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02 outubro 2011

Era uma vez no Oeste: western sinfônico

Já publiquei, há tempos, este post aqui, no Setaro's Blog, mas o republico, porque, ontem, sábado, dei-me ao prazer de rever o filme. Não sei quantas vezes já o vi. Perdi a conta. Pode-se, inclusive, vê-lo de olhos fechados para ficar ouvindo, somente, a partitura de Ennio Morricone. E será possível, agora fazendo a conta, que Era uma vez no Oeste já tem 43 anos? Vi-o no lançamento em 1970, aqui em Salvador, onde me escondo dos credores, ainda que o filme seja de 1968. Acontece que, naquela época, os filmes demoravam um ou dois anos para serem lançados no Brasil. Primeiro eram colocados no eixo Rio-São Paulo e, muitas vezes, acontecia de somente virem à Bahia um ano depois. Mas assisti a C'era una volta in west na vastidão do 70mm no antigo cinema Tupy. Foi um impacto. Lembro-me que Glauber Rocha escreveu um longo artigo impressionado com o filme de Leone. Alguém disse, não sei se o próprio Glauber, que a indumentária dos pistoleiros foi influenciada pela de Antonio das Mortes em Deus e o diabo na terra do sol (filme, aliás, que está na frente na pesquisa que faço ao lado sobre filmes brasileiros), O DVD pode ser encontrado, se não estiver esgotado, a preço de banana prata nas Americanas.

 O DVD de Era uma vez no Oeste, de Sergio Leone, lançamento em edição especial, cheia de extras, que estava, há pouco tempo, no saldão de conhecida loja de departamentos, é, simplesmente, uma beleza. O filme, com o passar do tempo - é de 1968, ficou ainda melhor, não perdendo em nada do seu impacto inicial, quando o vi pela primeira vez na gigantesca tela do cinema Tupy em cópia de 70mm. Ainda que a dimensão da tela doméstica não possua o mesmo poder de envolvimento e êxtase - sim, é a palavra correta em se tratando de uma obra-prima como essa, momento, sem exagero, de rara inspiração em toda a história da arte do filme, vejo Era uma vez no Oeste como se fosse uma sinfonia, como se uma música de imagens.

A partitura do maestro Ennio Morricone está tão entrosada no filme que faz parte dele, e, neste caso, poderia dizer que Morricone é uma espécie assim de co-autor da obra da mesma maneira como Michel Legrand o é de Os guarda-chuvas do amor, de Jacques Demy. Morricone, com sua extraordinária musicalidade, exerce, aqui, em Era uma vez no Oeste, não apenas uma complementação da narrativa, mas uma mise-en-musique.

E Leone é um esteta, um mestre absoluto, que sintetiza, neste "western sui generis", toda a sua primeira fase constituída de obras que "rascunham" esta belíssima reflexão sobre a estética westerniana num prisma novo e insinuante, apátrida, singular e original. Quem viu Por uns dólares a mais, Por um punhado de dólares e O bom, o mau e o feio - também conhecido por Três homens em conflito - pode testemunhar que estes filmes são uma "anunciação" de Era uma vez no Oeste.

A sua revisão comprova a magnificência de Sergio Leone que, nos anos 80, com seu canto de cisne, Era uma vez na América, traumatizou toda uma década, realizando uma das maiores obras de toda a história do cinema. Pena que a morte prematura - ia fazer 60 anos - o tenha levado embora.

Morricone compôs quatro temas fundamentais destinados a cada um dos personagens principais: Claudia Cardinale, Jason Robards, Charles Bronson e Henry Fonda - magnífico no papel de vilão, cínico, cruel, frio, super-maquiado, super-estilizado, capaz de matar até criancinhas com irrepreensível sangue frio. Quando os personagens se cruzam, as partituras também entram em rodízio com um resultado impressionante em se tratando da relação música e imagem.

