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20 julho 2010

Um momento particular

Michel Pìccoli e Brigitte Bardot em um momento de O Desprezo (Le mépris, 1963), um dos mais fascinantes filmes de Jean-Luc Godard. Filmado com lente anamórfica (cinemascope), Le mépris é sobre um cineasta que pretende filmar a Odisséia de Homero. Um filme, na verdade, sobre o próprio cinema, com a presença (como ele mesmo) de Fritz Lang. A destacar o uso do cinemascope no estabelecimento das relações espaciais entre os personagens, as coisas, os objetos e a paisagem. A versão original francesa conta com a partitura de Georges Delerue, mas a versão italiana tem-na substituída pela música de Piero Piccioni. Na pele do produtor, Jack Palance, que diz a frase famosa: "Quando ouço falar em cultura, puxo logo o meu talão de cheques" Creio que a imagem fica melhor quando se dá um clique nela.

4 comentários:

Romero Azevêdo disse...

A loura Bardot de peruca negra( citação de Welles que "blondeou" a morena Hayworth em Shangai), um nu- exigencia dos produtores - logo no inicio do filme (quebrando toda expectativa "voyerista"), o próprio Godard como "assistente" de Lang no filme-dentro-do-filme, a sequecia de abertura com os créditos falados (supremacia da imagem sobre o texto escrito), Raoul Coutard no longo travelling do inicio virando a camera para flagrar a platéia...tudo isso em 1963 ! Viva Godard !

Museu do Cinema disse...

O filme francês mais italiano da nouvelle vague.

MOLOI LORASAI disse...

peço ajuda humanitária cultural ao SETARO. CADA MACACO NO SEU GALHO.
Assisti ontem novamente (havia visto quando garoto) O ACOSSADO, do Godard.

Por que saí em êxtase lá do SESC DE NOVA FRIBURGO?
Para além do trabalho do JPB e da JS, queria entender racionalmente porque amo tanto este filme, como também aquele outro PIERROT LE FOU.
Seria possível algumas palavras de um entendido de cinema, ó Setaro?

Filipe Dunham disse...

Além de metalinguístico, quando Godard debate o ato da criação artística contra os interesses da indústria - conflito encabeçado pela personagem de Fritz Lang e Jack Palance -, O Desprezo ainda carrega uma grande carga de reflexão acerca da existência humana. A forma que o francês resolveu filmar a sequência em que Michel Pìccoli sobe as escadas, no paraíso de Capri, explica por si só a constatação acima. Em plano geral, vemos o homem em tamanho ínfimo em relação àquela construção. Em outros momentos, o mesmo ocorre, mas contrapondo as personagens à elementos da natureza: os atores são posicionados e enquadrados de forma que as pedras da praia, o horizonte, o mar, se sobressaem, dando ao espectador uma sensação de pequenez do homem.
A ideia é utilizar o modo como a camera filma os atores para conflituar e questionar o padecer do existir (fardo único nosso, os animais racionais da biofesra), diante de coisas grandiosas, maiores do que nossa presença. O êxito cinematográfico disso está no fato de Godard utilizar recursos gramaticais do cinema para propor tais reflexões.
Outro ponto de extrema sensibilidade, mas sem mencionar em maiores detalhes, é a sequência da discussão entre Paul Javal e Camille (Bardot). Nesse momento, é o uso das cores em sua cenografia, em oposição às perucas de Camille, que faz O Desprezo falar como cinema. Vemos um casal em crise matrimonial, em que a mulher está perdida em suas intenções e identidade feminina, destoando de seu ambiente residencial, através de suas escolhas visuais inconstantes. O importante é acompanhar os elementos componentes do quadro, muito mais do que a conversa entre eles.

Filipe Dunham