melhor lugar do mundo para se conviver e recriar, em nome deles e no meu próprio, apelo em alta voz: Senhores Governantes, Senhores Legisladores, Senhores Empresários, baianos ou não, salvem o que resta da competência e do entusiasmo do velho e do novo cinema baiano, ao menos 50 anos depois, e nos permitam cantar mais alto a nossa aldeia, para torná-la cada vez mais universal."

Oscar Santana (Cineasta)
Rua Aracaju, 173 - Jd. Brasil
Tel.: (71) 3237-6147 //8806-4493
Salvador – Bahia – Brasil
oscarsantana@globo.com

01 junho 2010

Clint Eastwood 80


Clint Eastwood completou 80 anos, oito décadas de existência. Terá, este o nosso desejo, mais de 20 anos pela frente para ainda nos proporcionar belos e significativos filmes, a exemplo de seu colega português, Manoel de Oliveira, que já ultrapassou o centenário e continua a filmar. Clint, o dirty Harry vingativo dos anos 70, ou o pistoleiro sem lei e sem alma dos westerns de Sergio Leone, transformou-se através do tempo e se tornou um dos cineastas mais respeitados do cinema americano contemporâneo. Este blog presta, aqui, uma homenagem a este bravo.