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09 maio 2010

Salada dominical

1) Nos tempos da minha meninice (anos 50), costumava-se chamar as sessões vespertinas dos cinemas de matinée e as noturnas de soirée. "André vai amanhã à soirée do cine Tamoio com sua prima Guiomar." "Peguei hoje uma matinée superlotada no Pax." A língua francesa tinha uma forte influência e todas escolas do ginásio e do colegial ensinavam-na. As moças bem prendadas sabiam ler e escrever em francês, ainda que poucas o falassem por falta de prática. O inglês também era ensinado, mas poucos os de minha geração que o sabiam. Atualmente, a coisa mudou muito: o inglês é dominante e os jovens sabem o essencial para entender um texto. Na minha época (sim, o termo se aplica), havia o latim obrigatório com aquelas declamações: vocativo, ablativo. Tinha que se saber de cor várias expressões, caso contrário não se passava de ano. Lembro-me de um livro que estudava: Latim no ginásio - o autor, neste momento, escapou de minha memória provecta. Além do aprendizado curricular, entrei na Aliança Francesa e cheguei, modéstia à parte, a ler romances no original: A ilha dos pinguins e A revolta dos anjos, de Anatole France, O vermelho e o negro, de Sthendal, contos de Guy de Maupassant etc. Mas são coisas do arco da velha e que não deveriam estar expostas assim neste blog que puxa mais para o cinema. Creio não estar interessando a ninguém com estas reminescências. Mas já que escrevi, vai assim mesmo neste domingo que não se sabe se vai chover ou fazer sol. De qualquer maneira, há 30 anos que não vou à praia. E já que não vou sair de casa, gostaria que chovesse. É bom se estar em casa a ouvir o barulho da chuva.
2) Se fosse fazer uma lista com os dez melhores filmes (ou vinte, sei lá!) colocaria entre eles Os melhores anos de nossa vida (The best years of our lives, 1946), de William Wyler, cineasta que foi muito criticado pelo pessoal da nouvelle vague, mas que o tenho em alta conta. Wyler também não gostava dos filmes da nouvelle vague e chegou a fazer um broche para colocar em seu paletó com a inscrição: ancien vague. Claro que gosto muito dos filmes da nouvelle vague. Para que fique bem claro: estou me referindo a Wyler. Em Os melhores anos de nossa vida, três soldados retornam da Segunda Grande Guerra: um capitão (Frederic March) torna-se diretor de banco; um piloto de caça (Dana Andrews), barman, que, depois de uma briga, fica desempregado e se apaixona pela filha (Teresa Wright) do colega capitão; O terceiro volta do conflito totalmente mutilado sem os braços. Há um momento muito comovente, e dirigido com a costumeira maestria por Wyler, quando ele vai se encontrar com a antiga namorada que não sabe estar ele mutilado e, quando vai abraça-lo, os cotocos de seus braços se movimentam. Dito assim não se pode fazer nem idéia da carga emotiva desse momento.

3) Os melhores anos de nossas vidas é um retrato sincero da reconversão americana do pós-guerra. Wyler sabe usar com grande eficiência dramática a profundidade de campo - quanto todos os elementos do quadros ficam nítidos, quer sejam os personagens ou objetos em primeiros planos ou os que se encontram no fundo do quadro. A profundidade de campo tem, aqui, em The best years of our lives, um emprego muito bem elaborado, que contribui para a continuidade do tempo sem a necessidade do corte. André Bazin, talvez o maior crítico de cinema de todos os tempos, tinha em alta conta o uso da profundidade de campo - que Orson Welles a utiliza muito bem em seu famoso e idolatrado Cidadão Kane. Considerado um "estilista sem estilo", o fato é que William Wyler era um diretor perfeccionista que possuia uma espécie de varinha de condão para contar uma história cinematograficamente falando.

4) O historiador francês Georges Sadoul, em seu Dicionário de Cinema, destaca momentos excepcionais do filme, como a visita do personagem de Dana Andrews a um cemítério de aviões. A fotografia é do mesmo de Cidadão Kane: Gregg Toland. E aí fica uma interrogação: até que ponto Toland influenciou Orson Welles em relação à profundidade de campo? O mesmo pode ser aplicado a William Wyler.

5) No cast de The best years of our lives, nomes que estão esquecidos da nova geração, mas dentro da memória dos antigos cinéfilos: Frederic March, Dana Andrews, Teresa Wright, Mirna Loy, Virginia Mayo, entre outros. Quem encontrar nas locadoras Os melhores anos de nossa vida, faça o seguinte: esqueça o que foi buscar e o alugue com urgência. Urgência para o encantamento e a visão do grande cinema, do cinema daquilo que Truffaut chamava de cinema do grande segrêdo. Sidney Lumet, um diretor de completo domínio formal de seu meio de expressão, disse que Os melhores anos de nossas vidas é o seu filme preferido.