A seqüência inicial, de abertura, é uma obra-prima à parte, que mostra a espera, por três pistoleiros, em uma velha e encardida estação, da chegada do trem. Morricone chegou a compor um tema, mas desistiu e, influenciado por John Cage - para quem todo ruído num concerto é música, fez dos ruídos uma espécie de "sinfonia". Assim, o estalar dos dedos de um dos pistoleiros, a gota d'água que cai modorrenta no chapéu de Woody Strode, a mosca que fica zoando no rosto de Jack Élan, o ranger do moinho, a chegada estrepitosa do trem, etc, formam uma tensão inusitada.

Claudia Cardinale agita a paixão dos homens e, neste filme, encontra-se no auge da beleza. A mulher é aqui objeto do desejo de três homens rudes e sedentos: Henry Fonda, Jason Robards Jr, Charles Bronson. Com a perda do marido, um fazendeiro, em dia de festa, que é assassinato cruelmente pelo bando de Henry Fonda, resta a ela, sozinha, enfrentar uma vida nova, recomeçar de novo.

A tomada que apresenta a sua entrada na cidade e que mostra, em grua, a sair da estação, o movimento da cidade, é imensamente bela e impactante. Dá-se no momento em que Claudia sai do trem e entra na cidade, que, movimentada, encontra-se, somente na aparência, indiferente à sua beleza.

Leone tem um sentido de duração que difere da maioria dos cineastas, aproximando-se mais, na utilização do tempo cinematográfico, dos realizadores japoneses. Gosta de alternar extremos close ups com planos gerais de grande amplitude, provocando, com isso, um contraste nos códigos perceptivos. Mas, para Leone, o rosto humano não é uma face oculta, mas, e principalmente, também uma paisagem. Seus closes demoram na tela, enchendo-a, para perscrutar a alma humana, para adentrar na interioridade dos seres. Tudo é muito estilizado e rigoroso sem perder, contudo, o caráter de introspecção.

Não resta dúvida que o melhor filme dos anos 80 foi um Leone, e, aliás, o seu derradeiro, que lembra a segunda parte do monumental O poderoso chefão (The godfather, 1974), de Francis Ford Coppola. Mas o que assombra em Era uma vez na América, assim como em Era uma vez no Oeste, é a fascinante, envolvente, mise-en-scène leonina.

O argumento de C'era una volta in West/Once upon a time in West foi escrito a seis mãos: as de Bernardo Bertolucci, o consagrado cineasta de O último tango em Paris, as de Dario Argento, diretor cult de terroríficos e crítico afamado, e as de Sergio Donati, que ficou responsável pela decupagem, além, é claro, da participação de Leone em todas as fases do processo de criação cinematográfica.

O DVD é especial mesmo e tem muitos extras, inclusive um documentário precioso com depoimentos de Tonino Delli Colli, o fotógrafo, Alex Cox, Gabrielle Ferzetti, Bertolucci, Claudia Cardinale, Henry Fonda, entre outros.

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5 comentários:

Carla Marinho disse...

Olá Setaro!! Imenso prazer. Post indicado aos leitores do Grupo de Blogs de Cinema Clássico:
http://blogsdecinemaclassico.blogspot.com/2011/10/links-da-semana-de-26-de-setembro-2-de.html

Boa semana!

J. BRUNO disse...

Ótima resenha, este é um dos filmes que estão na minha lista de espera para serem assistidos... vou tentar vê-lo ainda hoje e depois comento de novo aqui!
Parabéns pelo blog!
.
http://sublimeirrealidade.blogspot.com/

Jonga Olivieri disse...

O filme, que também tenho comigo e o qual já reassisiti algumas vezes tem em sua partitura um ponto altísssimo.
Além de ser um 'western' tenso, com tomadas em close, uma ambientação fantástica. Um 'spaghetti' seim, mas com um molho inesquecível.
As indumentárias têm muito a ver com "Antônio das Mortes" sim, mas como dizia Glauber, o personagem era uma inflluência westerniana.
Um filme que a era do DVD nos possibilita ver e rever...

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Um dos meus filmes favoritos, Setaro. Como você, já o vi inúmeras vezes. E sempre me pego meio em transe.

O Falcão Maltês

ArmundoAlves disse...

Os "Era uma vez ... " têm um caráter deletério em relação à percepção cinematográfica do espectador: depois de vê-los, por pelo menos uns cinquenta minutos, a gente fica achando que tudo o mais é porcaria.