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17 julho 2010

"O Pântano", de Lucrécia Martel

Lucrécia Martel, diretora argentina, que realizou, entre outros, o excelente O pântano, estará presente ao Seminário Internacional de Cinema que acontece em Salvador na última semana de julho. Ela fará parte de uma mesa redonda.
Filme impressionante, O pântano (La cienaga), de Lucrecia Martel, que vem da Argentina e que me surpreendeu – não tive oportunidade de vê-lo nos cinemas e somente agora, em DVD, pude confirmar os tantos elogios que estava a receber. Martel é uma realizadora insólita, que surpreende, perturbando-nos, a mostrar a vida nos seus gestos mais insignificantes. Não há propriamente uma história para ser contada, mas o que se dá é um registro da existência, de seus momentos melancólicos, contemplativos, perdidos. É como se fosse, o filme, uma espécie de radiografia de um ambiente no qual residem pessoas sem perspectivas, desesperadas, apáticas. O que interessa está nas expressões, nos gestos e na própria monotonia. Martel consegue pegar instantes de vida com sua câmera. Espectadores, contemplamos o vazio das várias criaturas, mas a capacidade da realizadora em auscultar a vacuidade é que faz valer O pântano como algo sem paralelo no cinema contemporâneo. O ranger das cadeiras de ferro, ao redor da piscina, logo no início, e também no fim, é sinalizador de um trabalho de som aplicado à significação. O som (o ranger, ruído que aborrece, que atormenta) é usado, portanto, com genial aplicabilidade dentro do discurso cinematográfico a que se propõe Lucrecia Martel, porque é como se o ranger das cadeiras falasse e, com isso, proporciona quase o que vem a seguir. Ranger de pessoas maltratadas pela vida. Ranger de objetos. Estes, por exemplo, desde uma simples cuba de gelo, deixam de ser os objetos em si para se dimensionar diferentes na estrutura significante dessa obra-prima. Vou pegar um outro filme de Martel, que localizei numa locadora, Menina Santa. Deve ser tão estranho e tão bom como La cienaga.

2 comentários:

Leandro Afonso Guimarães disse...

MENINA SANTA é o único dela que revi, e creio que menos estranho. Embora Martel mostre, também nele, além do tino para filmar a monotonia (mais em O PÂNTANO) e os detalhes dela, um quê musical (e estranho) que parece latente. Enfim, falar sobre os filmes dela é pensar e pensar antes de saber realmente o que dizer. A título de curiosidade, vale lembrar que ela é apadrinhada por Almodóvar - apaixonado por MENINA SANTA.

Por que você faz poema? disse...

A MENINA SANTA e o PÂNTANO são ótimos, vale conferir também, o ainda inédito por aqui, A MULHER SEM CABEÇA.