6) Lendo sobre a diva Jeanne Moreau vim a saber que ela foi casada, em 1977, com William Friedkin, o celebrado diretor de Operação França, Jade, Viver e morrer em Los Angeles, O exorcista, entre outros. Moreau tem, agora, 82 aninhos (ó tempo, suspende o teu voo!). Mas, diz a lenda, tinha casos com os diretores com os quais trabalhava: Louis Malle, Truffaut, e mais. Foi casada por um tempo com o cineasta Jean-Louis Richard e, com ele dirigindo, fez O corpo de Diana. Orson Welles não parava de dizer que Jeanne Moreau, para ele, era a maior atriz do mundo. Não sabia também (e, na verdade, não sei de nada) que foi escolhida para interpretar Varínia em Spartacus, mas desistiu de última hora sendo substituída por Jean Simmons. Apesar do fascínio que tenho por La Moreau, acho que sua desistência foi boa para Spartacus, porque Jean Simmons está perfeita e insubstituível no papel.

7) Vi ontem na Tv Cult A senhora e seus maridos (What a Way to Go!, 1964), de J. Lee Thompson, uma comédia bem típica da década de 60, com a adorável Shirley MacLaine. Ela faz uma mulher que, quando se casa, tem o estigma de fazer o sucesso de seu marido para, em seguida, este sofrer um acidente e morrer, ficando ela com toda a fortuna. Mas, na verdade, o que ela realmente deseja é ter uma vida simples, criar galinhas, morar num fazenda, tirar leite de vaca todas as manhãs. Primeiro contrai matrimonio com Dick Van Dyke, depois com Paul Newman (um pintor abstracionista parisiense com usa vários guindastes para pintar seus quadros). Em seguida, Robert Mitchum, um tycoon, milionário, que morre também, até que encontra um fracassado dançarino, Gene Kelly, que termina por conquistar o sucesso e fama, virando celebridade e, por isso, tropeçando na Implacável. No final, resta o seu eterno apaixonado Dean Martin, que termina por se casar com ela para acabar seus dias entre galinhas e vacas. Interessante que, para cada casamento, é imaginado um estilo de representação cinematográfica: com Van Dyke, o cinema mudo, com Newman, o realismo poético francês, com Mitchum, a sophisticated comedy exagerada, com Kelly, o musical. J. Lee Thompson não é um diretor tão incompetente como gostam de dizer dele. Tem, aqui, por exemplo, um bom momento. Claro que o filme seria outro se tivesse sido dirigido por Billy Wilder.
8) Quincas Berro D'Água, que se encontra prestes a ser lançado, seria um filme baiano, como estão a dizer alguns? Apesar do diretor, Sérgio Machado, ser um baiano, o filme, no entanto, não o é. É, na verdade, uma produção carioca, um filme global para ser mais explícito. Mas, com isso, não estou a fazer aqui um juízo de valor sobre a obra, que, inclusive, nem a vi. Wilson Mello, que viveu a vida toda Quincas no teatro, foi substituído por Paulo José, um excelente ator, um patrimônio brasileiro das artes cênicas, mas não tão exato nem com um physique du rôle como o de Mello. Acontece que Paulo José é um ator global e Wilson não o é. Eis a grande diferença. Não se trata, portanto, de talento, mas de audiência. Aproveitou-se, isso sim, em Quincas Berro D'Água o décor baiano. Mas, infelizmente, é a única maneira de tornar o filme rentável, isto é, contando com um esquema de distribuição garantido. Os filmes genuinamente baianos, prontos e acabados, não conseguem ser exibidos. E nem andam a circular em festivais. O que é, por exemplo, de Pau Brasil, de Fernando Bélens, que ainda não conseguiu ser apresentado comercialmente nem na Bahia, sua terra natal? Algumas pessoas que já viram Quincas reagiram bem ao espetáculo. Resta saber, entretanto, se estas pessoas possuem realmente consciência do que é o cinema.

