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22 setembro 2010

"MacBeth", de Roman Polanski

Realizado poucos anos depois da morte de Sharon Tate, companheira de Polanski que foi assassinada brutalmente pela gang de Charles Mason, MacBeth (1971) é, talvez, a melhor adaptação do clássico de William Shakespeare  ao cinema. Na época de seu lançamento, no entanto, não se deu ao filme o seu devido valor. Creio-o, inclusive, melhor do que a versão de Orson Welles de 1948 e, mesmo, à adaptação do grande Akira Kurosawa cujo filme foi intitulado no Brasil Trono manchado de sangue, com Toshiro Mifune. No elenco, no papel título, Jon Finch, ator do proscênio britânico que seria convidado, ano seguinte, para Frenesi, de Alfred Hitchcock. Muito provavelmente o mestre Hitch o viu em MacBeth. E Francesca Annis como a Lady MacBeth, Martin Shaw, John Stride. Produzido por Hugh Heifner, o dono da Playboy, MacBeth é um triunfo na filmografia do autor de O bebê de Rosemary. Alguns críticos fizeram vista grossa ao filme pelo fato de ter sido produzido por Heifner, o que, a rigor, nada importa na minha opinião. Não sei se existe cópia em DVD no Brasil.


Ainda que O escritor fantasma (The ghost writer, 2010) seja um filme superior, e já incluso entre os melhores do ano, no itinerário filmográfico do cineasta há, de repente, uma falta, por assim dizer, de fôlego, se se for comparar seus últimos filmes com os inventivos do princípio de carreira. Mesmo já a partir de seus curtas feitos na Polônia, nota-se um tom insólito, inquietador, nos seus relatos, a exemplo de Dois homens e um armário e O gordo e o magro. A estréia no longa, ainda na Polônia, surpreendeu pela articulação surpreendente da linguagem cinematográfica: A faca na água (Nóz w wodzie, 1962). O sucesso deste, consagrando Polanski internacionalmente, levou-a à Inglaterra para filmar Repulsa ao sexo (Repulsion, 1965) e, na França, ano seguinte, o atordoante Armadilha do destino (Cul-de-sac, 1966). O bebê de Rosemary (Rosemary's baby, 1968), produção americana, estabelece a introdução da psicologia no filme de terror, inovando o gênero  e elemento deflagrador de um novo tratamento temático ( O exorcista, do grande William Friedkin, não seria uma consequência de Rosemary's baby?). O próprio José Mogica Marins já disse várias vezes em entrevistas que o maior filme de terror que viu em sua vida foi O bebê de Rosemary. Em 1975, faz uma releitura do film noir com uma  classe impressionante em Chinatown. E O inquilino é um filme muito curioso.


Por falar em Polanski, no verão de 1974, soube, pelos jornais, da estadia do cineasta em Salvador. Fui ao hotel onde ele se hospedou, o famoso Hotel da Bahia, e, ao entrar na pérgula da piscina, ele lá estava ao lado de Jack Nicholson. Aproximei-me e troquei algumas palavras, mas Polanski se mostrou irascível. Quem estava mais aberto ao diálogo foi Nicholson, que me disse estar na Bahia para fazer touring e que tinha vindo do Rio para assistir ao desfile das escolas de samba. De cabelo quase raspado, também contou que, quando voltasse aos Estados Unidos, iria começar as filmagens de Chinatown. Mostrou-se interessado em conhecer o relógio de sol de Arembepe (lugarejo que, naquela época, era o supra sumo do hipismo). Polanski, de repente, ficou alegre com a aparição de uma loura, avião ou fillet-mignon, que o fez despertar de sua aparente melancolia e distímia. A distímia de Polanski, com o passar dos anos, melhorou muito. Distímia é uma espécie de doença do mau humor. 

3 comentários:

Jonga Olivieri disse...

O todo da obra de Polanski é respeitável.
E inegavelmente a trama de MacBeth foi de fato muito bem traduzida para o cinema.

Manuelito disse...

Sim, MacBeth, de Polanski, foi lançado em DVD no Brasil. Todavia, é bem raro. Também gosto muito da versão.

Romero Azevêdo disse...

Nunca esqueci o plano geral de abertura: câmera fixa enquanto as estações do ano vão mudando até chegar o inverno introduzido as três bruxas que vão prever o trágico destino do infortunado rei.Lembro ainda de uma observação do crítico Paulo Francis sobre a quebra da verossimilhança na nudez de Lady Macbeth pelos gélidos corredores de um castelo escocês (embora Francis tenha dito que issso não diminuia o filme, era uma "licença poética"). Gosto muito dessa versão, já disponível em DVD(Paramounth) no Brasil (não tenho a cópia)