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05 janeiro 2012

Cinema e atmosfera


Os complexos de salas (Multiplex, Cinemark...), uma nova modalidade no campo da exibição para superar a crise do mercado, que surgiram no Brasil a partir de junho de 1998, se, por um lado, oferecem conforto e segurança, por outro vêm a descaracterizar o cinema enquanto casa de espetáculos. As salas, uniformizadas, todas iguais, produzem o aniquilamento do sentido atmosférico que existia, no passado, com os chamados cinemas de rua. Nestes, cada um tinha o seu estilo, a sua personalidade, proporcionando ao espectador uma sensação de estabelecimento, pois a arquitetura, a decoração, o tamanho da tela, a disposição das poltronas, entre outros fatores, predispunham o contemplador de filmes, ajudando-o no carregamento da emoção.
O amante do cinema atual não mais sabe, passado algum tempo, em que sala viu determinado filme ou, mesmo, pode confundir o Iguatemi com o Cinemark ou outro complexo. O que antes não acontecia. Sabia-se que Os Dez Mandamentos, por exemplo, teve a sua estréia no cine Tupy. A visão do filme e o estar-no-cinema se interligavam como numa espécie sui generis de simbiose. A influência do ambiente na psicologia do espectador é fundamental, pois este o associa ao filme. Quem viu, por exemplo, O Manto Sagrado, o primeiro filme em cinemascope, no Guarany (Salvador), na década de 50, jamais esqueceu que o assistiu neste cinema. As características particulares de cada sala de exibição cinematográfica produziam, por conseguinte, uma influência avassaladora na contemplação do filme. Mesmo em se tratando de cinemas de segunda categoria, os poeiras, há, nítida, uma sensação particular. A imensa tela do Pax proporcionava um impacto surpreendente que se aliava à atmosfera pesada do ambiente. Até a cortina sebosa do cine Aliança tinha um sentido para aqueles que o frequentaram na Baixa dos Sapateiros. Fazia-se de tudo para não se encostar a ela, mas era um empreendimento impossível. E o que teria a cortina com a percepção do filme? Ela, por determinar a sensação de se estar num lugar, envolvendo a ambiência, influenciava, sim, o espectador.
Díspares, os cinemas do Brasil possuíam estilos. O que faz a diferença da contemplação atual nos complexos padronizados, que tiram, inclusive, do cinema, seu caráter de função - no sentido da função teatral, musical. Havia, ainda, uma postura hierática por parte daqueles que recebiam os espectadores, fossem os porteiros, os gerentes, os lanterninhas, sempre vestidos, uniformizados. Comprando o ingresso, o espectador, ao entregá-lo ao porteiro, sempre em pé, quase como um soldado de sentinela, tinha a sensação de acesso, de ter entrado num lugar atmosférico cuja senha, o ingresso, marcava a sua admissão. Da sala de espera à sala de projeção propriamente dita havia um certo impedimento, pois ninguém podia adentrá-la se a sessão já estivesse começada ou faltando quinze minutos para terminar. A corrente na porta sinalizava o interdito proibitório. Há nisso tudo, portanto, nesta característica do cinema como função, um espaço imaginário perdido nos dias atuais pela completa desordem na condução dos espectadores ao ritual da projeção.
Com o desaparecimento das salas mais populares e das situadas nos bairros, a classe menos aquinhoada deixou de ir ao cinema. Os complexos de salas, muitos concentrados, cobram muito caro pelos ingressos. Mas o propósito é falar da atmosfera, do estilo de certos cinemas que, ainda vivos na memória, desapareceram em conseqüência da decadência do centro da cidade e do alargamento do espaço urbano. A velha província, calorosa e mais agitada culturalmente, expandiu-se numa metrópole desordenada e enfartada. Quem já tomou uma cerveja gelada, 'a las cinco de la tarde', no Restaurante e Bar Cacique (que ficava à Praça Castro Alves), sabe do que se está falando.
Vindo de dentro do cine Guarany, o cheiro do ar condicionado dessa sala o identificava, pois característico, único. A sala de espera, com dois enormes murais de Carybé esculpidos nas paredes, representando índios com suas armas, de tonalidade vermelha, era, desde já, um convite ao imaginário do espectador. Não havia, para alegria dos verdadeiros cinéfilos, máquinas de fazer pipocas e doidos. Apenas uma discreta bombonière num cantinho ao lado das poltronas com as guloseimas postas em ordem hierática, os dropes enfileirados como numa parada militar. Quem adentrasse a sala de exibição tinha que passar por uma corrente e por portas que se abriam ao manejo de dois funcionários que ficavam à espreita do espectador a olhar pelos dois únicos quadrados não fechados que as compunham. Nas paredes desta sala, peixinhos desenhados pelo artista citado, assim como, do outro lado, índios multiplicados.
As salas de exibição do Rio de Janeiro eram grandiosas e solenes. O Palácio, que ficava nas circunvizinhanças do Passeio Público, tinha a tão necessária atmosfera para se entrar no filme. Aliás, comprado o ingresso, o espectador tinha de caminhar um bom pedaço sobre um tapete vermelho para, enfim, passar à sala de projeção. O Metro Copacabana marcou toda uma época e várias gerações. A tela do Roxy era um colosso. E O São Luiz era um caso à parte.
Bons tempos! Que não voltam mais!

3 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Também sinto saudades daqueles cinemas suntuosos ou, no mínimo, autênticos.

Cumprimentos cinéfilos e Feliz 2012!

O Falcão Maltês

Jonga Olivieri disse...

Nós, aqui no Rio (não à tôa a "Cidade Maravilhosa") ainda temos alguns resquícios do cinema de rua... A começar pelo "velho" Roxy, ao qual compareci ainda na semana passada.
Mas existe tambem o Cine Leblon...
Esta semana no 'FaceBook' publiquei fotos dos atuais Art Palácio Copacabana (uma sapataria), o Copacabana (um 'body Tech) e o Metro Copacabana (uma loja C&A)...
Quase chorei ao fazer essas fotos!

André Setaro disse...

Ainda bem que no Rio restam poucos cinemas que não se "complexaram". Mas, sejamos honestos, porque retalhados, são apenas pálidos reflexos do que eram no passado.

Ia muito aos "arts palácios", principalmente ao Art-Palácio de Copacabana, porque a Art era grande importadora de filmes europeus. Mas sempre achei que o som era abafado, a acústica não era boa. Já o Metro era uma delícia. E aqueles cinemas 'a latere',como o Miramar, o Copabacana, o Rian (nunca perdeu a sua majestade),entre outros?