9) Muitos dos leitores deste blog não sabem que possuo um outro: Momentos da arte do filme no qual edito vídeos tirados do You Tube que mostram alguns trechos de filmes sublimes da história do cinema. A sublimidade, no caso, depende do receptor. Alguns, mais aguerridos à contemporaneidade, podem achar que as cenas expostas são de velharias. Na verdade, trata-se de momentos antológicos para o cinéfilo que sou. Antes de me considerar um comentarista ou, mesmo, um crítico, sou, acima de tudo, um cinéfilo, um amante do bom cinema. Não procuro neste os temas nobres, mas a poesia que dele emana através de procedimentos essencialmente cinematográficos. Não comungo com os avatares da sociedade contemporânea. Aprecio os filmes com engenho e arte e, falar a verdade, no cinema atual, ainda que mais de 90% sejam consituídos de lixo cultural, há filmes bons e verdadeiros, a exemplo dos feitos por Clint Eatwood, os fratelli Coen, Paul-Thomas Anderson, Alain Resnais, Sidney Lumet, Michael Mann, William Friedkin, Quentin Tarantino, Pedro Almodóvar, James Gray, Brian De Palma, entre tantos outros. Sim, mas ia esquecendo do link do meu outro blog citado:

7 comentários:

Anônimo disse...

Setaro,

Por gentileza, poderia me dizer onde é possível encontrar os quatro volumes de textos de Walter da Silveira - O Eterno e o Efêmero?

Jonga Olivieri disse...

'Ma grand-mère "Mariet" (1998-1981) parlait un français couramment. Comme notre Guiomar de presse cité par vous'.
O francês era não apenas chique, mas considerada a língua universal. Bem mais simples, o inglês se impôs pela força e o predomínio da cultura estadunidense no século XX. E, não tenha dúvidas: apesar do domínio econômico e militar, o cinema foi essencial nesta mudança.
O ensino do latim, que foi suspenso no Brasil (coisas do Brasil) é lecionado em países não latinos por ter influenciado várias línguas através de seu domínio imperial. No inglês mesmo, mais de 30% de sua linguagem tem influência daquela língua.
Quanto à sua análise dos filmes marcantes, concordo em gênero, número e grau, pois aí o seu conhecimento de causa é imbatível. E me delicio quando você começa a me acrescentar informações essenciais e preencher lacunas, verdadeiro professor que você é, meu caro Setaro.

André Setaro disse...

Editado no apagar das luzes do governo Paulo Souto, os livros de Walter da Silveira não foram distribuídos em livrarias e são difíceis de encontrar.

André Setaro disse...

Sim, caro Jonga, presenciei, uma vez, Dona Marieta a falar com Leleca em francês.

Stela B. de Almeida disse...

No item nove se você acrescentar Jean Renoir, Andrei Tarkovski, Ingmar Bergman, Alain Renais, François Truffaut, Jean-Luc-Godard, acrescentar os realizadores italianos, a lista torna-se quase perfeita.

André Setaro disse...

Mas, Stela, perdoe-me a retificação. No item nove referido, fiz alusão a cineastas que ainda estão vivos. Renoir, Tarkovsky, Bergman, Truffaut, se não me engano, já vestiram suas gloriosas pijamas de madeira. Faltou apenas Godard, que aprecio muito.

Filipe disse...

Concordo com o questionamento referente ao merecimento do título da localidade. Quincas Berro D’Água será mesmo um filme baiano? E há filmes baianos? Dificilmente existem salas que exibam os filmes produzidos ou locados aqui, feitos por diretores daqui, enfim.
O ciclo é vicioso: não há filmes e não há salas de exibição que dediquem sessões a, pelo menos, os filmes feitos aqui, sendo estes baianos de fato ou não. Tal cenário só corrobora a afirmação de que a Bahia não tem uma indústria cimeatográfica, já que não há retorno, não há mercado e não há produções genuinamente bainas, com verbas e mão de obra locais.
A reflexão sobre esse assunto é necessária, tendo que ser exercitada sempre, e deve ser observada por aqueles que dominam o poder público, um dos poucos canais de incentivo á cultura local, ainda que seja ineficiente.

Da referência aos diretores que se destacam nos tempos de hoje, alguns dos citados são uns senhores de idade, que desde tempos de outrora vêm realizando suas obras, como Eastwood, Resnais, Gordad, Lumet. Portanto, o número de realizadores desta geração que são realmente válidos torna-se ainda menor.

Professor, você citou rapidamente a preferência de Sidney Lumet sobre Os melhores anos de nossas vidas. Aproveitando a lembrança deste realizador, permita-me dizer que gosto muito de Lumet e particularmente tenho grande afeição por dois de seus filmes: 12 homens e uma sentença (12 Angry Men, 1957) e Rede de intrigas (Network, 1976). Este foi como um tapa na minha cara.
Um abraço,
Filipe Dunham